2. MATERYAL VE YÖNTEM
2.3. Simülasyon Yöntemleri
A grosso modo, a representação, isto é, a sub-representação das mulheres em eleições no Brasil tem sido bastante problematizada no campo acadêmico, nas agremiações partidárias e nos movimentos sociais. Nessa abordagem, é pertinente comprovar que a democracia, dita liberal, não concretizou seu princípio fundamental – o de garantir a representação de todos os segmentos sociais nos espaços de poder. De tal forma, constata-se que essa "sub-representação das mulheres na esfera política é hoje entendida como um problema. Mas as explicações para essa discrepância entre o universo dos eleitores e dos eleitos ou dos que ocupam outras posições que lhes conferem poder variam"278. Nesse aspecto, muitas dessas variações
277 ASSUNÇÃO, Maria Clenilda de Carvalho (Maria Luiza). Depoimento [setembro, 2004]. Simões-PI. Entrevista concedida a autora.
278 MIGUEL, Luis Felipe; BIROLI, Flávia. Caleidoscópio convexo: mulheres, política e mídia. São Paulo: Editora UNESP, 2011. p.75.
[...] partem de diferentes compreensões das relações de gênero e dos aspectos dessas relações, que constituem barreiras à participação política. Mas não se trata apenas de uma questão de ênfase. Pode-se considerar que as posições teóricas e políticas, quanto ao problema mais amplo do limites das democracias concorrenciais contemporâneas, e do ideário que está em sua base, são divisores entre as abordagens. As explicações respondem de maneiras diferentes à constatação de que as democracias liberais não cumprem suas promessas históricas de inclusão universal e à constatação de que existem, nessas democracias, padrões de concentração de poder que reproduzem. Partindo dessas constatações, as explicações dadas a um fenômeno específico, a sub- representação feminina, dependem do entendimento do que deve ser alvo de crítica e objeto de transformações nessas democracias restritas.279
Ao analisar os processos eleitorais na região do Araripe280, particularmente nos municípios de Araripina-PE e Simões-PI, constata-se que o princípio da inclusão universal não se materializou nessa espacialidade, uma vez que através das narrativas das mulheres percebe-se uma variedade de formas de preconceitos e exclusões.
Sabe-se que Francisca de Assis Arruda Gomes – Assisinha – candidata a vereadora nas eleições de 1992, no município de Araripina-PE, ocupou o cargo de Secretária de Educação de Araripina-PE (1989-1992). Em sua narrativa expôs que a participação feminina na política perpassa pelas questões culturais. Parte da sociedade não dá credibilidade às mulheres quando essas são dirigentes de um país, estado, município ou quando elas ocupam cadeiras no Parlamento. Em síntese, pelo depoimento de Assisinha, constata-se preconceito e exclusão por uma grande maioria das pessoas, na seguinte citação "[...] lugar de mulher é na cozinha," e por último afirmou "eu acho que é isso aí, é cultural mesmo". Assim ela expressou:
[...] embora todo mundo sabe que é mais difícil uma mulher corrupta na política, você escuta muito menos, mais são os homens que já são mais acostumados a se envolverem em corrupção. E, em cidades pequenas, é mais difícil eles
279 MIGUEL, Luis Felipe; BIROLI, Flávia. Op. cit., 2011. p.75.
280 Já foi explicado no capítulo II, os preconceitos sofridos pelas entrevistadas: Vera Lúcia dos Santos Araujo (PMDB), candidata a vereadora nos processos eleitorais de 1982 e 1988; e Maria Darticlea A. Lima Modesto, candidata a vereadora (PRN e PSB), nos anos 1992 e 1996, no município de Araripina-PE. Em Simões-PI: Maria Aparecida dos Reis – Cidoca (PT), candidata a vice-prefeita (1988, 1996, 2004) e a vereadora (1992); e Maria Clenilda de Carvalho Assunção – Maria Luiza – vereadora pelo PSDB (mandato 2001-2004, 2005-2008 e 2009-2012), explicaram que sofreram preconceitos. Porém, nesse mesmo município, os depoimentos das candidatas: Maria Gracilda Lopes de Carvalho (vereadora/PDS, mandado de 1983-1988) e Terezinha Carvalho (vereadora/PT em 1992 e vice-prefeita/PFL para mandato 1997-2000) não apontaram preconceito e exclusão.
