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A temática da água é bastante relevante na organização dos camponeses na região semiárida no século XIX. As lutas pelo acesso e posse sobre a terra estiveram vinculadas à descentralização do poder sobre as águas, uma vez que o campo dos conflitos que permeou essas lutas esteve marcado pela intervenção pública e privada que funcionaram no sentido de fortalecer o poder das oligarquias nordestinas e o conseqüente controle privado sobre esses recursos.

Segundo Silvestre (2003), no Brasil agrário os negócios privados eram mantidos através do controle conjunto da terra e da água, uma vez que a

dominação da água esteve vinculada à extensão do latifúndio agroexportador.

O controle privado da água e da terra fazia parte da política agrícola, não havendo separação entre estes. Portanto, detinha o domínio das águas aqueles que, portadores ou não do título da terra, eram capazes de garantir sobre ela o poder de mando.

No século XIX, as lutas camponesas nordestinas e suas interferências na esfera pública estiveram marcadas por experiências isoladas e dispersas pelos sertões, pois o Estado agia profundamente vinculado aos interesses privados em atendimento às exigências do mercado econômico

internacional, das elites do Centro-Sul do país e das nascentes oligarquias nordestinas. Segundo Alvarez, Dagnino e Escobar (2000), a esfera política do Estado se fortalece como um poder político e econômico das elites latifundiárias nesse período da história. Os movimentos de contestação que enfrentaram o Estado e os interesses privados foram esmagados violentamente.

As ações camponesas, marcadas por uma forte religiosidade e sentimento contestatório, formalizaram reações de inconformismo contra a cultura política dominante. (ALVAREZ; DAGNINO; ESCOBAR, 2000). Em conseqüência, essas ações foram capazes de organizar núcleos de resistência que, por um determinado período, apresentaram-se, guardadas as devidas proporções e singularidades de cada uma, como espaços de realização dos estilos próprios de vida dos camponeses, que “[...] lutavam por uma possibilidade diferente de organizar as relações pessoais e interpessoais.” (MOREIRA, 2006, p. 172). Como exemplos dessas experiências, podemos citar Monte Roedor em Alagoas (1817-1820), Pedra Bonita (1828-1837) e Canudos (1876-1897) na Bahia e o Caldeirão de Juazeiro do Norte, no Ceará (1894- 1937).

O catolicismo popular é muito presente no semiárido nordestino, sendo um fator que, dentre tantos outros, ajudou a construir as lutas camponesas, a formar um imaginário que auxiliou na percepção e trato com a natureza e esteve vinculado à organização social, religiosa e política.

Foram principalmente as revoltas dos agricultores pobres e do campesinato e seus guias espirituais que muitas vezes estiveram ligadas com a expulsão da terra ou com a ultrapassagem do limite ‘regulamentado’ do uso da violência no campo. Aos grupos populacionais do campo, pobres economicamente e subjugados culturalmente, nunca foram reconhecidos os direitos de ‘cidadania’ na civilização capitalista [...]. (MOREIRA, 2006, p. 171).

O catolicismo popular contribui igualmente para a construção e o desenvolvimento de saberes populares que compõem o “modo de vida” camponês. Esses saberes possibilitaram o desenvolvimento de formas de captação e manejo das águas das chuvas que funcionaram, a partir de algumas experiências dispersas no semiárido, como formas de resistências à concentração privada da água e da terra.

A crença e a fé, pois, marcam o modo de vida camponês e caracterizam sua relação com a natureza. E a água, nesse contexto, é tida como elemento natural, dotada de valor religioso, mítico, extrapolando, portanto, a carga economicista que está sendo imposta na atualidade. (LIMA; SILVA; SAMPAIO, 2011, p. 13).

Segundo Malvezzi (2007), existiam duas linhagens de evangelização que permearam a região semiárida, que não eram antagônicas, mas se mostraram diferentes na condução das ações religiosas e políticas. A primeira foi conduzida por missionários tradicionais, em geral, de congregações vindas de fora, como os capuchinhos e franciscanos. Para esses, a relação com a natureza se reduzia à vontade divida. As chuvas eram uma vontade de Deus e, diante da ausência dessas, cabia aos homens aceitarem, pois representava o ‘castigo’ pelos pecados cometidos na terra. A outra linhagem teria sido fundada pelo Padre Ibiapina no Ceará e criou um método próprio de evangelização, entre 1850 e 1870, que contava com a organização dos camponeses na transformação de suas condições marginalizadas.

