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2. MATERYAL VE YÖNTEM

2.2. Topaklar (Kümeler)

Destaca-se nas eleições de 1982, Maria Gracilda Lopes de Carvalho (PDS), que ocupou o cargo de vice-presidenta da Câmara de 1985 a 1987. Oriunda de uma família de trajetória política, porque seu avô Luiz Lopes dos Reis (foi o primeiro prefeito nomeado 14/12/1954 - 31/01/1955) e seu tio Rufino Lopes dos Reis, eleito para o mandato de 1955-1958. No início da entrevista, Maria Gracilda enfatizou que não pensava em se candidatar. Ela discorreu sobre sua entrada na cena política, seu trabalho nas comunidades carentes e, sobretudo, o seu trajeto como vereadora.

Para ser franca, eu nunca havia pensado em entrar na política. Fui sempre uma pessoa de estar com a comunidade carente, afim de prestar algum serviço, mas, não com a intenção política. Entrei para satisfação de alguns amigos e da família. Eu fui eleita pela primeira vez que me candidatei, devido à boa amizade que tinha com o povo. [...] não me sentia descriminada perante os meus colegas, nem também por parte da minha família, se deixei de fazer as coisas, muitas vezes era porque o governante não apoiava. Sendo a mulher cidadã, ela poderá muito bem contribuir no desenvolvimento da população do município em vários setores como: Educação, cultura e trabalho que beneficiem a todo município. O que me fez desistir da vida política foi algumas dificuldades encontradas e a falta de apoio por parte do governante.264

Maria Aparecida dos Reis – Cidoca – disputou três eleições para vice-prefeita: 1988, 1996, 2004 e uma para vereadora em 1992, todas como candidata pelo PT. Ela assinalou que o sujeito se interessa pelas questões políticas na medida que vai tomando posição, e que, às vezes, lutando pelas causas sociais "começa a fazer política sem perceber", como se pode acompanhar no seu pronunciamento abaixo.

À medida que a gente começa a se interessar pelas causas sociais, tomando posições, apoiando as lutas e causas, lutando para mudar a realidade em que vivemos, se começa a fazer

263 MODESTO, Maria Augusta Lima. Depoimento [fevereiro, 2010]. Araripina-PE. Entrevista concedida a autora.

264 CARVALHO, Maria Gracilda Lopes de. Depoimento [20 de dezembro, 2009]. Simões-PI. Entrevista concedida a autora.

política sem perceber. Como sempre gostei de fazer parte de movimentos organizados, senti a necessidade de fazer parte de um partido político, do qual tivesse um projeto e ideologia de acordo com os anseios do povo.265

No seu diálogo, Cidoca informou que as lutas e manifestações dos movimentos sociais favoreceram a entrada dela nas questões políticas no município de Simões-PI. Também relatou sua persistência em disputar processos eleitorais. O trecho abaixo referente ao percurso de militância da entrevistada, observa-se que sua forma de atuação foi diferenciada das demais mulheres do Araripe, porque ser militante do PT nessa época, trazia no seu engajamento um comprometimento maior com as causas e lutas sociais.

Iniciei apoiando as lutas e manifestações do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, mesmo sem ser Trabalhadora Rural. Depois fui Coordenadora do movimento de mulheres trabalhadoras rurais de Simões, além disso, fui membro da coordenação regional e estadual deste movimento. Em seguida filiei-me ao diretório municipal do partido dos trabalhadores de Simões, onde iniciei minha vida político-partidária. Candidatei- me quatro vezes por este partido e atualmente sou presidente do diretório municipal e assessora técnica do gabinete do governador na região. 266

Maria de Jesus de Araújo Reis – Maria Lopes (PT) candidatou-se duas vezes a vereadora, nos processos eleitorais de 1988 e 1992. Expressou que suas militâncias nos movimentos sociais da Comissão Pastoral da Terra (CPT), Comunidades Eclesiais de Bases (CEB‟s) e do Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR)serviram de fundamentos para sua inserção na política-partidária.

Esses antecedentes de atuação de Maria Lopes em movimentos da sociedade civil, articulam-se com a conjuntura da década de 1980, vivenciada por muitos militantes. Nesse sentido, o exercício cotidiano de Maria Lopes nos movimentos proporcionou-lhe acúmulos por meio da "[...] experiência que os excluídos adquirem de sua presença no campo social e político, de interesses e vontades, de direitos e práticas que vão formando uma história, pois seu conjunto lhes 'dá a dignidade de um acontecimento histórico'."267. O depoimento de Maria Lopes mostrou sua atuação nos movimentos sociais.

