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4. ARAŞTIRMA SONUÇLARI VE TARTIŞMA

4.1. Reçine Uygulaması ve Konsantrasyon İşleminin Etkisi

4.1.1. Reçine uygulaması ve konsantrasyonun kimyasal özellikler üzerine etkisi

4.1.1.4. Toplam fenolik madde ve antosiyanin analizi sonuçları

Ao abordarmos o tema de nossa pesquisa pela categoria cidadania, o cenário é até mais desafiante do que o retratado sobre a categoria consumo. Aqui, além de haver uma série de diferentes perspectivas sobre o assunto, nos deparamos com um conceito em acelerada transformação. Por um lado, tal dinâmica parece ser movida pela própria intensificação no uso do termo, de forma frequentemente indiscriminada ou pouco precisa. Por outro lado, também contribuem para isso as mudanças ocorridas no cenário social e político mundial pós-Guerra Fria, que ao reconfigurar poderes em escala global, nacional e subnacional passou a exigir novas perspectivas – e termos – no tratamento da relação indivíduo/espaço público, como explicado em Sorj (2004), Giddens (1997), Beck (1997), Pinsky (2008) e outros.

Os direitos da cidadania

É ponto pacífico dentre todas as fontes consultadas o reconhecimento de que as bases do atual conceito de cidadania – aquele idealmente aplicável às democracias ocidentais no pós-Segunda Guerra Mundial – estão retratadas no trabalho seminal de Marshall (1992[1950], p.18), que define cidadania como “a status bestowed on those who are full members of a community. All who possess the status are equal with respect to the rights and duties with which the status is endowed”.

Há várias críticas possíveis sobre esta definição, que sem dúvida é limitada por seu caráter estritamente formalista, e que ignora as implicações dos contextos particulares em que podem (ou não) ser efetivamente exercidos os direitos e deveres correspondentes à cidadania. Por exemplo, em seu trabalho “Conceptual Con/fusion in Democratic Societies –

Understandings and Limitations of Consumer-Citizenship, produzido no âmbito do programa

Cultures of Consumption, Kaela Jubas problematiza tal conceito, apontando que se trata de um abordagem formalista, que articula aspectos de uma “cidadania idealizada”, mas ignora que sua aplicação efetiva depende, por exemplo, dos contextos em que se pretenda exercê-la. Citando, Lister, diz ela:

“vocabularies of citizenship” and their meanings vary according to social, political and cultural context and reflect historical legacies. […] What is involved is not simply a set of legal rules governing the relationship between individuals and the state but also a set of social relationships between individuals and the state and between individual citizens. These relationships are negotiated and, therefore, fluid. (LISTER, 2003, p.3 e 15 apud JUBAS, 2007)

Essa discussão nos permite identificar um primeiro grande debate em torno do conceito de cidadania, que é o confronto entre usos formais/legalistas do termo e sua interpretação sociológica ou política. Se, na primeira perspectiva, para ser cidadão é suficiente a pertença ao sistema legal de um dado país – com a decorrente sujeição a certas obrigações e o direito a certos direitos – na segunda isso é apenas o passo inicial. Nesta outra perspectiva (sociológica, política), a cidadania tem como característica essencial o efetivo gozo dos direitos que se tem e, mais ainda, a possibilidade de, a partir desses direitos,

participar das decisões coletivas de uma dada sociedade – ou mesmo da sociedade planetária,

como querem alguns (VIEIRA, 1999; CORTINA, 2005; DOWBOR, 2008; PINSKY, 2008 e outros).

Analisando como o conceito de uma “cidadania de direitos” evoluiu desde que foi formulado, 60 anos atrás. Arribas e Pina (2006) tratam da amplamente difundida perspectiva das várias “gerações de direitos”. Partindo da ótica original de Marshall (1992[1950]), e atualizada tanto por Bottomore (1992) quanto por autores mais recentes, como relatam Sorj (2004) e Cortina (2005), entre outros, explicam essas autoras que a categoria cidadania, numa perspectiva de direitos, vem evoluindo num processo de expansão, que se inicia numa

primeira geração de direitos, consolidados entre os séculos XVIII e XIX: os direitos civis (à

