O Brasil vem passando por intensas mudanças econômicas e culturais no decorrer das últimas décadas, num processo que tem como uma de suas particularidades a crescente valorização da mão de obra feminina no mercado de trabalho. Analisando a história da participação feminina no mercado de trabalho verifica-se que a inserção da mulher melhorou tanto quantitativamente, aumento da taxa de participação feminina, como qualitativamente, através do acesso a melhores postos de trabalho, antes reservados aos homens. Mesmo assim, com os inúmeros avanços conquistados pelas mulheres, o mercado brasileiro ainda revela diferenças sensíveis entre homens e mulheres.
Segundo o Censo Demográfico do IBGE (2010), a população brasileira é de 196.877.328 milhões de habitantes, sendo 51,3% de mulheres (101.064.848 milhões) e 48,7% de homens (95.812.480 milhões). As mulheres, também, são
maioria na população de 10 anos ou mais (População em Idade Ativa - PIA), cerca de 53,7%.
A taxa de participação das mulheres no mercado de trabalho, conforme Costa (2008, p. 15), é um indicador relevante para analisar a evolução dos níveis de desigualdade de gênero existentes no nosso país, pois mede consequentemente a pressão sobre o mercado de trabalho. Assim, o gráfico 1 mostra que mesmo sendo o número de mulheres maior do que homens, elas são minorias (45,4%) na população ocupada. No período de 2003 e 2011, percebe-se um maior crescimento do nível de ocupação das mulheres, mas em níveis bem inferiores ao dos homens. No mesmo período, o crescimento da participação das mulheres na população economicamente ativa (PEA) foi de 1,7 pontos percentuais (de 44,4% para 46,1%); e a proporção de mulheres na população desocupada teve um aumento no período (IBGE, 2012a, p. 3).
Gráfico 1 - Distribuição da população brasileira, segundo o sexo (%), no período de 2003 e 2011
Fonte: IBGE (2012a)
No cenário cearense, de acordo com a Pesquisa de Emprego e Desemprego na Região Metropolitana de Fortaleza - PED/RMF (2013), nos últimos anos o crescimento da economia do Estado do Ceará impactou favoravelmente no aumento da formalização do emprego, desemprego em níveis historicamente baixo e ganhos reais de salário. Esse bom desempenho no mercado de trabalho, especialmente na
Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), contemplou homens e mulheres, sendo os primeiros os mais favorecidos nesta conjuntura.
Na Região Metropolitana de Fortaleza, ainda segundo a PED/RMF (2013), para cada novo posto de trabalho ocupado pelas mulheres, havia cerca de dois postos para os homens, comprovando que as oportunidades de trabalho não foram igualmente distribuídas por sexo, uma vez que mais de 2/3 das vagas criadas contemplaram a força de trabalho masculina, assim as mulheres representam 45,9% da população economicamente ativa da região. Desta forma, a composição da ocupação por sexo na RMF apresentou relativa estabilidade (comparando 2010 a 2012): os homens representam quase 55,0% dos ocupados e a participação relativa das mulheres na ocupação total da RMF passou de 45,8%, em 2010, para os atuais 45,1% (gráfico 2).
Gráfico 2 - Distribuição da população da Região Metropolitana de Fortaleza, segundo o sexo, no período de
2010 a 2012
No Brasil, mesmo havendo um maior crescimento do nível de ocupação das mulheres, ao ingressarem no mercado de trabalho ainda enfrentam algumas barreiras impostas culturalmente. A elas ainda é reservada postos de trabalhos tradicionalmente denominados como "trabalho para mulher", tais como: funções no setor de serviço; associadas à educação de crianças e jovens; aos cuidados da saúde; aos serviços de limpeza; no trabalho social; no comércio de mercadorias ou em atividades agrícolas. Isso reflete em salários medianos e inferiores relativamente aos dos homens, confirmando uma persistência da discriminação do gênero feminino em alguns setores laborais (CUNHA, 2009, p. 40).
A distribuição ocupacional de homens e mulheres é ainda diferenciada no mercado de trabalho brasileiro, indicando a persistência e a reprodução de uma acentuada segmentação ocupacional de gênero. O gráfico 3 mostra a distribuição da população ocupada feminina e masculina nos diversos setores de atividade em 2003 e 2011. Nos diversos grupamentos de atividade econômica, predomina a população ocupada masculina, sobretudo na construção civil (93,9%) e na indústria (64%). Verifica-se que nesse intervalo de 8 anos, manteve-se a predominância feminina na administração pública (64,1%) e nos serviços domésticos (94,8%), seguida pela ocupação no comércio (42,6%) (IBGE, 2012a, p. 6).
Gráfico 3 - Distribuição da população ocupada, por grupamentos de atividades, segundo o sexo (%), no
período de 2003 e 2011
Observa-se nas atividades onde historicamente há predomínio, seja de homem ou de mulher, praticamente não ocorreram alterações, como por exemplo na construção, com os homens e nos serviços doméstico com as mulheres. Assim, apesar de uma crescente participação da mulher em outras atividades que antes lhes eram pouco acessível, a permanência dela em setores ocupacional, tradicionalmente chamados de "trabalho para mulher", segundo Cunha (2009, p. 26), é oriunda de fatores socioculturais que se perpetuam através da família, escola e meios de comunicação e vem se reproduzindo através dos tempos, colocando ainda a produtividade feminina como acessória e/ ou com caráter de complementação da renda familiar.
