The Relationship between High-Tech Product Exports, R&D Expenditures and Patent Applications: Dynamic
2. Teorik Çerçeve
No mesmo dia de publicação da matéria, 5 de abril de 2009, Antonio Espinosa escreveu ao jornal, desmentido informações atribuídas a ele nas matérias e solicitando esclarecimentos na edição do dia seguinte. Ele é ex-militante de movimentos contrários à ditadura, atual jornalista e professor universitário na Universidade de São Paulo (USP), onde também cursava doutorado em Ciência Política. Sua entrevista, concedida a Fernanda Odilla antes da entrevista com Dilma Rousseff, serviu de base para relacionar a então ministra ao plano de sequestro de Delfim Netto, como dito acima. Em sua carta, ele solicita o ―restabelecimento da verdade‖:
Chocado com a matéria publicada na edição de hoje (domingo, 5), páginas A8 a A10 deste jornal, a partir da chamada de capa ―Grupo de Dilma planejou sequestro de Delfim Neto‖, e da repercussão da mesma nos blogues de vários de seus articulistas e no jornal Agora, do mesmo grupo, solicito a publicação desta carta na íntegra, sem edições ou cortes, na edição de amanhã, segunda-feira, 6 de abril, no ―Painel do Leitor‖ (ou em espaço equivalente e com chamada de capa), para o restabelecimento da verdade, e sem prejuízo de outras medidas que vier a tomar.27
O ex-jornalista do Última hora, em seus esclarecimentos, que pretendia fossem publicados pelo jornal, critica o fato de um jornal do porte da FSP publicar matéria de tamanha relevância com base ―somente em ‗investigações‘ telefônicas‖; desafia o jornal a publicar na íntegra a entrevista que concedeu, ―para que o leitor compare com o conteúdo da matéria editada‖; informa que a mesma teve duração de três horas e que a concedeu porque
27 Carta completa disponível em:
<http://www.direitoacomunicacao.org.br/content.php?option=com_content&task=view&id=4848>. Acesso em 11 ago. 2010. Cf. Anexo 10.
defende a transparência e a clareza histórica; informa que quem avisou à reportagem sobre o arquivo do Superior Tribunal Militar (STM) foi ele próprio. Depois, a repórter o procurou com um croqui do trajeto para o sítio Gramadão, em Judiaí, que era usado por Delfim Netto. O croqui teria supostamente sido encontrado no ―aparelho‖ em que ele residira, no bairro Lins de Vasconcelos, no Rio de Janeiro, e estaria no arquivo do STM. A repórter indagou se ele reconhecia o desenho, ao que ele respondeu jamais tê-lo visto, sugerindo, como jornalista que também é, que o mostrasse a Delfim Netto. Sobre essa transformação de uma ―lenda urbana‖, como o próprio jornal chama, em fato bombástico, Espinosa diz:
Afirmo publicamente que os editores da Folha transformaram um não fato de 40 anos atrás (o sequestro que não houve de Delfim) num factoide do presente (iniciando uma forma sórdida de anticampanha contra a ministra). A direção do jornal (ou a sua repórter, pouco importa) tomou como provas conclusivas somente o suposto croqui e a distorção grosseria de uma longa entrevista que concedi sobre a história da VAR-Palmares. Ou seja, praticou o pior tipo de jornalismo sensacionalista, algo que envergonha a profissão que também exerço há mais de 35 anos, entre os quais, por dois meses, no Última Hora, sob a direção de Samuel Wayner (demitido que fui pela intolerância do falecido Octávio Frias a pessoas com um passado político de lutas democráticas) (Ibid.).
Com relação ao posicionamento do jornal, que oculta as mortes cometidas pela ditadura e criminaliza a resistência, julgando-a com critérios descontextualizados, como mostramos acima, ligando isso a Dilma Rousseff, ele diz:
A VAR-Palmares não era o ―grupo da Dilma‖, mas uma organização política de resistência à infame ditadura que se alastrava sobre nosso país, que só era branda [grifo nosso]28 para os que se beneficiavam dela. Em virtude de sua defesa da democracia, da
igualdade social e do socialismo, teve dezenas de seus militantes covardemente assassinados nos porões do regime, como Chael Charles Shreier, Yara Iavelberg, Carlos Roberto Zanirato, João Domingues da Silva, Fernando Ruivo e Carlos Alberto Soares de Freitas. O mais importante, hoje, não é saber se a estratégia e as táticas da organização estavam corretas ou não, mas que ela integrava a ampla resistência contra um regime ilegítimo, instaurado pela força bruta de um golpe militar [grifo nosso] (Cf. Anexo 10 – OBSERVATÓRIO DO DIREITO À COMUNICAÇÃO, 11 ago. 2010).
