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Na véspera da abertura, isto a 10 de outubro, chegam os bispos brasileiros que vieram no avião especial da PANAIR do Brasil, contratado pelo governo brasileiro.

Os três integrantes da Delegação oficial que representava o Governo brasileiro na abertura do Concílio, o ex-chancelar, Senador Afonso Arinos de Mello Franco, o Embaixador do Brasil junto à Santa Sé, Henrique de Souza Gomes e o Dr. Alceu Amoroso Lima estavam, junto com os superiores e estudantes do Colégio Pio Brasileiro de Roma, presentes no novo aeroporto de Fiumicino. O Dr. Alceu, descreve este momento em carta à sua filha Maria Teresa325:

“Hoje fomos receber os 130 bispos que vieram no tal avião! Foi uma chegada emocionante e a rádio Vaticano gravou um discurso do Arinos e umas palavrinhas minhas, logo depois da chegada dos Bispos. Fui o primeiro a beijar o anel de Dom Augusto [Álvaro da Silva, cardeal arcebispo da Sé Primacial da Bahia] que com seus 84 anos desceu sereno do avião, como se nada fosse! Foi Dom Delgado que celebrou a missa a 10.000 metros de altitude. Disse que a viagem foi ótima. Falei com D. Helder, D. Távora, D. Avelar Brandão, D. Delgado, D. Newton, D. Jorge Marcos e outros. O Núncio me abraçou efusivamente e me chamou de Bispo sem ordens”326...

Na manhã seguinte à chegada dos bispos brasileiros, foi aberto o Concílio de maneira imponente, com a imensa procissão dos mais de 2.500 padres conciliares vindos de todo o mundo, onde se misturavam as mitras brancas dos bispos e as vestes negras e

325Na sua obra sobre João XXIII faz uma confidência familiar: «Na primeira parte, reuni trechos de

cartas íntimas a uma filha religiosa beneditina, clausurada desde 1951. Desde então, escrevo-lhe todos os dias. Natuaralmente sem a mais vaga intenção de publicidade. Nem de agora nem futura. Desejando prestar, porém, ao mais ismples e mais humano dos pontífices, uma pequena homenagem, também a mais simples e mais humana possível, deliberei destacar, dessas cartas, os trechos relativos ao nosso Pai Comum». LIMA, Alceu Amoroso, JOÃO XXIII. Rio de Janeiro: José Olympio, 1966, p. XV

solenes dos orientais, com os trajes escuros dos observadores e convidados do Secretariado para a União dos Cristãos e o carmesim dos cardeais. Saíram todos pelo portão de bronze do Palácio Apostólico, atravessaram a colunata de Bernini e avançando pelo centro da praça de São Pedro, foram depois desaparecerem no adro da Basílica. Ficava a sensação, para quem estava assistindo aquele espetáculo, de que algo único e transcendental estava acontecendo.

Um ano depois, escrevia no meu diário, ao iniciar-se o II Período conciliar,: “O Concílio continua, à grande allure! Volta-me porém insistentemente ao coração a manhã do dia 11 de outubro do ano passado.

Fui à Praça para ver a abertura.

Enquanto passavam os Bispos de mitra e pluvial branco, subindo lentamente e desaparecendo sob os pórticos de São Pedro, senti-me sozinho.

Sozinho diante do peso e do toque de mistério do acontecimento.

Duas Irmãzinhas de Foucauld passaram-me ao lado e naquele momento, veio- me claramente ao espírito que, no seu anonimato e na sua veste azul grosseira e pobre, elas faziam amadurecer o Reino de Deus e toda a Assembléia Conciliar era suportada e sustentada por aquelas frágeis mulheres.

Elas viviam, na liberdade com que caminhavam, aquela renovação que a Assembléia procuraria penosamente meses a fio.

Elas eram o sinal, as primícias daquele visage renouvelé de l’Église de que falou João XXIII no seu discurso de abertura”327.

João XXIII que, a contragosto fora convencido a atravessar a Praça transportado na sedia gestatória, para poder ser visto pela multidão que o aclamava, assim que entra na Basílica desce e a atravessa a pé toda a nave até o altar da confissão. A nave central da Basílica fora transformada numa grande sala parlamentar, com altas estalas de um lado e de outro, para abrigar os padres conciliares, peritos e observadores. Andrea Ricardi observa que o gesto do Papa de atravessá-la caminhando fora interpretado como um sinal de respeito para com a Assembléia328. O Cardeal Tisserant, decano do Sacro

Colégio celebrou a missa do Espírito Santo.

O momento mais esperado era o da alocução de abertura do Concílio a ser pronunciada por João XXIII. Esta tinha por título, como é de praxe nos documentos

327BEOZZO, José Oscar. Diário, 09/10/1963

pontifícios, suas palavras iniciais: Gaudet Mater Ecclesia, “Alegra-se a Mãe Igreja”. A alocução já foi exaustivamente analisada, até nos mínimos detalhes e nas várias etapas de sua redação, desde seu esboço inicial às várias versões em italiano, da sua tradução para o latim, às muitas correções de próprio punho que João XXIII foi introduzindo, para precisar seu pensamento, tornar mais clara e bela uma expressão, acrescentar uma evocação bíblica329.

