Por mais que o Papa João XXIII buscasse, em seu pontificado, uma prudente distância e uma marcada reserva no trato com o mundo político mormente da Itália, o Concílio arrastava consigo, evidentemente, uma forte dimensão política. Esta decorria entre outras causas, da singular situação da Santa Sé, uma figura de direito público internacional que fala pela Igreja Católica e, ao mesmo tempo, um Estado (Estado Cidade do Vaticano), ainda que minúsculo e sui generis. O Vaticano mantém relações diplomáticas com outros estados nos cinco continentes304; é membro de praticamente todas as grandes organizações
internacionais de caráter governamental305 ou não governamental306 e goza de estatuto, igual
ao da Suíça, de observador permanente nas Nações Unidas.
Essa dimensão política perpassou cada passo da preparação do Concílio, mormente no esforço empreendido pessoalmente pelo Papa, para tornar possível a vinda
304Ao momento do Concílio, a Santa Sé mantinha relações diplomáticas plenas com 31 Estados;
Delegações Apostólicas (Canadá, Grã Bretanha, México e Estados Unidos) e treze outras formas de representação sem caráter diplomático, dependentes seja da Congregação para as Igrejas Orientais (Jerusalém e Palestina, Iraque), seja da Propaganda Fidei (países da África, Ásia, mas também a Escandinávia). Atualmente, a Santa Sé mantém relações diplomáticas com 164 países e representação junto aos seguintes organismos internacionais: ONU – Núncio Apostólico – Observador permanente; Agências das Nações Unidas em Genebra – Observador Permanente; Agência Internacional de Energia Atômica AIEA – Viena; Agências das Nações Unidas em Viena; Organização das Nações Unidas para o desenvolvimento industrial – ONUDI – Viena; Organizações e Organismos das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura – FAO, IFAD, PAM, CMA – Roma; Organização para as Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura – UNESCO – Paris; Conselho da Europa – Estrasburgo; Conselho para a Cooperação Cultural do Conselho da Europa – Estrasburgo; Organização dos Estados Americanos – Washington; Organização Mundial do Turismo – OMT – Roma; Comitê Internacional de Medicina Militar.
305O Estado Cidade do Vaticano é membro regular das seguintes organizações internacionais: União
Postal Universal; União Internacional de Telecomunicações; Conselho Internacional do Trigo; Organização Mundial da Propriedade Intelectual; Organização Internacional de Comunicações por Satélite – IINTELSAT; Conferência Européia das Administrações dos Correios e Telecomunicações (CEPT); Organização Européia de Telecomunicações por Satélite (EUTELSAT); Instituto Internacional para a Unificação do Direito Privado
306Organizações internacionais não governamentais com representação permanente da Santa Sé:
Comitê Internacional de Ciências Históricas; Comitê Internacional de Paleografia; Comitê Internacional de História da Arte; Comitê Internacional de Ciências Antropológicas e Etnográficas; Comitê Internacional para a Neutralidade da Medicina; Centro Internacional de Estudos para a Conservação e Restauração de Bens Históricos; Conselho Internacional de Monumentos e Lugares; Aliança Internacional do Turismo; Associação Mundial dos Juristas; O Estado da Cidade do Vaticano é membro regular dos seguintes organismos internacionais não governamentais: União Astronômica Mundial; Instituto Internacional de Ciências; Administrativas: Instituto Técnico Internacional de prevenção e extinção do fogo; Associação Médica Internacional; Conselho Internacional dos Arquivos
dos bispos que se encontravam em países situados, como se dizia na época, do outro lado da cortina de ferro, referindo-se aos países do leste europeu, ou do outro lado da cortina de bambu, para designar a República Popular da China307. Este esforço implicou em contatos
diretos com a antiga URSS e, obtido o seu beneplácito com os demais países do leste europeu, todos países com os quais a Santa Sé não mantinha relações diplomáticas. João XXIII, dada a delicadeza do assunto, não se serviu do caminho normal da Secretaria de Estado, mas sim de um velho amigo pessoal, Mons. Francesco Lardone, que servia em Istambul, no mesmo posto que havia ocupado o próprio Roncalli, por dez anos, como delegado apostólico na Turquia (1935-1944)308. Ali, o embaixador soviético Rijov, tendo consultado Moscou, deu o sinal verde para as sondagens junto às Embaixadas dos demais países do leste europeu: Hungria, Checoslováquia, Polônia, Alemanha Oriental, Romênia, Bulgária, Lituânia. Assim, à abertura do Concílio, compareceram diversos bispos destes países, alguns saindo diretamente da prisão domiciliar para o trem que os conduziria a Roma. Essa mesma política prudente e serena permitiu, meses depois, que o Arcebispo Josyf Slipyi partisse de um campo de trabalhos forçados na Sibéria e viesse tomar parte no Concílio, graças aos bons ofícios da Igreja Ortodoxa Russa que enviara, na última hora, dois observadores para o Concílio309.
