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Toplantıya Katılanların Belirlenmesi

1.3. Toplantının Organizasyonu

1.3.2. Toplantıya Katılanların Belirlenmesi

As sociedades arcaicas, dentre elas as sociedades primitivas ainda existentes, fundamentam todas as funções sociais no elemento parentesco. Este fator é responsável pela sustentação da sociedade, dentre eles o direito, de modo que “[…] nenhuma competência de decisão jurídica surge independentemente do parentesco. Inicialmente, todas as funções sociais encontram sua base natural, sua sustentação social e sua legitimação na proximidade do parentesco.”237 Assim, economia, poder político, poder jurídico e até as funções mágico-religiosas são regidos por um elemento comum, baseado em referências naturais e concretas do modelo do parentesco.

234 NEVES, Marcelo. Entre Têmis e Leviatã: uma relação difícil: O Estado Democrático de Direito a partir e além de Luhmann e Habermas. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2008, p. 19-20.

235 LUHMANN, Niklas. Sociologia do direito I. Rio de Janeiro: Edições Tempo Brasileiro, 1983, p. 183. 236 Ibid., loc. cit.

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Deste modelo adotado pelas sociedades arcaicas decorre a ausência de alternativas, na medida em que estas já se encontram pré-delimitadas de acordo com o grau – próximo ou distante – de parentesco de seus componentes; com isso, as sociedades tornam-se menos complexas, impossibilitando a diferenciação funcional dos sistemas. Portanto, o direito destas sociedades encontra-se ainda em sua forma elementar de constituição, não sendo possível instituir a “vigência” das normas jurídicas como ato suficiente para impô-las, uma vez que “a ‘vigência’ neutra é um símbolo para a imposição do direito neutro em relação aos papéis”238, e esta diferenciação não existe nas sociedades arcaicas. O direito não pode reivindicar sua vigência absoluta, faltando-lhe um caráter obrigatório abstrato, surgindo da reação imediata à frustração das expectativas, ou seja, “[…] em casos de desapontamento das expectativas, mediante a autodefesa da vítima ou de seu clã.”239

Por isso, certo é que a pacificação e a composição amigável por meio da arbitragem não encontram espaço nestas sociedades; a partir do momento em que a imposição do direito se dá mediante a ação de um membro e a reação do ofendido, o direito passa a ser verificado e confirmado apenas no presente, com a reação do frustrado e eclosão imediata da cólera. Este fato potencializa o recurso à força física (por exemplo, a pena de morte), sem que haja qualquer procedimento institucionalizado para sua aplicação; ou seja, “[…] a generalização congruente de expectativas normativas nas dimensões temporal, pessoal e material manifesta-se através da represália e da reciprocidade, não mediante procedimentos.”240

Deveras, nas sociedades arcaicas, a reação às frustrações das expectativas não decorrem da manutenção contrafática de um direito posto; apenas a disposição do atingido e de sua parentela torna possível a percepção de quais expectativas são consideradas normativas – e, portanto, devem prevalecer – e quais expectativas são meramente cognitivas, devendo acomodar-se a frustrações. O uso da força física consiste em uma “reação violenta às frustrações”, ou seja, “em um comportamento punitivo, comumente assassino (ou seja, irrestrito), do próprio ferido ou sua parentela”, fazendo com que “o direito perca o direito”241.

238 LUHMANN, Niklas. Sociologia do direito I. Rio de Janeiro: Edições Tempo Brasileiro, 1983, p. 185. 239 NEVES, Marcelo. Entre Têmis e Leviatã: uma relação difícil: O Estado Democrático de Direito a partir

e além de Luhmann e Habermas. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2008, p. 20. 240 Ibid., p. 21.

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Notório, portanto, que nas sociedades arcaicas o direito é “direito presente”, sem abertura para o futuro e vínculos com o passado. Seu grau reduzido de abstração impossibilita que as soluções fornecidas aos conflitos sejam transferidas para casos diferentes, tornando-se ainda mais dependente do uso da força em cada caso concreto. Portanto, o direito arcaico é caracterizado pela síntese dos elementos: imediatismo dos casos, concretude e pobreza em alternativas. Esta pobreza de alternativas que mantém o direito unicamente como presente é fortalecida, ainda, pela presença do elemento sacral, o qual, ao considerar a ordem existente como representação de uma vontade divina, torna plausível a inexistência de alternativas no presente. A ordem existente passa a ser a única ordem possível, cega à possibilidade de integração de desacertos e inovações. Nesse sentido, esclarece Luhmann:

