H. HİYEL KONULARI
2. Tercüman Sayısı
Conhecer a cronologia do esporte moderno, especificamente a história do futebol, auxilia o entendimento da estrutura de negócios vigente que interfere diretamente na gestão de carreira dos atletas dessa modalidade.
Segundo Melo e Fortes (2010), originária do francês antigo “disport”, a palavra “sport” foi registrada pela primeira vez na Grã-Bretanha do século XV, mas é somente na transição dos séculos XVIII e XIX que ela assume o sentido atual. É nesse momento que se configura o campo esportivo conforme hoje o conhecemos (BOURDIEU, 1983).
O Esporte Moderno surgiu no final do século XIX como produto das transformações pelas quais passava a sociedade inglesa. Originalmente concebido como uma prática aristocrática, tido como uma atividade de ócio e um meio de educação social dos filhos das classes sociais não trabalhadoras. Esse fenômeno sofreu transformações quando da apropriação pelas demais classes sociais, resultando na sua massificação e popularização.
A estrutura do esporte na sociedade inglesa era estratificada, classificando de diferentes formas seus praticantes. Existia o esporte praticado por profissionais, como era o caso do boxe e das corridas a pé, o esporte escolar praticado nas universidades e Public Schools, e o esporte amador praticado basicamente pela aristocracia que dominava a direção das instituições esportivas, base para a constituição do Movimento Olímpico (LÊ FLOC’MOAN, 1969).
Vale ressaltar que o esporte era utilizado nas Public Schools, frequentadas pela juventude de elite, como um agente social de controle. Utilizado como um dos componentes curriculares fundamentais dessas escolas o esporte estava intimamente associado à religião, denominando seus praticantes como “Cristandade Muscular”. Esses estudantes, supostamente, apresentavam qualidades positivas tanto para o esporte como para a religião. Muitos dos ex-alunos dessas escolas vieram a ser futuramente os representantes do Império Inglês pelo mundo, disseminando os valores éticos e morais aprendidos tanto nas salas de aula como no esporte. Condição
inerente e fundamental desse modelo de esporte era a noção de amadorismo (TOOHEY e VEAL, 2007).
De acordo com os autores, o amadorismo foi uma construção do século XIX, que tinha por função servir aos ideais de nobreza proclamados pela Era Vitoriana. A proposta primeira e original do amadorismo dentro do esporte era não apenas distinguir, mas principalmente, separar os chamados gentlemen amateur dos trabalhadores de todas as categorias “[...] uma pessoa que compete por dinheiro não é apenas inferior, mas é antes de tudo uma pessoa de caráter duvidoso” (TOOHEY e VEAL, 2007, p. 15-16).
O que fundamentou essa divisão e classificação foi a participação crescente da classe média e trabalhadora nas atividades esportivas e de lazer em geral, consideradas, a priori, privilégios da aristocracia.
O entendimento dessa dinâmica é fundamental para a compreensão de tamanho apego à defesa do amadorismo ao longo de mais da metade do século XX. Hobsbawm e Ranger (1997, p. 256) apontam a importância que o esporte teve para a classe operária por ampliar a visibilidade social e questionar a sociedade classista. Entretanto, o conceito de amadorismo era uma forma de impedir a projeção alcançada pelos habilidosos, identificando-os como trabalhadores, ou ainda, como trabalhadores do esporte, condição distinta daqueles que se dedicavam nobremente à prática desinteressada do prêmio material por um bom desempenho.
Nenhum amador poderia distinguir-se de modo genuíno nos esportes a não ser que pudesse dedicar a eles mais tempo do que os operários dispunham, exceto se fossem pagos. Os esportes que se tornaram mais característicos das classes médias, como o tênis, o rugby, o futebol americano [...] ou os ainda não desenvolvidos esportes de inverno, todos eles obstinadamente rejeitaram o profissionalismo.
Elias e Dunning (1992) citam que a competitividade da sociedade contemporânea leva a um inevitável abandono de atividades tidas como amadoras, que na essência do termo seriam aquelas feitas por amor, em detrimento das ações especializadas, passíveis de serem desenvolvidas dentro de uma estrutura profissional que leva à especialidade máxima, e isso não ocorreria somente com o esporte.
Diante disso, Salles e Soares (2002, p.438) afirmam que “[...] os valores estabelecidos sobre amadorismo são apropriados em diferentes contextos, não
aceitando as mesmas determinações em todos os países devido ao fato das estruturas políticas e culturais serem distintas”.
O amadorismo foi, no passado, considerado uma virtude humana e condição sine qua
non para qualquer atleta olímpico. Mas, mais que um valor ético essa imposição era um
qualificador pessoal e social dos atletas que se dispunham a seguir a carreira esportiva (RUBIO, 2003, 2013).
Da forma como se estruturou, o Esporte Moderno apresenta os mesmos valores da sociedade capitalista, como a necessidade de mensuração dos resultados, a competitividade e a seriedade (ELIAS e DUNNING, 1992). Sendo assim, a qualidade e eficiência são mensuradas a partir dos resultados produzidos e os vencedores são premiados com troféus e medalhas, com prêmios simbólicos ou materiais que atestam a posição alcançada.
A necessidade de quantificar performance foi apontada por Ardoino e Brohm (1995) como um dos fatores responsáveis pela influência tecnológica, pela regulação burocrática, pelas competições, pela espetacularização e mercadorização das práticas esportivas. Em função da sustentação de toda essa estrutura, instituições foram criadas, destacando-se as entidades COI (Comitê Olímpico Internacional) que controla os esportes olímpicos e a FIFA (Federação Internacional de Futebol) que controla especificamente tudo o que se refere ao futebol (GIGLIO e RUBIO, 2013).
A profissionalização acabou por imprimir uma grande alteração na organização esportiva, tanto do ponto de vista institucional, como na atividade competitiva em si. Mais do que uma prova de exibição de habilidades fora da média, o esporte se tornou uma carreira profissional cobiçada, um meio de ascensão social para aqueles que conseguiram transpor as barreiras de uma carreira competitiva e uma opção de vida para jovens talentosos. A competição atlética ganhou visibilidade e complexidade ao se tornar espetáculo esportivo e produto da indústria cultural. E assim, interesses econômicos aliados a disposições políticas e intervenção estatal produziram e reforçaram uma das instituições mais robustas do planeta.
Conforme Bourdieu (1993), algumas chaves constitutivas do dispositivo esportivo, esboçadas no século XIX, não se transformaram plenamente até meados do século XX. Uma das mudanças mais significativas teve relação com a crescente presença do Estado, isso porque a esportivização da sociedade constitui uma parte importante da intervenção e do desdobramento de distintas agências que, durante sua atuação, se autodefiniam e se recriavam.
No Brasil o amadorismo segue proximamente o modelo desenvolvido globalmente. O que se observa ao longo da primeira metade do século XX é que o
esporte praticado de forma amadora gerou uma representação social do atleta que variava do sujeito excêntrico, caso pertencesse à aristocracia, ou um vagabundo, caso sua origem estivesse relacionada às classes populares. A via alternativa para esses dois modelos eram os militares, que por força do ofício eram obrigados a praticar esporte, o que levou muito deles a chegarem aos Jogos Olímpicos. A profissionalização era tão inevitável quanto a competição é para o esporte. (RUBIO, 2005)