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1. KADINLAR NE YAŞIYORLAR?

1.4 Psikolojik Şiddet

Neste ponto, pretende-se abordar o espaço público, visto como parte integrante da vida urbana, desde sua formação na história e sentidos na atualidade, para, em seguida, destacar o espaço da rua, em seus significados, usos e apropriações por parte da população. Convém, antes de tudo, para uma melhor compreensão da abordagem, desmembrar o termo e estudar aquilo que se entende nas noções de espaço e de público. Para um exame atento sobre aquilo que se define como espaço, é necessário, antes de tudo, considerar a importância de se compreender esse complexo, pois “[...] o espaço é uma produção social. É categoria representável. É categoria de análise científica” (RODRIGUES, 1998, p.75). É uma categoria a ser vista basicamente sob dois aspectos: do ponto de vista do ambiente, em que se define pela “articulação da sociedade com a natureza em todas as esferas e escalas” (idem, p.75); e do ponto de vista da atual divisão territorial do trabalho, visto em escala local, regional e internacional, pois “[...] a organização local da sociedade e do espaço reproduz a

ordem internacional” (SANTOS apud RODRIGUES, 1998, p.75 – grifos da autora). A

discussão acerca daquilo que é tido como espaço é comum na Geografia, uma vez que essa é uma de suas principais categorias de análise; mas também filósofos buscavam apreender, desde a Antiguidade, tal conceito, como forma de relacioná-lo à compreensão das ações dos indivíduos. A sociologia também faz referência à noção de

espaço, na busca de captar a relação existente entre ele e as transformações sociais

correntes.

Partindo da noção preliminar de espaço, apropriada pela Matemática, como distância entre dois pontos ou a área ou o volume entre limites determinados, pode-se determinar, inicialmente, que o espaço é percebido a partir dos limites que lhes são colocados. Essa noção é também utilizada por ramos da Geografia física, como forma de delimitar seu objeto de estudo. Porém, ao considerar a presença do homem para a definição do espaço, este deixa de ter uma definição estática para tomar uma noção dinâmica: passa ser definido como “[...] aquilo que é dado a partir dos objetos no mundo” (KANT apud CUNHA, 2008, p.183); ou ainda, que a noção do “ser-no- mundo” está ligada à temporalidade e esta à espacialidade (HEIDEGGER apud

CUNHA, 2008, p.183). Tais reflexões trazem a ideia de que o homem em movimento é quem contribui para a concepção do espaço. É possível afirmar, inicialmente, que é chamado de espaço o local onde o homem está presente e só é assim percebido a partir dessa presença. Mas também, é preciso considerar a existência de demais objetos com os quais o homem deverá se relacionar, que irão complementar essa noção. Por isso, também é que “[...] o espaço é resultado da ação dos homens sobre o próprio espaço, intermediados pelos objetos naturais e artificiais” (SANTOS, 1988, p.25), sendo os objetos naturais a própria natureza já presente, independente da ação humana, e os objetos artificiais existentes a partir da ação primeira do homem que transforma a natureza. Tal definição amplia o conceito de espaço a partir da ação do homem sobre aquilo que se encontra existente (objetos naturais e artificiais).

Ainda acerca da noção de espaço, considera-se que há uma transformação social dele quando há o relacionamento de vários indivíduos com aquilo que está disposto para tal – daí a inferência a espaço social. E ainda, verifica-se uma constituição das relações sociais que são vivenciadas nesse local transformado. Para complementar essa reflexão, afirma-se ainda que:

Como qualquer realidade social, o espaço não é uma entidade apenas objetiva; sua objetividade é lida (inter) subjetivamente, sua materialidade é dotada de significações específicas para cada indivíduo (subjetividade) mas que são, também, em certa medida, compartilhadas por vários indivíduos (intersubjetividade). Palco material e objetivo das relações sociais, o espaço, contexto da experiência de sujeitos cognoscentes organizados em sociedade, é, em certa medida, “construído” intersubjetivamente (...) (SOUZA, 2007, p.22-23).

