A administração da justiça no Brasil, durante o século XIX, competia ao Ministério da Justiça assessorado pelos demais órgãos da administração pública, especialmente os tribunais e seus magistrados. O Congresso Nacional, as Assembléias Provinciais, as Câmaras Municipais, e inclusive os cidadãos ligados ao Estado recorriam ao poder judiciário para solucionar suas dúvidas e problemas
e, com isso, acabaram por contribuir para a composição de uma legislação civil e criminal ampla. Tal era a complexidade de nosso ordenamento, durante o século XIX, que ele contemplava desde pedidos de pensão até o tipo de vestimenta e os símbolos que distinguiam os funcionários da justiça uns dos outros. A Coleção das Leis do Império do Brasil testemunha cabalmente essas demandas; os atos do poder legislativo, executivo e as decisões do governo deixam indubitavelmente claros as demandas por normas e leis que regulassem os comportamentos e atitudes dos cidadãos e dos funcionários da administração do Império.
Interessam-nos as normas e leis que tratam da organização interna e externa do poder judiciário. Aquelas que demonstram o empenho do poder judiciário na organização dos tribunais, em regular o seu funcionamento e disciplinar a ação de seus magistrados. Aquelas que procuraram criar e promulgar os códigos cíveis e criminais, aquelas que reformaram a Constituição, que procuraram disciplinar o desempenho dos funcionários e agentes ligados à justiça direta e indiretamente. Posto que, são elas que permitem entrever em que medida as ações do Estado se tornariam mais ou menos eficazes. Neste sentido, este capítulo trata da estrutura de organização e de funcionamento do poder judiciário e de suas mutações, a partir das emanações legislativas do governo. Procuramos simplesmente demonstrar o imenso, nem sempre frutífero, trabalho executado pelos órgãos e instituições do Estado nascente, suas ambigüidades e contradições internas, fatos notórios na legislação da época. Por quê? Simplesmente para demonstrar os limites do Império da Lei.
A legislação promulgada entre 1830 e 1834 foi marcada por dois debates importantes: um, acerca da criação de uma legislação penal adequada ao novo regime e, outro, acerca da normalização do Juizado de Paz e da Guarda Nacional. A maioria das normas, decisões e leis propostas, debatidas e aprovadas tratavam desses dois temas. Todo o debate visou definir e delimitar com a maior exatidão possível os limites, as competências, a distribuição e adequação destas duas instituições jurídicas, policiais e militares. O momento de suas criações era muito delicado para o novo regime. O país enfrentava uma séria crise de autoridade, buscava legitimar-se por meio da vigilância/controle e repressão dos grupos sociais contrários à nova ordem. No entanto, a criação do Juizado de Paz e da Guarda Nacional não eram inovações jurídicas no campo do direito ocidental. A novidade residia muito mais em sua aplicação à realidade brasileira, e elas inevitavelmente sofreram e expressaram as contradições das lutas existentes entre liberais e conservadores. Analisemos detalhadamente estas duas instituições para verificar como elas contribuíram para a consolidação do Estado Nacional brasileiro. 76
O Juizado de Paz foi criado pela Lei de 15 de outubro de 182777, e deveria ser
organizado em todas as freguesias e capelas curadas do Império. Esta lei definia as principais
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A jurista Rosa Maria Vieira remonta a criação do Juizado de Paz à Idade Média. Veja: VIEIRA, Maria Rosa. O Juiz de Paz, do Império aos nossos dias. 2. ed. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 2002.
