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Manevi Zekâ

3.3. VERİ TOPLAMA ARAÇLARI

Os indivíduos experimentados que fizeram de si mesmos uma obra de arte são apresentados em A Gaia Ciência, como aqueles capazes de vivenciar a amizade como um sentimento supremo reservado a homens superiores, os quais desenvolveram aquilo que Nietzsche chama de “pathos de distância” (um conceito que, no limite, se contrapõe à aproximação e anulação no próximo exigido pela moral da compaixão). Esse senso requintado da amizade está ligado à paixão e necessidade da solidão149 e à reunião de solitários nessa “espécie de claustro para “espíritos livres” (KSB 5, p. 188). Combina-se assim, o tema da “inatualidade” dos filósofos-filólogos (marcante no primeiro período da produção nietzscheana), com a busca pelo Freigeisterei, (tema acentuado no período de 1876-1882), aquele que se afirma na solidão e, por ela, transborda sua riqueza e contentamento na “alegria compartilhada” (Mitfreude) – caução do projeto de uma ética da amizade.

Num fragmento da primavera-verão de 1877 (KSA 8, 22 [68], p. 390), intitulado Freunde, Nietzsche adverte: “Acreditais que eu sou só: acorreis, pois, ao companheiro do solitário.” Aos que vislumbram nele um filósofo solitário, andarilho de paisagens ermas, Nietzsche faz ver que inventara para si um amigo, companheiro de solidão, nascido das experimentações consigo mesmo como sustentáculo para que nem a solidão devore o solitário e nem a multidão o dilua. Esse é o tom do famoso item de Assim Falou Zaratustra, intitulado Do amigo, no qual Nietzsche escreve: “’Há sempre alguém demais perto de mim’ – assim pensa o eremita. ‘Sempre uma vez um – isso, depois de algum tempo faz dois!’ Eu e mim estamos sempre em colóquio por demais acalorado; como poderia suportar-se tal coisa sem um amigo? Sempre, para o eremita, o amigo é o terceiro; o terceiro é a cortiça que não deixa o colóquio dos dois ir para o fundo”. Essa enigmática passagem oferece a compreensão de como a solidão é ao mesmo tempo uma premissa e um suporte para a relação de amizade, já que o indivíduo, em sua solidão, se deixa dividir entre aquele que é e aquele que ele “tem acesso” como um segundo de si mesmo através do isolamento. Essa “bipolaridade” (como relação de

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“Minha moral me fala: viva retirado para que possa viver para si! Viva na ignorância daquilo que seu tempo considera mais importante! Ponha, entre você e o hoje, uma pele de ao menos três séculos!” (GC, 380)

si consigo próprio) é o resultado do processo de conquista de um “si mesmo” para o indivíduo e que, inversamente, também pode sobrevir como afastamento de si. Mesmo biograficamente, Nietzsche teve que se distanciar de si para conquistar, pela autodisciplina que inclui a solidão, aquilo que ele realmente era. Nesse processo, inventou (como uma ilusão) para si mesmo amigos e inimigos, como aqueles que colaboram para que o filósofo não se renda às provações da vida (cf. HH I, Prefácio,

I e II). Todo o seu processo de “cura” é descrito como uma relação tripartite que

inclui um “distanciamento de si” para a “conquista de si” como um segundo através da intervenção de um terceiro. Aliás, é justamente essa a partir da Selbstliebe (amor-próprio – ex: HH I, 162; OS, 75; ) e da Selbstzucht (cultivo-de-si; procura-de- si, autodomínio – ex: EH, Porque sou tão sagaz, 9), associadas a um Selbstsucht (egoísmo - ex: o mesmo EH, Porque sou tão sagaz, 9) que o indivíduo cria as medidas que fornecem os princípios para a seleção de seus pares: o amigo é aquele que também ama e experimenta a si próprio, aquele que cultiva a sua força. Essa é a fórmula contra a Selbstlosigkeit (abandono de si, abnegação, desinteresse, altruísmo) promovida pela ética da compaixão e que, não por acaso, é identificada por Nietzsche como princípio da décadence.

