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BÖLÜM II KURAMSAL TEMEL

2.2.2. KAYGI BOZUKLUKLARININ SINIFLANDIRILMAS

Antes de se analisar as razões apontadas pelos entrevistados para saída da escola, considero importante evidenciar a idade126 em que ela ocorre (tabela 35). A faixa etária dos 15 aos 17 anos permite observar que a saída da escola ocorre antes da idade de conclusão do ensino secundário, sobretudo no universo masculino (26,6%). Todavia, é no grupo etário dos 18 aos 20 anos que a maioria expressiva dos jovens (70%) sai da escola, com destaque para o universo feminino (80,9%). Provavelmente, é nessa faixa etária que os jovens tendem a completar os 12 anos de estudos e mobilizam estratégias de transição para o trabalho diante das possibilidades reduzidas de ingressarem em uma universidade.

Tabela 35: Distribuição dos jovens segundo idade de saída da escola e por sexo Sexo

Idade de saída da escola

(por faixa etária) Mulher Homem Total 15 a 17 anos 3 (11,5%) 7 (26,6%) 10 (16,7%) 18 a 20 anos 21 (80,9%) 21 (61,8%) 42 (70%) 21 a 24 anos 1 (3,8%) 5 (14,7%) 6 (10%) 25 a 28 anos 1 (3,8%) 1 (2,9%) 2 (3,3%) Total 26 (100%) 34 (100%) 60 (100%)

Fonte: levantamento de campo, 2009.

Os motivos apontados pelos jovens para saída da escola foram variados, apresentando algumas nuanças entre os que concluíram doze anos de estudos e aqueles cuja formação secundária era incompleta. Os jovens (38) que concluíram os estudos secundários são na sua maioria do sexo feminino (21). Os sujeitos desse grupo apontaram de forma unânime as razões financeiras - falta de recursos econômicos para financiar os estudos - como principal motivo para saída da escola. Para esses jovens a continuidade dos estudos implicaria ingressar em uma universidade, o que, por sua vez, exigiria a disponibilidade dos recursos financeiros da família ou um esforço individual, caso tivessem a renda de um trabalho. É preciso reiterar que as universidades no país

126 Para apresentar as informações sobre a idade da saída da escola, estabeleci quatro grupos etários,

estimando 18 anos como a idade para conclusão dos doze anos de escolaridade, de forma a melhor visualizar os casos de saída que antecederam a conclusão do ensino secundário.

não oferecem cursos gratuitos. As bolsas de estudo disponibilizadas anualmente para o curso superior poderiam ser consideradas irrisórias, tendo em vista a elevada demanda dos estudantes que concluem o ensino secundário. Sem uma bolsa e sem um trabalho, o desejo de fazer um curso superior poderá se tornar um sonho de difícil concretização:

No ano passado fui fazer o curso de ciências socais na Universidade de Cabo Verde. Passei no teste de seleção e comecei as aulas, mas desisti do curso porque vi que não conseguia pagar a mensalidade (M52, 23 anos, 12º ano de escolaridade, curso de informática)

O segundo forte motivo indicado por um total de 16 jovens desse grupo (9 moças e 7 rapazes) foi a falta de escola perto de casa. As limitações materiais de suas famílias impedem não apenas o pagamento das mensalidades do curso, mas também arcar com os custos diários de transporte, que se revelam mais avultados para os jovens inseridos no meio rural.

Só o custo mensal de transporte para ir às aulas daria para pagar uma mensalidade do curso... A minha mãe não tem dinheiro para pagar (M36, 19 anos, 12º ano de escolaridade, curso de informática).

Na lista dos motivos secundários encontram-se algumas razões reveladoras das clivagens entre os sexos: 13 jovens (8 rapazes e 5 moças) apontaram trabalhar e ganhar dinheiro; 2 mulheres indicaram a gravidez.

Inversamente ao grupo anterior, os jovens (22) que não completaram a formação secundária são na sua maioria (17) do sexo masculino e apresentaram razões mais diversificadas para a saída da escola. Vejamos então. No universo masculino foram apresentadas as seguintes razões: 7 rapazes indicaram trabalhar e ganhar dinheiro; 4 indicaram a perda de direito de estudar na escola secundária pública devido à duplas reprovações; 4 apontaram a falta de interesse pelos estudos; e, 2 indicaram a opção que não gostava da escola. No universo feminino, a gravidez foi indicada por 4 mulheres como motivo principal para a saída da escola.

