Para compreender quais marcas identificam as pessoas pesquisadas com a Igreja Metodista, fizemos a seguinte pergunta: Por que você escolheu a Igreja Metodista como opção religiosa? E, dentre os vários aspectos apresentados, destacamos a tradição familiar e o aspecto afetivo associados ao acolhimento e pertença a um grupo.
a) Tradição familiar - Esta é a alternativa mais destacada nas respostas dos sujeitos pesquisados, principalmente nos de Santo André. Algumas características desta igreja que podem estar relacionadas com este resultado são: a igreja é basicamente formada por famílias, inclusive de 3ª geração de metodistas, incluindo uma família numerosa, composta por mais de cinqüenta integrantes atuantes; há a união conjugal entre jovens da própria comunidade, fortalecendo ainda mais os laços familiares entre os adeptos; há a filiação, no caso de casais, daquele/a que não era metodista. Observamos, ainda, a existência de certo orgulho ou alta auto-estima nos adeptos por pertencerem a esta igreja, fazendo com que supervalorizem a fraternidade entre os mesmos.
Mas, o que significa a tradição familiar? Quase todos os depoimentos falam em “nasci metodista, nasci em um lar metodista”, “nasci nesta igreja”. O uso do verbo nascer dá uma força muito grande na constituição da identidade desses sujeitos, expressando um determinismo religioso do tipo “eu sou, porque nasci”. A associação do nascimento biológico com a pertença a esta igreja demonstra que ser religioso e ser metodista é algo natural e essencial, portanto inquestionável.
Outros depoimentos:
Não tive opção de escolha a princípio, pois já sou filha, neta de metodistas e aprendi a gostar e respeitar minha igreja (mulher, afro-descendente, branca, IM Suzano).
Minha família já fazia parte dessa igreja, continuei a freqüentar, me identifiquei e me sinto bem nela, além de ter uma obra de deus a fazer neste local. (jovem, preta, IM Suzano).
Influência dos pais e por acreditar nos aspectos doutrinário e relacional das comunidades. (homem, preto, IM Vila. Mariana).
Eu sou de família metodista, cresci dentro desta doutrina. A minha opção se fortaleceu com a minha identificação com a doutrina metodista por se um espaço, onde exerço a minha fé e o meu compromisso com Vida (mulher, preta, IM Belém).
Tradição familiar, no entanto, não significa a manutenção de valores e costumes das gerações passadas, pois são evidentes as mudanças tanto no cotidiano das famílias metodistas, como nos rituais da igreja. Como exemplo, na primeira metade do século XX, havia regras rígidas como: proibição de freqüentar bailes - ou simplesmente de dançar-, de uso de calcas compridas por mulheres, de fazer compras ou ir ao cinema aos domingos – Dia do Senhor. Hoje, estas regras apenas fazem parte da história. Quanto aos ritos: antigamente, existiam placas nas igrejas disciplinando o povo ao silêncio, os hinos entoados eram composições européias e o órgão ou o piano eram os únicos instrumentos permitidos durante o culto. Hoje, o silêncio é considerado expressão de “frieza” espiritual, prevalecendo a alta intensidade sonora com o uso de instrumentos eletrônicos e rítmicos. Estas mudanças nem sempre são percebidas pela comunidade, dando a sensação de continuidade e de estabilidade da instituição, como bem coloca Rivera (2001:211) “a religião se apóia na legitimidade de uma tradição cuja permanência no tempo lhe garante caráter absoluto” forjando a “ilusão de não- mudança”, como representação coletiva da continuidade e garantia do caráter absoluto. Ao afirmar a tradição familiar como razão de ser metodista, fica pouco explícito o que isto significa e quais os detalhes desta tradição. Todavia podemos interpretar esta situação como um hábitus, segundo a concepção de Bourdieu (2001), ou seja, uma identidade incorporada como herança familiar, tida como natural e inquestionável. Em outras palavras, ser metodista pode ser considerado um hábito familiar, na visão destas pessoas algo natural.
b) Acolhimento/ afetividade - Este é o outro aspecto mais destacado, principalmente por aqueles/as que fizeram a opção pelo metodismo na fase jovem ou adulta. Percebemos algumas evidências através dos depoimentos que se seguem:
Quando criança e juvenil pelo acolhimento, e não acepção entre branco e negro. Jovem e adulto, porque como tantas que passei ainda aceita novas idéias e as discute para melhor benefício da comunidade (mulher, negra, IM Itapecerica da Serra)
A primeira vez que eu pisei dentro da Igreja Metodista em Santo André eu me apaixonei pela Igreja, pelo calor humano que recebi, pelos afetos e principalmente por ter sido muito bem recebida dentro daquela igreja. Hoje sou membro da Igreja Metodista em Rudge Ramos e aquele mesmo afeto, o mesmo carinho que senti em Santo André continua ao meu redor e ao redor do meu filho até os dias de hoje na Igreja Metodista em Rudge Ramos (mulher, negra, IM Rudge Ramos).