vida, à liberdade de decisão, à propriedade, à liberdade de deslocamento) e políticos (à liberdade de reunião e associação, ao sufrágio e à participação política). Numa segunda geração, já no início do século XX, somam-se os direitos sociais, enfatizando o papel do Estado como seu guardião e como intermediário entre o mercado e os indivíduos, equilibrando disparidades e impedindo abusos, garantindo direitos voltados à justiça distributiva, à segurança e ao pleno emprego. São eles o direito ao trabalho, à educação, à saúde, à greve e à seguridade social (para velhice ou invalidez). Mais recentemente, no final do século XX, surgem os direitos de terceira geração, no marco da globalização, da transnacionalização e da emergência de novos atores sociais (minorias, grupos étnicos, de gênero, de “causas” etc.), apresentando-se como (ou aspirando a ser) sujeitos dos direitos à autodeterminação, à paz, ao meio ambiente saudável etc. Incluem-se também aqui os direitos de grupos mais específicos: dos consumidores, das mulheres, das crianças e dos idosos. Lembram ainda que hoje, no início do século XXI, parece surgir uma quarta geração de direitos, agora no marco dos desenvolvimentos tecnológicos no campo da biologia e da ciência: os direitos relacionados à engenharia genética, à bioética, às pesquisas com

nanotecnologia e outras que podem de algum modo invadir de modo sutil ou abrupto o próprio corpo dos indivíduos ou as condições ambientais de que este precisa para se manter.

Em sua abordagem formalista, explicam Arribas e Pina (2006) que

a categoria de cidadão nasce com a intenção de dar um nome ao vínculo entre o indivíduo livre, consciente, com poder de decisão, transformado em átomo da sociedade civil; e o Estado, que, legitimado sob a legalidade e a norma jurídica, institui o primeiro como sujeito de direito. (ARRIBAS e PINA, 2006 apud LEITÃO; LIMA; MACHADO, 2006, p.83)

Dando continuidade à sua revisão das categorias “consumidor” e “cidadão”, Arribas e Pina (2006) discutem a possível emergência da categoria “consumidor-cidadão”, e para isso apresentam uma concepção de consumo imbricada com aspectos relacionados à cidadania, resumida nos seguintes termos:

Nossa investigação sobre a temática inscreve-se dentro da perspectiva antropológica que concebe o consumo, no mundo capitalista contemporâneo, como um corpo de práticas, imagens e representações, em volta das quais as pessoas confrontam o Estado e o Mercado nos processos cotidianos de definição deles mesmos e da construção de projetos morais e de valor. (ARRIBAS e PINA apud LEITÃO; LIMA; MACHADO, 2006)

Esta definição merece atenção pois traz dois elementos centrais para nossa discussão - a concepção de consumo (a) como parte da relação com as instâncias coletivas “Estado e o mercado” e (b) como instrumento da “construção de projetos morais e de valor” - mas, ao mesmo tempo, deixa de fora um aspecto fundamental, que define nosso recorte em relação à categoria cidadania: a sua relação com a democracia.

Além dos direitos: cidadania e democracia

Como se pode ver até aqui, a perspectiva convencional do conceito de cidadania que emerge no pós-Segunda Guerra Mundial se caracteriza por três aspectos fundamentais: o direito de cada um a ter direitos e a usufruí-los; a relação consciente do indivíduo com a coletividade a que pertence por intermédio do Estado-nação e suas instituições; e, finalmente, a relação do indivíduo com instâncias de alcance coletivo, também por meio do mercado, ao exercer seu papel de consumidor para “construir projetos morais e de valor” 10. Estas constatações servem como provocação para uma reflexão crítica sobre a categoria cidadania no contexto de seu relacionamento com o consumo, que podemos realizar questionando o

10 É curioso notar que muitos desses elementos serão retomados pela perspectiva habermasiana, que utilizamos

como parte importante de nosso referencial teórico. Explorar as convergências e diferenças entre essas diferentes perspectivas (mas que focam os mesmo elementos) é um ponto interessante para estudos futuros.

confortável (mas simplista) referencial proposto acima por Arribas e Pina, que já traz em si mesmo a promessa de resgate do consumo como instrumento para a efetivação da cidadania.

Nesse sentido, cabe nos perguntarmos de que modo o consumo pode se transformar em instrumento de construção de projetos capazes de refletir os valores de quem consome. Por um lado, conforme o recorte que estabelecemos na seção anterior, mesmo frente às limitações e possibilidades do consumo como forma de expressão, assumimos isso pode sim ocorrer, mas que para serem efetivas as ações dos consumidores precisam estar de algum modo conectadas, articuladas em um movimento propositivo e deliberado que está ausente da definição de cidadania que ora questionamos. Por outro lado, há uma face não tão visível, mas também de fundamental relevância: o risco de atomização da sociedade e o desestímulo ou descrédito das formas de ação coletiva, que explicamos a seguir.