265 REIS, Maria Aparecida dos (Cidoca). Depoimento [setembro, 2004]. Simões-PI. Entrevista concedida a autora.

266 Ibidem.

na diocese e também eu fazia parte das CEB's e vi que dentro dessa luta, eu tinha que ir mais na frente e fazer parte do conjunto social e democrático do nosso município, e também que pudesse chegar mais, até o estado se fosse possível, porque a gente nunca pensa só [...] quer seguir em frente. Eu era representante das CEB's da nossa área pastoral, que pertencia à paróquia de Jaicós-PI, Simões-PI nesse período era área pastoral. E, na CPT eu fazia parte do Conselho Fiscal e desse trabalho eu despertei que já a gente tinha que chegar ao partido político para que a luta fosse mais ampla e que levasse o conhecimento do valor da pessoa que luta pela vida. Uma das lutas se deu pela lei que favorece os pequenos.268 Maria Lopes explicou sua atuação como missionária nas Comunidades Eclesiais de Base (CEB‟s) e nos outros movimentos sociais, além de sua articulação com padre João (Pároco que atendia a cidade de Simões-PI) e com Dom Augusto Alves da Rocha269, na época, Bispo da Diocese de Picos-PI. Destaca-se na entrevista a mobilização no projeto de alfabetização de jovens e adultos. A narradora continua seu relato nas atividades como militante das organizações sociais.

Era um trabalho de missão com padre João numa região de pessoas muito carente e nesse trabalho a gente viu também a necessidade da Igreja contribuir com aquilo que ela pudesse ajudar, e para isso Dom Augusto, é uma pessoa muito gentil, tomou conhecimento da carência do povo, e ele não deixava as pessoas passarem por momentos difíceis. Vinham aquelas contribuições, ajuda de outros estados e até de outros países. Ele contribuía com cestas básicas e vinha a nossa cidade, e nas homílias dava recado as autoridades despertarem. E, aí no ano de 1993, conseguimos FRENTE DE SERVIÇO, para os municípios da nossa região da Microrregião de Picos, e na qual eu fazia parte também da Comissão, e quando começamos

268 REIS, Maria de Jesus de Araújo (Maria Lopes). Depoimento [julho, 2010]. Simões-PI. Entrevista concedida a autora.

269 Dom Augusto Alves da Rocha nasceu em Aparecida (atual município de Bertolinía-PI) em 17 de Julho de 1933. Ainda muito jovem decidiu seguir a carreira como vocacionado religioso, teve passagem pelos seminários do Piauí e Ceará. Estudou Filosofia na Pontifícia Universidade Gregoriana, Roma/Itália (1953-1956) e teologia na mesma universidade (1956-1960), fez outros cursos no Instituto Superior de Pastoral Litúrgica – ISPAL (1967). Sua ordenação Presbiteral aconteceu em 21/02/1960 na cidade de Roma-Itália. Nesse país, o então Padre Augusto foi pároco da Igreja de São Marcelo. Com a instalação da Diocese de Picos-PI, em 21 de Setembro de 1975, tornou-se o primeiro Bispo dessa Diocese, permanecendo até o ano de 2001. Como Bispo de Picos- PI foi vice-presidente do Regional Nordeste IV, Membro do Comitê Diretor de "Pax Christi International", Membro do Conselho Diretor do Movimento de Educação de Base (MEB) e Presidente dessa mesma instituição, Presidente da Comissão Pastoral da Terra (CPT), Presidente do Regional Nordeste IV e Presidente do MEB. Permaneceu na Diocese de Oeiras-Floriano entre os anos de 2001 a 2010, ano no qual pediu renúncia da Diocese de Floriano, após completar 75 anos, conforme prescreve o cânon 401 parágrafo 1º do Código de Direito Canônico. Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) – Regional Nordeste 4. Bispo: Dom Augusto Alves da Rocha. 03/03/2010. Disponível em: <http://www.cnbbne4.org.br/?system=News&eid=24>. Acesso em: 13/06/2011.

fazer o alistamento, eu me preocupei muito, com os adolescentes e jovens, tinha muito gente jovem que não sabia assinar o seu próprio nome. Eu aí anotando aquela quantidade de jovens que ia assinando com o polegar. Eu anotei quantas pessoas assinava com o polegar e levei ao conhecimento da Diocese, e conseguimos graças a Deus, cinco salas de aulas de alfabetização, e hoje tem deles que já estão formado graças a Deus.270

Maria Lopes escolheu o Partido dos Trabalhadores (PT) para se filiar e exercer sua luta em prol dos próprios trabalhadores e da sociedade simonense. Descreveu suas experiências partidárias nesse momento político e os medos que alguns militantes tinham, ambos expostos em seu depoimento pelas reticências. Sua luta favoreceu a organização do Movimento dos Sem Terra (MST) no Piauí, muitos dos militantes da base política de Maria Lopes foram responsáveis pela construção do assentamento Marrecas271 no município de São João do Piauí – primeira ocupação do sem terra no Estado do Piauí –, o que se verifica no depoimento da narradora.

