• Sonuç bulunamadı

TRAKYA ÜNİVERSİTESİ MEMNUNİYET ANKETİ SONUÇ GRAFİKLERİ

Para entender quem é o michê, quaisquer que sejam as peculiaridades desse tipo de prostituição, há que ter em conta dois personagens: o jovem que vende seus serviços sexuais e o usuário destes serviços, o cliente – também chamado de “bofe”, “maricona” ou “cona”. “Fazer michê” é a expressão utilizada por quem se prostitui para se referir ao ato próprio da prostituição. Seja qual for o contrato, michê e cliente interagem e negociam prazeres sexuais.

Aqueles que procuram os michês de rua são, basicamente, do sexo masculino (homoeróticos). No decorrer da pesquisa, não houve referência a nenhum caso de procura dos serviços desses profissionais pelo público feminino32, confirmando que a maioria da clientela é formada por homens e por algumas travestis. “Eu nunca vi uma mulher procurando um garoto de programa”, afirmou um dos entrevistados (David).

Outro tipo de clientes são os homoeróticos que, embora mantenham um relacionamento fixo, buscam outros parceiros para dar vazão as fantasias. Há, ainda, casais heterossexuais que procuram michês para relações sexuais a três, quando, em geral, um dos parceiros fica na condição de voyeur.

Nas ruas, os michês aceitam todo tipo de cliente: “gordo, magro, feio, bonito, sujo, limpo, grosseiro ou carinhoso”, como disse um dos entrevistados. Os garotos se expõem aos mais diversificados riscos, não só por não conhecerem os parceiros, mas pela própria natureza do negócio. Após o programa, michê e cliente continuam tão desconhecidos quanto antes. Não tem como ser diferente, porque o encontro se dá com a rapidez que o comprador exige.

Entretanto, o tempo de atividade e de exposição nos pontos leva os prostitutos a formar uma espécie de perfil daqueles que procuram seus serviços. Estes exercem as mais variadas profissões, bem ou mal remuneradas: os sujeitos desta pesquisa mencionaram que, em sua clientela, há caminhoneiros, operários,

32 Segundo a literatura (MACHADO; SILVA, 2002; RIGOLLETO, 2001), as mulheres que procuram o serviço de michês quase sempre têm mais de 40 anos, buscam companhia ou apenas desejam realizar alguma fantasia sexual. Por vezes, tratam-se de turistas do sexo feminino. Ver, a respeito, Cantalice (2011).

pedreiros, cabeleireiros, taxistas, camelôs, advogados, jornalistas, funcionários públicos, estudantes e professores, dentre outros.

Na visão dos garotos, são os homens de meia idade que tendem a procurar os jovens profissionais do sexo, por acreditarem que estes podem oferecer mais prazer, devido à sua virilidade e juventude:

O perfil dessa clientela, aqui em Fortaleza, é mais [de] homens [...] de uma faixa etária de mais de 40 a 50 anos. Eu acho que essas pessoas são um pouco sós ou, depois de certo tempo na vida, ficaram sós, se separaram de suas mulheres, mas, muitos ainda são casados [...] têm seus filhos, mas saem com esses rapazes. [...] O perfil é exatamente esse, há pessoas com mais de 50 anos, que já não conseguem mais encontrar um jovem que se apaixone por elas. (David).

Com homens mais velhos, os michês alegam se sentir mais seguros e um pouco mais à vontade, pois, geralmente, são respeitosos, discretos e generosos no pagamento:

Preferimos os mais velhos porque pagam melhor, são casados, são mais carentes, mais discretos, respeitam a gente, não falam o que fazem porque tem medo que a gente comente sobre eles, porque querem se manter no anonimato. (Rafael).