A expansão e ampliação dos direitos em que se expressa a cidadania como mencionado linhas atrás, é sem dúvida um fato a ser celebrado, pois se trata do reconhecimento das muitas peculiaridades da vida em sociedade e das necessidades de os indivíduos terem protegida a sua diversidade, pelo resguardo de seus mais variados e específicos direitos, também pela sua proteção contra as cada vez maiores e mais variadas ameaças que pesam sobre eles. São avanços importantes e positivos, sem dúvida.

Porém, essa evolução rumo à cada vez maior particularização dos direitos, especialmente os de 3ª e 4ª geração, tem suscitado também preocupações. Segundo Sorj (2004) e outros, como Beck (1997, 1999) e Bauman (1999, 2000), ocorreria em paralelo à expansão dos “direitos da cidadania”, como seu efeito colateral, uma espécie de esvaziamento das instâncias destinadas à explicitação, negociação e resolução dos naturais conflitos que emergem da vida em sociedade. Este processo surge associado ao enfraquecimento do Estado e das instituições políticas, e ao mesmo tempo em que se fortalece a “judicialização da cidadania” (SORJ, 2004). Esta perspectiva coloca sérias e fundadas questões sobre o que efetivamente se poderia esperar como ação no âmbito coletivo (e em prol da coletividade), de uma cidadania traduzida apenas como exercício de direitos particularistas, que terminam por ser apenas a expressão pública do poder individual ou de grupos específicos. Entendem estes autores que a visão normativa e generalizante da cidadania como exercício de direitos individuais ou apropriáveis individualmente tende a erodir o senso de coletivo. Mais ainda, entendem que essa situação tende a estabelecer um conflito inconciliável, visto que existem direitos individuais e coletivos intrinsecamente antagônicos (como entre o direito do fumante

de dispor de sua própria saúde e o direito coletivo dos que não desejam um ar contaminado pelo tabaco, para ficarmos num exemplo mais prosaico).

Este cenário, assim, coloca uma questão altamente relevante para nossa pesquisa: a aproximação um tanto conturbada entre cidadania e democracia. Se, à primeira vista e para o senso comum, tais conceitos podem parecer quase gêmeos, numa análise mais detalhada vê- se que surgem inquietações quanto aos efeitos que possa ter sobre a prática política real uma exacerbação da cidadania – se compreendida apenas como uma pletora cada vez mais ampla de direitos individualmente reclamáveis e apropriáveis, mesmo que derivados de direitos coletivos ou difusos (SORJ, 2004). Nesse jogo, revela-se fundamental o papel desempenhado pelas organizações e movimentos sociais atuantes na esfera pública, de forma mais ou menos próxima ao Estado.

Para estes e outros autores de perspectiva democrática, somente uma abordagem política da vida em sociedade – que pressupõe conflitos, negociações e concessões – seria capaz de dar conta de tais dilemas.

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Isso nos remete ao que dissemos anteriormente, quanto ao objeto de nossa busca, e ao recorte que adotamos aqui face à categoria cidadania: não buscamos um consumidor- cidadão qualquer (reduzido a uma cidadania que se resuma a causar intencionalmente algum impacto de âmbito coletivo), mas sim um consumidor-cidadão democrático, cuja cidadania represente também um avanço na construção da democracia, e não um passo a mais rumo à atomização da sociedade. É por esse motivo que, ao longo deste estudo, iremos nos referir muitas vezes não apenas à cidadania, mas sim ao binômio cidadania-democracia, numa expressão com a qual buscamos sintetizar as dimensões que temos em tela.

E com base nestes recortes sobre consumo, cidadania e consumidor-cidadão que passamos ao próximo capítulo, onde construímos o referencial teórico adotado em nossa análise do caso do Idec: a aproximação de cidadania e do consumo no marco da teoria crítica e da teoria democrática - com ênfase na perspectiva habermasiana de esfera pública e ação comunicativa - e enfocando os movimentos pelo “consumo cidadão” como parte dos Novos Movimentos Sociais.

4 - Sobre a aproximação entre consumo e cidadania numa

Benzer Belgeler