Por essa razão é que as discussões atuais partem também da noção de espaço como “[...] um conjunto de formas contendo cada qual frações da sociedade em movimento. As formas, pois, têm um papel na realização social” (SANTOS, 1988, p.10). E ainda: “[...] o espaço inclui, pois, essa ‘conexão materialística de um homem com o outro’[...]" (SANTOS, 2006, p.218). Dessa maneira, o espaço se define como o local da relação entre os homens, nessa natureza transformada e para a transformação dela.

A bibliografia corrente sobre o tema traz a distinção entre espaço social e espaço geográfico, sendo o primeiro considerado como produto das relações sociais e que,

juntamente na relação com a natureza formaria o segundo. Assim, “[...] o espaço social é uma dimensão do espaço geográfico e contém a qualidade da completividade. Por causa dessa qualidade, o espaço social complementa o espaço geográfico” (FERNANDES, 2006, p.4). Dessa forma, é possível atribuir a maneira pela qual são concebidas as relações sociais à classificação do espaço como sendo unitário ou fragmentado, harmonioso ou cercado de conflitos. Essas relações vão, assim, caracterizar o espaço em que elas ocorrem.

Concebe-se, por isso, que o espaço expressa até a própria subjetividade do homem. Ele passa a tomar o espaço como sendo “seu”, dando-lhe uma identidade particular, caracterizando-o. Usa-se agora o nome lugar como forma de denominar tal movimento. Assim, o lugar “[...] se constitui quando atribuímos sentido aos espaços, ou seja, reconhecemos a sua legitimidade para localizar ações, expectativas, esperanças e possibilidades” (CUNHA, 2008, p.184). Também se afirma que a referência a lugar se dá em um conceito “[...] mais elevado: materialidade dotada de significado, parte da experiência humana” (SOUZA, 1997, p.23). Portanto, falar sobre o lugar de alguém é falar das marcas, daquilo que identifica uma pessoa, uma vez que o lugar passa a ser dotado de valores individuais. Argumenta-se, além disso, que

No lugar – um cotidiano compartido entre as mais diversas pessoas, firmas e instituições – cooperação e conflito são a base da vida em comum. Porque cada qual exerce uma ação própria, a vida social se individualiza; e porque a contiguidade é criadora de comunhão, a política se territorializa, com o confronto entre organização e espontaneidade. O lugar é o quadro de uma referência pragmática ao mundo, do qual lhe vêm solicitações e ordens precisas de ações condicionadas, mas é também o teatro insubstituível das paixões humanas, responsáveis, através da ação comunicativa, pelas mais diversas manifestações da espontaneidade e da criatividade. (SANTOS, 2006, p.218)

O homem, dessa forma, tem a necessidade de firmar essa marca, ter essa identidade, pois “[...] num mundo do movimento, a realidade e a noção de residência [...] do homem não se esvaem (SANTOS, 2006, p.222).Quando, ao contrário, ele não se sente parte de algum local ou não colaborou com sua construção ou formação, sente-se como se não tivesse uma referência e buscará dar uma feição característica sua a algum espaço. O autor Milton Santos também reflete que, em relação a lugar, as noções de

espaço e tempo se relacionam, numa perspectiva de se atribuir significação própria a este.

Nesse sentido, reflete-se que “[...] os lugares são preenchidos por subjetividades [...]. Quando nossa subjetividade atribui sentido aos lugares, eles se tornam parte de nós mesmos. Eles constroem nossa história e neles deixamos parte de nós” (CUNHA, 2008, p.185). Assim, a definição de lugar é associada, basicamente, ao valor significativo. Cabe, no entanto, frisar que tal noção está aqui pontuada a título de esclarecimento do conceito abordado e não se pretende utilizá-la como categoria para o presente estudo, pois, de acordo com o que foi visto sobre a noção de lugar, este exige um desejo de se atribuir um significado a determinado local, e isso não corresponde à linha de abordagem na qual se baseia esta pesquisa.