Para a China, a Santa Sé valeu-se dos bons ofícios da RAU (República Árabe Unida), por intermédio do Coronel Nasser, do Egito, mas nada se conseguiu310. Novo
307 Dois livros recentes mergulham, com competência, na intrincada cena política internacional,
relacionando-a, de um lado, com o evento conciliar e, de outro, com o lento estruturar-se da assim chamada Ostpolitik da Santa Sé: MELLONI, Alberto. L’altra Roma. Politica e S. Sede durante il Concilio Vaticano II (1959- 1965). Bologna: Il Mulino, 2000; CASAROLI, Agostino, Il martirio della pazienza. La Santa Sede e i paesi comunisti (1963-89. Introduzione di Achille Silvestrini). Torino: Eiunaudi, 2.000
308 Para os anos de Roncalli, como delegado apostólico em Istambul, cfr. HEBBLETHWAITE, Peter.
John XXIII, the Pope of the Council. London: Geoffray Chapman, 1984, pp. 143-198 e o primoroso estudo de MELLONI, Alberto, Fra Istanbul, Atene e la guerra. La missione di A.G. Roncalli (1935-1944). Bologna: Il Mulino, 1991
309 Um dos sinais do degelo foi a libertação de Mons. Josyf Slipyi.: “Com 71 anos de idade, Dom Josyf
Slipyi é o único sobrevivente da hierarquia católica de rito bizantino na Ucrânia. Preso pelos comunistas no dia 11 de abril de 1945, julgado sumariamente, ele foi enviado à Sibéria, aí permanecendo 10 anos. Libertado em 1955, foi preso novamente e depois obrigado a residir numa aldeia perto de Moscou. Acusado de ter tentado restabelecer contato com seu clero e escrito, sem licença das autoridades soviéticas, cartas pastorais aos seus fiéis, foi preso mais uma vez em 1957 e deportado para a Ásia. Em 1961 recebeu a proposta de pode reocupar a sua sede episcopal e até mesmo de suceder ao patriarca Alexis como chefe espiritual da Igreja ortodoxa russa, com a condição de romper com Roma. D. Josyf Slipyi não só recusou como dirigiu um protesto solene ao governo de Moscou. [...] no dia 26 de janeiro [1963] chegou a Roma, de Moscou, um telegrama anunciando que D. Josyf Slipyi havia deixado a Sibéria e encontrava-se em Moscou. D. Willebrands, membro do Secretariado Ecumênico encarregado dos assuntos referentes à união dos cristãos, foi ao seu encontro em Moscou para conduzi-lo a Roma, via Viena. Sua Santidade João XXIII, recebeu D. Josyf Slipyi no Vaticano, e chorou de emoção ouvindo a narrativa do prelado sobre os 18 anos passados nos campos de concentração da Sibéria”. BCEF, no 4, p. 56
310 BEOZZO, José Oscar in ALBERIGO, História I, A postura do arquipélago marxista pp. 392-395,
bispos e observadores do leste, 396; os observadores russos, 397; ALBERIGO, História II, pp. Uma nova política para o leste, pp. 505-510; Nikolaj A. KOVALSKIJ, “Die Bedeutung des II. Vatikanums für die
intento, igualmente, sem resultados, foi realizado por Paulo VI, em 1965, através da Embaixada da França em Pequim, valendo-se dos bons ofícios de Antoine Wenger, diretor do jornal La Croix de Paris.311
Não escapou aos observadores mais atentos da cena internacional que o Concílio se inseria num quadro ainda crítico das relações internacionais, mas aonde a coexistência pacífica, passava a ser uma aspiração comum nas relações entre leste e oeste. Por outro lado, o próprio Concílio era um fator altamente dinâmico e positivo no caminho da distensão política312. O que se estudou menos é que este período de distensão leste-oeste
coincidiu com um agravamento dos conflitos norte-sul, em todos os quadrantes: na Ásia, com a guerra do Vietnã, a partir do incidente forjado do golfo de Tonkin; na África, com as lutas pela independência e a guerra anti-colonial da Argélia e a da secessão do Katanga, no ex-Congo belga; na América Latina, com o pipocar, umas após as outras, das ditaduras militares. Charles Antoine, por mais de vinte anos à frente do boletim semanal DIAL (Diffusion de l’Information sur l’Amérique Latine), acaba de publicar uma penetrante análise, infelizmente ainda não traduzida, sobre a Igreja na América Latina, em meio à tempestade da guerra fria, na realidade, muito quente, para os setenta mil mortos da guerra de baixa intensidade em El Salvador, os milhares de mortos da Nicarágua e Guatemala, os 20.000 desaparecidos da guerra suja na Argentina e os mais de três mil mortos do período Pinochet no Chile313. Trinta anos antes, o mesmo autor, brindara um estudo pioneiro sobre
o primeiro lustro do regime militar no Brasil, nas suas relações com a Igreja, entre 1964 e 1969314.
