1. KADINLAR NE YAŞIYORLAR?
1.1 Toplumsal Normlar ve Kadınlık Rolleri
O contexto que pode ser visto como base na sociedade para descrever a transição do sistema feudal para o capitalismo se dá, de acordo com o autor Singer, a partir da reflexão sobre o papel exercido pela chamada burguesia comercial. Esse segmento era formado pelas classes de comerciantes e banqueiros e começava a ganhar espaço no período que irá se constituir como o fim da Idade Média. Essas classes se uniam em vista de sua expansão frente às demais, como a dos mestres de ofício – os quais detinham o conhecimento das técnicas de produção de artefatos que eram produzidos e comercializados naquele período. O fortalecimento da burguesia se dava no sentido de constituir e firmar a divisão do trabalho como aspecto essencial das relações sociais; com isso, verificava-se uma transformação das relações de produção, dentro da própria cidade. Essas relações deixariam de se dar com a apropriação do produtor sobre todos os recursos necessários para a produção (como acontecia com o produtor artesanal, por exemplo, o qual detinha a técnica e os recursos para sua produção e, por isso, agia de modo independente), passando agora à separação, de início, parcialmente, do produtor
de suas condições objetivas de exercer as atividades. De acordo com essa lógica, os meios de produção deveriam ser adquiridos essencialmente pela burguesia, a qual teria o controle sobre todo o processo de produção, enquanto os outros segmentos da sociedade participariam desse processo, realizando a própria produção.
Assim, a burguesia comercial, de acordo com o autor, começa a se desenvolver a partir do excedente da produção artesanal. Porém, há um conflito de interesses, pois os manufatureiros tendiam a monopolizar o ensinamento de suas técnicas de produção, e isso gerava um entrave para a expansão dos capitais que os burgueses esperavam. Entretanto, com a liberalização da mão de obra do campo, através da comercialização dos produtos nesse setor, aumentava o número de pessoas disponíveis para as manufaturas; essas vão se especializar na fabricação de produtos em larga escala. Não era necessário qualificação nem dispor de instrumentos para trabalho, pois esses eram fornecidos pelos investidores ou “fabricantes”. Tem-se aí o pontapé para a especialização do que seria conhecida mais tarde como a indústria.
Reconhece-se, a partir desse contexto, a formação daquilo que é concebido como luta de classes, no que diz respeito à redefinição dos papéis de seus integrantes e suas relações dentro da dinâmica da cidade. Essa redefinição se dá, segundo Singer, a partir da utilização da produção como algo instituído de valor de troca: aqueles que atuavam como produtores do campo são trazidos para a cidade e dão novo vigor à produção nesse local; porém, não são proprietários de suas condições de produção e vendem sua força de trabalho para aqueles que são dominantes dos meios produtivos. Dessa forma é que aqueles que possuem os meios de produção são capazes de transformar o produto das atividades em riqueza, pois comercializam a mão de obra com pagamentos mínimos pelas suas atividades, exigem a produção constante de produtos e, consequentemente, começam a ter ganhos em larga escala.
Dessa maneira, a expansão da manufatura e da divisão do trabalho trouxe as condições necessárias para que o investimento do novo modo de produção ocorresse no instrumento de produção e não na matéria-prima. O emprego de uma grande quantidade de pessoas como assalariados para acelerar o processo produtivo caracterizavam o novo “produtor” (SINGER, 1990, p.24): aquele que recebia do investidor os instrumentos para a produção, mas que não os tinha como sua propriedade. Esse “produtor” é agora submetido ao “fabricante” e este tem como meta “[...] a valorização do seu capital, tanto em sua forma fixa como circulante” (idem, p.24), que busca o lucro em suas produções,
a partir do uso capital vivo (força de trabalho – produtor) e do capital constante (máquinas). Assim, afirma-se que “[...] o resultado desse processo – a moderna unidade de produção, a fábrica – é necessariamente um fenômeno urbano” (idem, p.24), já que esse se dá também com a aglomeração da população nas cidades e aumenta essa aglomeração com a constante saída das pessoas das atividades de extração direta que se dão no campo.