O amigo inventado é o terceiro de si mesmo que mantém a grandeza do solitário, aquele que fez de si um campo de promoção de intensas experiências vitais, critério para o nascimento dos indivíduos de exceção: “Ter muitas experiências interiores grandes, e repousar sobre e acima delas com um olhar espiritual – isso constitui os homens da cultura, que determinam a categoria de seu povo.” (A,198) Ora, essas vivências grandiosas têm um primeiro campo de experimento, que é aquilo que o autor chama de “virtude da solidão”.

A amizade é um experimento praticado (a) pelo indivíduo solitário que se conquistou a si mesmo a partir das relações com os seus pares, já que por elas ele efetiva o crescimento das forças vitais e, como tal, (b) volta aos outros em busca de “iguais” ou “semelhantes” para os quais deseja ofertar a sua abundância cuja exigência é o transbordamento e, ao mesmo tempo, (c) nessa relação com os outros, percebe-se capacitado para novas experimentações, já que esses “outros” precisam continuar diferentes de si e isso implica novas perdas, distanciamentos e frustrações, para cujo enfrentamento sua riqueza lhe capacita. Além disso (d), a amizade possibilita a seleção desses pares pelo processo de experimentação das forças que levam um indivíduo a se aproximar dos fortes capazes de suportar o jogo

e a luta e, contrariamente, se distanciar dos fracos que preferem a compaixão. Por isso, os amigos são os “antropófagos” (OS, 348), aqueles que aceitaram viver num “pais” onde podem “devorar-se a si mesmos”, experimentar-se a si mesmos. No terreno desse país se compreende melhor a noção paradoxal que une, em Nietzsche, a amizade à solidão: não se trata aqui de duas situações conflitantes ou mesmo antagônicas mas de “estados experimentais” que se supõem um ao outro. O amigo é o solitário, o que se conquistou a si mesmo e deseja compartilhar seu tesouro. Ao mesmo tempo ele é o “terceiro” que contribui para que o indivíduo- dividido não se esgote em si mesmo. Guiado por novas vivências, ele é o que continua recolhendo essas riquezas que a vida lhe oferece e precisa voltar para si constantemente. São esses exercícios, práticas de iniciação e aprendizado, distanciamentos e perdas, que fazem da amizade um interregno para a contígua constituição de uma “moral do futuro” que é, sobretudo, uma moral de indivíduos que se conquistaram a si mesmos.

Ora, a solidão não é um tema fortuito ou episódico na obra nietzscheana e não pode ser entendido como um mero estado de espírito ou um isolamento pessoal derivado de determinadas situações e/ou vivências específicas. Aliás, a solidão não é uma misantropia, já que Nietzsche identifica esse processo como uma saturação ou mesmo um fastio de quem se deixou contaminar demais pela multidão. É o que se verifica no parágrafo 168 de A Gaia Ciência, intitulado Misantropia e amor. “Diz- se estar cansado dos seres humanos apenas quando não se pode mais digeri-los, tendo o estômago cheio deles. A misantropia é consequência de um amor ávido demais pelos homens e de ‘canibalismo’ – mas quem lhe falou para engolir homens como ostras, príncipe Hamlet?” (GC, 168) Ou seja, é preciso buscar uma amor reservado e seletivo (a amizade) para evitar esse amor de muitos que torna impossível a digestão do outro.

Além disso, o horizonte da solidão não está reduzido apenas aos dados autobiográficos que a evocam. O que faz justamente a amizade uma relação nobre e suprema (ao contrário das demais relações que se estabelecem como regra gregária) é o fato de que ela está baseada na solidão como exercício (vivência) do indivíduo consigo mesmo, experiência que lhe possibilita conquistar-se e ao mesmo tempo manter-se fiel a si mesmo.

Como crítico radical da moral, diagnosticada como moral da compaixão, do desprezo por si mesmo e pelos demais, o filósofo alemão confere à solidão um

status de virtude: “Pois a solidão é uma virtude, como uma sublime inclinação e ímpeto de asseio, que adivinha que no contato com os homens – ‘em sociedade’- as coisas têm que ocorrer de maneira inevitavelmente suja.” (BM, 284). Nesse aforismo são revelados dois movimentos experimentais da amizade: o primeiro é o movimento de crítica radical à noção de virtude tal como ela se apresenta na ética da compaixão (que reconhece como virtude apenas as práticas que favorecem a conservação da vida coletiva a partir da partilha do sofrimento); o segundo movimento diz respeito à instauração da solidão como experimento de revigoramento e caminho para a grande saúde (noção que Nietzsche explicita como resultado do aprofundamento do humano em vista da superação do estado degenerativo que a moral da compaixão promove).