De acordo com Araújo (1996), Padre Ibiapina vagou pelos sertões nordestinos em um lombo de jumento com o objetivo de organizar e difundir a catequese entre os camponeses. Para tanto, construiu 22 Casas de Caridade para abrigar órfãos, difundiu o trabalho em mutirão, orientou os camponeses quanto ao plantio de lavouras de subsistência, construiu e incentivou a construção de pequenos açudes, cisternas, cacimbas, cemitérios, escolas e capelas. Em quase todas as Casas de Caridade existiam ‘cisternas e cacimbas do povo’.

No Ceará, Ibiapina teria passado pelas cidades de Araripe, Campos Sales, Missão Velha, Crato, Ibiapaba, Meruoca, Uruburetama, Sobral, Santana do Acaraú, Barbalha e Porteiras, além de ter percorrido vários outros municípios dos estados de Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Paraíba. Malvezzi (2007) conta ainda que Ibiapina, na condição de advogado, julgou um conflito de terras em Quixeramobim, Ceará, que envolveu a família de Antônio Conselheiro que, depois desse episódio, rumou para o São Francisco e lá organizou as lutas em Canudos.

Outro padre representativo nos sertões nordestinos foi o Padre Cícero, bastante influenciado pelo Padre Ibiapina, incentivou o plantio de mandioca e cana-de-açúcar voltado para a produção da farinha e da rapadura

para alimentar os camponeses. Padre Cícero ficou bastante conhecido por seus conselhos ecológicos que ensinavam formas de trato com a natureza, como não desmatar, não caçar, deixar o mato crescer entre os açudes, rios e lagoas para evitar a poluição desses, ensinava a fazer o plantio de frutíferas típicas dos sertões e orientava à construção de redutos de águas como as cisternas, no “[...] oitão de suas casas para guardar águas das chuvas.” (NETO, 2009, p. 289).

Os estudos de Gomes (2009) demonstram que o termo Caldeirão, que dá origem ao nome do sítio que abrigou a experiência de cinco mil camponeses em Juazeiro do Norte no Ceará, remonta a uma fenda geológica no sopé da Chapada do Araripe, em forma de poço, que não fica sem água mesmo em tempos de seca. Seu líder religioso, José Lourenço, teria recebido a incumbência de Padre Cícero para “[...] organizar um espaço de campo onde as pessoas pudessem trabalhar e viver.” (MALVEZZI, 2007, p. 24).

O trabalho no Caldeirão era comunitário e distribuído entre as famílias, que produziam roupas, calçados, derivados do couro de modo geral, sabão, panelas, copos e baldes. Contava com uma estrutura física composta de áreas de plantio diversificadas, casas para os camponeses, um engenho rústico, casa de farinha e armazém para guardar a produção. As famílias camponesas produziam quase tudo do que precisavam e o Caldeirão logo se desenvolveu. Não paravam de chegar pessoas que desejavam viver naquele lugar. (GOMES, 2009).

Segregados das políticas de águas que se voltavam para a construção de grandes açudes e obras de infra-estrutura que fortaleciam as fazendas de gado e a produção de algodão, muitos camponeses desenvolveram estratégias próprias de resistência ao controle e uso privado da água. A captação e o manejo das águas das chuvas se voltaram para a convivência e reprodução nos espaços de contestação, amparando-se no uso das águas de pequenos açudes, cacimbas, poços, barreiros, lagoas e cisternas.

Para os coronéis dos sertões, era imprescindível a disponibilidade de mão-de-obra farta e barata para o funcionamento das fazendas e dos plantios de algodão. O “modo de vida” camponês e suas práticas particulares de uso, manejo e trato com os recursos naturais acabavam questionando o

controle privado da água e da terra e a lógica capitalista de produção. Portanto, sob o aval e a proteção do Estado, o latifúndio nordestino não hesitou em dizimar homens, mulheres e crianças e aniquilar suas experiências que colocavam em risco o poder local.

Benzer Belgeler