Há ainda outro conceito, o de território, que difere do sentido de espaço e lugar. O território é assim denominado em referência às relações de poder, ao aspecto político. É o espaço conquistado para ser ocupado, por meio do confronto de forças. Assinala-se que “[...] o território é, assim, um espaço mediado pelas representações construídas por um determinado grupo ao estabelecer seu poder frente a outro, e que se apropria do espaço como forma de sua expressão e projeção” (LOPES apud CUNHA, 2008, p.185). A caracterização do território é, portanto, a apropriação de espaço como maneira de expressar o poder político. Afirma-se ainda que o território tanto pode ser entendido no sentido “concreto”, como no sentido “imaterial” (FERNANDES, 2006, p.6), sendo esse último referente àquilo que faz parte do conhecimento, do pensamento, etc., assim, “[...] os territórios se movimentam e se fixam sobre o espaço geográfico” (idem, p.6).

Nesse sentido, é possível a relação entre as denominações de espaço, lugar e

território, muitas vezes tidas como sinônimos, mas que representam movimentos

distintos quanto à ocupação e relação entre os homens, num dado plano: “[...] o espaço se transforma em lugar quando os sujeitos que nele transitam lhe atribuem significados. O lugar se torna território quando se explicitam os valores e dispositivos de poder de quem atribui os significados” (CUNHA, 2008, p.185). O espaço trata-se de um conceito mais amplo, que inclui as noções de lugar e território. Portanto, compreender essa relação se faz necessário na medida em que se torna claro que o espaço, lugar e território são imbuídos de uma dinâmica que envolve relações sociais, significados e relações de poder e que o valor dado será de acordo com a atuação dos homens nesse local.

Feitas as acepções acerca daquilo que concebe por espaço, cabe neste momento trazer as reflexões sobre o que se considera como público. Na Antiguidade, as tarefas que não tratassem das primeiras necessidades do homem constituíam a “esfera dos negócios humanos” (ARENDT, 2007, p.34). A polis grega começava a vivenciar a dinâmica da separação entre as atividades e o discurso, no qual o trabalho para a subsistência não era visto com o mesmo status que o da participação dos momentos de decisões, em que se utilizava o poder da persuasão. Esses momentos eram, inclusive, uma experiência diferente da do lar, pois enquanto o discurso se dava entre iguais, na casa havia uma hierarquia, onde o chefe exercia o poder dando ordens e imperava também através do uso da violência; mas essas experiências eram complementares, no sentido de que exercer o poder no lar era condição necessária para se participar dos negócios do mundo.

A chamada “esfera da polis” (idem, p.40) formava-se como a esfera da liberdade, no sentido de que não havia domínio do outro e que aqueles que tinham acesso à polis eram vistos como iguais (algo que não era vivido na esfera privada, onde se davam as relações de dominação). Portanto, “[...] ser livre significava ser isento da desigualdade presente no ato de comandar e mover-se numa esfera onde não existiam governo nem governados” (ARENDT, 2007, p.42). A autora, mais adiante, afirma ainda acerca da formulação desses conceitos na Antiguidade, que viver unicamente uma vida privada – a exemplo dos escravos e dos bárbaros – era não ser considerado inteiramente humano, pois na esfera da polis é que ele pode ser quem realmente ele é, isto é, demonstrar que não é um ser restrito apenas à satisfação de suas necessidades vitais, satisfeitas no âmbito do lar.

Afirma-se ainda (ARENDT, 2007, p.55) que o surgimento da sociedade absorveu as esferas do privado e da política (polis), e inclusive modificou o caráter de algumas atividades; o trabalho passa a estar relacionado à esfera pública (o qual estava relegado à esfera privada por se tratar de atividade que visava o sustento). Esse fato deu uma importância ao caráter do trabalho de tal forma que tornou necessária sua expansão e evolução. Dessa forma, “[...] o próprio processo da vida foi, de uma forma ou de outra, canalizado para a esfera pública” (idem, p.55).