28 Espinosa faz aqui uma alusão ao neologismo ―ditabranda‖ do editorial da Folha de 17 de fevereiro de 2009, p.
Em seguida, o professor afirma que Dilma Rousseff praticou apenas militância política e jamais participou de luta armada, o que bate com as repostas que ela deu em sua entrevista e com as informações de sua carta ao ombudsman, não publicada no jornal, mas difundida posteriormente em blogues:
Dilma Rousseff era militante da VAR-Palmares [Vanguarda Armada Revolucionária Palmares], sim, como é de conhecimento público, mas sempre teve uma militância somente política, ou seja, jamais participou de ações ou do planejamento de ações militares. O responsável nacional pelo setor militar da organização naquele período era eu, Antonio Roberto Espinosa. E assumo a responsabilidade moral e política por nossas iniciativas, denunciando como sórdidas as insinuações contra Dilma (Ibid.).
Espinosa passou, então, a explicar a informação muito usada na entrevista, segundo a qual Dilma, por ser do comando da VAR, teria conhecimento do plano, explicitando a simploriedade da apuração e das ilações feitas pela reportagem.
Dilma sequer teria como conhecer a ideia da ação, a menos que fosse informada por mim, o que, se ocorreu, foi para o conjunto do Comando Nacional e em termos rápidos e vagos. Isto porque a VAR-Palmares era uma organização clandestina e se preocupava com a segurança de seus quadros e planos, sem contar que ―informação política‖ é algo completamente distinto de ―informação factual‖. Jamais eu diria a qualquer pessoa, mesmo do comando nacional, algo tão ingênuo, inútil e contraproducente como ―vamos sequestrar o Delfim, você concorda?‖. O que disse à repórter é que informei politicamente ao nacional, que ficava no Rio de Janeiro, que o Regional de São Paulo estava fazendo um levantamento de um quadro importante do governo, talvez para sequestro e resgate de companheiros então em precárias condições de saúde e em risco de morte pelas torturas sofridas. A esse propósito, convém lembrar que o próprio companheiro Carlos Marighela, comandante nacional da ALN, não ficou sabendo do sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick. Por que, então, a Dilma deveria ser informada da ação contra o Delfim? É perfeitamente compreensível que ela não tivesse essa informação (Cf.: Anexo 10 – OBSERVATÓRIO DO DIREITO À COMUNICAÇÃO, 11 ago. 2010).
Ele explica também a complexidade de um plano de sequestro a ser feito pelos movimentos de resistência de então e a forma como se dava. Não nega que o levantamento começou a ser feito, mas ressalta que essas informações não podiam circular livremente. Em um regime com mecanismos de informação e repressão fortes, é crível que tais levantamentos fossem feitos com muito método e cuidado:
Uma coisa elementar para quem viveu a época: qualquer plano de ação envolvia aspectos técnicos (ou seja, mais de caráter militar) e políticos. O levantamento (que é efetivamente o que estava sendo feito, não nego) seria apenas o começo do começo. Essa parte poderia ficar pronta em mais duas ou três semanas. Reiterando: o Comando Regional de São Paulo ainda não sabia com certeza sequer a frequência e regularidade das visitas de Delfim a seu amigo no sítio. Depois disso, seria preciso fazer o plano militar, ou seja, como a ação poderia ocorrer tecnicamente: planejamento logístico, armas, locais de esconderijo etc. Somente após o plano militar seria elaborado o plano político, a parte mais complicada e delicada de uma operação dessa natureza, que envolveria a estratégia de negociações, a definição das exigências para troca, a lista de companheiros a serem libertados, o manifesto ou declaração pública à nação etc. O comando nacional só participaria do planejamento, portanto, mais tarde, na sua fase política. Até pode ser que, no momento oportuno, viesse a delegar essa função a seus quadros mais experientes, possivelmente eu, o Carlos Araújo ou o Carlos Alberto, dificilmente a Dilma ou Mariano José da Silva, o Loiola, que haviam acabado de ser eleitos para a direção; no caso dela, sequer tinha vivência militar (Ibid.).
