• Sonuç bulunamadı

Sonuç ve Öneriler

Belgede Volume: 2 October 2020 Issue: 4 (sayfa 73-78)

The Relationship between High-Tech Product Exports, R&D Expenditures and Patent Applications: Dynamic

6. Sonuç ve Öneriler

A primeira reação pública de Dilma Rousseff com relação à matéria, e mais especificamente em relação à suposta ficha do Deops, aconteceu em uma entrevista concedida à rádio Itatiaia, de Belo Horizonte, em visita àquela cidade em 17 de abril de 2009. Na entrevista, ela afirma que a ficha é ―manipulação recente‖ feita por ―órgãos ou de interesses escusos daqueles que praticaram esses atos no passado‖, que não consta dos arquivos em que mandou fazer levantamento e que estava discutindo a questão com a Folha para esclarecer a proveniência do documento (MELLO, 20 abr. 2009).

A essa altura, já circulavam muitos comentários e posts em blogues que indicavam que a ficha era veiculada há muito tempo em spams e difundida em sites e blogues favoráveis ao regime de ditadura civil-militar, criados por simpatizantes ou por militares reformados que participaram dela.36 No post do Blog do Mello (Ibid.), que fala da entrevista de Dilma à rádio de Belo Horizonte, há o seguinte comentário: ―Esta ficha está circulando nos e-mails. Recebi em 9 de março de um amigo tucano com os seguintes dizeres: ‗esta terrorista será nossa presidente??????‘. Não sabia se era uma ficha falsa ou verdadeira.‖

A então ministra, conforme informações que constam em sua carta enviada ao jornal (OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA, 5 mai. 2009), tentou, sem sucesso, conseguir que o próprio jornal esclarecesse o caso. Ela entrou em contato, por telefone, com o diretor da Sucursal de Brasília, Sr. Melchíaldes Filho, solicitando esclarecimentos sobre a ficha publicada. Este a informou que a repórter a havia de fato conseguido no arquivo do Departamento de Ordem Social e Política (Deops) e ficou de enviar-lhe a prova, o que jamais foi feito. Ela própria, então, tomou iniciativa de investigar o caso, o que tem sido comum no noticiário político. Os veículos que fazem acusações e levantam escândalos muitas vezes não têm o ônus da prova, o qual fica a cargo do acusado. Diferentemente dos processos judiciais, em que as acusações precisam ter provas, na imprensa brasileira, em casos assim, a acusação, o julgamento e a sentença são sumários e sem provas suficientes, com base em suposições.

36 Cf. COTURNO NOTURNO: <http://coturnonoturno.blogspot.com/> (blog que, além de propagação e defesa

do ideário da ditadura, fez ao longo da campanha sistemática oposição a Dilma Rousseff); TERNURMA – Terrorismo Nunca Mais: <http://www.ternuma.com.br/ternuma/index.php> (que defende o ideário da ditadura e oposição ao que foi feito em termos de resistência a ela, em geral classificando a resistência como terrorismo).

Dilma Rousseff informou ter feito levantamentos nos arquivos em que a repórter informou ter realizado pesquisa, o Arquivo Público de São Paulo, que contém os documentos do Deops, e o arquivo do STM. Em nenhum dos arquivos foi encontrado documento similar ao publicado.37

No dia seguinte à entrevista de Dilma à rádio Itatiaia, 18 de abril de 2009, a Folha publicou matéria sobre a entrevista, com o título: ―Dilma questiona autenticidade de ficha sobre sua prisão pelo regime militar‖. O lead da matéria publicada pelo jornal dizia:

A ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) questionou a autenticidade de um dos documentos referentes à sua prisão pelo regime militar publicado, com outros quatro, em reportagem da Folha no dia 5. Segundo a ministra, a ficha em que ela aparece qualificada como ―terrorista/assaltante de bancos‖ e da qual consta o carimbo ―capturado‖ sobre a sua foto é uma ―manipulação recente‖ (cf. Anexo 8).38