A partir desse processo de transformação das relações, a autora enfatiza a ideia do que seria pensado como público, o qual se trata, a princípio, de tudo aquilo com grande divulgação, sendo visto e ouvido por todos, mas não percebe aquilo que se

precisa ver de maneira minuciosa, o qual é “irrelevante”, irrisório, pois o público é amplo demais, capta o geral. Cabe à esfera privada perceber e “se encantar” com o irrelevante, apreendendo os detalhes daquilo que está “quase escondido”. Outro sentido, de acordo com a autora, é de que o público é o próprio mundo, do que deve ser conhecido e vivenciado por todos – mundo entendido numa concepção de negócios realizados, aquilo feito pelo homem. Faz-se também uma crítica à sociedade atual (ARENDT, 2007, p.68), a qual tem a esfera pública e privada prejudicada pelo “fenômeno de massa da solidão” (idem, p.68), que descarta a importância das relações sociais e tira a particularidade característica do ambiente privado.

A autora ainda destaca a reflexão acerca da propriedade privada, a qual, na visão das sociedades antigas, consistia em afirmar que era preciso ter um lugar próprio e privado e a necessidade de ter riqueza privada significava que o homem poderia exercer atividades públicas sem se preocupar com a provisão privada. Já na sociedade moderna, o termo propriedade passou a estar ligado à riqueza, e a falta de propriedade à pobreza; os homens passaram a fazer parte da esfera pública, não porque já estariam em um razoável nível de riquezas, mas “[...] exigiram dela proteção para o acúmulo de mais riqueza” (ARENDT, 2007, p.74). Enfatiza ainda que na atualidade pode-se considerar o desaparecimento da esfera pública, pelo fato de que a preocupação apenas com os interesses privados se tornou premente, mesmo dentro daquilo que seria o âmbito público.

Na atualidade, usa-se a referência ao que seja observado como público, de maneira geral, para os eventos os quais são acessíveis a qualquer um, como os locais ou casas públicas (HABERMAS, 1984, p.14). Já a referência, segundo o autor, ao termo prédio público, por exemplo, amplia a definição do que seja apontado como público, pois este, ao abrigar instituições do Estado, revela também a função deste, de ser “o poder público” (idem, p.14), com o dever de promover o bem público aos cidadãos. Também a referência ao que é público é utilizada para definir aquilo que seja a opinião pública ou menção à própria população de uma maneira geral. Finalmente, aponta-se para a noção de esfera pública, a qual se exemplifica através dos órgãos estatais ou daqueles que servem para a comunicação em público, como as mídias (idem, p.15).

A partir das apreciações feitas sobre os termos propostos, é possível agora referenciar a relação entre eles, através da noção de espaço público. Utiliza-se esse termo quando se deseja designar “áreas de apropriação pública” (LAURENTINO, 2006,

p.307) e que podem se destinar a um grupo determinado (como escolas, hospitais, etc.), ao acesso livre, para o lazer (como parques, ginásios) ou que servem para o movimento e circulação de pessoas e veículos (praças, ruas); possui o caráter de pertencimento ao Estado, com valor de uso (idem, p.307). Em uma concepção ligada às relações sociais, o espaço público é visto como “[...] a estrutura espacial que faz a ligação entre as parcelas privadas, facilitando a ligação entre elas; [...] um possibilitador de encontros impessoais e civilizados, que obedece e respeita a lógica do mercado, visivelmente desigual” (GALVÃO, RODRIGUES e TONELLA, 2009 p.1).

Infere-se também que a noção de espaço público está ligada à recepção de aspectos relacionados ao todo e que “[...] acolhe inúmeras atividades orientadas por interesses convergentes e divergentes, algumas exaltadas, outras camufladas” (NEVES, 1999, p.114). Nesse ponto, a autora enfatiza a questão das relações entre diferentes universos, que investem no espaço público de determinadas formas, caracterizando o uso do referido espaço: seja a ordem jurídica, que estabelece o caráter policial; seja a ordem social, pela contribuição fiscal ou sendo sustentado pela instituição estatal; seja a ordem mercantil, através da apropriação dos espaços públicos para o desenvolvimento do comércio, impondo regras privadas para o uso desses espaços; seja pela ordem da justiça social estatal, a qual realiza práticas de recolhimento e isolamento social daqueles considerados miseráveis, dos espaços públicos (NEVES, 1999, p.115). A autora ainda frisa que essas diversas ordens buscam prevalecer sobre as outras, no intuito de se estabelecerem no espaço público, apropriando-se dele. Por isso se diz que esse também é um espaço de conflitos.