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BÖLÜM II KURAMSAL TEMEL

3.3. Veri Toplama Araçları

Provenientes de diversas localidades do país esses jovens têm em comum a participação em cursos de qualificação profissional, configurando um importante espaço para se captar a diversidade de suas experiências na transição escola-trabalho. Assim, neste capítulo busco compreender: quais as razões que os jovens apontam para a realização da qualificação profissional? Que sentidos e significados atribuem à qualificação profissional?

6.1 As formas de acesso e os motivos de aquisição da qualificação profissional

6.1.1 - As formas de acesso aos cursos profissionais: as redes e (inter)mediações As redes de relações pessoais (famílias e amigos) assumiram um forte peso (48%) na divulgação das informações sobre os cursos profissionais. Igualmente, é significativa a parcela dos jovens (35%) que teve acesso às informações através de redes mais amplas como as ONGs. Destaca-se a presença do Centro da Juventude como rede que liga os jovens (7%) do meio rural (Município de S. Miguel e S. Domingos), possibilitando-lhes o acesso às informações sobre oportunidades de formação. A divulgação dos cursos através da escola é de fraca expressão (3%), o que poderia ser considerado, em certa medida, o seu distanciamento da vida e dos interesses dos jovens (tabela 47). Importa ressaltar que, a maioria dos sujeitos (63%) conseguiu uma vaga para freqüentar o curso através da (inter)mediação das ONGs que ofereceram bolsas de estudos (tabela 48).

Tabela 47: Distribuição dos jovens segundo canais de divulgação dos cursos Como conseguiu informações sobre o curso Total

Através de ONGs 21 (35%)

Através de amigo(a) 20 (33,3%)

Através de pais, parentes (tios/tias, irmãos) 9 (15%) Através do Centro da Juventude 4 (6,8%) Através da Câmara Municipal 2 (3,3%) Anuncio na própria escola 2 (3,3%) Através do Centro de Emprego 2 (3,3%)

Total 60 (100%)

Tabela 48: Distribuição dos jovens segundo formas de acesso às vagas dos cursos Como conseguiu vaga para o curso Total

Apoio de ONGs 38 (63,3%)

No processo seletivo da escola 10 (16,8%) Através de pais, parentes (tios/tias, irmãos) 3 (5%)

Através de amigo(a) 3 (5%)

Através da Câmara Municipal 2 (3,3%) Através do Centro da Juventude 2 (3,3%) Através do Centro de Emprego 2 (3,3%)

Total 60 (100%)

Fonte: levantamento de campo, 2009.

É importante reiterar que algumas dessas ONGs, mais do que intermediadoras, poderiam ser consideradas mediadoras das redes de relações pessoais desses jovens, por oferecer suporte (MARTUCCELII, 2007), ampliando suas oportunidades de aquisição da qualificação profissional nessa fase de transição da escola para (novo) trabalho. A importância dessas ONGs enquanto suporte não reside, porém, apenas na atribuição da bolsa de estudos, mas na trama de “ecologias personalizadas” (idem, p. 81) que vincula elementos materiais e imateriais. Ou seja, os elementos que incrementam nos percursos dos jovens na vivência dessa fase são mais difusos do que aparentam, desencadeando inter-relações que se retroalimentam de forma dialógica, permitindo-lhes estruturar como indivíduos no presente e, ao mesmo tempo, potencializando os benefícios secundários no futuro.

Dizer que tramas são as mais pertinentes ou quais são os pontos de apoio mais decisivos, freqüentes ou eficazes, em geral, parece como uma tarefa impossível e inútil – os elementos tomam seu sentido e função na senda de ecologias personalizadas (MARTUCCELLI, 2007, p. 81; tradução minha).

Abordar a questão de acesso ao curso implica questionar as possibilidades de escolha oferecida aos alunos, configurando um importante eixo para indagar os sentidos da qualificação profissional, que será discutido posteriormente. Cabe destacar que a maioria dos jovens (73%) respondeu afirmativamente à questão “foi você que escolheu o curso?”. Entre os que responderam negativamente a essa questão, sete freqüentavam o curso de funilaria e oito realizavam o curso de instalação e manutenção dos sistemas informáticos.

A escolha do curso é uma questão complexa que envolve, além dos condicionantes estruturais, o valor social do diploma, o prestígio social da escola que

oferece o curso, as formas de trabalho que proporciona, as experiências de trabalho e de outras instâncias socializadoras, o sexo, entre outros. Ou seja, a escolha de um curso encarna com toda sua força a complexidade das questões que a qualificação como relação social coloca no mercado de trabalho. Embora não as tivessem presentes, pelo menos de forma clara, os depoimentos de alguns jovens mostram algumas questões que a qualificação suscita no mercado de trabalho, com algumas nuanças entre as falas dos alunos do curso de funilaria e as dos que freqüentavam o curso de instalação e manutenção dos sistemas informáticos.

