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O ser humano na maioria das vezes se assemelha ao mito da Caixa de

Pandora, com uma diferença, que o objetivo não é espalhar os males do

mundo. Parece sim, que desejamos nos esconder ou não revelar o que nos constitui. Quando pequenos nos mostramos sem nenhum sentimento de vergonha ou restrição, mas no decorrer de nosso desenvolvimento acabamos colocando limites, bloqueios e ou até mesmo escondendo o que pensamos e sentimos. Algumas máscaras começam a ganhar forma e se não estivermos atentos, elas incorporam algumas ações no cotidiano, que depois temos dificuldades em retirá-las.

Somos frutos da experiência cultural forjada pelos nossos antepassados, mas é justamente no contato com o cotidiano que podemos reconstruir o olhar e a ação que acabamos movendo no dia a dia. Saber o que somos, descerrar as janelas para fazermos a viagem ao interior é, na atualidade, o movimento

47 STEVENS, Wallace. In GROF, Stanislav et Bennett, Hal Zina. La Mente Holotrópica: los

que pode assegurar uma alternativa possível de redimensionar o que nos cerca e o que nos constitui.

Grof (1993) em seus estudos mostra-nos que a viagem ao nosso interior, desperta os níveis de consciência e estes desestabilizam o que cremos e o que deixamos petrificado em algum lugar do inconsciente, todavia merece ser retomado, para que possamos nos percebemos como seres inteiros;

[…] la exploración de los estados no ordinarios de consciencia nos proporciona evidencia indiscutible de los recuerdos de la experiencias perinatales permanecen realmente almacenados en nuestro psiquismo, a menudo en un nivel celular profundo. Existen personas sin el menor conocimiento intelectual de su nacimiento que han sido capaces de rememorar, con extraordinaria riqueza de detalles, acontecimientos ligados a esa época de su vida ( como el uso de fórceps, un parto de nalgas o las primeras reacciones de su madre, por ejemplo ) que fueron confirmados objetivamente, de manera reiterada, por los registros del hospital o por el recuerdo de los adultos que presenciaron el acontecimiento. Las experiencias perinatales contienen ciertas emociones y sensaciones primitivas, tales como la ansiedad, la agresividad biológica, el dolor físico y el ahogo, por ejemplo, que se hallan típicamente asociadas con el proceso del nacimiento. ( p. 53 )

As memórias inconscientes acionam os degraus que impulsionam o movimento da espiral, e refletindo com maior rigor, veremos que as marcas do nascimento e dos primeiros anos de vida, retratam uma inteireza, que não deveríamos perder, mas sustentar ao longo da vida.

O que acontece para nos distanciarmos dessa dimensão de unicidade e inteireza? Será que vivemos sendo menos, tendo medo e escondendo a essência e a beleza do que de fato somos?

Para que vivemos? Responder na trama da espiral esse questionamento suscita buscar na memória as marcas e trazê-las para a experiência do real, fazendo o confronto com o ideal.

Sendo assim, acolher esse convite significa mudar os parâmetros, querer realmente mergulhar em uma viagem que tenderá a mostrar o que negamos ou escondemos. Parece-nos que o ponto crucial de uma terapia ou de uma análise é justamente responder quem somos e sabemos que algumas

pessoas levam uma vida toda para responder a essa questão e outras nem conseguem fazê-lo.

Mariotti ( 2000) nos faz olhar sobre outro prisma, observando como o “eu” se constitui:

[...] quando dizemos “eu era”, poderemos separar o passado a partir do presente. Mas quando falamos “eu sou”, é impossível ficar de fora. Podemos separar o presente do passado e do futuro, e também estabelecer a divisão entre passado e futuro, mas é impossível separar o presente dele próprio. O presente é unificado, global, não pode ser dividido pelo pensamento. ( p.221)

Não pretendemos encontrar uma resposta simplista, pois o que está a nossa frente não é nada pueril ou mágico. Diz respeito à pessoa e tudo o que nela se revela. A inteireza do ser humano é algo complexo e desvelador, na medida em que, faz da experiência o reencontro com a sua própria essência.