Até mesmo o campo sofreu os impactos da industrialização, pois passou a ser um local de atividades especializadas, perdendo sua força no que diz respeito à autonomia para subsistência. O camponês passou a ser também um consumidor dos produtos industriais, enquanto os donos das indústrias ganhavam novas demandas de seus produtos. O autor Singer ainda afirma que “[...] a cidade ficou sendo o lugar no qual se concentra não apenas o excedente alimentar produzido no campo, mas toda produção agrícola a qual é comercializada, transformada industrialmente e, em parte, redistribuída ao campo a partir da cidade”. (SINGER, 1990, p.27). Isto é, do aspecto complementar, o qual se encontrava nas suas primeiras formações, a cidade passou a ser o ponto essencial de toda a reprodução social. A reprodução agrícola, nesse sentido, não ficou relegada à extinção, mas foi reorientada em sua função, com o uso de recursos que aumentavam cada vez mais sua produção (apesar de essa reorientação ter causado também o desemprego da massa ainda existente nesses locais). A cidade também se transforma no local de produção de produtos, mas não a partir da extração, como no campo, e sim da transformação de bens primários, vindos deste. A criação ou transformação de bens primários em objetos, seja para uso ou para troca, é fundamental para a constituição da economia que faz parte da dinâmica das cidades.
Em relação ao aspecto político nesse novo modo de produção, afirma-se que
Em contraste com a cidade comercial, que impunha ao campo o seu domínio político, para explorá-lo mediante uma intricada rede de monopólios, a cidade industrial se impõe graças a sua superioridade produtiva. A burguesia industrial toma o poder na cidade em nome do liberalismo e varre para fora do cenário a competição das formas arcaicas de exploração. O capital comercial perde seus privilégios monopolísticos e acaba se subordinando ao capital industrial, reduzido ao papel de mero intermediário. (SINGER, 1990, p.25)
Tal processo agiu em conjunto com as revoluções que culminaram com a derrubada do Antigo Regime político, constituído pelo Absolutismo (o poder
centralizado na figura do Rei), e a supremacia do parlamento à monarquia. Esse novo sistema político favorecia o ideal liberal, o qual preconizava a expansão das ações que fortaleciam o mercado capitalista industrial. Dessa maneira, a cidade tem papel fundamental no que diz respeito a ser vista como um espaço apropriado para a expansão do capitalismo moderno, abarcando também todas as consequências desse modo de produção nas relações econômicas, políticas e sociais. Os avanços e crises da dinâmica da cidade podem ser analisados como produtos dos ciclos de expansão e crise do capitalismo. O processo de acumulação de capital, portanto, é que será o eixo de estruturação das cidades.
A sociedade também se reorganizava mediante as transformações ocorridas com a chamada Revolução Industrial – fenômeno que caracterizou a indústria como símbolo da consolidação das relações baseadas no capitalismo de cunho industrial, a partir do século XVIII. O próprio espaço da cidade também se adaptava a essa nova dinâmica, já que a concentração da população em larga escala nas cidades acelerava o fenômeno da
urbanização, atraía a instalação da indústria, e esta concentrava um maior número de
pessoas nos centros urbanos. A organização social nas cidades, portanto, tem como reflexo a organização espacial.