Revigorante, a solidão concorre para manter o indivíduo longe do “embuste” e do “veneno” promovido pela vida social gregária que ergueu a compaixão como regra moral. É assim que, em seu caráter profilático, a solidão proporciona uma nova organização hierárquica, permitindo que o indivíduo solitário se ponha à distância da vulgaridade da massa e se mantenha fiel a si mesmo. Associado muitas vezes ao verdadeiro filósofo (e ao próprio Nietzsche), esse indivíduo da solidão é o indivíduo das alturas, que sofre no gelo e respira o ar puro das altas montanhas, imagem que, a despeito do momento histórico de sua formulação (o texto de Ecce Homo foi escrito em 1888), remete ao espírito livre e ao Príncipe Vogelfrei150 que voa às alturas:

Quem sabe respirar o ar dos meus escritos sabe que é um ar da altitude, um ar forte. É preciso ser feito para ele, senão o perigo de se resfriar não é pequeno. O gelo está perto, a solidão é descomunal – mas com que tranquilidade estão todas as coisas à luz! com que liberdade se respira! quanto se sente abaixo de si! – filosofia, tal como até agora a entendi e vivi, é a vida voluntária em gelo e altas montanhas. (EH,

Prólogo, 3).

O parágrafo é elucidativo por explicitar a compreensão nietzscheana da própria filosofia enquanto experimento de solidão, atividade de homens que se distanciam do vulgo e promovem experimentações consigo mesmo, a partir de seu próprio isolamento. Trata-se de um indicativo metodológico para “tornar-se o que se é”, expressão que serve de subtítulo ao livro autobiográfico de Nietzsche, Ecce

150 Canções do príncipe Vogelfrei (livre-pássaro, ou ainda, fora-da-lei) é o nome escolhido por

Nietzsche para o título de uma série de poemas que foram anexados à segunda edição de A Gaia

Ciência, em 1887. Vários desses poemas, entretanto, foram escritos em 1882 e fazem parte da série

Homo e que, nesse sentido, passa necessariamente pela solidão, como caminho

para a aquisição do “si mesmo” perdido na relação com a coletividade gregária. Além disso, revela a estrita relação da solidão com a própria filosofia (de uma filosofia feita a partir das vivências pessoais do livre-pensador) que tem nesse “tornar-se o que se é” o critério fundamental.

Essa concepção, abundante nos textos do último período da produção nietzscheana, entretanto, é um dos pontos nevrálgicos do segundo período, estando aí associados diretamente à noção de amizade. É essa experiência da solidão que torna a amizade possível, como uma perspectiva de distanciamento que colabora para que o amigo seja visto de forma mais bela e seja amado com mais intensidade:

Perspectivas distantes. – A: Mas por que essa solidão? – B: Não estou aborrecido

com ninguém. Mas sozinho pareço ver os amigos de modo mais nítido e belo do que quando estou com eles; e quando amei e senti mais a música, vivia longe dela. Parece que necessito de perspectivas distantes para pensar bem das coisas.” (A 485) Note-se como, nesse parágrafo, está implícito aquilo que se poderia chamar de uma ascética do distanciamento: uma perspectiva de distância que nasce do aprofundamento (que é também elevação) e do aprendizado que ele possibilita. A solidão faz ver com melhores olhos porque cria hierarquias, permite uma avaliação da condição que impetrou a relação. O solitário, em outras palavras, é o que está mais preparado para reconhecer o grande valor da amizade: “(...) quem é solitário por um capricho da natureza, em razão de uma estranha mistura de desejos, talentos e aspirações, sabe que maravilha inconcebivelmente elevada é um amigo”151, escreve Nietzsche a Rohde em janeiro de 1869 (KSB 2, p. 357).