cultural, até pouco tempo, você sabe, a mulher nem votava, é cultural, e muitas ainda acham que a mulher tem que estar dentro de casa, ser doméstica, fazer almoço, janta, lanche só para servir o homem. Nós ainda estamos aqui, principalmente no interior, nós temos ainda muito essa cultura, que lugar de mulher é na cozinha, eu acho que é isso aí, é cultural mesmo.281
Assisinha enfatizou que, muitas vezes, era excluída da disputa eleitoral, ou seja, em determinadas situações sua campanha teve momentos de agressividade pelo fato dos próprios correligionários arrancarem seu material de propaganda. Ela relatou ainda que, nos comícios, quase não conseguia falar, e quando falava, seu discurso era, às vezes, interrompido, com os colegas candidatos pedindo para parar. Ela resistia a todos os entraves e conseguia, segundo a mesma, fazer um bom pronunciamento, conforme a expressão usada por ela – "modesta parte eu escatitava".
Nos comícios quase não conseguia falar, quando eu conseguia falar, era muito pouco, porque os colegas candidatos ficavam pedindo para parar, e quando eu falava "modesta parte eu escatitava". Eu lembro quando nós chegamos em Nascente (distrito de Araripina), eu voltei sem nenhuma bandeira, que um outro candidato vereador da minha coligação mandou, pagou para algumas pessoas levar as bandeiras da minha campanha, não ficou uma, e era colega do mesmo partido. Tinha as regiões que você podia falar, em todas as regiões eu tinha algum voto, mas não podia fazer discurso.282
Por outro lado, na mesma campanha eleitoral de 1992, Assisinha obteve apoio de seus familiares em sua candidatura. Esse apoio se deu pelo fato, também, de ser sobrinha de Zuca Jacó – vereador por muitos mandatos em Araripina-PE. A manifestação repentina de um problema de saúde do vereador, alterou significativamente o desempenho na campanha eleitoral da candidata. O que se percebe no relato a seguir.
[...] Felizmente eu tinha um tio que foi vereador presidente da Câmara várias vezes, próximo a eleição ele adoeceu, que era o tio Zuca, Zuca Jacó, foi vereador muito tempo, presidente de Câmara por muitos anos. E infelizmente eu ainda perdi essa ajuda valiosíssima, porque ele adoeceu ficou sem poder andar, teve um AVC (acidente vascular cerebral).283
281 GOMES, Francisca de Assis Arruda (Assisinha). Depoimento [24 de julho, 2010]. Araripina-PE. Entrevista concedida a autora.
282 Ibidem. 283 Ibidem.
Nas eleições de 1996, a candidata do PDT, Silvania Maria expressou que muitos colegas, candidatos a vereador de sua coligação, tentavam excluí-la do processo eleitoral. A Serra do Marinheiro (região considerada "da Silvania", por ser o local onde a mesma tinha prestado serviços comunitários) seria uma região prioritária para sua candidatura, entretanto, segundo a entrevistada, o candidato a prefeito da coligação enfatizou que, nessa região, todos candidatos poderiam pedir votos. Apesar de todas as formas de exclusão, a candidata demonstrou muita bravura em continuar na disputa de uma vaga na Câmara Municipal de Araripina, como se confere no depoimento.
Quando fomos fazer um comício na Serra e eles deveriam ter dito – aqui é sua região –, lá era minha região, região da Silvania, pois eu morava lá, trabalhava, tinha um serviço prestado lá na Serra, Serra do Marinheiro, só que chegando lá ele disse que lá era para todos os candidatos, todo mundo tinha muito voto lá, aí eu fiquei muito chateada com isso, mas eu fui até o final da campanha, porque eu não sou mulher de desistir de nada quando eu pego uma coisa, o sangue pode dá no meio da canela, mas eu estou dentro.284
No tocante à questão financeira da sua coligação, a candidata Silvania se sentiu banida outra vez, porque a distribuição dos auxílios econômicos foram para aqueles candidatos a uma vaga no Legislativo Municipal, que tinham maior probabilidade de serem eleitos. Conforme o relato seguinte:
E, eu descobri também que o partido mandou dinheiro para os candidatos, só que para mim nunca chegou, nem um centavo. É tanto que, quando foi para fazer as fotos da candidatura, para mim também veio menos dinheiro do que para os outros. Porque disseram que o partido não tinha dinheiro, não sei o que, [...] essas coisas assim, mas eu descobri que o partido havia mandado dinheiro e que eles dividiram com aqueles que eles achavam que iam ser eleitos e não com aqueles que estavam lá só para cumprirem com a obrigação do Tribunal [...] É muito difícil você entrar numa campanha sem ter condições financeiras. Querendo ou não o que pesa é a condição financeira.285