Na época em que estava passando por problemas foi uma pessoa desta denominação que me acolheu (mulher, negra, IM Santo André).
[...] Minha família passou por momentos difíceis e fomos bem acolhidos, ficamos e nos envolvemos com as irmãs e irmãos (mulher, negra, IM Santo André).
Pela transparência que se conduz para o ideal e preceitos quanto ao homem dentro da igreja, pelas amizades, carinho quanto as pessoas, pois não há distinção de cor, pela família que encontrei quando cheguei (homem negro, IM Suzano).
Porque foi uma igreja que me acolheu com os braços abertos (jovem negro, IM Suzano).
[...] porque encontrei alimento espiritual, e muito amor dos irmãos metodistas. (mulher, negra, IM Monte Belo).
Foi onde, primeiramente, eu me senti bem. (mulher, negra, IM Monte Belo).
O acolhimento e afetividade são apontados por pessoas que não são de famílias tradicionais metodistas, mas que se tornaram adeptas, quando em momentos de fragilidade emocional ou material, e tiveram alguma experiência positiva associada à igreja. A valorização da sociabilidade e da fraternidade entre os membros revela que a Igreja Metodista tem sido um lugar de apoio e acolhimento. Segundo Rivera (2001:210), os sujeitos religiosos no contexto pós-moderno “se auto-reconhecem mais como parte de uma comunidade e de um espírito que de uma tradição”. Assim, o sentimento de pertença está fundado no aspecto do bem-estar pessoal e no vínculo emocional ao grupo. O que na perspectiva de Hervieu-Léger (2001) à respeito das lógicas das identidades religiosas, refere-se à predominância do pólo emocional em relação às demais. Contudo, há um entrelaçamento com as demais lógicas de pertencimento - institucionais, comunitária, ética e cultural.
c) Doutrina – Este aspecto é mais destacado pelas pessoas da IM em Santo André, de forma complementar à tradição familiar. Contudo, o termo doutrina aparece de forma evasiva, talvez porque não há uma ênfase doutrinária na Igreja Metodista, conforme afirma Dornellas (2002), visto que é dada a primazia à experiência pessoal e valorizada a unidade essencial da graça salvadora. Assim, parece estar em jogo não a doutrina, mas sim aquilo que os pesquisados consideram como fundamento bíblico.
Porque aceito seus pontos doutrinários e vejo que eles estão baseados na palavra de Deus (mulher, afro-descendente, branca, IM Suzano)
O “equilíbrio” apontado como um dos aspectos positivos da Igreja Metodista em afirmações como: “uma religião equilibrada” no aspecto do ritual, “culto equilibrado e racional sem deixar de lado a espiritualidade”; tem sido apresentado como uma característica metodista associada a outras referências, designadas como atos de piedade e atos de misericórdia respectivamente, de acordo com o Cânones (2007:76).
... não só por um avivamento evangélico, mas por um entusiasmo racional , uma espiritualidade equilibrada, um ministério “leigo”, uma evangelização revolucionária e uma disciplina democrática (DORNELLAS:40).
Porém, a idéia do equilíbrio metodista também está relacionada ao valor dado de forma eqüitativa às práticas espirituais e à ação social, educativa e ética:
Por uma educação que permite o diálogo e a troca de experiência, com uma preocupação social, e envolvimento e preocupação com a dignidade humana. (mulher, negra, IM Vila Mariana).
... O propósito de co-responsabilidade social a serviço do Reino, que começa no aqui e no agora (mulher, negra, IM Vila Mariana)
Por ser uma igreja que promove o ser humano, se preocupa integralmente, e a liberdade de culto. (Mulher, negra, IM Monte Belo)
Gosto da Igreja Metodista pelos seus conceitos e valores, por ser uma igreja tradicional e ter raízes fortificadas, gosto da doutrina e da maneira como é conduzida por princípios e valores éticos (mulher, preta, IM. Carapicuíba)
Sempre fui protestante e ao conhecer o Metodismo percebi que era uma religião equilibrada, que zelava pela educação, o respeito mútuo e pelo ecumenismo. (mulher, preta, seminarista).