É isso que expressa o § 25 do segundo capítulo de Além do Bem e do Mal, intitulado O Espírito livre, referido aqui a título de exemplo, por ligar a imagem do “Jardim” (como vimos associado à noção de amizade) e “solidão”: “E não esqueçam o jardim, o jardim com grades douradas! E tenham pessoas à sua volta, que sejam como um jardim, - ou como música sobre as águas, à hora do entardecer, quando o dia já se torna lembrança: - escolham a boa solidão, a solidão livre, animosa e leve, que também lhes dá direito de continuar bons em algum sentido!” (BM, 25). Esse jardim da amizade é o lugar dos indivíduos iguais, os que se tornaram iguais na

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“(...) nein wer einsam ist vermöge einer Naturmarotte, vermöge einer seltsam gebrauten Mischung von Wünschen Talenten und Willensstrebungen, der Weiss, welch ‘ein unbegreiflich hohes Wunder’ ein Freund ist (...)”

solidão, os que se experimentaram e conquistaram a leveza sobre si mesmos e agora o encontro não pesa, não torna denso ou enfadonho. Porque estavam primeiro distantes, conseguiram que sua proximidade fosse prazenteira e leve. É essa prática de encontro que não anula o indivíduo, mas que favorece a sua afirmação em “si mesmo” que “lhes dá o direito de continuar bons em algum sentido”, ou seja, que neles favorece a construção de um “modelo ético” afirmativo.

Em Aurora, 287, por exemplo, encontramos essa associação entre

proximidade e distanciamento de forma explícita no fragmento intitulado Dois

amigos: “Eram amigos, mas deixaram de sê-lo, e ambos cortaram simultaneamente

a amizade; um deles, por acreditar-se muito mal conhecido; o outro, por acreditar-se conhecido bem demais – e os dois se enganaram! – pois nenhum conhecia o bastante a si mesmo.” Nesse parágrafo a autognose (entendia como processo de autocriação e autoafirmação) apresenta-se como condição para a amizade. Numa evidente alusão ao rompimento com Wagner, Nietzsche explicita o motivo desse distanciamento: ele ocorre porque cada um dos amigos não tinha conhecimento de si mesmo, porque ambos se empenharam demais no conhecimento do outro e se perderam a si mesmos. Note-se como está presente, nesse trecho, a crítica ao processo de anulação e esquecimento de si, segundo Nietzsche leitor de Schopenhauer, blasonado como critério primeiro da moral da compaixão. O mesmo sentido aparece no § 335 de Aurora: “Precisamos ser honestos conosco e nos conhecer muito bem, a fim de poder praticar com os outros essa dissimulação filantrópica que chamamos de amor e bondade”. Se na moral da compaixão existe uma anulação de si mesmo e uma interdição à autofruição, no caso da amizade, ao contrário, ela estaria baseada na afirmação de si mesmo. Reconhecendo que as relações sociais implicam certa “dissimulação”, só aquele que se conhece a si mesmo é capaz de manter esse tipo de relação sem se deixar contagiar pelo seu mecanismo principal, a abnegação e o esquecimento de si.

A base dessa afirmação de si mesmo é a solidão. Essa é uma das ideias- chave, por exemplo, do prólogo de Humano, Demasiado Humano, escrito em 1886, no qual Nietzsche tematiza as vivências pessoais (de maneira especial as que dizem respeito ao rompimento da amizade com Wagner e Schopenhauer) como processos de experimentação solitária consigo mesmo, deixando claro que elas se consolidam como propedêutica para a grande “certeza” que é também aquilo que ele chamará de “grande saúde“: “Desse isolamento doentio, do deserto desses anos de

experimento, é ainda longo o caminho até a enorme e transbordante certeza e saúde”. (HH I, Prólogo, 4). A invenção do amigo como espírito livre, questão abordada também nesse Prólogo, é uma medida que contribui para suportar a solidão desse tempo necessário de doença e isolamento, do próprio experimento consigo mesmo. Ou seja, a experiência da solidão reconhece “o excesso que dá ao espírito livre o perigoso privilégio de poder viver por experiência e oferecer-se à aventura” (HH I, Prólogo, 4). Esse perigo, entretanto, só vale enquanto for vivido como experimentação, ou seja, como parte de algo que enriqueça o caráter. E o espírito livre é criado por Nietzsche como o indivíduo desse experimento. Aquele que busca o perigo da solidão para aprender a lidar com os outros mantendo-se fiel a si mesmo: “Busca a solidão para poder servir do melhor modo a muitos ou a todos (à multidão): se a buscas por outra razão, te debilitará, adoecerá e fará de ti um membro atrofiado.”152 (KSA 8, 23 [71], de 1876-1877, p. 427). É a solidão, enfim, que faz a convivência com os outros algo agradável e sadio: “Se alguém se mantém, com sentido de renúncia, na solidão, ele pode fazer do trato com as pessoas, rara vez saboreado, um delicioso manjar.” (OS, 333)

