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Retomando as perspectivas trazidas por esses autores, notamos sobreposições e diferenças que parecem nos indicar que as fronteiras entre as diferentes visões são bastante tênues. A partir das perspectivas apresentadas, elaboramos um quadro, apresentado a seguir, com o objetivo de auxiliar a organização e sistematização desse campo nos Estudos Organizacionais. As distinções apresentadas não têm o papel de estabelecer dicotomias, mas mostrar linhas de análise que se apresentam como um continuum na área. Após o quadro, seguem os comentários acerca dos pontos levantados nas três perspectivas.

Quadro 3 – Diferentes perspectivas nos estudos sobre gênero. Fonte: elaborado pela autora.

Primeiramente, consideramos relevante a distinção acerca do foco dos estudos: mulher, no sentido de dar visibilidade às experiências específicas das mulheres e à própria condição de ser mulher, e gênero como forma de desvendar as relações que se estabelecem entre o masculino e o feminino e as relações de poder que se refletem nas estruturas sociais e organizacionais. Tal distinção é apresentada nos textos de Gherardi (1995) e de Calás e

Smircich (2004; 2006) como uma porta de entrada para os estudos no campo, que indica o pano de fundo com o qual determinado estudo trabalha. Cabe notar que tais focos não têm contornos tão rígidos como discutido na teoria, mas apontam caminhos e trazem, cada um, suas contribuições específicas ao campo.

Notamos, também, que o foco na mulher alinha-se com a perspectiva de gênero como variável trazida por Alvesson e Billing (1997) e com as perspectivas feministas liberal, psicanalítica e radical. O foco no gênero, por sua vez, está mais próximo da abordagem pós- estruturalista e do feminismo pós-estruturalista. Esses alinhamentos, no entanto, indicam um compartilhamento de visões, sem necessariamente estabelecer categorias fechadas e definitivas.

Outro elemento que merecer ser citado se refere ao engajamento político, característica marcante das abordagens feministas. Conforme indica Calás e Smircich (2004), o grau de crítica e a natureza política variam entre as diferentes teorias, envolvendo desde propostas de reforma das organizações até a busca de transformações mais profundas nas organizações e na sociedade. Assim, estudos com foco na mulher, que estão mais próximos do feminismo liberal e do gênero como variável, teriam um engajamento político mais brando.

O formato que adquiriu nosso quadro nos serviu como forma de organizarmos o pensamento acerca do campo; é importante destacar que não buscávamos relações lineares e definitivas entre as perspectivas, mas a compreensão de pontos comuns e particularidades. Especificamente nos chamou atenção a possibilidade de diferentes combinações serem estabelecidas, preenchendo os “espaços vazios” que existem entre as diferentes teorias, à semelhança da visão crítica-interpretativa.

Independente da terminologia adotada por cada autor, identificamos três grandes bases epistemológicas que guiam os estudos sobre gênero: estudos sob a vertente positivista, estudos sobre a vertente feminista e finalmente, estudos alinhados com o pós-modernismo e o pós-estruturalismo. Nessas bases de conhecimento, entrelaçam-se os conceitos de “mulher” e “gênero”, estando o primeiro relacionado a abordagens positivistas, do “gênero como variável”, e o segundo mais próximo de abordagens pós-modernas. A questão do engajamento político aparece nos estudos sobre gênero por conta das teorias feministas, que por definição, pressupõe tal comprometimento. Com essas grandes linhas traçadas, os estudos se posicionam de forma variada, seja nos extremos, seja em combinações de perspectivas. O que notamos, a partir da revisão da bibliografia, é que ainda há grande concentração de estudos sob a visão positivista, ainda que alguns se cruzem com teorias

feministas mais brandas; existe, no entanto, um campo em crescimento adotando visões antes pouco utilizadas, como o pós-modernismo e o pós-estruturalismo.

Quanto à nossa pesquisa, nosso posicionamento é uma combinação de diferentes visões. Acreditamos que as questões das mulheres e do gênero podem ser mais bem compreendidas considerando-se contextos históricos e sociais que, em última instância, construíram as relações que hoje se apresentam. Assim, como definido do Capítulo 2, nossa base epistemológica é o construcionismo social, que tem como unidade de análise o indivíduo que se constrói socialmente a partir de suas práticas discursivas em um contexto histórico e local. Essa base epistemológica tem a linguagem como elemento central da análise e procura desconstruir os discursos e afastar-se das dicotomias do pensamento positivista, rejeitando o dualismo masculino/feminino com base na ideia de que as relações de gênero se constroem e se estabelecem nas relações sociais que estão permeadas pelo discurso. Assim, estamos mais próximos das visões pós-modernas e pós-estruturalistas, ainda que nossa abordagem assuma certo grau de objetividade na realidade, o que nos alinharia com a vertente de um construcionismo fraco, também apresentada no Capítulo 2: os fenômenos são estudados como produtos da interação social e com certo grau de continuidade, com elementos que perduram ao longo do tempo como rotinas, história, práticas discursivas, sistemas de linguagem. Com esse pano fundo, posicionamo-nos dentro da área para estudar a mulher como agente que constrói a sua realidade: a perspectiva do construcionismo oferece o embasamento necessário para colocar a mulher em uma posição de voz ativa, com a qual ela descreve, explica e atribui sentido ao mundo no qual ela vive e também a ela própria (GERGEN, 1985). Desta maneira, temos como foco a mulher, inserida em um contexto social histórico e, assim, podemos dizer que assumimos um posicionamento entre os focos da mulher e do gênero.

Quanto ao nosso engajamento político, não assumimos um cunho ativista. À semelhança de Alvesson e Billing (1997), acreditamos que nossa pesquisa contribui para revelar e lançar luz às questões das mulheres e do gênero, mas não temos como compromisso principal estimular ou promover mudanças sociais; neste sentido, não utilizamos as teorias feministas como nossa visão de mundo.

É a partir desta perspectiva que abordamos nossa pergunta de pesquisa acerca dos sentidos que a mulher atribui ao seu trabalho e a si própria na posição da gerência intermediária. No próximo capítulo trataremos da revisão bibliográfica acerca dos estudos sobre mulher e gênero para contextualizarmos e definirmos nossa problemática.

5 TEMAS ABORDADOS NOS ESTUDOS SOBRE MULHER E GÊNERO

Este capítulo tem por objetivo fazer a revisão da bibliografia nacional e internacional que aborda as mulheres no contexto das organizações. Trazemos, também aqui, a revisão da bibliografia que aborda a gerência intermediária para delinearmos nossa pesquisa.

Este capítulo está, então, estruturado da seguinte maneira: apresentamos a revisão da bibliografia sobre as mulheres nas organizações, destacando alguns temas relevantes para o nosso estudo. Em seguida, tratamos da literatura sobre a gerência intermediária, e fechamos o capítulo indicando o foco de nossa pequisa – mulheres que ocupam posição de gerência intermediária – justificando sua escolha alinhada ao objetivo de nosso trabalho.

Benzer Belgeler