Na RMF, quanto à composição setorial da ocupação de homens e mulheres (gráfico 4), percebe-se que se os homens são maioria nos setores da construção (14,3%) e comércio e reparação de veículos automotores e motocicletas (25,0%), já as mulheres ultrapassam a representação masculina na indústria de transformação (20,1%) e nos serviços (57,4%), principalmente neste último, destacando-se algumas atividades como: alojamento e alimentação; educação e saúde; e serviços domésticos. De acordo com a pesquisa da PED/RMF, é na indústria de transformação onde há maior equidade de gênero, pois 49,3% do universo de trabalhadores do setor são mulheres e 50,7% são homens (PED/RMF, 2013).
Gráfico 4 - Distribuição dos ocupados por setor de atividade da Região Metropolitana de Fortaleza, segundo o
sexo
Na Região Metropolitana de Fortaleza, os setores de atividade que são os maiores empregadores são: - serviços; - comércio e reparação de veículos automotores e motocicletas; representando cerca de 71,6% da ocupação da metrópole cearense. Em 2012, foram geradas 18 mil ocupações no comércio e reparação de veículos automotores e motocicletas, 14 mil nos serviços e apenas 2 mil na construção civil. Das 32 mil novas ocupações, 72,0% foram ocupadas por homens, restando à parcela de 28,0% para as mulheres; e nas oportunidades de trabalho da construção civil foi, na grande maioria, absorvida pela mão de obra masculina. Percebe-se que assim como a realidade brasileira, em Fortaleza se repete o fato de que nas atividades onde historicamente há predomínio, seja de homem ou de mulher, praticamente não ocorreram alterações, como por exemplo na construção, com os homens, apesar de um aumento da participação feminina em atividades que antes lhes eram pouco acessível (PED/RMF, 2013).
Outro importante indicador a ser analisado quando se pretende traçar o perfil do tratamento dado à mulher no mercado de trabalho é a remuneração. No Brasil, o rendimento médio do trabalho das mulheres em 2011 foi de R$ 1.343,81, 72,3% do que recebiam os homens (R$ 1.857,63) (IBGE, 2012a, p. 16).
No período de 2003 e 2011, verifica-se uma constante diferença salarial entre homens e mulheres, sendo a remuneração dos homens superior das mulheres (gráfico 5). A razão de remuneração do trabalho mostra uma constante proporção da remuneração feminina em comparação a dos homens, por volta de 70% da remuneração masculina, apresentando por três anos consecutivos (2009, 2010 e 2011), a mesma proporção entre o rendimento feminino e o masculino, 72,3% (IBGE, 2012a, p. 16).
Gráfico 5 – Rendimento médio e razão da remuneração das pessoas ocupadas (R$), segundo o sexo
Fonte: IBGE (2012a)
Na atual conjuntura do capitalismo, no qual se exige das empresas a crescente qualidade dos produtos e serviços, também os trabalhadores devem atender a esta máxima, por meio da sua qualificação e escolaridade. Assim, o mercado de trabalho está cada vez mais exigente, buscando pessoas com elevada qualificação profissional, para que assim consigam atender os seus mercados cada vez mais de forma competitiva (CUNHA, 2009, p. 21).
A escolaridade constitui um indicativo relevante da qualidade do trabalho do indivíduo, sendo assim, as melhores ofertas de trabalho tendem a ser direcionadas para a parcela de trabalhadores mais qualificados. A mulher brasileira é mais preparada do que os homens quanto à escolaridade, conforme observado no gráfico 6. Analisando a participação das mulheres por forma de ocupação, percebe-se que as mulheres possuem participação superior a dos homens, quanto à escolaridade de 11 anos ou mais de estudo (IBGE, 2012a, p. 19).
No período de 2003 e 2011, verifica-se uma melhora nos anos de estudos tanto para homens como para mulheres, mas estas apresentam valores melhores quando comparado com os homens (gráfico 6). Em 2011, os maiores percentuais femininos foram registrados entre os militares e funcionários públicos estatutários, de 93,3%. Outro destaque é a participação feminina com carteira assinada no setor privado, para elas o percentual foi de 77,5%, enquanto para eles foi de 60,4% - uma diferença de 17,1 pontos percentuais em 2011. Em 2003 essa diferença havia sido 20,3 pontos percentuais. O nível de escolaridade masculina só é maior do que
feminina nos trabalhos domésticos, pois apesar de nesses trabalhos a presença ser majoritariamente feminina, a proporção de homens com 11 anos ou mais de estudo era de 23,8% (IBGE, 2012a, p. 19).