A solidão, esse “país dos antropófagos” (OS, 348), é o lugar onde “o solitário se devora a si mesmo” enquanto, na multidão ele é devorado por ela. Sarcasticamente Nietzsche encerra esse curto fragmento exortando: “agora elege!”. Devorar-se a si mesmo é uma metáfora do indivíduo que se livra do fastio consigo mesmo e recusa a premissa da ética da compaixão para afirmar-se e alegrar-se consigo e transbordar esse contentamento com os outros. É isso o que o habilita para se desvencilhar também do tédio com a multidão: “colhe esses quartos de hora de profundíssima imersão em si e na natureza”, exorta Nietzsche, pois com isso o indivíduo poderá “beber o mais tonificante refresco do mais íntimo poço próprio” (AS, 200). A solidão é o processo pelo qual se bebe da água mais pura, a água do próprio poço. Essa imagem do poço próprio é contrastada àquela da “cisterna de todos” ou de muitos, que é a vida na multidão. Como profiláticas, a solidão e a distância são apresentadas como revitalizantes: “Por isso vou para a solidão – a fim de não beber das cisternas de todos” (A 491). Tomar distância é o gesto necessário para a conquista de si mesmo e o deserto é outro lugar metafórico desse experimento consigo mesmo: “então o deserto me é necessário, para ficar

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“Suche die Einsamkeit, um Vielen oder Allen (der Vielsamkeit) am besten nützen zu können: wenn du sie anders suchst, so wird sie dich schwach krank und zu einem absterbenden Gliede machen”.

novamente bom” (A 491). A mesma imagem comparece em outras passagens da obra de Nietzsche, entre as quais destaca-se o § 378 d’A Gaia Ciência. É curioso notar que esse trecho, que compõe o livro V (escrito, lembre-se, em 1886 e, portanto, remete ao período da maturidade, no qual Nietzsche sente-se desfrutando da prodigalidade e da riqueza conquistada como resultado dos longos processos de experimentação vividos nos períodos anteriores), está marcado por um sentimento de riqueza e oferecimento. Se as imagens desse segundo período remetem ao indivíduo que bebe no próprio poço e não nas cisternas de muitos, nesse fragmento 378 de A Gaia Ciência, essa água-de-si-mesmo, em sua riqueza e saúde, é oferecida para os outros e se deixa “sujar” por seus andrajos porque adquiriu a capacidade de auto-higienização: “Nós os pródigos e ricos do espírito, que tais como fontes abertas ficamos à beira da estrada e a ninguém impedimos que nos retire água: infelizmente (...) não podemos por nada evitar que nos turvem (...). Mas nós faremos como sempre fizemos: levamos o que nos lançam para a nossa profundidade – pois nós somos profundos, nós não esquecemos – e tornamo-nos

novamente límpidos” (GC, 378). A mesma ideia de aprofundamento como processo

de limpeza aparece em KSA 8, 16 [35] (de 1876, p. 293): “Dar-se tempo para pensar: a água da fonte precisa confluir novamente”153, ou seja, a água que percorreu vários caminhos precisa de novo se juntar.

A metáfora da água, portanto, deixa transparecer o significado da solidão no processo de “purificação” do espírito que, no contato com o mundo (inclui-se na metáfora os pássaros com seus excrementos, os garotos com suas tralhas e os andarilhos com seus andrajos) se torna sujo e contagiado e, ao aprofundar-se em si mesmo, inicia o longo processo de “filtragem” e limpeza das doenças adquiridas para emergir novamente límpido em novas fontes. Um fragmento depois e essa “sujeira” ganha corpo prático em busca da leveza indispensável ao espírito livre: “é preciso se livrar de muita coisa que justamente a nós, europeus de hoje, oprime, inibe, detém, torna pesados” (GC, 380).

Outra implicação dessa água-própria, enquanto condição para a amizade, é a afirmação da liberdade plena, a conquista do espírito livre, do grande desprendimento. Aquele que é livre é apresentado como o que perdeu o medo, e não vê nos inimigos a não ser motivos de afirmação de si mesmo e essa é a melhor

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tradução da fineza da solidão, ou seja, livrar o indivíduo do medo dos outros, já que,