284 GOMES, Silvania Maria de Oliveira. Depoimento [21 de julho, 2010]. Araripina-PE. Entrevista concedida a autora.
Silvania comenta que poucas vezes recebeu apoio de seus familiares, em geral, sua família apresentava resistência em apoiá-la, como se observa no depoimento,
A veia política é de muito tempo, meu avô foi "cabo eleitoral" por muito tempo dos antigos políticos de Araripina, minha mãe briga comigo porque eu vivo em cima dos palanques, mas eu descobri que ela era uma "caçadora de conversa" só vivia nos palanques também e não quer que eu fique. [...] referente à minha candidatura nas eleições de 1996, não recebi apoio de minha família. Às vezes eu dava umas voltinhas com papai, outras vezes com meu irmão, mas era assim coisinha insignificante. [...] Muitos familiares tinham resistência em apoiar minha candidatura. A resistência era porque eles achavam que não ganharia, não seria eleita e eu fui só pelo fato de ir mesmo. Aí quando eu vi que eu não tinha [...], eu não pedia votos para mim praticamente, aí eu passei andar (a fazer campanha).287
Maria Augusta Lima Modesto (PPS e PP) candidata a vereadora na cidade de Araripina-PE, nas eleições de 2000 e 2004, expôs que era observada até em sua vida privada e afetiva. Cabe salientar, que quando as mulheres ingressam na política partidária são, efetivamente, vigiadas288. As pessoas e a mídia tentam estigmatizar a imagem das mulheres que ocupam posições parlamentares ou cargos no Executivo. A citação auxilia na compreensão do depoimento da Maria Augusta:
há muito mais atenção ao estado civil e às relações afetivas das mulheres na política que dos homens, bem como a sua aparência física indumentária. Uma análise das matérias jornalísticas das revistas semanais de informação sobre mulheres que ocuparam ministérios, disponibilizadas pelo
clipping da Câmara dos Deputados, mostra que cerca de um
terço faz referência ao corpo, às roupas e/ou à vida privada, independentemente do período consultado. O foco na aparência envolvem julgamentos, ativa pressupostos sobre o comportamento 'adequado' e serve como trampolim privilegiado para apreciações sobre sua personalidade e suas ações.289
Para Maria Augusta sua vida é um "livro aberto", o fato dela ser uma mulher que ocupa um espaço no Legislativo araripinense levou muitas pessoas a fazerem
286 Expressão cabo eleitoral é muito usada nas eleições majoritárias ou proporcionais no Brasil, significa "indivíduo que procura obter votos ou eleitores para um candidato em troca de favores políticos". FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo dicionário Aurélio da língua portuguesa. 3ª ed. Curitiba: Positivo, 2004.
287 GOMES, Silvania Maria de Oliveira. Depoimento [21 de julho, 2010]. Araripina-PE. Entrevista concedida a autora.
288 MIGUEL, Luis Felipe; BIROLI, Flávia. Op. cit., 2011. 289 Ibidem. p.170.
perguntas do tipo: "Ah, fulana tá namorando, tá namorando muito, né? A candidata tá namorando muito, a vereadora tá...". Ela expressou que, mesmo com essa carga de preconceito embutida nas falas das pessoas, conseguiu superar todas essas adversidades e, aos poucos, foi conquistando espaço na política do município. Pela sua maneira de conduzir o mandato de vereadora, garantiu uma certa projeção, porque ela pensa em futuramente ser candidata a prefeita, na narrativa seguinte ela comentou:
E a gente fica exposta a tudo e a vida passa a ser um livro aberto. E na verdade também eu fui conquistando durante esses anos todos uma certa liberdade as pessoas começaram a... Existe o lado machista, diziam: – Ah fulana tá namorando, tá namorando muito, né? A candidata tá namorando muito, a vereadora tá... E não pode viver, não pode nem viver, mas eu conquistei isso, as pessoas, e hoje o povo me respeita, entendeu? Por isso que eu acho que o importante mesmo é você ir conquistando seu espaço aos poucos, porque um dia eu tenho pretensões de me candidatar a prefeita, agora isso eu estou conquistando aos poucos, porque para mulher, aí o lado machista vai gritar mais alto. – Ah, ela é mulher será que vai dá conta? Então é isso.290
Maria de Jesus de Araújo Reis – Maria Lopes (PT) foi candidata nas eleições de 1988 e 1992, no município de Simões-PI. A narradora apontou que, de forma geral, a sociedade simonense da época achava que a mulher, ao ser candidata, se "entregaria para o mundo e esqueceria da família"291. Desse modo, percebe-se nesse tipo de pensamento da maioria das pessoas o preconceito e a exclusão à sua candidatura.
