2. TEVRAT VE KUR’AN-I KERİM’DE KADIN
2.6. Kadınlara Ait Özel Haller
2.6.1. Tevrat’ta Kadınlara Ait Özel Haller
Nardi (2003), apoiado em Castel (1998; 2000), refere-se aos trabalhadores pós- Revolução Industrial como “(...) indivíduos que sobrevivem abandonados à própria sorte, sem a possibilidade de exercício da cidadania, por não estarem inseridos em nenhuma estrutura coletiva que os integre na dinâmica social” (NARDI, 2003, p. 41). O mesmo percebe-se com relação às pessoas TT que, por possuírem maiores dificuldades para concluir os seus estudos, para permanecer em casa devido às relações de violência física e psicológica vivenciadas com os familiares, além da tratativa social para com estas pessoas em forma de transfobia, não têm acesso igualitário ao mercado formal de trabalho, sendo obrigadas a recorrer à informalidade ou à prostituição para obterem renda. Percebe-se assim, um processo de exclusão/inclusão precária destes sujeitos sociais que, à medida que são impedidos de participar das dinâmicas e relações formais de trabalho, são compulsoriamente impelidos a desenvolverem atividades informais ou
mesmo de prostituição. Nesse sentido, Martins (2002, p. 21) aponta que “A vivência real da exclusão é constituída por uma multiplicidade de dolorosas experiências cotidianas de privações, de limitações, de anulações e, também, de inclusões enganadoras”. Ainda segundo o autor:
[...] situações como a de exclusão induzem à criatividade social, à inventividade. Em situações assim, o poder da ordem se manifesta na busca de alternativas de integração social, de reconstituição do tecido social rompido. A própria vítima regenera rapidamente aquilo que falta para se situar interpretativamente na realidade de parece empurrá-la para fora, excluí-la (MARTINS, 2002, p. 39-40).
De acordo com Green (2000), o termo travesti fazia referência, até a década de 1960, a um homem “vestido com roupa de mulher”. Entretanto, a partir da década de 1970, o termo passou a carregar a conotação de atividade sexual, sendo um sinônimo de homossexual que se prostitui. Para Garcia (2007), o pouco preparo escolar e o preconceito social direcionado aos homossexuais efeminados são fatores determinantes para a entrada destes no mercado do sexo. Segundo dados apresentados pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), em reportagem concedida à Agência Brasil de Comunicação, no ano de 2015, 90% das pessoas TTs brasileiras estavam trabalhando no mercado do sexo, o que evidencia um processo de entrada compulsória destas pessoas no mercado do sexo, que não leva em consideração seus desejos e anseios quanto ao trabalho que gostariam de realizar. Além disso, o preconceito e a violência vivenciados fazem ainda com que estas pessoas vivam, em maior ou menor grau, outras restrições sociais, por exemplo, por não se sentirem seguras para saírem às ruas durante o dia e fazerem compras, pagarem contas, estudarem ou mesmo para buscarem emprego. Conforme Saraiva (2012) estes sujeitos são pressionados à invisibilidade, por um processo de diferenças que produz uma redução ou nulificação das possibilidades de interlocução com a sociedade.
Baseado em Paugan (2000), Nardi (2003) afirma que o trabalho inscreve o trabalhador na lógica protetora do Estado e lhe assegura o exercício dos direitos sociais, não apenas quanto à sua contribuição para a atividade produtiva, mas também em relação ao princípio de cidadania. O que não ocorre apenas em países de economias extremamente desenvolvidas. Mesmo no Brasil, percebe-se, ainda, uma legislação trabalhista que defende, minimamente, os direitos adquiridos pela classe trabalhadora,
como direito a férias, décimo terceiro salário, licença maternidade, auxílio doença, aposentadoria, entre outros.
O processo de filiação à sociedade salarial dá-se acompanhado de uma adequação da classe trabalhadora ao código moral da sociedade moderna, pois, ao mesmo tempo em que a filiação à sociedade salarial permitiu o incremento na qualidade de vida dos trabalhadores, ela pressupôs a aceitação de um código moral restritivo, que era marcado pela dominação branca, heterossexual, masculina e centrada na família (NARDI, 2003, p.43).
Por não gozarem dos benefícios decorrentes desta filiação a que se refere Nardi (2003) e de diversos outros direitos sociais, já que não são considerados cidadãos/gente de fato, ficam também comprometidos os processos de subjetivação das pessoas TT, para além da simples sobrevivência material. Trabalhar torna-se algo mais que apenas meio de obtenção de renda. Exercer uma atividade laboral implica, além de segurança, presença no mercado de trabalho e na dinâmica das relações sociais. Significa dizer: “Eu estou aqui. Eu existo!”. Este ato, que também é político, oferece ao sujeito trabalhador, em algum grau, uma perspectiva emancipatória e, consequentemente, a possibilidade de autogovernar-se e de ser cidadão (SENNETT, 2009).
Nadie podría negar que los individuos nacen desiguales o se vuelven desiguales. Pero, en lo que respecta a los seres humanos, la desigualdad no es lo más importante. La capacidad de nuestra especie para producir cosas pone más en evidencia lo que tenemos en común. Del hecho de compartir estos talentos se desprenden consecuencias políticas [...] Aprender a trabajar bien capacita para autogobernarse y, por tanto, convierte a los individuos en buenos ciudadanos. La criada laboriosa tiene más probabilidades de ser una buena ciudadana que su señora aburrida (SENNETT, 2009, p. 348).