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características do instituto jurídico. Os Juizes Paz seriam eleitos para um mandato de dois anos, podendo ou não ser reconduzidos ao cargo, desde que não houvesse alguns impedimentos. No momento de sua criação os Juizados de Paz possuíam uma esfera de atuação e competência amplas com poderes administrativos, judiciais e policiais. Mas, com o passar dos anos, com o acúmulo de experiências e frustrações a lei foi sendo aditada, restringida e, segundo a elite conservadora da época, melhorada. A instituição iria sofrer um duro golpe em 1841 com a reforma do Código de Processo Criminal que restringiu os poderes do juizado de paz às funções administrativas e conciliatórias. Em 1827, a lei definia as competências dos Juizes de Paz da seguinte maneira:
Art. 5. Ao Juiz de Paz compete: §1.° Conciliar as partes, que pretendem demandar, por todos os meios pacíficos, que estiverem ao seu alcance: mandando lavrar termo do resultado, que assinará com as partes e Escrivão. (...) §2.° Julgar pequenas demandas, cujo valor não exceda 16$000(...)§3.° Fazer separar os ajuntamentos, em que há manifesto perigo de desordem, ou fazer vigiá-los a fim de que neles se mantenha a ordem; e, em caso de motim, deprecar a força armada para rebatê-lo, sendo necessário. A ação porém da Tropa não terá lugar, senão por ordem expressa do Juiz de Paz, e depois de serem os amotinadores admoestados pelo menos três vezes para se recolherem a suas casas, e não obedecerem. §4.° Fazer por em custodia o bêbedo, durante a bebedice (...)78
A instituição do Juízo de Paz sofreu inúmeras alterações, adições e restrições entre a data de sua criação e o Ato Adicional. Todas as modificações pelas quais passou a instituição revelam o embate político das facções da elite dominante, a vontade de tornar cada vez mais exatas as funções do Juizado de Paz, o interesse em evitar os abusos de poder e em realizar uma redistribuição da justiça em nível local. É o que se nota no decreto de 17 de julho de 1832 que determinava “que os juizes de paz na Província de Minas Gerais façam nos seus distritos o arrolamento das pessoas existentes” e estabelecia “diversas providencias contra os vadios”. Nas localidades os Juizes de Paz eram responsáveis pela manutenção da ordem e do sossego público, como se verifica no texto do decreto:
Art. 1.° Os Juizes de Paz da Província de Minas Gerais cuidaram quanto antes de fazer o arrolamento de todas as pessoas existentes nos distritos de sua jurisdição, especificando suas naturalidades, idades, e ocupações, depois do que procederam na forma do seu Regimento contra aqueles, que se verificarem vadios e sem meios de decente subsistência. Art. 2.° Os oficiais de Justiça serão obrigados a dar parte imediatamente aos Juizes de Paz de todas as pessoas, que chegarem de novo aos seus distritos, declarando d’onde vieram, para onde se dirigem, e suas profissões, e no caso de serem reconhecidos vadios, ou malfeitores, os Juizes de Paz procederão contra eles na conformidade das Leis.
Art. 3.° Os Juizes de Paz exigirão expressamente dos chefes de famílias, e dos fazendeiros relações das pessoas livres, que eles tiverem em suas companhias, quer sejam agregados, quer feitores, quer empregados, com especificação das profissões que tem, e dos lugares d’onde vieram,−Pena− de dez mil reis, e o dobro na reincidência aos que não derem as relações.
78 CLIB de 1827. Lei de 15 de outubro de 1827. pp. 67-69. Os Juizes de Paz agregavam competências policiais, administrativas e policiais. O pretendemos destacar é que entre 1827 e 1850 estes amplos poderes sofreriam uma profunda restrição e parte deles seriam transferidos para os Juizes de Direito, Chefes de Policia, Delegados e Juizes Municipais e de Órfãos, como parte de uma reação dos conservadores que não viam com bons olhos a atuação dos juizes de paz.
Art. 4.° Na pena do artigo antecedente incorrerão os fazendeiros, e chefes de famílias, que conservarem homens vadios, e malfeitores.79
O ministro da justiça, Diogo Antonio Feijó, visava com a medida inúmeros objetivos implícitos e explícitos. Em primeiro lugar, disciplinar a ação dos Juizes de Paz. Em segundo lugar, objetivava estabelecer uma vigilância cerrada aos homens livres pobres e sem ocupação regular, pois a partir do século XIX começou um intenso debate acerca do valor moral do trabalho, apesar, e talvez, devido à predominância do trabalho escravo na sociedade brasileira. Ou seja, era preciso disciplinar a mão-de-obra livre existente, disciplinar a força de trabalho disponível. Em terceiro lugar, o decreto visava evitar a formação de quadrilhas, maltas, bandos de homens livres pobres à disposição dos “chefes de famílias” e “fazendeiros”; mão-de-obra que, circunstancialmente, era utilizada para toda sorte de atos criminosos nas vilas e cidades do interior do Brasil. Todos esses objetivos são importantes para compreensão de como a justiça foi se organizando na época. Mas, sem dúvida, o que se nota é um forte destaque ao procedimento que os Juizes de Paz deveriam adotar caso sua autoridade não fosse respeitada.