O centro de gravidade da consciência arcaica reside, portanto, em seu presente constantemente arriscado e pobre em possibilidades, o qual logo se obscurece na penumbra de um horizonte temporal indeterminado do passado e que quase não tem futuro; pois só no presente existem vida e comunicação.242

Em razão deste “direito presente”, o procedimento jurídico existente nas sociedades arcaicas aparece como concretização do direito, sem qualquer intenção de esclarecimento de uma disputa do passado ou como seleção de um futuro almejado. A constituição do direito se encontra, portanto, no paradoxo da temporalidade. As sociedades primitivas não podiam (podem) ver que

Direito e Estado, de qualquer modo que os entendamos, são ordenamentos, ou seja, representações da ordem que sempre se referem ao passado. São sedimentações de comdenados [sic] de sentido ou suas negações. São, portanto, construções e a um só tempo resultado de construções. De todo o modo, desde a época de Savigny há suficiente consenso acerca desse aspecto. Direito e Estado, contudo, são também esquematizações, delineamentos, esboços do futuro. Ou melhor, em suas representações há uma representação do futuro.243

Portanto, o direito das sociedades primitivas está fechado no presente e exatamente por isso é arcaico. Apesar de as ações humanas serem direcionadas com vista a uma dimensão temporal, no mundo arcaico, o direito toma o tempo enquanto dimensão constituidora; falta-lhe “[…] aquele segundo plano de observação, a partir do qual poderia

242 LUHMANN, Niklas. Sociologia do direito I. Rio de Janeiro: Edições Tempo Brasileiro, 1983, p. 187-188.

243 DE GIORGI, Raffaele. Direito, Democracia e Risco: vínculos com o futuro. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris Editor, 1998, p. 66-67.

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ser concluído, no presente, o que o passado foi e que o futuro deverá ser; para tanto, falta o processo que poderia esclarecer o passado e assegurar a persistência no futuro das seleções atualmente executadas.”244

É justamente em razão da ausência de vínculos com o futuro que o direito arcaico não encontra as condições mínimas para o estabelecimento de uma democracia, a qual, além da capacidade de resistência das pressões do ambiente contra a diferenciação sistêmica, requer a disponibilidade constante no tratamento da complexidade e de seu controle seletivo.

Nessas condições estruturais, democracia é a manutenção da complexidade: é estrutura seletiva que reproduz complexidade baseada na permanente ativação de operações de tomada de decisões”, ou seja, “a democracia é a oportunidade de reproduzir sempre novos horizontes de decisão sob as condições de autocontrole fixadas no sistema da política.245

Portanto, a abstração normativa, que dá possibilidades de abertura do direito para o futuro, encontra-se ausente no direito arcaico. Existem apenas princípios jurídicos genéricos aos quais se refere a ideia da justiça nas sociedades arcaicas, quais sejam: o princípio da represália e reciprocidade. O princípio da represália requer que a transgressão do direito vincule-se à vingança, prolongando-se no tempo para além da ofensa; geralmente, a vingança não se vincula apenas ao ofensor, estendendo-se a gerações futuras. “A represália é a generalização elementar do direito, quase que incondicionalmente institucionalizável e que combina as dimensões temporal, objetiva e social; ela representa o primeiro princípio jurídico.”246 Por sua vez, a reciprocidade baseia-se em uma igualdade falaciosa, ou seja, na pressuposição errônea de que “[…] somente aquele que puder ser colocado na situação em que o outro se encontra poderá reconhecer-se e respeitar-se no outro.”247

Apesar de os mecânicos jurídicos das sociedades arcaicas não serem capazes de especializar-se funcionalmente e se autossustentarem, percebem-se como passos que permitem o progresso do processo evolutivo a formalização e ritualização de alguns direitos arcaicos tardios. Vista pelo prisma do direito arcaico, “[…] a função da

244 LUHMANN, Niklas. Sociologia do direito I. Rio de Janeiro: Edições Tempo Brasileiro, 1983, p. 190. 245 DE GIORGI, Raffaele. Direito, Democracia e Risco: vínculos com o futuro. Porto Alegre: Sergio

Antonio Fabris Editor, 1998, p. 57. 246 LUHMANN, op. cit., loc. cit. 247 Ibid., p. 191.