Como segundo motivo, além do trabalho, esses jovens apontaram: as razões financeiras (11 homens e 2 mulheres); a falta de escola perto de casa (2 homem; 1 mulher); e a obrigação de assumir tarefas domésticas em casa dos pais, como cuidar dos irmãos mais novos (1 mulher).

5.2 – Experiências de trabalho

Alguns estudos referenciados (SPOSITO, 2003; 2005; 2007; CORROCHANO, 2001, 2008; PAIS, 2005a; GUIMARÃES, 2005, TARTUCE, 2007) apontaram a importância da esfera do trabalho para a compreensão da condição juvenil, pois mesmo “em contextos culturais muito diferentes entre si, de fato, o trabalho é um dos âmbitos mais importantes em que se desenvolvem as relações entre as gerações, acentuam-se os mecanismos de socialização dos jovens para os papéis da vida adulta, desenvolvem-se processos de reprodução econômica e social” (CHIESI; MARTINELLI, 1997, p. 110). Nesta linha, ainda que em traços gerais, busco indagar as experiências dos sujeitos desta pesquisa na esfera do trabalho. A precariedade e a precocidade são traços comuns que emergem em suas experiências de trabalho, iniciada em alguns casos desde o período estudantil. Para compreender a condição laboral dos jovens é preciso levar em consideração tanto as mutações ocorridas nessa esfera nas últimas décadas, quanto a influência do “status sócio-econômico da família, o lugar de origem e de residência” como adverte Chiesi e Martinelli (idem, p.111).

Na sua pesquisa127 sobre a transição escola-trabalho na África Subsaariana128, a UNICEF (2005) alerta que conceitos como emprego, desemprego e trabalho devem ser aplicados com alguma cautela, de forma adaptada à realidade respectiva, uma vez que a maioria dos jovens na região trabalhava em negócios familiares (seja como dono ou trabalhador não pago) e, sobretudo, na agricultura de subsistência. Alguns jovens desta pesquisa permitem visualizar alguma afinidade129 com seus coetâneos africanos, particularmente no que tange ao trabalho em pequenos negócios familiares. Esse tipo de trabalho, por vezes, é considerado um apoio/retribuição ou mesmo uma contribuição do

127O estudo abrangeu 13 países da região: Burundi, Burkina Fasso, Costa do Marfim, Camarão, Etiópia,

Gâmbia, Quênia, Madagáscar, Moçambique, Maláui, São Tomé e Príncipe, Uganda e Zâmbia. Os dados foram analisados por especialistas: GUARCELLO, L; MANACORDA, M; ROSATI F; LYON S; VALDIVIA,C.

128 Além dos países já citados, também fazem parte da região: África do Sul, Benin, Botsuana, Cabo

Verde, Chade, Congo, Djibuti, Eritréia, Gabão, Gana, Guiné Equatorial, Guiné-Bissau, Ilhas Comores, Lesoto, Libéria, Mali, Mauritânia, Maurício, Namíbia, Níger, Nigéria, República Centro-Africana, Ruanda, República Democrática do Congo, Senegal, Seychelles, Serra Leoa, Somália, Sudão, Suazilândia, Tanzânia, Togo e Zimbábue.

129 O elevado índice de desemprego que atinge os jovens, em comparação com os adultos, nos países

pesquisados; a concomitância escola e trabalho, bem como a “re-inserção” em trabalhos precários mostram as similaridades com os sujeitos desta pesquisa. Contudo, o fato desses jovens trabalharem principalmente no setor agrícola contrasta com os desta pesquisa, pois o setor agrário em Cabo Verde é o que menos oferece oportunidades de trabalho. Além disso, a baixa freqüência das mulheres à escola, em relação aos homens, cujas taxas de escolarização ultrapassam em dobro o sexo feminino, no ensino primário e secundário, em alguns desses países, constitui um forte contraste com os dados desta pesquisa.

jovem para o grupo familiar. Porém, em alguns casos, pode ser também uma forma de trabalho invisível que encobre a conotação de exploração que lhe está subjacente.

O desejo de independência em relação aos pais e de experimentação da condição juvenil são algumas razões que esses sujeitos apontaram para ingressar no mundo do trabalho, além da satisfação de suas necessidades básicas e das famílias respectivas. Cabe ressaltar que estes jovens apontaram como o primeiro objetivo mais importante em suas vidas “conseguir um emprego” e colocaram o trabalho, em segundo lugar, como espaço onde se sentem mais realizados, depois da casa (família). O trabalho ocupou uma posição de destaque, anterior à escola, à diversão com os amigos, à relação afetiva e à religião, assumindo uma grande centralidade em suas vidas.