Ao detalhar o movimento das cidades, destaca-se que “[...] é a troca monetária que finalmente torna possível a ampliação da divisão social do trabalho” (SINGER, 1990, p.15). Com a cidade caracterizada como sendo um espaço originário da “sociedade de classes” (SINGER, 1990, p.13), percebe-se também que a concentração dessas classes se dava de forma específica nos diversos pontos da cidade. Um dos aspectos evidentes na expansão do modo capitalista, presente na estruturação das cidades, era a apropriação do solo urbano pelo capital (CURY, 2003, p.8). Tal fato foi o que deu sentido à distribuição do espaço e sua utilização e que, inclusive, associou o fenômeno da urbanização à industrialização, na medida em que a indústria ampliava o uso de espaços urbanos e, ao mesmo tempo, a organização acenava a presença de um número maior de indústrias. Em relação à organização da população no espaço urbano, essa se dava de acordo com o poder econômico, com a capacidade de pagar pela moradia em espaços melhor situados e estruturados na cidade; para a população pobre, porém, as opções eram as periferias, que além de serem distantes da área central da cidade, tinham pouca disponibilidade de recursos básicos (infraestrutura de água, saneamento e energia elétrica, por exemplo) e até mesmo de qualidade para locomoção
dessa população (sistema de transporte). A centralização do capital, de acordo com Karl Marx (MARX, 1996, p.286), trazia tal realidade, em que o progresso da riqueza, provinda da circulação do capital, promovia uma modernização dos centros urbanos, com a criação de bancos, lojas, demolição de prédios antigos e alargamento de ruas para a passagem dos meios de transporte luxuosos. Os pobres, por sua vez, eram desalojados e expulsos para locais piores e concentrados com a população miserável que aumentava cada vez mais, devido à expansão do fluxo de capital e da especulação imobiliária. Somava-se a essa situação o agravamento de doenças que se espalhavam nos aglomerados pobres e que eram temidas até pela burguesia – e, em relação a isso, a criação de leis e o controle sanitário passaram a ser correntes no processo de expansão das cidades.
Verifica-se que tais condições de moradia se complementavam pelas precárias condições de trabalho impostas à chamada classe operária, as quais ultrapassavam os limites humanos, com jornadas exaustivas de até 16 horas; o trabalho envolvia, inclusive, a participação de mulheres e crianças, em vista da produção em larga escala. Ao mesmo tempo, a população se via obrigada a aceitar tal situação de exploração, visto que o trabalho assalariado tornou-se condição de sobrevivência nas cidades, no modo de produção capitalista. Dessa maneira, o espaço urbano tornava-se também o espaço de conflito entre classes, as quais objetivavam, no caso dos trabalhadores, a concessão de benefícios mínimos para sobrevivência ou obtenção de privilégios para aumentar seus lucros, no caso dos proprietários dos meios de produção. As ações governamentais, nesse sentido, davam-se em caráter de intermediação desses conflitos, muito embora agissem conforme os interesses da burguesia, subsidiando-a economicamente.
Já entre os séculos XIX-XX, o aprimoramento de técnicas a partir de descobertas nas áreas química, elétrica, metalúrgica, farmacêutica e de transportes acelerou o processo de expansão da economia capitalista, tornando-se, em escala mundial, a “lei” que passava a reger todos os aspectos do funcionamento das relações sociais de produção, políticas, entre outras. Era importante a descoberta não só de novas técnicas que ampliassem a produção, mas também a introdução de novas estratégias que poderiam expandir o mercado de consumo e que garantissem o fato de nem mesmo os movimentos que buscavam se contrapor a tal expansão – por ela não contemplar a todas as pessoas – intervirem nesse modo de produção e de relação social. Tudo isso influenciava diretamente na “fisionomia” da cidade, que se modificava, adquirindo
novos contornos em suas demarcações (como a expansão das ruas, ampliação do número e formato dos prédios e construção de locais públicos – as praças – e do redesenho das grandes residências). A chegada da energia elétrica para uso doméstico, já no final do século XIX, deu novo brilho e vivacidade aos contornos da cidade que, cada vez mais, tornava-se um local atrativo, por conter nela tudo aquilo que significava o progresso da humanidade. Fazer parte desse progresso, ter condições de acessar tais benefícios era a forma de se fazer parte da cidade.