Naquela época olhavam para a mulher que saía para ser candidata e fazer campanha, achavam que essa mulher queria se entregar para o mundo e esquecer até da família. Porque eles não viam a gente cuidar do lar, do trabalho, da comunidade, não viam isso, não viam que a mulher... Achavam que a mulher não tinha base (estrutura). Assim, como é que
290 MODESTO, Maria Augusta Lima. Depoimento [fevereiro, 2010]. Araripina-PE. Entrevista concedida a autora.
291 "Mesmo quando a presença das mulheres políticas se amplia, na política e no noticiário, a vida conjugal, a relação com os filhos e com a rotina doméstica está em pauta, novamente reforçando os estereótipos de gênero. Um dos desdobramentos dessa situação desigual é que atenção entre vida pública e vida doméstica faz parte da caracterização das mulheres que atuam na política, enquanto parece ser uma questão ausente ou, quando muito lateral para caracterização das carreiras e para discussão das chances de êxito dos homens. Afinal, essa política é coisa de homem, para voltar o texto de Veja, isto é, configurou-se historicamente como território masculino, produzindo a valorização de determinados comportamentos e rotinas que, como no mundo do trabalho, pressupõem que mulheres estarão em casa gerenciando a vida cotidiana e cuidando de filhos e outros familiares que exijam maior atenção". MIGUEL, Luis Felipe; BIROLI, Flávia. Op. cit., 2011. p.176.
política? Achavam que era uma coisa sem futuro. Eu mesma nunca achei que fosse sem futuro, eu acho que foi um avanço que nós tivemos pela coragem que a mulher não só eu, outras e outras mulheres tiveram de romper com esse sistema de "ditadura", porque ainda era o sistema de ditadura, não é?292 Em relação aos apoios familiares a sua candidatura, Maria Lopes (PT) explicou que teve muita resistência no seu núcleo familiar. Essa resistência se relacionava porque seus parentes – tios, tias, primos e primas – eram ligados a outras agremiações partidárias, daí a dificuldade em apoiá-la, como a princípio João Lopes – seu esposo – que demorou a aceitar e apoiar a sua candidatura.
Apesar da família (tios, tias, primos e primas) serem de outras alas partidárias e achavam que fazia vergonha a mulher se destacar assim, minha família no início muitos votaram contra mim, mas isso me levou a amar mais a política, quando eu vi que o que eu conhecia eles não estavam conhecendo, eles não estavam certos e na segunda candidatura já obtive bem mais votos. E, eu percebi que alguém da minha família já me ajudou, mas por essa coragem que eu tive de levar em frente. [...] No início, foi um pouco difícil meu esposo aceitar minha candidatura. Primeiro ele é muito tímido, depois amigo de pessoas políticas de outros partidos e ele sentia que aquilo para ele ia fechar um pouco algumas coisas. Eu fui funcionária da Prefeitura Municipal de Simões, e eu não me apeguei com a carteira assinada de jeito nenhum, mas, eu sentia que ele tinha aquele apego ainda, e achava que eu devia esperar mais um tempo para lançar minha candidatura, estava muito cedo, que eu não devia enfrentar aquele sistema político, que as pessoas estavam se afastando até de mim com medo. Porém, eu dizia para ele assim: – a gente não pode fazer a vontade das pessoas, a gente tem que fazer a vontade de Deus, e eu estou aqui para fazer a vontade de Deus, a vontade de Deus é mais importante e vai dar tudo certo. Graças a Deus ele foi se conscientizando, depois ficou do meu lado.293
Maria Marlene de Morais candidatou-se a vereadora pelo PFL, em Simões-PI, nas eleições 1996. Segundo a entrevistada, alguns cabos eleitorais tentaram inviabilizar sua eleição. Entretanto sua família não foi resistente em aceitar sua candidatura.