Os clientes mais jovens tendem a ser indiscretos: “eles saem falando de tudo o que é feito, o que rola na cabine [do cinema pornô], na rua etc., para os outros”. (Rafael). Os entrevistados afirmam, ainda, que os clientes mais velhos, aparentemente, têm situação financeira estável e oferecem menos riscos de calote, embora haja as exceções. A preocupação com a capacidade de pagamento não é exagerada, pois, muitas vezes, os garotos de programa são enganados por seus clientes e se tornam vítimas de calote e humilhação:

[...] existe aquele [cliente] que se faz de bobo, que chega, nem pergunta quanto é e vai pro local ou apartamento com você num motel, e depois de tudo inventa que não tem dinheiro pra pagar o que você pediu. Existe todos os tipos, existe aqueles que realmente estão pagando e querem ver o trabalho. [...] Eu já deixei cliente que a gente chama de “pé de checheiro”, é o cliente que diz que vai fazer isso com você, lhe tratar como um príncipe, e quando chega lá na hora H, ele é zero [...]. Então, o cara só paga o motel, [e eu peço:] “me dá, pelo menos, dez reais pra mim pegar uma moto táxi, um transporte, eu perdi o meu tempo com você”. E dou uma bronca: “Oh! cara por que você fez isso?” (Rafael)

Há relatos de situação inversa, ou seja, o cliente é roubado e, para não ter o seu nome exposto, não denuncia o michê:

Muitos clientes eram roubados nessa casa [onde o michê trabalhava] e pelo fato de eles serem todos casados, eles não queriam expor a sua imagem para a sociedade e em respeito às suas esposas eles não denunciavam. Isso é uma das coisas que aconteceu muito e por isso, hoje, o mercado de trabalho da atividade já não é tão bom, pois quando eu comecei se ganhava muito bem e por conta dessas, hoje, os clientes têm medo de sair com os garotos por falta de segurança; e, por causa de uns, todos levam a fama. Existem essas coisas, muita coisa desse tipo mesmo. (Marley).

Os michês também identificam nos clientes perfis psicológicos diversos: uns são assustados, outros são “atirados”, “soltos”. Há os mais reprimidos e aqueles que se mostram: riem, choram, contam suas vidas: “são eles [os clientes] que escolhem a gente para ser um psicólogo pra eles [...], eles pagam pra gente manter essa cena” (Felipe). Um outro depoimento reafirma esse tipo de relação:

A maioria deles [dos clientes] é de homens casados. Eles falam pra gente que têm problemas com as mulheres em casa. Têm até clientes que não pagam pra gente fazer sexo, pagam só pra gente conversar, ficam falando da história deles, a história da família, como é em sua casa, como não é, assim eu vou ganhando. (Gabriel)

O papel do cliente é importante, por vezes, na própria iniciação sexual dos garotos, pois alguns têm com ele sua primeira experiência homoerótica. Os entrevistados revelam que a inexperiência gera estranhamento, incômodo e constrangimento, sobretudo para os mais jovens:

É muito difícil, porque a gente nem sabe direito o que vai fazer (Rafael). É meio complicado porque a gente se envergonha, olha para a cara da maricona e se pergunta: será se eu tenho coragem mesmo de enfrentar a fera? E como é mesmo que vai ser o babado? Mas a precisão te obriga. (Pablo).

De um modo geral, os primeiros programas são particularmente difíceis:

Eu achei esquisito porque eu nunca tinha feito nada parecido, eu tive certo nojo, mas precisava da grana. Para mim não foi uma coisa por prazer, por desejo, foi mesmo por necessidade e me doeu na alma, parecia que a minha vergonha acabava ali. (Felipe).

Entretanto, o desconforto tende a diminuir, como relata o mesmo entrevistado: “conversei com os outros colegas que já superaram essa fase e dizem que são felizes e me disseram: ‘é assim pra todo mundo, mas com o tempo e os clientes a gente aprende, se acostuma e passa’”. Pouco a pouco, os garotos vão adquirindo traquejo, se moldando à atividade, tornando-se habilidosos na arte de

seduzir, peritos no jogo erótico o suficiente para atrair clientes, realizar programas e obter vantagens.