Dessa forma, na questão do sequestro, ficam os argumentos do jornal, que levanta a possibilidade de que Dilma soubesse do plano de sequestro e que militasse na luta armada, contra os argumentos dela, que nega isso, e os de Espinosa, que também nega e, como militante da resistência armada, explica como isso se dava. No final de sua carta, Espinosa conclui, dizendo que o jornal foi capaz de chegar a atitudes mais peremptórias que as da própria ditadura, imputando a ele e a Dilma Rousseff uma acusação de ―crime‖ que nem o regime lhes atribuíra:
Chocou-me, portanto, a seleção arbitrária e edição de má-fé da entrevista, pois, em alguns dias e sem recursos sequer para uma entrevista pessoal – apelando para telefonemas e e- mails, e dependendo das orientações de um jornalista mais experiente, no caso o próprio entrevistado –, a repórter chegou a conclusões mais peremptórias do que a própria polícia da ditadura, amparada em torturas e num absurdo poder discricionário. Prova disso é que nenhum de nós foi incriminado por isso na época pelos oficiais militares e delegados dos famigerados Doi-Codi e Deops, e eu não fui denunciado por qualquer um dos três promotores militares das auditorias onde respondi a processos, a Primeira e a Segunda auditorias de Guerra, de São Paulo, e a Segunda Auditoria da Marinha, do Rio de Janeiro (Anexo 10 – OBSERVATÓRIO DO DIREITO À COMUNICAÇÃO, 11 Ago. 2010).
A carta de Espinosa não foi publicada pelo jornal no Painel do Leitor, na edição seguinte, de 6 de abril, como solicitado por ele. O que a seção do leitor do dia seguinte publicou foi uma carta de um suposto leitor, que depois o jornal informará ter tido o nome trocado. Essa outra carta endossava o enquadramento da matéria do jornal. Nela, o autor dizia que jamais deixaria um filho seu casar-se com uma ex-guerrilheira como Dilma.
Como Espinosa também havia enviado sua carta para diversos órgãos de imprensa do país e para sites e blogues de informação alternativa, estes últimos a difundiram largamente e levantaram importante debate sobre o episódio, o conteúdo da matéria e os posicionamentos do jornal, o que foi importante para esclarecer o caso, como veremos abaixo neste capítulo. Devido à enorme repercussão da carta de Espinosa, o editor do Painel do Leitor, Luiz Antonio Del Tedesco, entrou em contato com Espinosa às 17:30 do dia 6 de abril de 2009 (sendo que seu expediente no jornal inicia por volta de 14 horas) e solicitou uma segunda carta, com urgência, devido ao iminente fechamento da edição, para publicar em 7 de abril. A explicação dada para a não publicação da carta no dia 6 foi o fato do tamanho, julgado muito grande, e por não ser mais inédita, uma vez que já circulava na Internet. O prazo dado para que Espinosa escrevesse a nova carta foi de duas horas e quinze minutos, até as 19:30. A quantidade de caracteres estipulada foi de mil e quinhentos, depois aumentada, a pedido de Espinosa, para dois mil. Por e-mail, ele se queixa a Tedesco quanto ao prazo e ao espaço reduzidos: ―Isso implica a necessidade de cortar mais de 3/4 do texto original, o que não é tarefa fácil, pois o senhor só se comunicou comigo às 17:13, informando-me que meu prazo vai até as 19:30. Ou seja, tenho menos de duas horas para produzir um texto de tal gravidade‖.29
No entender de Espinosa, ―parece evidente que a única fonte para uma incriminação tão grave contra uma ministra de Estado deveria ter prioridade‖, por isso ele solicitou por e-mail a Tedesco a possibilidade da publicação da primeira carta na íntegra, na seção Tendências e
Debates, na página A3 do jornal. Outra proposta seria a publicação de uma matéria sobre o assunto na quarta ou quinta-feira seguintes, contendo quatro mil e quinhentos caracteres. Se isso não fosse possível, o que, segundo ele ―seria lamentável, um desrespeito às fontes e à inteligência dos leitores‖, ele se dispunha a escrever a nova carta dentro dos limites determinados.