O certo é que a alocução, firme e serena, realista mas esperançosa, causou profunda impressão e continuou a ser evocada, ao longo do Concílio, mesmo depois da morte do Papa, como seu testamento e como farol que devia guiar, sem constranger, a busca, tantas vezes difícil e penosa do Concílio para dar à Igreja um rosto continuamente renovado a partir da volta às fontes de sua tradição e às exigências do evangelho para o mundo de hoje. Não entro nas análises mais complexas do discurso que João XXIII gostava de dizer que fora por ele composto com “a farinha do seu saco”330, para denotar a responsabilidade pessoal direta do que proclamara na Basílica e para o mundo, já que a celebração fora transmitida ao vivo pela RAI (a Rádio e Televisão Italiana) e por outras televisões européias em cadeia e retransmitida para os Estados Unidos, via satélite, horas mais tarde.

Apresento o registro da reação de um leigo ilustre, por muitos anos, presidente da Ação Católica Brasileira e o mais importante intelectual católico do século XX, o Dr. Alceu, como era chamado.

O testemunho está vazado no estilo epistolar e por isto com a espontaneidade e a emoção de quem escreveu para ser lido apenas pela destinatária, sua filha religiosa:

“Beleza, que beleza!

Ainda estou, ou antes, estamos, mamãe, você e eu, com os olhos cheios, os ouvidos tinindo e a cabeça tonta de tanto esplendor do que vimos e ouvimos ontem. Antes de tudo pelas palavras do Papa ...”

Dizendo-se contra os uniformes, ritualismos e o espetáculo das cerimônias, acrescenta Dr. Alceu: “[...] em reação contra tudo isso, cada vez mais procuro o espírito interior, o sentido profundo, o que há de invisível por detrás de tudo isso, por mais formidavelmente Belo que fossem as cerimônias e os espetáculos de ontem! E por isso é que vou antes às palavras do Papa, que corresponderam tão bem ao que eu queria, esperava e temia que não fosse, que penso até exagerar e sobretudo individualizar egocentricamente

329ALBERIGO, G. - MELLONI, A., L'allocuzione “Gaudet Mater Ecclesia” di Giovanni XXIII (11 ottobre

1962), in Fede, Tradizione, Profezia. Studi su Giovanni XXIII e sul Vaticano II, Brescia 1984, pp. 185-283. Tradução portuguesa em KLOP II, pp. 305-312

o que ele disse, especialmente nas passagens em que falava do novo espírito da Igreja, que não era de anátemas e condenações, mas de amor, de fraternidade, união na verdade, em suma tudo aquilo que venho pregando há tanto tempo em torno do espírito de universalidade, de equilíbrio, paternidade, paz, amor, etc. e tal, que você já está chateada de ouvir.

E destacou também o trabalho e condenou os pessimistas!

De modo que o que me falou, antes de tudo, foi a palavra do Papa, ouvida (e vista) da sua própria boca, com uma voz tão firme como de um moço e uma atitude tão calma, tão desprendida, tão natural (e portanto tão sobrenatural) como se estivesse rezando sozinho em sua capela particular! E, no entanto, estava e estávamos vivendo um momento histórico naquela basílica, onde agora se celebrava o maior Concílio da História.

Entrou por seus pés, e não na ‘sédia gestatória’ o que apreciei muito (estava torcendo que assim fosse) e também saiu assim. Aliás não foi ele que celebrou, e sim o Cardeal Tisserant com quem conversei à tarde.

E se te disser que não sei onde estava o altar! Creio que estava na porta da frente pois o Papa estava no centro, debaixo do baldaquino, sobre o túmulo de São Pedro e a missa era celebrada do lado da porta principal, mas pela nossa colocação no ângulo oeste do transepto, perto da estátua de Santo André, entrevíamos a nave central para o lado da frente e só pude ver pelas fotografias, como você também verá.

Mas estávamos os três da Delegação [brasileira], num palanque e na primeira fila. Vantagem do Brasil começar pelo B. Estávamos perto da Bolívia, da Bélgica, de Cuba (sic!)331.

Observado o intervalo de um dia, consagrado à recepção por parte do Papa das delegações dos governos e organismos internacionais, dos observadores e convidados do Secretariado para a União dos Cristãos, a primeira Congregação Geral do Concílio, acontece na manhã do dia 13 de outubro.

Pode-se perguntar, às suas vésperas qual a situação do episcopado brasileiro naquele momento e quanto havia mudado entre a consulta de 1959 e este início do Concílio.

O Episcopado brasileiro foi crescendo ao longo desses anos e os 175 bispos, ao momento da consulta em 1959, haviam se transformado em 231, ao final da

última sessão, em 1965, acumulando um aumento de 56 novos bispos ou seja de 32.0%. Responderam à consulta, enviando os seus “vota”, 133 bispos, ou seja 76.0% do episcopado. Damos abaixo uma pequena tabela que nos permite obter uma visão de conjunto, ao longo dos sete anos (1959 – 1965):

VARIAÇÃO NÚMERICA E PARTICIPAÇÃO DO EPISCOPADO BRASILEIRO:

Benzer Belgeler