Os depoimentos reproduzem o pensamento metodista transmitido pelos meios de educação cristã, como as classes de escola dominical, estudos bíblicos, cultos entre outros. Portanto, demonstram mais um caráter discursivo. Não encontramos qualquer alusão à dimensão racial dentro da ação socio-educativa e transformadora da Igreja Metodista, por parte dos/as pesquisados/as.
d) Espiritualidade - O aspecto espiritualidade aparece de forma mais explícita apenas em algumas respostas e mais implícita em outras:
Uma obra de Deus a fazer neste lugar (mulher, negra, IM Suzano)
1º: toda minha família é metodista; 2º tem uma história e um propósito (visão); 3º foi onde Deus mostrou ser meu lugar (mulher, branca, IM Suzano).
Foi onde encontrei alimento espiritual: (Mulher, preta, IM Monte Belo)
Por que eu sou apaixonada por Cristo. (mulher, negra, IM Rudge Ramos), Por uma experiência real com o Senhor... (mulher, negra IM Campo Belo)
Minha opção religiosa é cristã. Nesta igreja eu me sinto bem e encontro Jesus. (Mulher, negra, IM Vila Mariana)
Estes depoimentos refletem uma visão mais mística e messiânica, ou seja, pessoas que se vêem chamadas para uma missão; por outro lado, também apresentam uma visão mais individualista e dissociada do social.
e) Organização - Este aspecto é pouco evidenciado e aparece em três depoimentos:
Depois, por ser uma igreja mais transparente, ética, autocrítica e democrática. (homem, cor parda, IM Santo André).
Eu nunca tive que optar pela igreja, se tivesse que fazê-lo seria metodista, gosto de seus princípios fundamentados no cristianismo, de sua organização, da democracia que permite a participação de todos em suas decisões, da séria formação de seus pastores. (MARGER - branca).
a princípio me converti nela; freqüentei outras não metodistas. optei pela metodista, mais pela sua organização. (IM Suzano)
Por ser uma igreja que promove o ser humano, se preocupa integralmente, com uma estrutura organizacional bastante consciente, e a liberdade de culto. (mulher, preta, IM Monte Belo).
Estes depoimentos ressaltam a forma de organização democrática da Igreja Metodista, o que representa não só a segurança de pertencer a uma organização séria, com um diferencial em relação a outras igrejas, mas também um espaço de inclusão, onde as pessoas têm direitos de participação. Este aspecto torna-se relevante, se consideramos que a sociedade exclui a maioria das pessoas negras dos centros de decisão; por outro lado, esta inclusão é concretizada por meio do trabalho religioso.
f) Educação: Neste item observamos que o grupo ressalta a formação pastoral, a educação cristã e secular; bem como a seriedade da IM, enquanto instituição educadora.
Por uma educação que permite o diálogo e a troca de experiência, com uma preocupação social, e envolvimento e preocupação com a dignidade humana. (mulher, preta, IM Belém).
g) Conveniência – Este aspecto está relacionado à praticidade ou conveniência de pertencer a alguma igreja metodista, como motivação inicial. Cinco pessoas declararam o fato de morarem próximas ao templo como elemento facilitador para a participação.
Por conveniência. (homem, pardo, IM Santo André).
A princípio por estar localizada próxima de minha casa, gostei muito da igreja por acolher minha família com muito amor e por ter muitos jovens, que certamente influenciariam no crescimento de meus filhos. (mulher, parda, IM Santo André). No início porque era perto da minha casa. Depois fui gostando e hoje em nome de Jesus vai ser sempre a minha casa. (mulher, preta, IM Monte Belo).
Primeiro porque é próxima a minha casa, e tenho uma filha portadora de cuidados especiais e para mim fica muito melhor. Segundo, porque encontrei alimento espiritual, e muito amor dos irmãos metodistas. (mulher, preta, IM Monte Belo). Porque era a mais próxima de minha casa. (mulher, preta, IM Vila Mariana).
A Igreja Metodista serve como referencial de pertencimento com base em um território, diferenciando-se das novas igrejas eletrônicas. Isto é uma característica importante, associada às sociedades tradicionais, atualizada às características da pós-modernidade. De acordo com os depoimentos, notamos que tanto a fé no transcendente, como o pertencimento a um grupo, atende as demandas decorrentes de uma sociedade individualista e sujeita as constantes instabilidades.