Neste capítulo, nossa análise se detém em apresentar o racionalismo crítico de Popper e a defender a concepção de que o pluralismo dos mundos de conhecimento está relacionado com a epistemologia popperiana. Intencionamos comprovar que uma tese surge em consequência da outra a fim de que possamos, através desta intersecção, ampliar a compreensão das questões da teoria popperiana sobre os três mundos.
A teoria do conhecimento popperiana é conhecida como racionalismo crítico. Diferente do empirismo, que tem como metodologia o princípio da verificabilidade e da indução para buscar o conhecimento. O racionalismo crítico, diferentemente, caracteriza-se pela discussão do conhecimento científico. Aplica-se um método crítico – o teste dedutivo –, que desempenha o papel de falseamento das teorias empíricas. Destacamos que o progresso do conhecimento científico, para Popper, não ocorre por acumulação, como acreditam os empiristas, mas por tentativas e eliminações de teorias que foram falsificadas.
No racionalismo crítico há necessidade de se estabelecer uma atitude crítica, o confronto com a realidade é fundamental para a racionalidade. “É a única maneira viável de expandir nosso conhecimento – conhecimento conjectural ou hipotético” (POPPER, 2010, p.29).
O racionalismo é uma atitude de disposição a ouvir argumentos críticos e a aprender da experiência. É fundamentalmente uma atitude de admitir que „eu posso estar errado e vós podeis estar certos, e, por um esforço, poderemos aproximar-nos da verdade‟. É uma atitude que não abandona facilmente a esperança de que por meios tais como a argumentação e a observação cuidadosa se possa alcançar alguma espécie de acordo sobre muitos problemas de importância, e que, mesmo onde as exigências e os interesses se chocam, é muitas vezes possível discutir a respeito das diversas exigências e propostas a alcançar – talvez por arbitramento – um entendimento que, em consequência de sua equidade, seja aceitável para a maioria, senão para todos. Em suma, a atitude racionalista, ou, como talvez possa rotulá-la, „a atitude da razoabilidade‟, é muito semelhante à atitude
científica, à crença de que na busca da verdade precisamos de cooperação e de que, com a ajuda da argumentação, poderemos a tempo atingir algo como a objetividade. (POPPER, 1974, p.232)
O racionalismo estabelece, como fundamento, que a razão humana é detentora de recursos em si mesmo. Estes possibilitam a compreensão da realidade do mundo, sem a dúvida de que a razão é a principal fonte do conhecimento.
A fim de evitar incompreensões e equívocos a quem pensa que o entendimento da razão, para os racionalistas, possa ir tão longe, ao ponto de dizer, que a razão poderá nos informar sobre tudo que queremos saber, tomamos, como guia de esclarecimento, algumas das considerações de Huenemann (2008),
A razão, de acordo com os racionalistas, diz-nos somente sobre alguns aspectos profundos da realidade. Considere, por exemplo, as seguintes afirmações:
* Uma coisa não pode existir e deixar de existir ao mesmo tempo; * Duas coisas iguais a uma terceira são iguais entre si;
* Cada coisa é idêntica a si”. (HUENEMANN, 2008, p.14)
Para tais afirmações lógicas não se trata de prová-las, através da experiência, pois, de acordo com os racionalistas, há algumas assertivas que não dependem da experiência, já que se confirmam por si só, ou seja, na própria razão. Popper é um realista que aceita o senso comum como ponto de partida, para ele “nosso grande instrumento para progredir é a crítica” (POPPER, 1999, p.42). O filósofo ao adotar os preceitos do realismo não o faz ingenuamente, pois propaga a atitude sob o olhar da crítica, tornando-se, desse modo, em um notável crítico sobre o comportamento dos positivistas lógicos. Este tem como único conhecimento científico o empirismo, baseado na experiência e no princípio da verificabilidade: toda proposição para ser verdadeira deve passar pela verificação empírica, que tem, como princípio rígido, a crença do hábito na indução. Sobre isto, transcreveremos o
posicionamento positivista de Schlick: “Parece-me ser um núcleo justo e incontestável das correntes „positivistas‟ o princípio de que o sentido de qualquer proposição se encerra absolutamente no fato da sua verificação no „dado‟.” (1975, p.68).
Distinguindo-se do pensamento positivista lógico, Popper declara que “a ciência começa pela solução de problemas relacionados ao mundo aos quais os seres humanos estão inseridos, por isso a importância de compreender como a realidade é composta” (ROMANINI, 2012, p.16). O autor austríaco nega o caráter cumulativo do conhecimento científico, e, afirma que é impossível saber se uma teoria está mais próxima da verdade do que outra. A solução que Popper apresenta origina-se da sua epistemologia – o racionalismo crítico:
Uma teoria científica é válida na medida em que suas proposições podem ser empiricamente falsificáveis através de experimentos, testes, observações etc., o que permite que se autocorrijam e se desenvolvam em direção a um ideal de verdade objetiva, no entanto jamais atingido de modo conclusivo, evitando o seu fechamento em posições dogmáticas. A ciência não deve, portanto, visar à formulação de teses irrefutáveis, já que não há critério de verdade definitiva, mas sim adotar hipóteses falsificáveis. (MARCONDES, 2007, p.267)
Para Popper é mais acertado falsear a teoria do que verificar sua legitimidade e, dessa forma, estabelece que toda teoria tenha um caráter provisório até não passar pelos testes da falsificação empírica. A única forma de conhecer o mundo é através de uma atitude crítica das teorias, conforme bem esclarece Popper:
Elas, em si, são conjecturas. Não sabemos, apenas conjecturamos. Se me perguntassem: Como você sabe? Minha resposta seria: Não sei, só conjecturo. Se vocês estiverem interessados em meu problema, ficarei muito contente se criticarem minha conjectura; se me oferecerem contrapropostas, tentarei criticá-las. (POPPER, 2010, p.30)
Assim, o racionalismo crítico de Popper caracteriza-se pela discussão crítica do conhecimento científico, bem como pela falseabilidade empírica das proposições como critério de demarcação, sendo denominado de método crítico do teste dedutivo.