• Sonuç bulunamadı

Nesse momento, falaremos, especificamente, sobre a multimodalidade visual e os multiletramentos. Partiremos do pressuposto de que a utilização de diferentes dispositivos semióticos na modalidade visual tem contribuído para as múltiplas leituras dos gêneros textuais que se utilizam dessas muitas modalidades e coloca em evidência a linguagem não verbal, destacamos aqui os materiais didáticos utilizados em curso na modalidade a distância, objeto de pesquisa deste trabalho.

Inicialmente, partiremos da perspectiva de que os textos são discursos materializados tanto na oralidade como na escrita e as novas tecnologias que perpassam as várias situações comunicativas em que estamos inseridos cotidianamente possibilitam uma constante reformulação de novos gêneros textuais orais e escritos situados histórica, social e culturalmente nas diversas práticas sociais de linguagem.

Desse modo, não é de estranhar o surgimento de inúmeras representações semióticas, as quais emergem de uma sociedade com diversos níveis de letramento. Essas representações pretendem atender às demandas comunicativas em contextos formais, pautados, especialmente, na língua padrão; e informais, por meio das interações vivenciadas em ambientes não institucionalizados. Assim, depois de refletir sobre as diferentes manifestações discursivas, sejam orais, sejam escritas, surge, agora, como fruto da semiótica social, o conceito de multimodalidade.

A multimodalidade, portanto, é o entrecruzamento de vários elementos e recursos, pois, quando falamos ou escrevemos um texto por meio de algum gênero, numa determinada situação comunicativa, utilizando dois ou mais modos de representação, deparamo-nos com realizações multimodais que se intensificam no cenário atual tecnológico. Nesse ambiente digital, onde a circulação de textos escritos é bem intensa, emergiram variações para os gêneros textuais que circulam na grande rede mundial de computadores, a

Internet. Esses recursos estão presentes também nas interações orais ou na leitura que fazemos de um texto impresso, manuscrito ou na tela do computador, envolvendo não só o texto escrito, mas também o processamento de imagens etc.

A modalidade visual compõe seus sentidos por meio de uma sintaxe imagética dentro de um contexto linguístico. O que é expresso na linguagem verbal, produzido por meio de textos, por meio da escolha entre diferentes classes de palavras numa estrutura sintática é, na composição visual, expresso por meio da escolha entre diferentes usos, imagens, cores,

layouts, ou diferentes estruturas de composição. Isso comprova que os significados atribuídos

aos textos são resultantes da leitura do conjunto dos modos semióticos e da compreensão das modalidades verbal e visual neles presentes.

Podemos observar os elementos visuais a partir de uma perspectiva ideológica que permite reconhecer a transformação por que passa a sociedade, por meio de representações impressas, por vezes, indiretamente, na exposição de ideias e ideologias como forma de manifestação social, cultural e histórica. Essa prática de escrita multimodal se torna mais relevante em alguns segmentos em relação a outros, ou seja, para alguns gêneros textuais, a aceitabilidade e compreensão, podemos arriscar dizer, é mais factual com o uso dos dispositivos não verbais do que o verbal escrito. É o caso dos manuais de instruções, os textos publicitários e, como estudado nesse momento, os materiais didáticos. Daí a importância de olhar com relevância para esses recursos multimodais inseridos no texto verbal escrito. Afinal, a presença deles tem uma razão que, por vezes, não é a de adornar o texto. É preciso reconhecer a intenção pela qual o autor do texto está sujeito para inserir um ou outro recurso multimodal.

Amparada nessa preocupação, surge a Gramática do Design Visual (1996[2006]) desenvolvida a partir de estudos recentes que consideram a relevância do registro imagético inserido em uma situação de comunicação. Motivado pela discussão acerca da abordagem relativa à verdade, van Leeuwen (2005) estende essa reflexão e diz que essa modalidade está relacionada à verdade dentro de um determinado contexto social e pode não ser reconhecida com o mesmo valor em outro contexto. Nessa perspectiva, a semiótica social não se questiona sobre a verdade, mas sim sobre como a verdade é representada e como os recursos semióticos são usados para expressar essa verdade.

Diante dessa concepção e pautados, sistematicamente, na semiótica social, Kress e van Leeuwen (1996[2006], p.1983) ampliam esse pensamento e dizem que essa verdade representada por diferentes recursos semióticos pode ser exposta por meio de muitos

modos. Essa variedade de modos que ocorrem em textos em que os significados são representados por outros códigos semióticos, ou seja, pela combinação do código visual e do verbal, eles chamaram de multimodalidade.