Os "cabos eleitorais" tentaram me excluir da campanha eleitoral. Você sabe, eles tem seus interesses, alguns deles há algum tempo já tinham seus vereadores, porque recebiam
292 REIS, Maria de Jesus de Araújo (Maria Lopes). Depoimento [julho, 2010]. Simões-PI. Entrevista concedida a autora.
recursos financeiros para apoiá-los. Por outro lado, eu era uma das candidatas mais pobres da época, então eu não tinha muita a parte financeira para está dando a "cabos eleitorais" para eles estarem passando para outras pessoas e isso a gente sabe, que a maioria hoje desses "cabos eleitorais" tem seus interesses. E eu não tinha isso, de em tal região colocar um "cabo eleitoral" para trabalhar para mim. Eu não tinha, onde na época tinha outras pessoas como posso citar o irmão do prefeito, que era candidato a vereador também, ele no caso tinha uma boa condição financeira e colocou "cabo eleitoral" lá na região. Aí teve resistência por parte de umas duas pessoas nessa região, mas graças a Deus nessa região mesmo eu sai com 80% (oitenta por cento ) dos votos.
[...] também não tive nenhum resistência, nem por parte de marido, nem de filhos, de nenhuma pessoa da família, todo mundo aceitou e quero dizer que, durante este tempo tive um grande apoio da família, de toda a família. Assim, foi difícil ser eleita, pois a gente sabe que é uma luta grande conquistar votos. Hoje na política é preciso ter estrutura financeira, por mais que você já tenha um trabalho prestado, agente precisa da parte financeira, mais até isso não tive dificuldades. Porque contei com muitas ajudas financeiras da minha família, todos ajudaram, irmãos, primos, alguns tios, e não foi tão difícil chegar lá não.294
A vereadora Maria das Graças Veloso Sousa – Graças Veloso (PFL), eleita para o mandato legislativo de 2001 a 2004 em Simões-PI, expôs que seus projetos na Câmara Municipal, às vezes, eram aprovados, contudo, poucos projetos foram implementados na prática, o preconceito estava relacionado ao fato dela ser mulher.
Os projetos dentro da casa são aprovados, mas poucos são executados pelo fato de ser da mulher. [...] o homem tem muito medo de ser passado para trás, em relação à sociedade, ainda há um preconceito, mas acredito que aos poucos está se quebrando este preconceito.295
Efetivamente, para tratar de preconceitos e exclusões, sofridos pelas mulheres em atuação política no Araripe, é importante fundamentar, teoricamente, à luz das abordagens sobre gênero. Em tempos de globalização é necessário posicionar pela democracia ampla e irrestrita, na qual os estudos de gêneros articulem o global com o local. Para isso, torna-se imprescindível analisar que as discussões relacionadas com o gênero levem em consideração "[...] a recepção das
294 MORAIS, Maria Marlene de. Depoimento [julho, 2010]. Simões-PI. Entrevista concedida a autora. 295 SOUSA, Maria das Graças Veloso. Depoimento [setembro, 2004]. Simões-PI. Entrevista concedida a autora.
conhecimento das contradições da sociedade brasileira.
Desse modo, com a ampliação de novos objetos na historiografia, a temática sobre gênero ganhou destaque. Com os questionamentos ao sujeito universal297 dos sistemas de análises totalizantes, tivemos passos importantes para valorização de uma experiência social feminina na historiografia, ou seja, isto possibilitou a expansão dos limites da história para esse grupo, antes marginalizado, quando não excluído, o que fez emergir a preocupação com as diferenças também do binômio masculino/feminino. O discurso pluralista na abordagem de gênero tem contribuído para uma revisão na epistemologia histórica, uma vez que adota interdisciplinaridade para compreender a complexidade do objeto humano.
Nesse sentido, discute-se, a partir da noção "gênero", a inserção e atuação de mulheres nas eleições municipais das cidades: Araripina-PE e Simões-PI. Importa salientar que entende-se "gênero" como "campo de possibilidades", isto é, como uma noção histórica capaz de contribuir no desenvolvimento da pesquisa e não como modelo explicativo, que opõe masculino e feminino, ou qualquer outra oposição mecânica e maniqueísta dos processos históricos vividos.