Gráfico 6 – Participação da população ocupada com 11 anos ou mais de estudo, por posição na ocupação,
segundo o sexo (%), no período de 2003 e 2011
Fonte: IBGE (2012a)
O fato de a mulher brasileira ser mais preparada do que os homens quanto à escolaridade deveria refletir em uma remuneração média mais elevada que a dos homens. No entanto, os dados mostra que a renda feminina é inferior à renda masculina com os mesmos níveis de escolaridade, independente do grupo de anos de estudo que se enquadrem (gráfico 7).
Gráfico 7 – Rendimento médio habitual da população ocupada, por grupo de anos de estudo, segundo o sexo
(%), no período de 2003 e 2011
No caso da população ocupada da RMF, a remuneração média mensal do trabalhador manteve-se em direção ascendente, com ganho real de 4,9%, ao passar de R$ 982 em 2011, para R$ 1.030 em 2012. Na análise por sexo, as mulheres lograram um ganho real um pouco mais elevado (5,4%) do que os homens (4,5%), resultado que, em uma primeira análise, reforça o movimento de redução da desigualdade da remuneração mensal do trabalho de homens e mulheres, consolidando a tendência observada nos últimos anos. Mesmo assim em 2011, as mulheres fortalezenses ganhavam, em média, o equivalente a 72,0% da remuneração masculina, proporção que cresceu ligeiramente para 72,7%, em 2012. No período, o rendimento médio real dos homens passou de R$ 1.123 para R$ 1.173 e o das mulheres, de R$ 809 para R$ 853 (tabela 2) (PED/RMF, 2013).
Tabela 2 – Rendimento médio habitual da população ocupada, segundo o setor de atividade e sexo (%), na Região Metropolitana de Fortaleza, nos anos de 2011 e
2012
Fonte: PED/RMF (2013)
Entretanto, os diferenciais de rendimento do trabalho de homens e mulheres são mais precisamente aferidos quando se utiliza como indicador o rendimento médio real por hora trabalhada, pois na RMF a jornada semanal média de trabalho dos homens (44 horas) é mais longa do que a das mulheres (40 horas). O principal fato da diferenciação dessa carga horária semanal seria o fato dos afazeres domésticos das mulheres, pois a atividade produtiva fora do lar não a isenta das responsabilidades domésticas, sendo este um possível agravante de sua inserção no mercado de trabalho (COSTA, 2008, p. 15; PED/RMF, 2013).
Assim sendo, o rendimento médio real horário dos homens evoluiu de R$ 5,83 para R$ 6,23 e o das mulheres, de R$ 4,73 para R$ 4,98, conforme tabela 3. A maior desigualdade continua a ser observada na indústria de transformação, onde o rendimento médio real por hora das mulheres correspondia a 70,0% da remuneração dos homens. Por outro lado, é no comércio e reparação de veículos automotores e motocicletas em que se verifica a menor diferenciação de rendimentos por sexo, no qual a remuneração das mulheres correspondia a aproximadamente 80,0% da remuneração dos homens. No setor de serviços, no qual as mulheres representam 57,4% dos ocupados – gráfico 4, a proporção do rendimento delas em relação ao dos homens cresceu para quase 75,0%, em 2012, sendo este o único setor de atividade a apresentar redução da desigualdade (PED/RMF, 2013).
Tabela 3 – Rendimento médio por hora da população ocupada, segundo o setor de atividade e sexo (%), na Região Metropolitana de Fortaleza, nos anos de 2011 e
2012
Fonte: PED/RMF (2013)
Independente de ser rendimento médio mensal ou horário, o rendimento auferido pelas mulheres é inferior ao dos homens, qualquer que seja o setor de atividade analisado, e o grau de desigualdade não é homogêneo nos diversos setores. Entretanto, a realidade de inferioridade das mulheres da Região Metropolitana de Fortaleza, no que concerne à remuneração do trabalho, não é diferente da realidade do Brasil como já foi visto. Apesar de as mulheres estarem ganhando espaços ocupacionais que tradicionalmente eram maioria masculina e de sua elevada escolaridade, elas ainda enfrentam, normalmente, grandes dificuldades no mercado de trabalho, haja vista que frequentemente estão mais expostas à discriminação e, quando ocupadas, além de serem minoria e estarem relativamente
mais sujeitas às formas de inserção laboral mais precarizadas, recebem menores rendimentos do que os homens, mesmo para profissionais com o mesmo perfil de qualificação que ela (PED/RMF, 2013).
É oportuno lembrar que a legislação brasileira veta essa forma de diferenciação no mercado de trabalho devido ao gênero. A Constituição Federal, no artigo 7º, inciso XXX, cita que são direitos dos trabalhadores urbanos e rurais: "a proibição de diferença de salários, de exercício de funções e de critérios de admissão por motivo de sexo, idade, cor ou estado civil". A Consolidação das Leis do Trabalho, no seu artigo 461 (caput), determina que, sendo idêntica a função, a todo trabalho de igual valor, prestado ao mesmo empregador, na mesma localidade, corresponderá igual salário, sem distinção de sexo, nacionalidade ou idade (BRASIL, 1988; COSTA, 2008, p. 53).
3 LEI Nº 11.770/08: AMPLIAÇÃO DO PRAZO DA LICENÇA MATERNIDADE