A crise dos mísseis de outubro de 1962 deixou claro como podia ruir, num incidente internacional, todo o edifício da distensão leste-oeste, pelo confronto entre a URSS e os Estados Unidos da América, via terceiros países, naquele caso, Cuba. A guerra
Normalisierung der Beziehungen zwischen dem Vatikan und Russland”, in WITTSTADT, Karl und W. VERSCHOOTEN (Hrsg.), Der Beitrag der Deutschsprachigen und Osteuropäischen Länder zum Zweiten Vatikanischen Konzil. Leuven: Bibliotheek van de Faculteit Godgellerdheid, 1996, pp. 211-224.
311 “La Croix ne me fit pas quitter la Russie, bien au contraire. [...] Voyageur heureux, j’ai pu traverser
la Russie de part en part, par le transsibérien Moscou-Pékin em 1965, l’année avant la Révolution culturelle. J’avais pour mission de dire à qui de droit, par la voie que l’ambassedeur de France en Chine, M. Paye, jugerait adéquate, que Paul VI désirait vivement la présence d’un évêque de Chine à la qutrième et dernière session du concile Vatican II. Tentative demeurée sans succès”. WENGER, Antoine, Catholiques en Russie d’après lês Archives du KGB – 1920-1960. Paris, Desclée de Brouwer, 1998, p. 10.
312FRANK, Robert, “Vatican II entre guerre froide et détente (1962)”, in FOUILLOUX, É. (ed. par),
Vatican II commence ... approches Francophones, Leuven, 1993, pp. 3-13
313ANTOINE, Charles, Guerre Froide et Église Catholique – L’Amérique Latine. Préface de Claude Julien.
Paris: Cerf, 1999.
314ANTOINE, Charles, L’Église et le Pouvoir au Brésil – Naissance du Militarisme. Paris: Desclée de
fria no norte do mundo, tornava-se guerra quente no sul, e a distensão da coexistência pacífica, virava violentos e sangrentos conflitos armados no restante do Terceiro Mundo.
Assim, pois, o quadro da solene abertura do Concílio, onde ao cortejo dos bispos e observadores de outras igrejas cristãs, juntou-se também o desfilar das delegações diplomáticas, revelava esta outra dimensão do Concílio.
As Atas Conciliares registram um vistoso número de delegações oficiais, sob o título de Legationes extra ordinem a Guberniis et Consiliis Internationalibus Missae, incluindo países e também organismos regionais ou internacionais como o Conselho da Europa, a CECA (Communauté Euroéenne du Charbon e de l’Acier), a CEE (Communauté Économique Européenne), EURATOM (Communauté Européenne de l’Énergie Atomique), OCED (Organisation de Coopération et de Développement Economique), UNESCO (Organisation pour l’Éducation, la Science et la Culture). 78 países enviaram suas delegações, mesmo dentre aqueles que não mantinham relações diplomáticas com a Santa Sé, mostrando que o Concílio ultrapassava estes limites e era colhido como evento internacional de primeira importância. A Soberana Ordem de Malta ali estava também com sua legação315.
O Brasil enviou uma delegação composta pelo senador Afonso Arinos de Mello Franco, ex-Ministro das Relações Exteriores, pelo Embaixador do Brasil junto à Santo Sé, Henrique de Souza Gomes e pelo intelectual católico, o professor embaixador Alceu de Amoroso Lima, literariamente mais como conhecido como Tristão de Athayde316 . Este último narra, para sua filha, Maria Tereza, monja beneditina de clausura, no Mosteiro de São Paulo, a quem escrevia diariamente, os percalços por ele sofridos, entre o convite do governo para que fizesse parte da delegação e as incertezas que perduraram até o dia anterior ao embarque para a Itália. Depois do convite, havia irrompido a grave crise política de agosto/setembro de 1962 e, uma vez superada, seguiu pairando a incerteza por conta da falta de verba para pagar os gastos da delegação!