Me filiei ao PT e fui militante para filiar outras pessoas. Era um grupo pequeno, não era um grupo tão grande não, era um grupo pequeno de pessoas que representava as comunidades, com muito medo de ... teve a possibilidade de ... O trabalho que fizemos de base, teve pessoas que perdeu o medo, quando começamos a análise de conjuntura. O trabalho que tínhamos na diocese, na paróquia de análise de conjuntura, fui perdendo medo de entrar na política e agente formou um grupo assim que hoje estão no SEM TERRA (MST).272

Na legislatura municipal de 1997-2000, a vereadora Marlene Morais, que assumiu como 2ª secretária da Câmara (1997-1998) e 1ª secretária (1999-2000) respectivamente, relatou sobre as oportunidades que teve de participar como dirigente da comunidade católica de Salinas II – na zona rural – onde mora

270 REIS, Maria de Jesus de Araújo (Maria Lopes). Depoimento [julho, 2010]. Simões-PI. Entrevista concedida a autora.

271 "[...] no início de junho de 1989, após quase cinco anos de intenso trabalho de conscientização, o Movimento realizou sua primeira ocupação em solo piauiense. No dia 10 daquele mês, cento e vinte famílias vindas dos municípios de Picos, Paulistana, Padre Marcos, Pio IX, Dom Expedito Lopes,

Itainópolis, Oeiras e Simões, entraram na Fazenda Marrecas, uma área de 10.504 hectares de terra,

situada no município de São João do Piauí. Não houve despejo e o assentamento foi negociado. Essa ação marcou o nascimento do MST no Piauí". SILVA, Gisvaldo Oliveira da. A questão agrária

sob a ótica da juventude camponesa: a experiência do assentamento Marrecas (1989-1996).

Monografia (Graduação em Licenciatura Plena em História) – Universidade Estadual do Piauí (UESPI), Teresina, 2009. p.35-36.

272 REIS, Maria de Jesus de Araújo (Maria Lopes). Depoimento [julho, 2010]. Simões-PI. Entrevista concedida a autora.

comunidade Salinas II e no Programa de Combate a Pobreza Rural (PCPR), atuando também como "cabo eleitoral" – liderança política – na região de Bela Vista. A depoente declarou que o seu engajamento nos movimentos sociais lhe proporcionou condições e acúmulo para se candidatar e desempenhar um mandato eletivo.

O que me despertou, eu nem achava que seria o momento naquela época, mas eu já vinha me preparando para isso, eu trabalhava com comunidades, como dirigente de comunidade, também participava da Associação de Trabalhadores Rurais, com também participava e participo até hoje do PCPR – Programa de Combate a Pobreza Rural, que é o órgão que trabalha com trabalhadores rurais e eu via ali a necessidade e o interesse de alguém na nossa região – Curralinho (povoado de Simões), principalmente a região de Bela Vista, que não tinha um político por ali e sim eu que já trabalhava como "cabo eleitoral" há alguns anos, e tinha esse apoio pelos políticos aqui de Simões, pois já vinha trabalhando, aí quando foi para a campanha eleitoral de 1996, fui convocada pelo prefeito.273 Com efeito, as experiências de Aluízio Francisco de Morais (Lício Morais) – seu tio, que exerceu os mandatos de vice-prefeito por três momentos (1989- 1992,1993-1996 e 2000-2004) – e o reconhecimento de seus familiares por sua liderança motivaram Marlene Morais a inserir-se nos órgãos de representação política em Simões-PI.

[...] E com isso tanto meus primos, um tio que já era candidato, já tinha sido candidato por algumas vezes, e não tinha ninguém para apresentar e me procuraram, porque achavam que na família a pessoa ideal seria eu, porque já tinha um grande envolvimento com a comunidade há algum tempo, e eu ainda achava que não era o momento que eu não estava preparada, mas ai chegaram os primos, como foi o caso, o Neto de Lício, depois veio o Adão meu irmão e disseram: – Não, o momento é este, você já está pronta, nós conhecemos o trabalho que você realiza dentro da comunidade e a pessoa ideal é você. Então, chegou a hora. [...] Eu tinha grandes amizades, um grande trabalho feito, as pessoas que me apoiavam também tinham, eu acho que não tive tantas dificuldades [...].274

Terezinha de Jesus Carvalho e Sousa – Terezinha, participou duas vezes de processos eleitorais: a primeira como candidata a vereadora pelo PT em 1992, e a segunda como vice-prefeita pelo PFL em 1996, sendo nesta última que obteve êxito.