As recomendações eram claras de como eles deveriam agir para que a autoridade fosse acatada. Se houvesse desacato à autoridade dos juizes de paz, eles deveriam proceder contra os infratores “na forma do seu Regimento” atuando contra eles “na conformidade das Leis”. O decreto regulava ainda os procedimentos dos “oficiais de justiça” exigindo desses agentes do poder judiciário que mantivessem o juiz de paz sempre informado e com prontidão para que ele pudesse tomar as medidas necessárias para a manutenção da ordem. Observa-se que havia o intuito de controlar a mobilidade da população livre pobre, saber em que se ocupava, qual era o seu perfil, mas especialmente “d’onde” provinham e para onde se dirigiam. Implicitamente, o decreto deixa perceber que havia uma intenção em controlar os homens livres pobres, mas também as elites locais. Ressaltando que os juizes de paz poderiam recorrer a multas e, em alguns casos, até a prisão daqueles que desacatassem a sua autoridade. Estas e outras medidas visavam principalmente normalizar e disciplinar os comportamentos e atitudes das autoridades, das elites locais e dos homens livres pobres, pois tais medidas enquadravam-se na política da ordem, tranqüilidade e sossego público, fontes seguras do progresso da nação.
Os juizes de paz valeram-se de suas prerrogativas legais política, econômica e socialmente para obter prestigio social nas localidades. Ocupar o cargo de juiz de paz era uma forma de ser reconhecido perante os poderosos locais e mesmo de se tornar mais influente junto à comunidade. O cargo foi muito disputado durante o período. Os juizes de paz assumiram um importante papel na política local. No início do século, eles eram responsáveis, juntamente com o delegado e o pároco, pela realização das eleições nas localidades, isso implicava manter relações com
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os fazendeiros, comerciantes, membros da câmara e demais autoridades municipais. Significava angariar simpatias e antipatias políticas. Nos relatórios dos presidentes da província de Minas podemos encontrar, nas ocasiões das eleições, tanto juizes de paz como juizes municipais envolvidos em conflitos políticos em diversas localidades da província.
Os poderes policial e judicial dos juizes de paz, às vezes, foram utilizados por esses agentes locais para reprimir ou perseguir seus desafetos. Os juizes de paz, desde a criação em 1827, sofreram criticas desta ordem por parte dos juizes letrados e dos presidentes das províncias. Os Relatórios insistiam que a instituição padecia de um mal de origem: os magistrados locais não possuíam formação adequada para a incumbência que eram eleitos. Durante todo o século XIX, os magistrados letrados iriam criticar e acusar os juizes de paz de despreparados e partidários dos poderosos locais. Thomas Flory ao analisar a instituição do Juizado de Paz e o papel dos juizes de fato no período destaca esse conflito de competências e a disputa política na esfera da magistratura brasileira. Nas palavras de Flory:
Desde el principio hubo conflictos entre los jueces elegidos y los magistrados de la Corona, particularmente los juizes de fora nombrados por el rey, cuyo orgulho corporativo estaba ofendido al tener que compartir uma autoridad mal definida con personas no profesionales elegidas por el pueblo, y carentes de entrenamiento.80
Os juizes de paz sofreram resistências dentro e fora do poder judiciário, dos magistrados remanescentes do período Joanino e daqueles que tiveram suas funções mais bem definidas depois da reforma de 1841, os juizes municipais e de direito. Todo esse processo de disputa política no interior da magistratura provocaria, somado a outros elementos, o desgaste e descrédito do Juizado de Paz no Brasil. Tanto é que, trinta anos depois, na segunda reforma que o Código de Processo Criminal sofreu as funções, competências e atribuições dos juizes de paz restringiam-se à pequenas causas, conciliação e aspectos administrativos. Thomas Flory consegue acompanhar com precisão a formação, o desenvolvimento e o declínio da instituição. Como dissemos, nos interessa acompanhar os aspectos internos de evolução do poder judiciário, mas não podemos negar que eles expressavam as lutas políticas e sociais travadas entre liberais e conservadores. Contudo, não é possível fazer uma associação automática e definitiva entre Juizado de Paz e os liberais, pois como mostraremos adiante houve momentos em que os juizes de municipais, oponentes dos juizes de paz, foram apoiados pelos liberais. De modo geral, as autoridades que atuavam localmente acabavam se unindo aos poderosos regionais ou municipais, fossem eles conservadores ou liberais. A Guarda
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FLORY, Thomas. El Juez de Paz y el Jurado en el Brasil Imperial, 1808-1871: control social y estabilidad política en el nuevo Estado. México: Fondo de Cultura Econômica, 1986. p. 85. Aqui o autor menciona em nota o Relatório do Presidente da Província da Bahia para reforçar sua argumentação.
Nacional foi outra instituição com uma trajetória de ascensão e queda bem definidas, e também podemos encontrá-la associada aos interesses locais.81