A crise, com risco de golpe, só foi desatada em meados de setembro, com a decisão de se convocar um plebiscito para 06 de janeiro de 1963. Neste plebiscito devia-se decidir se o regime voltava a ser presidencialista ou continuava parlamentarista. O parlamentarismo havia sido a condição imposta pelo Alto Comando Militar, para que o
315Sobre a Soberana Ordem de Malta, observa Alceu Amoroso Lima em carta à sua filha Teresa:
“Chegamos ao Vaticano com antecedência, de modo que entramos com facilidade e assistimos à entrada de quase todas as delegações estrangeiras e das personalidades como o Presidente da Itália, o irmão do rei da Bélgica [...], o Grão Mestre da Ordem de Malta, que tem honras de soberano embora exilado e... ridículo (aos olhos deste inveterado plebeu...)” Carta de AALima à Maria Teresa A. Lima, Roma 13-10-1962, in LIMA, Alceu Amoroso, João XXIII, p. 86
vice-presidente João Goulart retornasse ao país e sucedesse a Jânio Quadros que renunciara a 24 de agosto de 1961.
Sobre a sua ida à Roma escreve, a 05 de agosto de 1962, o Dr. Alceu à sua filha:
“ Peço-te que reze muito especialmente durante este mês para que Nosso Senhor ilumine os homens de que dependem os destinos políticos deste país, para que não percam a cabeça e saibam não ouvir a voz dos irredutíveis, dos ‘zelotas’, dos intransigentes, dos que acham que se a Câmara ceder está tudo perdido (dizem os direitistas), e se a Câmara não ceder, é preciso fechá-la (dizem os esquerdistas)
... não faço prognósticos, mas quero deixar aqui consignado para você o que a meu ver deve ser feito: um acordo prévio cedendo cada parte um pouco. Será um adiamento do problema, é o grande argumento dos extremistas.
Na realidade é a única solução racional, na linha do nosso passado, do nosso temperamento, e do mal menor, pois toda solução extrema, no momento, pode desencadear a guerra civil ou degenerar em ditadura como na Argentina, no Peru, no Equador o em Cuba.
Não há problema que não seja adiável, já que não há problema humano que seja resolvido em definitivo.
... Tudo em suspense, pois, até que se decida esta crise política. Por isso mesmo não convém falar nada a respeito da ida a Roma. Mesmo porque ainda não saiu nenhum ato oficial, nem poderá vir nesta semana em que se está decidindo o destino político do Brasil, por algum tempo, ao menos. E o caso de ir ou não ao Concílio, de uma Delegação brasileira é secundário...
Embora, o Concílio, em si, seja infinitamente mais importante do que os destinos políticos do Brasil. Desde o Concílio de Jerusalém quantas centenas de gerações já morreram ou nasceram? E quantos milhares de regimes políticos já se fizeram e desfizeram?
De modo que o Concílio, esse, está infinitamente para lá dessas migalhas políticas”317.
A um dia da partida do vapor Giulio Cesare para a Europa, volta a escrever para a filha:
“Parece que desta vez vai mesmo... Embora o ato oficial de designação ainda esteja nas gavetas do Itamarati. É exato. Parece que o Afonso [Arinos de Mello Franco]
não quis referendá-lo, por se tratar da designação também dele próprio. Depois veio a crise, e o novo Ministro do Exterior, o Hermes Lima, que é também Primeiro Ministro, só segunda-feira vem ao Rio! Mas agora, com chanceler ou não (aliás é simples formalidade e já veio mesmo de Brasília a autorização para ausentar-me que espero que o Itamarati comunique à Faculdade. Tudo na última hora, bem à brasileira!)... acho que vamos mesmo!
A representação acabou sendo a primeira indicada e que era a lógica: o Afonso, ex-ministro mas provavelmente novo Ministro do Exterior, o Embaixador no Vaticano [Henrique de Souza Gomes] e o Degas”318.
Se do lado da delegação oficial, o atropelo e a improvisação, a insegurança econômica e a incerteza política coexistem com a decisão de partir, o mesmo acontece com os Bispos, igualmente inquietos com a situação política - o que será a regra durante os quatro anos, mormente em 1963 e 1964 - e preocupados, pastoralmente, por ausentarem- se, todos ao mesmo tempo, de suas dioceses ou prelazias. Economicamente, irão depender ao longo dos quatro anos, do Governo brasileiro, para a viagem de avião do Rio para Roma e, da Santa Sé, para a hospedagem nos meses do Concílio.