As propostas não foram aceitas e Espinosa entregou a nova carta, após ter recebido ao todo cinco telefonemas de Tedesco. Em um destes, segundo Espinosa, ele aceitou que os caracteres ultrapassassem um pouco a quantia estipulada, ficando com dois mil e trezentos. Em outro, Tedesco entrou em contato para avisar que seu computador não abria arquivos em
docx e pediu para enviar em outro formato. Conforme Espinosa, isso atrasou um pouco o horário do recebimento do texto, o qual foi entregue apenas ―alguns minutos‖ além do prazo
29 E-mail enviado por Espinosa ao editor do Painel do Leitor da Folha. A troca de e-mails entre ambos está no
anexo 11 e foi publicada na Internet por Espinosa no blog de Paulo Henrique Amorim: <http://www.conversaafiada.com.br/antigo/?p=8714>. Acesso em 11 ago. 2009.
determinado.30 Novamente a carta não foi publicada. Tedesco justificou a não publicação por
e-mail:
Como eu já havia comunicado ao senhor antes, a Folha tem todo o interesse em publicar a sua manifestação no Painel do Leitor. Mas nós havíamos combinado um tamanho (2.000 toques) e um horário (19h30), e a sua carta veio às 20h19 com 2.500 toques.31
Além disso, o senhor cita um fato (não termos publicado sua carta na segunda-feira) para o qual já lhe dei a explicação (o jornal fecha às 20h; a sua carta chegou aqui às 21h58 ― saiu de seu e-mail às 21h41). Isso não irá ajudar em nada o entendimento do leitor sobre o assunto, porque eu seria obrigado a fazer uma resposta para essa questão. Continuo aguardando a sua carta, no tamanho e horário acordados, lembrando que não publicamos cartas que já são de conhecimento público ou da imprensa.32
Sobre a matéria de domingo, o jornal publicou, na edição da terça-feira seguinte, apenas algumas linhas na seção Erramos sobre dois erros menos relevantes, se comparados às falhas de toda a reportagem. O erramos dizia o seguinte:
PRIMEIRA PÁGINA (5 abr.): O sobrenome de Antonio Roberto Espinosa, ex-colega da hoje ministra Dilma Rousseff na guerrilha, foi grafado incorretamente como ―Spinoza‖ no texto ―Grupo de Dilma planejou sequestro de Delfim Netto‖.
OPINIÃO (6 abr., p. A3): A carta sobre Dilma Rousseff assinada por Raul Guilherme do Norte Lourenço Leal na verdade é de autoria do leitor Luis Felipe de Araújo Sousa. O erro é de autoria do próprio senhor Sousa (FOLHA DE S. PAULO, 7 abr. 2009, p. A3).
O segundo erro se refere à troca de nome de autor da carta de suposto leitor, publicada em 6 de abril, que endossava o conteúdo e enquadramento da matéria. A troca total do nome reforça as suspeitas em relação à carta. O primeiro erro diz respeito a um dos esclarecimentos feitos por Espinosa na primeira carta enviada ao jornal. Diante da gravidade dos erros e distorções apontadas na carta não publicada, o fato de o jornal publicar no erramos apenas esses dois erros menores denota uma dose de arrogância, reveladora da atitude do jornal em toda a reportagem, bem como em seus desdobramentos.
Com a não publicação também de sua segunda carta e vendo a tática de ocultar seus esclarecimentos, Espinosa escreveu um e-mail indignado ao editor do Painel do Leitor, posteriormente divulgado na Internet, o qual se pode definir como um desabafo sem meias palavras:
30 Cf. nota anterior.
31 A integra da segunda carta foi publicada na Internet, tendo 2.300 caracteres e não 2.500, como informado pelo
editor. O horário do e-mail, entretanto, é realmente 20:19.
A cada momento fica mais claro que a Folha não tem compromisso com a verdade, mas se guia pela intenção de fabricar a verdade. A sua verdade, ou seja, a versão da ditadura (ou ditabranda, como ela gosta de intitular o regime de terror que apoiou). Age sem respeito aos leitores e fontes, inventando, maculando, praticando arbitrariedades. Publica somente as cartas que lhe convêm. E, quando não as tem, inventa! Não checa a origem das correspondências recebidas e não respeita compromissos de honra. Ou seja, não tem palavra e carece de seriedade.33
Sobre os motivos alegados pelo editor para não publicar a carta, Espinosa diz no mesmo e-mail:
Sejamos francos ao menos uma vez: a Folha decidiu não publicar a carta não pelos motivos burocráticos alegados, mas pelo seu conteúdo. Não publicou porque quer ter o monopólio da verdade e manipular seus leitores, sem ética e sem princípios. É irônico e ofensivo que o senhor me peça hoje uma terceira carta. Não sou empregado da Folha e não tenho salário dela para trabalhar diariamente em cartas que não serão publicadas. No passado, seu jornal divulgava propaganda dizendo que teria o rabo preso com o leitor. Com o leitor, está provado, não tem, mas que tem rabo lá isso tem. E é bem longo, a ponto de chegar aos porões sombrios da década de 70 (Anexo 11 – AMORIM, 11 ago. 2009).