Ainda Mariotti complementa que o ego não sabe conviver com o aqui-e-

agora, isto é, não sabe lidar com a totalidade e por isso tenta dividi-la. É

também por essa razão que ele se apega tanto à tradição, que por sua vez o condiciona e o torna praticamente incapaz de reconhecer o que é novo. A observação sem julgamentos e sem divisões não necessariamente anula o ego como muitos pensam: apenas o insere numa totalidade, na qual ele se sente estranho e desconfortável. Eis por que há tanta resistência às iniciativas que visam questionar e complementar o raciocínio linear. (2000, p.221)

Em várias situações percebemos que as pessoas não sabem ou não conseguem, por exemplo, atribuir uma característica a si. Parece uma tarefa complicada, mas isto se deve a ausência deste encontro consigo.

A conexão com o externo é maior e pouco a pouco o vínculo com o mundo interno vai se esmorecendo porque a lei da sobrevivência faz o apelo superficial ao que parece trazer a pretensa felicidade. Engano e angústia que podem levar a uma depressão, doença mundialmente noticiada e apontada como uma das causa que mais faz as pessoas perderem o sentido de viver.

Novamente percebe-se a manipulação de um condicionamento que emerge do externo para o interno e acabamos mascarando o que sentimos. Caímos em circulo vicioso e na verdade ao pensar na espiral da subjetividade o

que pretendemos é propiciar à pessoa, a possibilidade de se perceber tal como ela é e tudo o que contribui para exprimir a construção de sua inteireza.

Desvelar a inteireza envolve um profundo encontro com o seu eu e com toda a sua história e com as futuras marcas que podem desenhar o seu amanhã.

Nesta perspectiva, parece-nos que há um caminho intenso a ser percorrido para um despir-se das máscaras que bloqueiam um possível encontro e um real e comprometido sentido em ser e fazer que provoque uma desestabilização, uma complexificação e por último, como utopia, uma ruptura para construirmos uma Pedagogia que envolva a gentileza, a sensibilidade e uma verdadeira acolhida do outro.

Grof (1993) encontra sentido para uma mudança, uma transformação, se realmente fizermos o caminho de volta

[…] si queremos comprender el reino de lo transpersonal debemos concebir la conciencia de una manera completamente nueva. Sólo entonces podremos atisbar más allá de la creencia de que la conciencia es un producto del cerebro humano, que se halla confinada en el interior de la estructura ósea de nuestro cráneo y que, en consecuencia, es el fruto de nuestra vida individual. En la medida en que aceptemos la noción de lo transpersonal podremos empezar a considerar que la conciencia también existe fuera, que es independiente de nosotros y que no se halla intrínsecamente ligada a la materia. Contrariamente a lo que parece mostrarnos la experiencia cotidiana, la conciencia es independiente de nuestros sentidos físicos, aunque se halle, no obstante, mediatizada por ellos en nuestra percepción cotidiana de la vida. ( p. 128 )

Os níveis de consciência, e sua consequente ampliação, potencializam esse desejo, de sair do nível da sobrevivência e ir alcançando mais superiores. Evidentemente que não há como precisar um qual o tempo que se despenderá. Quando nos referimos ao ser humano, temos que ser imprecisos. O processo é pessoal e garantias não existem para mensurar a sua evolução ou ainda a ampliação dos níveis da consciência.

Creio que somente a partir deste encontro poderemos perceber as mudanças necessárias, para um mundo que precisa urgentemente de uma

consciência mais planetária e universal, preservando o que há na teia da vida e as novas redes que tendem a se formar na interação com o outro.

Tal postulado encontra respaldo nas reflexões sobre a consciência integradora da condição humana elaboradas por Trevisol:

[...] o ser humano é uma unidade complexa e integrada de várias dimensões. Essa inteireza, no entanto, precisa ser não só respeitada como também compreendida e conhecida no seu mais profundo significado, Ela é lugar de aprendizagem. É preciso reconhecer o lugar do ser humano no mundo, pois no universo há um espaço bem definido para ele. O que é comum para todos, o que é complexo e multifacetado, diferente e até desconhecido da condição humana precisa ser reconhecido conjuntamente. Da relação triádica espécie/individuo/sociedade é que se colhe a essência da humanidade. A consciência, que é também fruto dessa relação, possui a tarefa de manter o dinamismo otimal dessa complexidade, sem que se percam as autonomias pertinentes a cada uma das entidades, já ricas por si sós. (2003, p. 35)

Desinstalar o ser humano do lugar que o outro o coloca, torna-se uma das primeiras ações para propiciar o movimento da espiral da subjetividade e integra-se ao todo e ritmar uma cadência em que a pessoa possa realmente ao reconhecer-se como tal, permitir que as outras espirais façam a sua ação.

Benzer Belgeler