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ritualização reside no desempenho de abstração, na especificação e na neutralização das formas jurídicas frente aos papéis […]”248 Portanto, a criação de procedimentos rudimentares de rituais para a aplicação do direito desenvolve função essencial para a transposição desta etapa evolutiva. Alia-se a este fator a necessidade de desvinculação do direito da parentela, passando a atingir os ofensores independentemente do vínculo de parentesco existente.

A reflexão teórica apresentada por Luhmann pode ser mais bem assimilada por meio da introdução da teorização imagética realizada por cineastas preocupados não apenas com o divertimento de seus expectadores, mas comprometidos com a problematização de questões sociais.

Esta atitude inovadora de uso do cinema como possibilidade de expansão da teoria possui como precursora e defensora incansável da cultura a respeitável orientadora deste trabalho acadêmico, Dra. Mara Regina de Oliveira. Esta doutrinadora demonstra, em sua obra Cinema e Filosofia do Direito, que

[…] o cinema pode ser visto como um poderoso instrumento de compreensão do mundo, desde que abandonemos a trivial idéia de que ele apenas é mero instrumento comercial de entretenimento, ligado à lógica de mercado global, transmissor de sensações passageiras e não de reflexões humanas249.

A função da arte é justamente “mostrar o mundo ao mundo”, desencobri-lo, retirar-lhe o ocultamento – seja para mostrá-lo mais belo ou piorado; utilizando-se de um termo grego, talvez se possa sintetizar o papel da arte pelo vocábulo

alethéia, que significa a busca da verdade pelo conhecimento. Conforme leciona Luhmann,

a arte possui um valor em si só, consistente na capacidade de desvelamento do invisível:

A obra de arte reivindica essa função de aclarar e ocultar o sentido e a eleva a tal grau que até mesmo o invisível se torna visível e, quando o alcança, o mundo se represente no mundo. Precisamente por isso se faz necessário romper com aquilo a que normalmente a vida cotidiana alude (fins e utilidades) para distrair a atenção dessas distrações. A representação do mundo no mundo modifica o mundo mesmo no sentido do “no necesario así”. A obra de arte aporta por si mesma a prova de

248 LUHMANN, Niklas. Sociologia do direito I. Rio de Janeiro: Edições Tempo Brasileiro, 1983.

249 OLIVEIRA, Mara Regina de. Cinema e Filosofia do Direito: um estudo sobre a crise de legitimidade jurídica brasileira. Rio de Janeiro: Corifeu, 2006, p. 10.

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mister, e com isso despoja o mundo de sua necessidade. (nossa tradução)250

A introdução do cinema no presente estudo acadêmico, além de intensificar a importância da teoria levantada, possui o condão de afastar a infundada crítica de que o grau de abstração da teoria dos sistemas a afasta da “realidade do mundo circundante”, impossibilitando sua constatação empírica. Demonstra-se, portanto, que a teoria dos sistemas é, sim, instrumental fecundo para a análise do mundo fático esboçado por meio de conceitos-imagens do cinema que, nas palavras de Júlio Cabrera, ao mesmo tempo em que produzem um impacto emocional, dizem algo a respeito do mundo, do ser humano, da natureza etc.251

Não se olvida, contudo, que o cinema não expressa a própria realidade, mas, sim, certo olhar sobre ela; forma-se, deveras, de recortes oriundos da perspectiva de um observador. “Dizer que o cinema é natural, que ele reproduz a visão natural, que coloca a própria realidade na tela, é quase como dizer que a realidade se expressa sozinha na tela”252; a falácia do cinema enquanto representação fidedigna da realidade serve apenas como instrumento de dominação ideológica, destinado a esconder que por traz de toda a produção cinematográfica existe um observador, cunhado de valores que lhe são próprios. Não se quer aqui encorajar este ocultamento ideológico, mas reconhecer que, apesar de o cinema ser expressão de um ponto de vista de um observador da realidade (um único indivíduo, grupo ou classe de pessoas), este oferece a possibilidade de “simulação de uma vivência”, capaz de “[…] abrir os olhos para uma realidade difícil, seja no plano político, jurídico, moral ou psicológico, que deve ser enfrentada com coragem.”253

Abril Despedaçado254, filme produzido por Walter Sales, possui o condão

250 LUHMANN, Niklas. La Sociedad de la sociedad. Ciudad de México: Helder, 2006, p. 275: “La obra de arte reivindica esa función de aclarar y ocultar del sentido y la eleva a tal grado que aun aquello invisible se vuelve visible y, cuando lo logra, el mundo se representa en el mundo. Precisamente por esto se hace necesario romper con aquello a lo que la vida cotidiana normalmente alude (fines y utilidades) para distraer la atención de esas distracciones. La representación del mundo en el mundo modifica al mundo mismo en el sentido de lo “no necesario así”. La obra de arte aporta por sí misma la prueba de su menester, y con eso despoja al mundo de su necesariedad.”