Conforme Dubar (2012), todos os tipos de trabalhos possibilitam um espaço de socialização que, para além da acumulação de conhecimentos profissionais, permite a incorporação de uma autodefinição e projeção para o futuro, o que envolveria o compartilhamento de uma cultura de trabalho, ou seja, a presença do sujeito em um determinado segmento organizado, codificado e controlado visando um objetivo comum.
[...] a vida de trabalho é feita, ao mesmo tempo, de relações com parceiros (patrões, colegas, clientes, público, etc.) inseridas em situações de trabalho, marcadas por uma divisão do trabalho, e de
percursos de vida, marcados por imprevistos, continuidades e rupturas, êxitos e fracassos. A socialização profissional é, portanto, esse processo muito geral que conecta permanentemente situações e percursos, tarefas a realizar e perspectivas a seguir, relações com outros e consigo (self), concebido como um processo em construção permanente. É por esse e nesse “drama social do trabalho” que se estruturam mundos do trabalho e que se definem os indivíduos por seu trabalho (DUBAR, 2012, p. 7).
A pertença a um coletivo de trabalho, um dos direitos modernos mais fundamentais, conduz ao aprendizado e engajamento subjetivo, o que permite ao trabalhador pensar o seu futuro. “Situar assim o trabalho no centro da vida social e das existências individuais constitui uma característica essencial da modernidade que nenhuma profecia sobre ‘o fim do trabalho’ conseguiu destruir” (DUBAR, 2012, p. 14). Desta forma, no caso de pessoas transexuais e travestis, que percebem uma maior dificuldade em participar das relações trabalho, principalmente de trabalho formal, compreende-se que estas pessoas encontram uma maior dificuldade em planejar o futuro e administrar as suas vidas. A presente configuração do mundo do trabalho, suas exigências técnicas e principalmente sociais, gera incertezas, inseguranças e barreiras quase intransponíveis para as pessoas que não se enquadram nos padrões heteronormativos, o que impacta na forma como elas organizam as suas vidas e as suas relações sociais.
No processo de luta pela sobrevivência, os trabalhos informais que essas pessoas venham a desempenhar, devido às barreiras colocadas pelo mercado formal, podem, de fato, garantir rendas satisfatórias. No entanto, ressalta-se que a execução de atividades de trabalho formal, ainda hoje, pode ser compreendida por alguns sujeitos sociais como fonte de outros benefícios simbólicos ou mesmo de um status socialmente reconhecido, devido às supostas garantias intrínsecas à formalidade.
Denise Jodelet (2005) demonstra, com um estudo de caso, como o trabalho, e principalmente o sujeito trabalhador, são, em alguma medida, socialmente preenchidos de algo nobre, decente, normal, moral, mesmo que aquele que execute o trabalho seja um tipo socialmente non grato. Em “Loucuras e Representações Sociais”, a autora analisa a história de um povoado que se torna a extensão cuidadora e (pretensamente) inclusiva de uma instituição manicomial. Apesar das segregações e discriminações relatadas pela autora, o importante é perceber que o trabalho, naquele contexto, era fator decisivo na relação entre hospedeiros e pensionistas porque os segundos eram desejados e até disputados pelos primeiros dependendo de sua
capacidade para o trabalho. Os pensionistas que melhor recebiam pelos trabalhos que realizavam adquiriam certo status perante a família hospedeira, sendo-lhes permitido, inclusive, que comessem à mesa de jantar com os membros da família. À medida que os pensionistas, tidos como não possuidores de direitos de cidadania, eram capazes de produzir, trabalhar, contribuir com as despesas, exercer atividade socialmente reconhecida e desejada (“não ser um vagabundo”), eram preenchidos com significância e certo reconhecimento social que lhes devolvia, em parte, a condição de cidadão.
Não se deve, entretanto, esquecer que o valor moral atribuído ao trabalho, como indica Nardi (2003), só existe devido a um processo de incorporação do trabalho como valor simbólico, transformando-o em elemento central da constituição do tecido social. Conforme Lopes (2009), o mundo do trabalho, eminentemente amalgamado à construção subjetiva em nossa cultura, torna-se um ponto de referência fundamental para os processos de subjetivação contemporâneos, bem como um importante fator que orienta a dinâmica das sociedades capitalistas devido às complexas relações que se forjam no encontro (ou não-encontro) do sujeito com a atividade laboral.
A gradativa materialização das sociedades ocidentais modernas testemunha, assim, o entroncamento da formação subjetiva com as atividades profissionais, que dá ao trabalho um lugar central na conformação sociossubjetiva moderna. Inclui-se na categoria trabalho, aqui, não apenas o exercício de uma determinada profissão, mas também os modos de trabalhar, as formas de conquista de um espaço no mercado de trabalho e, até mesmo, os contextos que definem a exclusão do trabalho. O trabalho vai tornar-se, paulatinamente, a forma por excelência de relação e ação do sujeito sobre o mundo (LOPES, 2009, p. 94).
Em vista da compreensão do trabalho como dispositivo central de construção da subjetividade e inserção social, é necessário compreender também como o trabalho participa da mediação entre o sujeito e o social.
2.2 O trabalho entre o “privado” e o “público”: representações sociais e a