Não tendo sido publicada no jornal, a segunda carta também foi difundida na Internet em sites e blogues alternativos. Pelo tamanho limitado estipulado pelo jornal para essa segunda carta, muitas informações importantes que constavam na primeira foram cortadas. Manteve-se, no entanto, o questionamento e o pedido de esclarecimentos fundamentais, que, embora reduzidos, permanecem impactantes. Dentre outras coisas, a carta dizia:
Segundo os editores, o sequestro de Delfim Netto em 1969 ―chegou a ter data e local definidos‖. A que hora e em que local, então, ocorreria? A Folha não informa. O mais grave: acusa a Ministra [Dilma Rousseff] pela ação, lançando uma sórdida anticampanha contra sua virtual candidatura a Presidente. É possível que Dilma, pelas suas tarefas na organização, sequer tenha sido informada sobre o levantamento realizado. Entretanto, a edição oportunista transformou um não-fato do passado (o sequestro que não houve) num factoide do presente (o início de uma sórdida campanha), que vai desacreditar ainda mais o jornal da ditabranda. Esclareço que Dilma pertencia, sim, à VAR-Palmares, e era uma militante séria, corajosa e humana, mas que era uma militante somente com ação política, ou seja, sem envolvimento em empreendimentos armados. E digo isto com a autoridade de quem era o responsável pelo setor militar da organização, assumindo a responsabilidade política e moral pelas iniciativas da VAR-Palmares. Por isso, desafio a
Folha a esclarecer todos os pontos nebulosos da matéria do domingo e a publicar a íntegra da entrevista, de mais de três horas, para que os leitores a comparem com a imundície publicada, que constitui um dos momentos mais tristes da liberdade de imprensa e uma vergonha para a imprensa brasileira (Cf. anexo 12 – AMORIM, 11 ago. 2009).
Tendo se recusado a escrever uma terceira carta pedida pelo jornal, Espinosa sugeriu então, que o editor do Painel do Leitor pusesse ―as desculpas burocráticas de lado‖34 e
escolhesse uma das duas já escritas ou que publicasse as duas, o que, segundo ele, ―seria muito mais honesto‖.35 O jornal, então, publicou a segunda carta, em 8 de abril (quarta-feira),
acompanhada de uma reposta da repórter que assinou a matéria, Fernanda Odilla, na qual ela dizia:
A reportagem não afirmou que Dilma Rousseff planejou o sequestro de Delfim Netto. Trouxe, sim, declarações do ex-dirigente da VAR-Palmares, que, pela primeira vez, assumiu que o plano existia e que ele foi seu coordenador. À Folha, Espinosa disse que, no final de 1969, todas as tarefas (as ―políticas‖ e o ―foco guerrilheiro‖) da VAR ―eram do comando nacional‖, citou três vezes Dilma Rousseff como um dos cinco integrantes desse colegiado e, indagado pela Folha em diferentes momentos, afirmou que ―os cinco sabiam‖ do plano de sequestro e que ―não houve nenhum veto‖ deles à ideia. Todas as suas declarações estão gravadas. Na entrevista, Espinosa informou que o sequestro ocorreria num sítio no interior de São Paulo em dezembro de 1969 – informação que reiterou, com mais detalhes, em posterior troca de e-mails com esta repórter.
Nota da Redação: A primeira carta do missivista chegou à Redação às 21h58 do domingo; o ―Painel do Leitor‖ fecha às 20h (Ibid.).
Ao dizer que a matéria não afirmou que Dilma planejou o sequestro, o texto nega as inúmeras ilações e relações feitas entre a ministra e o plano, já apontadas acima. Os argumentos da primeira carta de Espinosa explicando a complexidade e a forma de planejamento de sequestros políticos na época são ignorados. A argumentação continua sendo sustentada pela entrevista de Espinosa, cujos argumentos apresentados pelo jornal como sendo do entrevistado foram por ele contestados. O texto é escrito como se entre 5 e 7 de abril de 2009 não tivesse se passado nada a respeito da matéria, nenhum questionamento ou nenhuma contestação, de forma que os argumentos pudessem continuar sendo os mesmos. Enquanto isso, o tema rendia debates acalorados na Internet, que abalavam profundamente a sustentação dos posicionamentos do jornal. A entrevista de Espinosa continuou sem publicação na íntegra, mesmo que ele tenha solicitado e até desafiado o jornal a fazê-lo mais