Os temas energia e meio-ambiente têm sido focos de grande atenção da sociedade nos últimos tempos e suas discussões recentes têm estabelecido relação direta com a agroenergia, ao entreverem nela uma possível fonte de soluções, coerentes com as necessidades e desafios do século XXI.
O padrão de consumo energético vigente no planeta, fortemente baseado em fontes fósseis, tem sido questionado crescentemente, sendo as razões fundamentais desse debate: (i) a perspectiva de esgotamento das fontes de energia fóssil para os próximos 40 a 50 anos; e (ii) a concentração de quase 80% das reservas comprovadas de petróleo do mundo em países do Oriente Médio, marcados por constantes conflitos políticos, conferindo instabilidade ao suprimento e aos preços do combustível dessa origem (BUAINAIN; BATALHA, 2007).
Nos últimos anos, notadamente desde 2002, o preço do petróleo tem se apresentado em processo franco e significativo de elevação, praticamente sem sinais de reversão. A Figura 7 a seguir mostra essa alta dos preços do petróleo bruto, tendo o produto superado a marca dos US$ 100.00 por barril em 2008.
Figura 7 – Evolução dos preços do petróleo de janeiro/1997 a março/2008
Em adição a isso, a intensificação das preocupações ambientais tem criado um contexto favorável ao questionamento da sustentabilidade do padrão energético vigente no mundo. A Figura 8 a seguir, produzida pelo banco Credit Suisse, em março de 2007, ilustra o avanço do tema ‘mudança climática’ na opinião pública (considerando o universo baseado no idioma inglês).
Figura 8 – Evolução do tema “mudança climática” no contexto da opinião pública baseada no idioma inglês
Fonte: FACTIVA, 2007 apud CREDIT SUISSE, 2007a.
Relatórios internacionais de relevo, como o publicado pelo IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change)12, no final de 2007, também ressaltam a relevância do assunto no contexto atual e conectam de forma direta os temas ‘energia’ e ‘meio-ambiente’. Nesse relatório13, os resultados apontam, além de mudanças graves na condição ambiental mundial (mudanças da temperatura global, nível dos oceanos, ...), que o uso de combustíveis fósseis foi, em 2004, responsável por 56,6% das emissões de gases causadores do efeito estufa. Como conseqüência desse diagnóstico, tal relatório recomenda que políticas de redução de incentivos aos combustíveis fósseis e de incentivo ao desenvolvimento e uso de combustíveis
12
Grupo intergovernamental ligado à Organização Mundial de Meteorologia, da Organização das Nações Unidas.
13
“Climate Change 2007 – Synthesis Report”, publicado em novembro de 2007, com divulgação inicial em evento realizado em Valência, Espanha. O relatório anterior desse mesmo tipo, preparado pelo IPCC, foi publicado em 2001.
baseados em fontes alternativas renováveis sejam implantadas nos países (INTERGOVERNMENTAL PANEL ON CLIMATE CHANGE, 2007).
Esse contexto de discussões ambientais e de mudanças na matriz energética tem criado oportunidades para a viabilização de novas fontes de energia renováveis em vários países do mundo. O uso de etanol, biodiesel, carvão vegetal, biogás e energia obtida a partir de resíduos do agronegócio desperta interesse crescente em várias nações, havendo uma forte crença de que essas soluções devem ocupar posição de destaque na economia num futuro próximo.
Em termos práticos para este trabalho, esse contexto econômico- ambiental tem fortificado a produção de álcool em âmbito mundial, com diferentes abordagens por parte dos países, com destaque para EUA e Brasil, maiores produtores mundiais do produto.
No caso dos EUA, um fato recente marcante é o lançamento da
Advanced Energy Initiative, em fevereiro de 2006, após ter sido primeiramente
divulgada no final de janeiro do mesmo ano pelo presidente George W. Bush, em pronunciamento para o Congresso norte-americano:
A manutenção da América competitiva requer energia a preços acessíveis. E nós temos um sério problema: a América é viciada em petróleo, o qual é geralmente importado desde partes instáveis do mundo. A melhor forma de quebrar esse vício é através da tecnologia. Desde 2001, temos gasto aproximadamente 10 bilhões de dólares para o desenvolvimento de fontes de energia mais limpas, mais baratas e mais confiáveis – e nós estamos na fronteira de avanços incríveis.
Dessa forma, nesta noite, eu anuncio a Advanced Energy Initiative – um crescimento de 22 por cento nas pesquisas sobre energias limpas – no Department of Energy, para impulsionar rupturas tecnológicas [...] (WHITE HOUSE, 2006, tradução nossa)
A Advanced Energy Initiative prevê o investimento em duas áreas principais: (i) energia veicular; (ii) energia doméstica e do mundo corporativo. Para a primeira área, os objetivos são: o desenvolvimento de tecnologias de baterias para veículos elétricos, visando atingir a autonomia de 40 milhas de percurso; a aceleração do desenvolvimento de tecnologias de ruptura necessárias para tornar o etanol a partir de celulose competitivo em termos de custo com o etanol produzido pelo milho, por volta de 2012; e a aceleração do progresso em direção a permitir que
os norte-americanos possam escolher veículos movidos a célula-combustível, em 2020 (NATIONAL ECONOMIC COUNCIL, 2006).
No Brasil, a intervenção governamental é menos sistematizada do que nos EUA, mas, mesmo assim, observa-se a assunção de uma postura de promoção internacional da bioenergia brasileira, notadamente o etanol, além do biodiesel, por parte do Governo Lula. Buscas de acordos com Japão, EUA, União Européia e outros países e regiões representam uma forma de posicionamento do governo brasileiro diante de um contexto mundial favorável ao tema.
As próprias empresas do ramo, através de suas representações associativas, também têm desempenhado seu papel de divulgação do etanol, como solução ambientalmente vantajosa, não só em relação ao petróleo, mas também a outras possíveis alternativas de biocombustível.
Por fim, é importante ressaltar que publicações de instituições financeiras privadas internacionais sobre o tema energia têm inserido intensamente o tema bioenergia como uma alternativa em relação à qual se tem real expectativa de que venha a oferecer contribuições significativas à matriz energética mundial. E, particularmente, dentro do tema ‘bioenergia’, o etanol é indicado como das alternativas mais viáveis para atender a demanda no curto prazo. Os relatórios dessa natureza levantados, Goldman Sachs Group (2007), Credit Suisse (2007a; 2007b; 2008); Itaú Corretora (2007), contêm, todos, esse tipo de informação. A existência desse tipo de relatório reforça as condições favoráveis do contexto para o desenvolvimento de soluções de biocombustíveis e, especialmente, do etanol.
Esses elementos formam o pano de fundo para as expectativas de crescimento de demanda do álcool, apresentadas a seguir.