Em geral todos os jovens se mostraram otimistas em relação à escolha do respectivo ramo de qualificação como via de transição para o mundo do trabalho, mas o diploma do curso de instalação e manutenção de sistemas informáticos foi o mais enfatizado nos depoimentos. Essa área de qualificação é valorizada pelos alunos por possibilitar conhecimentos ligados à nova tecnologia de informação exigida em várias esferas do trabalho, bem como a sua utilidade fora do trabalho.

Eu queria fazer o curso de arquitetura. Escolhi este curso porque gosto muito de informática, porque serve para conseguir um bom trabalho e para melhorar o meu conhecimento (H41, 23 anos, 12º ano de escolaridade, curso de informática).

Para esse jovem a aquisição da qualificação profissional em informática se tornou uma opção devido à impossibilidade de fazer o curso superior na área que gostaria. Entretanto, fica evidente que a escolha do curso, além do desejo de “conseguir um bom trabalho”, envolve o próprio gosto pela área e a expectativa de adquirir conhecimentos.

Com o avanço da tecnologia a informática está em todos os postos de trabalho. É uma área muito procurada no mercado de trabalho. É uma formação solicitada em qualquer emprego e pode ser utilizada nos tempo de lazer (H40, 19 anos, 11º ano de escolaridade, curso de informática).

Esse aluno escolheu o curso de informática por ser atualmente exigido em “todos os postos de trabalho”. Por outro lado, aponta que ao escolher o curso teve em consideração a sua utilidade nos momentos de lazer.

Com esse curso sinto que tenho um trabalho garantido. O mundo atualmente gira a volta de informática e o mercado

de trabalho também funciona na base da informática (M25,

Com esse curso sinto que tenho um trabalho garantido. A informática é solicitada em qualquer trabalho, até para ser

caixa em supermercados (M48, 20 anos, 12º ano de

escolaridade, curso de informática).

A exigência dos conhecimentos de informática “em qualquer lugar que se procura o trabalho” é enfatizada por algumas mulheres, pelo reconhecimento positivo que um diploma nessa área confere atualmente no mercado de trabalho. O forte otimismo dos alunos dessa área é claramente visível através da frase “com esse curso sinto que tenho um trabalho garantido”.

Os jovens que cursavam funilaria, embora reconhecessem a importância do diploma da qualificação nessa área, teceram os seus depoimentos de forma menos pretensiosa e focaram apenas os aspectos utilitários ligados ao mercado de trabalho.

Com este curso fica mais fácil encontrar um trabalho. A formação profissional quando feita na escola de Variante os formandos são muito solicitados pelas empresas devido à qualidade da escola (M9, 23 anos, 12º ano de escolaridade, curso de funilaria).

Essa jovem acredita que fica mais fácil encontrar um trabalho, pois o reconhecimento da qualificação pelos agentes no mercado (NAVILLE, 1956; DUBAR, 1998; TARTUCE, 207) envolve, também, o próprio nome da escola que lhe confere. É observando se “eles”, antigos alunos dessa escola, obtiveram êxito no confronto com o mercado de trabalho que essa aluna revela uma percepção positiva da sua área de qualificação.

É uma área que consigo um trabalho porque está em crescimento no país. Com este curso torna-se mais fácil encontrar um trabalho porque só com o 12º ano está difícil

(H16, 24 anos, 12º ano de escolaridade, curso de funilaria).

Com doze anos de escolaridade completos, esse jovem revela a dificuldade em conseguir um trabalho no país. Na escolha do curso pesou a nova dinâmica da área de funilaria no país, cuja demanda está em crescimento.

Esses depoimentos permitem vislumbrar que, mesmo no processo de sua aquisição, dentro da escola, a qualificação é o espelho através do qual se olha os outros (TANGUY, 1991), com os quais se entra em relação no confronto com o mercado de trabalho. Os entrevistados mostraram-se otimistas sobre o reconhecimento da qualificação no mercado de trabalho, tanto pelas vantagens relacionadas ao ramo do curso como pelo próprio nome da escola que lhe confere.

