Esta fase foi realizada com três grupos diferentes; educandos das 3a e 4a séries do ciclo I, adolescentes do assentamento e com o grupo de alfabetização de adultos. Para falar dos artistas, utilizei livros e o vídeo; sem computador, a apresentação das imagens de Alexandre Órion foi oral e pouco significativa, por se tratar de uma questão urbana, distante da sua realidade. A professora sugeriu passar as imagens em DVD.
Ao abrir o diálogo sobre o tema meio ambiente, as primeiras questões levantadas foram o desmatamento e o lixo produzido no assentamento. Problemas estes já contornados com soluções práticas como a preservação das nascentes de rios e a instalação de um biodigestor do lixo orgânico produzido no assentamento. O replantio de árvores nas margens do rio próximo ao assentamento foi realizado por toda a comunidade e envolveu as crianças e os adolescentes. Foi uma experiência significativa, pois além de acompanhar o crescimento das árvores, as crianças desenharam as árvores in loco, observando a natureza, e fizeram pinturas junto como casal M e P. Como diria Dewey, “o milagre da mente é que algo semelhante ocorre na experiência sem que haja transporte e sem disposição de ordem física. A emoção é a força que move e consolida” (DEWEY, p. 252).
Ao apresentar o artista Frans Krajcberg, todos ouviam muito atentos sua história e sua trajetória pelos Estados do Brasil, sua arte, os materiais e as técnicas utilizadas. Nas expressões de surpresa e curiosidade, o diálogo, a indignação e a consciência do papel da arte que extrapola a pintura e o desenho e transforma tudo em arte, até madeiras calcinadas, matéria-prima que o artista utiliza para expressar sua revolta contra a destruição das florestas brasileiras. A obra de Krajcberg apresentada aos educandos do campo amplia sua dimensão, é como semear em terreno fértil, uma arte significativa para quem o tema está presente no dia- a-dia, pois o objetivo principal do MST é a agricultura sustentável, com preservação do meio ambiente contra o latifúndio e o agronegócio, que visam somente o lucro imediato em detrimento do meio ambiente e das futuras gerações.
Atentos, os alunos assistiram ao vídeo “O Poeta dos Vestígios”, fazendo pausas, quando necessário, para esclarecer ou acatar opiniões e comentários, e ao final da sessão, os alunos deveriam formar grupos e criar uma obra com os materiais encontrados no entorno da escola, inspirados nas obras de Krajcberg. Livres para criar, sem intervenção de adultos, os grupos saíram à procura de materiais, e apesar de conhecer bem o local, após conhecer a arte de Krajcberg, surgiu um novo olhar sobre cada material, mais atento e cuidadoso; uma pedra, não era mais uma simples pedra, ela tinha agora uma função, iria compor com outros materiais, para a criação de uma obra coletiva; juntos iriam decidir como e onde colocar os materiais recolhidos até formar uma obra única produzida pelo grupo. Envolvidos na pesquisa e no diálogo, acatando e respeitando as idéias de todos, aprenderam a importância da cooperação e o sentido do trabalho em grupo, compreenderam como as idéias se constroem coletivamente a partir do consenso. O senso estético surge espontaneamente, não há certo ou errado, há um imenso prazer e envolvimento na participação de todos, não estão preocupados com notas e conceitos; há o prazer de manipular e combinar materiais, tendo uma referência e um objetivo a atingir: apresentar sua obra concluída.
Após concluir a atividade, cada grupo apresentou aos demais grupos e explicaram, justificando o processo de criação e as relações com a obra do artista. Cada grupo se fixava em diferentes aspectos, encantados com a casa na árvore, ou impressionados com a monumentalidade de suas obras, ou com o gesto de sua expressão. De uma forma ou de outra, todos foram tocados pelo artista e se inspiraram nele para desencadear o processo de criação.
As flores e folhas foram os materiais mais presentes nas atividades, buscando um resultado estético não só inspirado na obra de Krajcberg, como também nas referências culturais acumuladas nas relações familiares e sociais. Um grupo se destacou pela organização e pelo resultado apresentado. Utilizando uma variedade de materiais, eles construíram uma casa com área demarcada por pedras brancas e um arco para demarca o portal de entrada. Alguns elementos podiam ser associados às imagens do filme, como a entrada na casa de Krajcberg, o tronco representando uma escultura, mas esta instalação remete ao concurso de arte-educação do MST: “Como fazer a escola, transformando a história”. Ao construir uma nova escola, mais democrática e participativa com respeito ao protagonismo, tão urgente e necessária não só nas escolas do MST, mas na educação em geral.
O grupo de alfabetização de adultos também assistiu ao vídeo e se indignou com o que viu. Após uma roda de conversa sobre o tema, arte e meio ambiente, apresentação do artista, sua obra e o vídeo, houve uma participação ativa e até os mais tímidos fizeram suas críticas à irracionalidade humana e, em seguida, combinaram de se encontrar no dia seguinte na horta de ervas medicinais para realizar a atividade proposta.
No dia seguinte, as alunas me chamaram na escola para apreciar a produção coletiva na horta. No local encontrei uma cabana de lona preta com uma bandeira e sob a cabana, uma composição com panelas e enxadas. Os elementos reunidos representavam um gesto simbólico de toda a história de luta e resistência até chegar ao ponto onde se encontram hoje. Longe do ideal, mas com uma auto-estima elevada, esta instalação, trás na sua essência um sentimento comum entre o artista e o grupo, vivido e resgatado na memória de cada um e expresso por meio dos elementos simbólicos utilizados.
O terceiro grupo, dos adolescentes, não realizou a instalação, porque neste dia não foi possível acompanhá-los por estar com as turmas de 1ª. e 2ª. série. Sugeri aos adolescentes que observassem as instalações espalhadas pela agrovila e do grupo de alfabetização. O grupo de EJA também não realizou esta atividade.