251 CABRERA, Júlio. O cinema pensa: uma introdução à filosofia através dos filmes. Rio de janeiro: Rocco, 2006, p. 22.

252 BERNARDET, Jean-Claude. O que é cinema. São Paulo: Brasiliense, 2006, p. 19-20.

253 OLIVEIRA, Mara Regina de. Cinema e Filosofia do Direito: um estudo sobre a crise de legitimidade jurídica brasileira. Rio de Janeiro: Corifeu, 2006, p. 14.

254 ABRIL DESPEDAÇADO. Filme. Direção: Walter Salles. Produção: Arthur Cohn. Duração: 99 min. Produzido em coparceria por: Video Filmes, Haut et Court, Bac Films e Dan Valley Film AG. Brasil, 2001. Site oficial: <http://www.abrildespedacado.com.br/pt/entrada_pt.htm>. Acesso em: 07 nov. 2010.

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de demonstrar um dos pontos mais intrigantes da concepção de direito arcaico apresentado por Luhmann, a saber: a existência de sociedades arcaicas – e, portanto, de direito arcaico – dentro da sociedade moderna mundial255. Seguindo o estilo do movimento Cinema Novo – datado de 1945 com o começo do Neorrealismo italiano e inaugurado no Brasil por volta dos anos 60 –, o filme engloba temáticas de preocupações sociais, tais como a batalha sangrenta por um pedaço de solo árido e infrutífero do sertão nordestino travada entre as famílias Breves e Ferreira, e possui em seu enredo atores profissionais e não profissionais256.

A história apresentada neste filme parte de uma feliz adaptação ao cenário brasileiro do livro do escritor albanês Ismail Kadaré, igualmente denominado Abril

Despedaçado, o qual trata da problemática universal sobre a relação entre violência e

poder – mais especificamente sobre “[…] cobrança de sangue entre famílias rivais nas montanhas negras da Albânia, em 1910”257. Por se tratar de uma problemática universal e atemporal, ainda encontrando exemplares na sociedade mundial contemporânea, torna-se correto afirmar que “[…] esta história poderia se passar no início do século passado no sertão brasileiro, mas também em outras épocas e em outras latitudes. O romance de Kadaré trata do confronto secular entre os homens, da angústia frente à morte – e do desejo de ultrapassar este ciclo inelutável.”258

Esta tônica universal permitiu a adaptação frutífera da obra de Ismail Kadaré ao contexto brasileiro, por Walter Salles, sem perder sua dureza e simbologia. Para realizar a tão festejada adaptação, Walter Salles conta que necessitou revisitar a história do sertão nordestino, definido geograficamente por meio da guerra sangrenta entre famílias, muitas vezes conduzida por latifundiários – os donos do poder –, como o caso do Sertão de Inhamuns, localizado no Estado do Ceará, que serviu de cenário para a guerra travada entre as famílias Montes e Feitosa, na primeira metade do século vinte.

255 O debate sobre o conceito de modernidade é ainda caloroso e não encontra um posicionamento pacífico entre os doutrinadores, devendo-se ter cautela ao defini-lo. Porém, neste ponto da pesquisa, tomamos como correto o posicionamento de Orlando Villas Bôas Filho – vastamente empregado nesta investigação – de que o conceito de modernidade albergado pela teoria dos sistemas permite sua aplicação ao contexto brasileiro. Vide VILLAS BÔAS FILHO, Orlando. Teoria dos sistemas e o direito

brasileiro. São Paulo: Saraiva, 2009, p. XXV.

256 ABRIL DESPEDAÇADO. Filme. Direção: Walter Salles. Produção: Arthur Cohn. Duração: 99 min. Produzido em coparceria por: Video Filmes, Haut et Court, Bac Films e Dan Valley Film AG. Brasil, 2001. Site oficial: <http://www.abrildespedacado.com.br/pt/entrada_pt.htm>. Acesso em: 07 nov. 2010. 257 OLIVEIRA, Mara Regina de. Cinema e Filosofia do Direito: um estudo sobre a crise de legitimidade

jurídica brasileira. Rio de Janeiro: Corifeu, 2006, p. 64. 258 ABRIL DESPEDAÇADO, op. cit.