Alguns bispos vão, mas voltam imediatamente, como foi o caso do Cardeal Motta de São Paulo que ficou apenas duas semanas em Roma, durante o I Período conciliar.
Do ponto de vista oficial, houve também troca de mensagens entre o presidente do Brasil, João Goulart, e o Papa João XXIII:
Ao papa, o presidente escreveu:
“Santíssimo Padre. Na oportunidade da abertura dos trabalhos do Concílio Ecumênico, venho respeitosamente me dirigir a Vossa Santidade, em nome do Povo brasileiro e no meu próprio apresentando os votos de pleno êxito nessa tarefa de tão alto sentido para os interesses da Comunidade cristã e para a solução dos graves problemas com que se defronta a humanidade nos tempos tormentosos em que vivemos. O Brasil, sempre presente nos esforços para assegurar a concórdia entre as Nações com a reparação das injustiças de ordem econômica e social infelizmente ainda prevalecentes em largas regiões do Globo, acompanhará com o máximo interesse as atividades do Concílio Ecumênico, certo de que os eminentes prelados saberão encontrar como conclusão para seus debates a mensagem de conforto, esperança e realismo que nunca faltaram aos
pronunciamentos da Santa Madre Igreja. O Episcopado brasileiro transmitirá a Vossa Santidade o pensamento, as preocupações e os anseios católicos do Brasil. Seu contacto permanente com o povo deste país tornaram-no particularmente credenciado para a apresentação da ação que a Igreja vem empreendendo no Brasil. O progresso do nosso país e a vida do nosso povo alicerçam-se nos princípios da Doutrina Cristã, cuja observância muito ode contribuir para a harmonia social e a paz na comunidade das Nações. Aproveito a oportunidade para manifestar os sinceros votos que faço pela prosperidade de Seu Pontificado e pela felicidade pessoal de Vossa Santidade”319.
João XXIII respondeu imediatamente ao Presidente: “Agradecemos de todo coração, a devota e filial mensagem de V. Excia. em seu nome e no do povo brasileiro, por ocasião da abertura solene do Concílio Ecumênico, mensagem na qual V. Excia. manifesta votos de que o espiritual e primeiro escopo do Concílio, redunde em frutos de harmonia social e de paz para a comunidade das nações. Desejando toda prosperidade a essa dileta Nação que se acha tão bem representada pelo Episcopado na grande Assembléia Ecumênica, concedemos a V. Excia. e a todo o povo brasileiro o penhor de abundantes graças celestes e nossa paterna Bênção Apostólica”320.
A 03 de janeiro de 1963, o Núncio Dom Armando Lombardi entregou, pessoalmente, ao Presidente uma carta em latim, autografada por João XXIII, em que este voltava a agradecer a mensagem presidencial por ocasião da abertura do Concílio:
“A nobilíssima carta que V. Excia. nos enviou, no dia da instalação do II Concílio Ecumênico do Vaticano, põe em relevo a grande expectativa com que aguardavam seus concidadãos a magna reunião que, se visava primordialmente à expansão da Igreja Católica, não poderia, entretanto estar alheia aos graves problemas relacionados com a prosperidade das nações. Como V. Excia. poderá imaginar, recebemos com grande prazer uma carta portadora dos sentimentos de V. Excia. E de seu povo. Diante de tão profunda manifestação de respeito e espírito religioso com que V. Excia. encara seus altos encargos, queira aceitar o testemunho de nossa benevolência; rogamos igualmente a Deus, distribuidor de todos os bens, que sempre assista a V. Excia. e conceda os dons de verdadeira prosperidade à sua Pátria, a nós tão cara. Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 20 do mês de novembro do ano de 1962, quinto do nosso Pontificado. a. João XXIII, Papa”321.
319KLOP II, 388 320KLOP II, 388-89 321KLOP II, 389
O Governador Carvalho Pinto, do Estado de São Paulo enviou igualmente telegrama, dizendo que da profunda simpatia do povo e do Governo de São Paulo pelo Concílio, acrescentando: “Todos os que aqui vivem e alcançam a importância do histórico acontecimento, fazem os mais sinceros votos pelo êxito do Concílio Ecumênico, signo de paz e união para a angustiada humanidade do século XX”322.
O Instituto Brasileiro do Café, que estava ofertando gratuitamente todo o café a ser servido aos padres conciliares durante o desenrolar do Concílio, divulgou os termos