Kress e van Leeuwen (1996[2006]) desdobram esse conceito e categorizam o que seria multimodalidade nos seguintes pressupostos: todos os textos são produzidos em diferentes modos, o que os torna multimodais, mesmo que predominantemente sejam representados em um modo ou outro além do verbal escrito; a linguagem é parte de um contexto multimodal; os sistemas de comunicação são reconhecidos como multimodais em razão do reconhecimento cultural; todas as interações dos modos comunicativos e representacionais são multimodais e, por isso, os significados são construídos, distribuídos, recebidos, interpretados e refeitos; todos os modos, para realizar as funções sociais, são influenciados pelos usos sociais, culturais e históricos; os significados dos signos derivados dos recursos semióticos são regulados por normas e regras do grupo semiótico do qual fazem parte, de acordo com a intenção e com o contexto em que o produtor do signo está inserido.

Dessa forma, ao escolher um ou outro recurso multimodal, o produtor do texto imprime sua intenção na mesma intensidade em que um vocábulo é determinado para materializar um pensamento. Por essa razão, torna-se de fundamental importância reconhecer esses recursos em seus diferentes modos de representação para fins de análise e reconhecimento do texto como um todo.

É nessa perspectiva, como um instrumento para a análise de textos visuais, que a Gramática do Design Visual de Kress e van Leeuwen (1996[2006]) surge. Objetivando, assim, ser uma ferramenta útil tanto para a análise crítica, bem como para a produção dos textos, em que o reconhecimento dos dispositivos visuais e como eles são reconhecidos pelo leitor, é de fundamental relevância dentro do processo comunicativo. Podemos, então, ampliar essa discussão e refletir a partir da ideia de que se uma gramática é constituída para analisar os recursos visuais dentro de uma perspectiva complexa de comunicação, isso implica dizer que a imagem é toda dotada de sentido e não pode ou não deve ser considerada apenas como suporte para o texto verbal. Ao inserir essa teoria nos estudos linguísticos, afirma-se, então, a necessidade de olhar para a imagem com total atenção para as informações que perpassam toda constituição imagética.

No entanto, ao reconhecer as especificidades que estão atreladas ao conceito de multimodalidade e aos papéis que exercem os interlocutores envolvidos no processo comunicativo, surge a preocupação com o conhecimento desses muitos modos de

representação do signo por parte dos interlocutores. Afinal, a materialização do pensamento do produtor do texto ganha força e sentido à medida que é reconhecido e compreendido pelo leitor.

Diante dessa preocupação, surge, entre os estudiosos linguistas, o conceito de multiletramento. Na verdade, cria-se espaço como um desdobramento do conceito de letramento e da disseminação no uso das muitas mídias com o uso da linguagem na tecnologia, bem como com a diversidade linguística e cultural a que o usuário da língua está submetido no mundo globalizado. Nesse sentido, o reconhecimento dos recursos multimodais, como imagens, áudio, formas, desenhos, diferentes fontes, inseridos em um texto, provocam no leitor a necessidade do novo letramento, o multimodal, especialmente o letramento visual, em que a importância social da imagem tem conquistado espaço de forma considerável. Segundo Kleiman (2005),

A imagem faz parte do conjunto de recursos necessários para ensinar a ler: ela pode desempenhar o papel de coadjuvante, co- partícipe na interpretação do texto verbal, ajudando a construir os primeiros sentidos, que depois serão tornados mais precisos pela leitura. (…)Embora a escola privilegie o letramento com foco na linguagem verbal, não faz sentido relegar a um segundo plano os conhecimentos sobre textos multimodais, que a maioria dos alunos já tem, assim como faz todo sentido ensinar o aluno a interpretar a linguagem imagética, para ler também nas entrelinhas de algumas imagens que só tentam vender, manipular, banalizar e reproduzir o pior que a sociedade tem a oferecer. (p. 42)

Afinal, mesmo fazendo parte do nosso cotidiano, pouco se tem de intimidade para lidar, reconhecer e produzir os recursos multimodais. A nossa tradição nos deixa presos ao texto verbal como fonte quase irrestrita de informação e à imagem como elemento secundário ao texto, ou seja, como mecanismos de ilustração, adorno, complementar ao texto escrito.