273 MORAIS, Maria Marlene de. Depoimento [julho, 2010]. Simões-PI. Entrevista concedida a autora. 274 Ibidem.

Ao ser entrevistada falou das fases de sua vida política pelas quais passou até chegar a se candidatar, e descreveu com satisfação sua militância em defesa do bem-estar da comunidade. Outro fator de acesso da educadora aos processos eleitorais foi o incentivo familiar:

Sempre gostei de desafios. Fui militante de algumas lutas populares pela água na torneira (AGESPISA) abastecimento de energia elétrica (CEPISA), pela educação-movimento comunitário com todo os segmentos da sociedade para trazer para Simões o Ensino Fundamental – através da Campanha Nacional de Escolas da Comunidade – CNEC. Participei, por várias décadas, de pastorais da Igreja, Associações de Moradores, ocupei postos de chefia na educação do município, onde procurei assumir posturas a favor do bem-estar coletivo. [...] Até porque essa vocação e interesse pela política já foi motivada por meu avô materno – primeiro prefeito dessa cidade. Em seguida, meu tio, primos também se sobressaíram na câmara de vereadores etc.275

Maria das Graças Veloso Sousa (PFL), popularmente conhecida como Graça Veloso, disputou duas vezes o legislativo municipal de Simões-PI nas eleições de 2000 e 2004, obtendo êxito na primeira eleição. Ao ser entrevistada, a parlamentar do PFL relatou sobre as vias que colaboraram para sua carreira política, em virtude de que ela não tinha antecedentes políticos familiares, seu ingresso aconteceu por meio dos trabalhos e serviços prestados na comunidade.

Pelo fato de um trabalho prestado na comunidade por algum tempo, e conhecendo a realidade de um povo pobre, [...]. Foram várias etapas, primeiro venho de família simples, mas sempre carrego comigo o respeito pela pessoa humana. Muitos anos foram meu trabalho voluntário na comunidade, na igreja em várias pastorais, desde 1991 trabalho como Agente de Saúde e também como professora. Na vida política me candidatei pela primeira vez e fui eleita.276

Maria Clenilda de Carvalho Assunção, conhecida na região por Maria Luiza, passou pelos partidos PSDB e PSB, candidatou-se pela primeira vez em 2000, sendo reeleita mais duas vezes nos pleitos eleitorais de 2004 e 2008. Na entrevista,

275 SOUZA, Teresinha de Jesus Carvalho e. Depoimento [julho, 2010]. Simões-PI. Entrevista concedida a autora. Luiz Lopes dos Reis, avô materno de Terezinha, foi o primeiro prefeito nomeado, logo após seu tio Rufino Lopes chegou a ser o segundo prefeito e Maria Gracilda, sua prima, foi uma das primeiras vereadoras da cidade de Simões-PI.

276 SOUSA, Maria das Graças Veloso. Depoimento [setembro, 2004]. Simões-PI. Entrevista concedida a autora.

resistência foi um dos aspectos para o sucesso de sua carreira política:

Foi o desafio e desejo de defender os interesses da comunidade, organizando ações acessíveis e propondo atividades conjuntas que até antes de ser vereadora não existiam. Essas atividades tinham como objetivo viabilizar a participação efetiva da mulher na política partidária social do nosso município, fazendo assim uma democracia igualitária que até então não era acessível à comunidade. Na época da primeira campanha para vereadora em 2000, eu não tinha nem o botijão e nem gasolina para por na moto. Mas venci e fui aprovada pelo povo, onde 04 anos de dedicação a este povo valeu a pena, pois meu trabalho foi reconhecido e fui eleita novamente e em primeiro lugar na eleição de 2004.277

No próximo item, trata-se dos preconceitos e exclusões que as atrizes políticas do Araripe encontraram nas campanhas eleitorais. Pretende-se observar de que forma suas famílias reagiram diante de suas candidaturas para o Legislativo e o Executivo. Dentre todo esse contexto político eleitoral em que se envolveram as mulheres do Araripe, uma pergunta que não se cala: foi uma questão de gênero?

Benzer Belgeler