Popper afirma que, apesar de vivermos em um mundo físico, há outros mundos, pois, de acordo com o autor, “quando vos falo, dirijo-me não aos vossos corpos, mas às vossas mentes” (POPPER, 1996, p.17). Além da existência do mundo 1 – dos corpos físicos – há também a existência do mundo 2 – o dos estados mentais. Eis, aí, o problema da relação entre corpo e mente.
Para explicar o problema corpo-mente, Descartes propõe uma análise dualista: o corpo (res cogitans) e o espírito (res extensa), conceitos distintos um do outro. O corpo e a mente são considerados como substâncias distintas entre si, mas que se relacionam, para que a mente intervenha no corpo. Isto é o que Descartes e os cartesianos chamam de interação entre corpo e alma.
Popper substitui as definições de corpo e alma concedidas por Descartes para uma interação entre os mundos físicos e estados mentais. Popper acredita que sua proposta seja melhor do que as explicações dualista, razão pela qual ele ter se tornado um pluralista e propagar a existência de um terceiro mundo - o mundo 3. Quanto a tese principal, Popper considera:
Não é possível compreender o mundo 2, isto é, o mundo povoado pelos nossos próprios estados mentais, sem que se entenda que a sua principal função é produzir os objetos do mundo 3 e ser influenciado pelos objetos deste último. Com efeito, o mundo 2 interage não só com o mundo 1, como Descartes pensava, mas também com o mundo 3; e os objetos deste exercem influência sobre o mundo 1 apenas através do mundo 2, que atua como intermediário.(POPPER, 1996, p.19)
Dois problemas são apresentados pela teoria popperiana: o primeiro refere- se à distinção do conhecimento entre subjetivo e objetivo. O segundo problema aborda a questão do corpo e mente. Uma relação sobre esses dois problemas nos é apresentada por Popper, do seguinte modo: “O conhecimento objetivo pertence ao mundo 3. Constitui a parte biológica mais importante do mundo 3 e é a que tem repercussões mais significativas sobre o mundo 1” (POPPER, 1996, p.22).
Para estudiosos, dedicados ao estudo do objeto aqui em foco, prevalece a corrente a favor do monismo, ou seja, negar a existência de estados mentais que não sejam propriedades cerebrais. Existem somente coisas e estados físicos, pois, segundo esses filósofos, considerar a existência do mundo 2, defendida por Popper,só resultará em complicações desnecessárias.
Há filósofos, chamados behavioristas radicais, ou fisicistas, que pensam ter razões a priori, tais como a navalha de ockham, para asseverar que nossa introspecção de estados ou eventos mentais e nossos relatos acerca de estados ou eventos mentais são simplesmente introspecções e relatos a respeito de nós mesmos, como sistemas físicos: são relatos acerca de estados físicos desses sistemas. (POPPER, 1999, p.268)
O filósofo Quine, fisicista2 (outra forma de monismo) – amigo de Popper – defende a posição da redução de nossos relatos (ou teorias) mentais a eventos físicos, isto é, reduz os estados mentais às formas de comportamento. Quine expõe o assunto da seguinte maneira: “Os estados corporais existem de qualquer modo; por que acrescentar os outros?” (POPPER apud QUINE, 1996, p.21).
Popper admite que a negação dos estados mentais simplifique o problema. Mas, quanto à posição adotada por Quine, declara:
Penso que Quine não é coerente quando pergunta: Para quê juntar-lhes os outros? A quem dirige ele a interrogação? Aos nossos corpos? Aos nossos estados físicos? Ao nosso comportamento? Quine argumenta. E os argumentos, sustento eu, pertencem ao mundo 3. Os argumentos podem ser compreendidos ou apreendidos e compreensão ou apreensão são assuntos do mundo 2: os nossos corpos podem aprender uma pedra ou um pau, mas não, apreender ou compreender um raciocínio. (POPPER, 1996, p.21)
2“
Fisicalismo é um termo usado para designar qualquer forma de materialismo. Uma versão forte e ontológica dele, associável a uma fase do neopositivismo, afirma que tudo o que existe ou ocorre pode ser descrito completamente pelo vocabulário da física”. (ABBAGNANO, 2007, p. 539)
Em contraposição à abordagem reducionista de Quine, Popper ainda acrescenta:
Se entidades mentais ou, melhor, estados mentais existissem – e eu próprio não duvido de que existam – então é necessário postular estados mentais para qualquer explicação verdadeira deles; e se eles um dia forem reduzidos a estados físicos, isto será um tremendo sucesso. Mas não haverá sucesso algum, em absoluto, se rejeitarmos sua existência notando simplesmente que podemos explicar todas as coisas sem eles, pelo método simples de nos confinarmos às coisas físicas e a seu comportamento. (POPPER, 1999, p.268)
Na opinião de Popper, Quine foi leviano e incoerente ao argumentar a favor do fisicalismo, atribuindo aos estados mentais status de mero comportamento. Ora, essa simplificação ou redução de Quine não se revela satisfatória para a resolução do problema corpo-mente, já que a solução está em considerar a existência do mundo 3, pois o mundo 2 (estados mentais) funciona como intermediário entre os mundos 1 e 3.