6.1.2 – Os motivos de aquisição da qualificação profissional

Uma parcela significativa dos entrevistados136 (32%) procurou o curso profissional em primeiro lugar, como ferramenta para enfrentar o mundo do trabalho, com destaque para expressiva presença masculina (35%). Em segundo lugar, os jovens (28%) indicaram a opção “as razões financeiras - falta de meios para financiar os estudos”, sendo esse o motivo mais apontado pelas mulheres (34,6%). Essa opção foi indicada, sobretudo, por jovens que completaram a formação secundária, mas não puderam prosseguir o estudo devido à falta de meios para ingressar numa universidade. O terceiro principal motivo indicado pelos jovens (17%) foi “melhorar a educação/formação para encontrar outro trabalho”. Essa alternativa foi escolhida pelos jovens que já trabalhavam, demonstrando as suas expectativas de superar a trilha da precariedade pela via da qualificação profissional e conseguir um emprego (tabela 49).

Como motivo secundário137: 15 jovens (7 mulheres e 8 homens) escolheram melhorar a educação/formação para encontrar outro trabalho; 12 jovens (4 mulheres e 8 homens) apontaram apenas com o meu nível de escolaridade está muito difícil conseguir um trabalho; e 10 jovens (7 mulheres e 3 homens) indicaram para melhorar os meus conhecimentos.

Tabela 49: Distribuição dos jovens segundo os motivos de realização do curso e por sexo Sexo

Motivos de realização do curso profissional

Mulher Homem Total (%)

Para me ajudar a enfrentar o mundo do trabalho 7 (27%) 12 (34,9%) 19 (32%) Razões financeiras (falta de meios para financiar os

estudos) 9 (34,6%) 8 (24%) 17 (28%)

Para melhorar a minha educação/formação e

encontrar outro trabalho 5 (19,2%) 5 (14,7%) 10 (17%) Para melhorar os meus conhecimentos 2 (7,7%) 6 (17,6%) 8 (13%) Apenas com o meu nível de escolaridade está muito

difícil encontrar um trabalho 2 (7,7%) 3 (8,8%) 5 (8%) Para educar melhor os filhos 1 (3,8%) 0 (0%) 1 (2%)

Total 26 (100%) 34 (100%) 60 (100%)

Fonte: levantamento de campo, 2009.

136 Os jovens foram estimulados por meio de uma pergunta fechada com dez opções de respostas, a

escolherem três alternativas por ordem de importância.

Embora mencionado anteriormente, considero importante relembrar que esses jovens (60) subdividem-se nos cursos da seguinte forma: instalação e manutenção de sistemas informáticos (70%), dividido em duas turmas de 21 alunos cada; e funilaria (30%), concentrados em uma turma de 18 alunos, dos quais 8 não possuem formação secundária completa.

Os jovens do curso de funilaria são majoritariamente pertencentes ao meio rural. Quanto às duas turmas do curso de instalação e manutenção de sistemas informáticos, uma é composta por jovens do meio rural (exceto um rapaz) e a outra por alunos do meio urbano. Cabe ressaltar que as mulheres concentram-se majoritariamente (96%) no curso de instalação e manutenção de sistemas informáticos, ao passo que os homens marcam uma presença equitativa nos dois cursos (50%). É significativo verificar que apenas uma mulher freqüentava o curso de funilaria (tabela 50).

Tabela 50: Distribuição dos jovens segundo cursos profissionais e por sexo Sexo

Qual o curso que freqüenta

Mulher Homem Total

Funilaria (Bate-chapa e pintura em estufa) 1 (4%) 17 (50%) 18 (30%) Instalação e manutenção de sistemas informáticos 25 (96%) 17 (50%) 42 (70%) Total (100%) 26 (100%) 34 (100%) 60

Fonte: levantamento de campo, 2009.

Reitero que embora a escola tivesse fixado alguns critérios de acesso aos cursos (seleção documental, prova escrita, teste psicotécnico e entrevista), os critérios seletivos das ONGs diferiam daqueles da escola. A maioria dos jovens (10) que cursava funilaria teve acesso ao curso através do processo seletivo da escola, ocorrendo o inverso com a maioria dos sujeitos do curso de instalação e manutenção de sistemas informáticos.

Quando questionado se sentiam satisfeitos ou insatisfeitos com o curso, a maioria dos sujeitos (53%) declarou-se satisfeita e uma parcela expressiva (37%) muito satisfeita. Os jovens (22) do curso de informática concentram-se expressivamente no grupo de satisfeitos, com destaque para a presença feminina (14). Contudo, no grupo de insatisfeitos (8,5%) constavam apenas os jovens do curso de funilaria, entre os quais se inclui a única mulher da turma (tabela 51).