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Além da investigação da realidade brasileira, por instrução do próprio Ismail Kadaré, Walter Salles realizou estudos sobre a tragédia grega de Ésquilo, o que lhe permitiu saber que, até o século 7 D.C, os crimes de sangue cometidos na Grécia – a qual contém o berço da democracia, sua cidade-estado Atenas – não eram julgados pelo Estado, sendo a escolha do modo de punição pelo sangue derramado delegada à família do ofendido, a qual estabelecia seus próprios códigos de justiça. Reconhece, curiosamente, que é também “[…] na ausência do Estado que as lutas pela terra entre famílias também acabaram se desenvolvendo no Brasil”259; a esta conclusão de Walter Salles, podem-se incluir, em um contexto mais atual, os códigos de justiça criados nas periferias urbanas, em que a retração do Estado impulsiona a “justiça pelas próprias mãos”. Com isso, a violência deixa de ser monopólio do poder público e volta a ser usada em sua forma mais rudimentar, como ocorria nas sociedades arcaicas, ou seja, fruto de uma reação vingativa direta do ofendido.

A história de Abril Despedaçado (filme) é narrada por Menino (Ravi Ramos Lacerda) – posteriormente denominado de Pacu –, filho mais novo da família Breves e único integrante deste núcleo que, apesar do caos em que vive, conseguiu preservar sua lucidez e inocência. Este personagem relata as consequências dramáticas geradas para com seu irmão Tonho pela luta sangrenta travada por sua família e a família Ferreira pela posse de terras na região. Tonho, filho do meio da família Breves, é impelido pelo seu pai a vingar a morte do seu irmão mais velho; porém, caso assim faça, estará inevitavelmente marcado para a morte. É esta sensação de morte e abandono que permeará todo o desenvolver do filme.

O cenário escolhido para o desenvolvimento da estória é símbolo do abandono vivido pelas famílias ante a retratação do Estado. Tudo é árido, seco, estéril; tudo são morte, sofrimento e abandono. Os membros da família Breves habitam o sítio denominado Riacho das Almas, em notória decadência, ante a escassez de alimentos e recursos, os quais provêm tão somente da moenda de cana e produção de rapadura, elaborada em uma rudimentar bolandeira puxada por dois bois. A dureza da tarefa realizada pelos animais e a exaustão do percurso cíclico realizado ao redor da bolandeira

259 SALLES, Walter. Notas. ABRIL DESPEDAÇADO. Filme. Direção: Walter Salles. Produção: Arthur Cohn. Duração: 99 min. Produzido em coparceria por: Video Filmes, Haut et Court, Bac Films e Dan Valley Film AG. Brasil, 2001. Site oficial: <http://www.abrildespedacado.com.br/pt/entrada_pt.htm>. Acesso em: 07 nov. 2010.

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simbolizam a estupidez do ciclo de violência travado pelas duas famílias; assim como os bois, seus membros encontram-se presos à ausência de paz que os levam à exaustão e à morte.

Além da miséria, Breves e Ferreira estão abandonados à sua própria sorte. A figura do Estado como único sistema legítimo para decidir sobre o uso da força física não se consolidou naquela comunidade, a qual experimenta um estágio de evolução social e jurídico diferente do Brasil da primeira metade do século XX (mais especificamente 1910260). Durante o final do século XIX e começo do XX, o Brasil encontrava-se inebriado pelas reivindicações liberais de afastamento total do Estado; sob o falso direito de liberdade, o brasileiro moderno e culto alinhava-se ao pensamento liberal norte-americano e suas falsas promessas de progresso. Os efeitos de 13 de maio de 1888 ainda estavam se formando; “[…] o liberto, subitamente poupado ao chicote do feitor, abandona a fazenda, local e símbolo de sujeição, para buscar zonas prósperas, onde maior seria o salário, ou as cidades, abrigando-se em choças, vivendo de ocupações eventuais.”261 Crescem as indústrias, fortalece-se o sistema político (como com a criação do Partido Republicano Conservador, por exemplo262), aumenta a população brasileira para mais de 20 milhões de habitantes263; porém, para os Breves e Ferreira, a realidade não muda, é sempre a mesma triste realidade marginal ao Estado Democrático de Direito. Conforme