Acerca desse cenário, torna-se necessário ressaltar que as teorias, as hipóteses, os argumentos, as críticas contra ou a favor de teorias publicadas em livros, revistas ou qualquer outra forma de publicação consistem do conhecimento objetivo, que faz parte do mundo 3. Portanto, ao passo que acontece o progresso do conhecimento objetivo, este também refletirá parte do crescimento do mundo 3.
Para a solução do problema da evolução do conhecimento humano, Popper elaborou um esquema quatripartido, pautado no método de ensaio e eliminação de erro. Tal proposta já havia sido apresentada, sucintamente, pelo filósofo no livro
Conhecimento objetivo (1972). Vejamos de que modo se apresenta o esquema
popperiano:
P1 → TE → EE → P2
Ele explica:
Onde, P1, representa o problema de partida – que pode ser prático ou teórico; TE é a teoria experimental proposta e destinada a resolver o problema; EE significa o processo de eliminação de erros por meio de ensaios ou discussões críticas; P2 representa os problemas finais – os que emergem das discussões e dos ensaios.
O esquema global indica que partimos de um problema, quer de natureza prática quer teórica; tentamos resolvê-lo elaborando uma teoria possível na qualidade de solução possível – é o nosso ensaio; em seguida, ensaiamos a teoria, procurando fazê-la abortar – é o método crítico de eliminação de erros; em resultado deste processo, surge um novo problema, P2 (ou, quem sabe, vários novos problemas). Em geral, o progresso alcançado ou o aumento de conhecimentos conseguido calcula-se pela distância que medeia entre P1 e P2, sabendo-se assim se progredimos. Resumindo, o esquema diz-nos que o conhecimento parte de problemas e desemboca em problemas (até onde for possível ir). (POPPER, 1996, p.23)
Karl Popper, ainda, mostrou um esquema quádruplo que pode ser elaborado de diversos modos. Vejamos:
TEa → EEa → P22a
P1 TEb → EEb → P22b DCA
TEn → EEn → P22n
É no Debate Crítico Apreciativo (DCA) que se avalia qual das teorias é a melhor, qual sobreviverá e qual deve ser eliminada. Com esse esquema quádruplo, mostra-se que na evolução do conhecimento apenas as teorias mais aptas sobreviverão. Dessa forma, é possível compreender que o cenário da evolução da teoria humana, logo, o crescimento do conhecimento objetivo se dá através de uma mutação. Nossas teorias são instrumentos, pois nós não desenvolvemos melhores mãos, mas criamos o martelo; não desenvolvemos melhores olhos, mas criamos os
binóculos; não desenvolvemos melhores as pernas para locomovermos com mais rapidez, porém, criamos os automóveis; entre outros instrumentos que criamos para melhorar as nossas habilidades que se assemelham aos órgãos exossomáticos.
Retomando a reflexão sobre o conhecimento objetivo, destacamos as seguintes considerações:
Aprendemos muito nos livros e nas universidades. Porém, o oposto não é verdadeiro: embora o conhecimento objetivo seja um produto do homem, raramente surge do conhecimento subjetivo. Não é habitual formar opiniões com base nas experiências pessoal e depois divulgá-las e serem objetivamente aceites como se fossem uma espécie de “É sabido que”. Em regra, o conhecimento objetivo resulta de teorias rivais apresentadas experimentalmente em relação a um problema objetivo conhecido e aquele só é admitido no domínio objetivo ou no domínio público após longos debates críticos baseados em experiências. (POPPER, 1996, p.26)
Uma teoria do conhecimento subjetivo não explicará uma teoria do conhecimento objetivo e, dificilmente, o conhecimento subjetivo se tornará um conhecimento objetivo. “Um elemento do conhecimento subjetivo (mundo 2) torna-se objetivo (mundo 3) ao ser formulado numa linguagem” (POPPER, 1996, p.26).
O método do esquema quádruplo também pode ser aplicado às disposições biológicas inatas nos humanos e nos animais, contudo, ressaltamos que todas as tendências inatas foram adquiridas pelas espécies por meio da seleção natural. Esta é uma abordagem da teoria do conhecimento em relação à biologia evolucionista, e leva em consideração o resultado da seleção natural.
Neste cenário evolucionista da proposição do conhecimento, Popper refuta a tese do conhecimento empirista defendida pelos filósofos ingleses Locke, Berkeley e Hume. Segundo o autor, esta é uma teoria totalmente equivocada, pois para eles o conhecimento é obtido através dos sentidos, que é alimentado pelos estímulos vindo do mundo exterior.
É uma teoria de conhecimento subjetivo e tem ainda muitos seguidores. Pode ser representada esquematicamente como a teoria da mente como recipiente, bem conhecida na história da filosofia como teoria da tabula rasa ou quadro vazio, no qual a experiência grava as suas descobertas. (POPPER, 1996, p.40)
Ao contrário da teoria tradicional do conhecimento, Popper afirma que a maior parte das nossas tendências em formar o conhecimento é inata ou hereditária, assim como o conhecimento objetivo, mas nunca provém do conhecimento subjetivo.