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Assim como o pensamento otimista a respeito das tecnologias originou-se de forma contemporânea ao início das relações entre homens e máquinas, a corrente de pensamento considerada por Rüdiger (2013) como dos conservadores midiáticos origina-se com o pensamento tecnófobo, o outro lado da moeda na dualidade que marca as reflexões a respeito dos efeitos a técnica na vida social e cultural.

A mecanização acelerada da vida social e o caráter de massas que esta foi adquirindo levaram muitos pensadores burgueses a revisar seu juízo inicial sobre a tecnologia e sua civilização. A máquina pouco a pouco foi passando a ser vista - às vezes inclusive misticamente - como uma armadilha montada para si mesma pela humanidade como progressista, um elemento nocivo, que não apenas tende a agredir sua vida como, no limite, ameaça a sua sobrevivência. (RÜDIGER, 2013, p. 52)

A perspectiva colocada por esses autores então vem de encontro ao viés celebratório sustentado pelos tecnófilos em relação ao novo cenário comunicacional que se estabelece com a descentralização do polo emissor de mensagens concentrado nas instituições midiáticas tradicionais. Como observa Rüdiger (2013), eles configuram uma forma de conservadorismo justamente por não abrirem espaço em suas análises para a consideração das possibilidades positivas e emancipatórias surgidas com as novas mídias, como fazem os teóricos ligados ao primeiro grupo. Para os conservadores midiáticos, a ruptura representada pelo desenvolvimento do ciberespaço e suas tecnologias não implica, necessariamente, em consequências positivas. Ao contrário, os autores preocupam-se em ressaltar os possíveis efeitos negativos dessa nova dinâmica para as estruturas sociais e culturais vigentes.

Rüdiger (2013) destaca entre os autores que sustentam a postura distópica os estudos de Evgeny Morozov e de Andrew Keen, ressaltando a ênfase dada por Morozov à análise de que a internet e as tecnologias não são neutras, mas sim sujeitas às implicações sociais e culturais dos meios em que são inseridas e se desenvolvem, o que abriria espaço para que as implicações culturais negativas existentes no mundo off-line também sejam refletidas no on-line. Das questões colocadas por Keen, o autor destaca o pensamento acerca dos riscos que a

sociedade e a cultura correm com o desenvolvimento dos meios que incluem o público em sua dinâmica produtiva.

É possível verificar em Keen (2009) a ideia de que as mudanças culturais e midiáticas propiciadas pela web 2.0, ou seja, os recursos de participação na criação de conteúdos (O’REILLY, 2006) não se configurariam como um processo de democratização das mídias e das relações comunicativas, como defende a vertente tecnófila. Para o autor, tal nova configuração do campo midiático apresenta-se, na realidade, como fator desencadeador de uma degradação das instituições culturais, por meio da eliminação da intermediação existente nos meios tradicionais.

O que a revolução da Web 2.0 está realmente proporcionando são observações superficiais do mundo à nossa volta, em vez de análise profunda, opinião estridente, em vez de julgamento ponderado. O negócio da informação está sendo transformado pela internet no puro barulho de 100 milhões de blogueiros, todos falando simultaneamente sobre si mesmos. Além disso, o conteúdo gratuito e produzido pelo usuário gerado e exaltado pela revolução da Web 2.0 está dizimando as fileiras de nossos guardiões da cultura, à medida que críticos, jornalistas, editores, músicos e cineastas profissionais e outros fornecedores de informação especializada estão sendo substituídos (“desintermediados”, para usar um termo do FOO Camp) por blogueiros amadores, críticos banais, cineastas caseiros e músicos que gravam no sótão. (KEEN, 2009, p. 19-20)

O ponto crucial da crítica de Keen (2009) aos recursos da web 2.0 e das tecnologias digitais é o pensamento de que, com as novas relações comunicativas proporcionadas pelas novas mídias, que conferem aos usuários a capacidade de também produzir e difundir seus conteúdos, não existiriam mais - ou pelo menos não teriam mais tanto poder de influência - agentes e instâncias que, atuando como intermediadores profissionais, ou inclusive ocupando o papel de produtores, assegurariam a qualidade e a veracidade dos conteúdos veiculados em rede.

Ou seja, o aspecto celebrado pelos autores do primeiro grupo a respeito dos blogs e das redes sociais, de que eles seriam espaços de descentralização da comunicação onde o público teria voz ativa, é questionado por Keen (2009) sob o ponto de vista de serem espaços marcados pelo amadorismo, sem que haja uma distinção entre esses conteúdos e uma seleção do que teria qualidade e veracidade. Frente a essa configuração do campo comunicacional, Keen (2009) pensa a existência de um “culto ao amadorismo”, uma valorização exacerbada do que é

produzido pelo público e que tiraria espaço do conteúdo produzido por profissionais e distribuído por instituições constituídas para tais fins. Nessa perspectiva, o autor reflete sobre as atuais mudanças no campo da imprensa - também verificadas por Adler (2013) -, do cinema e da indústria fonográfica.

A respeito desse questionamento da validade dos conteúdos produzidos pelo público, Keen (2009) critica o conceito de remixagem cultural defendido por Lessig (2008). Para o autor, não há validade no conceito do remix, já que ele, na realidade, estaria destruindo a autoria da produção de conteúdos e desestimulando a criatividade. Por consequência, o autor também não considera a apropriação de conteúdos e a recombinação deles em novos defendida por Jenkins (2009) e por Jenkins, Ford e Green (2014). Ao questionar a validade dos conteúdos em circulação na rede, também não leva em consideração o trabalho de novos intermediários, como os curadores digitais propostos por Saad Corrêa (2012).

Partindo para uma reflexão a respeito dos efeitos da dinâmica das redes sociais em nossa cultura, Keen (2012) conceitua que as novas mídias instalam um cenário de “hipervisibilidade”. O autor baseia-se no conceito de hiper-realidade de Baudrillard, que coloca a tecnologia como fator que exclui as diferenças entre a realidade e a não-realidade. De acordo com Keen (2012), a hipervisibilidade seria um estado agenciado pelas mídias digitais em que as pessoas sentem-se presentes, visíveis, quando na verdade não estão. As mídias sociais apagariam, então, as barreiras de distinção entre o ser visível, perceptível, e o quem não o é.

Baseado nessa ideia, Keen (2012) sustenta que as mídias sociais geram no público um estado de narcisismo, uma grande necessidade de exibicionismo do pessoal em rede que culmina em uma mudança na própria noção de privacidade entre as novas gerações.

Na era industrial, a aspiração de privacidade era considerada algo garantido como a norma cultural dominante; mas hoje, quando nós, os enxeridos, viramos a teletela para nós mesmos de modo que todos possam nos assistir, é o ideal cacofônico de publicalidade de Jeff Jarvis que se torna o modo-padrão de existência. (KEEN, 2012, p. 57)

Com isso, a crítica de Andrew Keen a respeito dos efeitos culturais das novas mídias sustenta-se em dois aspectos: uma suposta degradação da cultura vigente

com a introdução de conteúdos produzidos pelo público não-profissional e desvinculado das instituições tradicionais; e uma superexposição da vida pessoal em rede, motivada pela falta sensação que as mídias trariam de integração social, quando na visão de Keen (2012), elas estariam gerando uma sociedade mais fragmentada.

Benzer Belgeler