Se, na matéria inicial, o jornal resume à legenda do fac-símile da ficha a chance do leitor conhecer a verdade (―Ficha de Dilma após ser presa com crimes atribuídos a ela, mas que ela não cometeu‖), neste lead de matéria posterior, não se afirma, como na legenda da ficha, que os crimes não foram cometidos por ela, mas apenas que ela questionou o documento e ainda afirma que este foi publicado junto com outros quatro, os quais, na realidade, não figuraram na matéria. O texto dessa matéria de 18 de abril continua jogando com as ideias de ―prisão‖, ―terrorismo‖, ―assalto a banco‖, ―capturado‖ presentes na matéria do dia 5 do mesmo mês e novamente associadas à então ministra. Ao final dessa nova matéria, há uma ―nota da redação‖: ―Tão logo a ministra colocou em dúvida a autenticidade de uma das reproduções publicadas, a Folha escalou repórteres para esclarecer o caso e publicará o resultado dessa apuração numa próxima edição‖.

Treze dias após a matéria inicial, após tanta repercussão e questionamentos,39 depois de o diretor

da sucursal de Brasília não conseguir demonstrar à ministra a proveniência do documento (após ter

37 O Arquivo Público de São Paulo disponibiliza todos os documentos para pesquisa e, em caso de fotocópias,

autentica no verso com os dizeres ―confere com o original‖, com data e assinatura do funcionário responsável pela liberação. Portanto, se a Folha tivesse uma cópia autenticada da ficha que publicou, poderia ter mostrado como prova à ministra e ao público.

38 Disponível em: <http://www.comunique-se.com.br/conteudo/newsshow.asp?editoria=8&idnot=51752>.

Acesso em 11 jun. 2009.

39 Tais repercussões e questionamentos referem-se às reações já apresentadas dos dois principais entrevistados

para a matéria, Antonio Roberto Espinosa e Dilma Rousseff; à explosão de questionamentos e críticas em blogs e sites, incluindo posts e comentários, que fazem contraponto à mídia de maior circulação. É impossível citar uma lista completa, devido à quantidade, entretanto na bibliografia está citada uma parte significativa: OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA, NASSIF, AZENHA, AMORIM, OBSERVATÓRIO DO DIREITO À COMUNICAÇÃO, dentre outros. Por outro lado houve também na Internet vários sites e blogs que reproduziram, endossaram a matéria da Folha, ou mesmo foram além em tematização negativa em relação à

sido solicitado por ela via telefone), o jornal simplesmente anuncia que escalou repórteres para esclarecer o caso e que publicará os resultados em edição posterior. Como explicar que a agilidade que caracteriza um jornal diário como a Folha ainda não tenha realizado as devidas apurações até treze dias depois da publicação de uma matéria tão polêmica, apurações que, pelo que indicam as regras publicadas no seu Manual da redação, deveriam ter sido feitas antes da publicação:

A desatenção ao efeito de construção midiática dos fenômenos resulta em abordagem ingênua e anacrônica. A sua ocultação voluntária, por outro lado, é prova de má-fé. [...]

Para evitar a difusão inconsequente de ganchos construídos ou notícias ―plantadas‖, o jornalista deve ser crítico em relação a assessorias de imprensa, press releases, boatos, pronunciamentos oficiais, pesquisas de opinião, estatísticas, informações difundidas por grupos, partidos ou organizações e notícias veiculadas por outros meios de comunicação (FOLHA DE S. PAULO, 2001, p. 25).

Após a matéria publicada pelo jornal em 18 de abril, Dilma Rousseff enviou carta ao ombudsman, na qual relata o percurso de sua participação na matéria, desde a entrevista concedida por telefone em 30 de março de 2009, até suas ligações telefônicas ao diretor da sucursal de Brasília solicitando esclarecimentos e retratações após a publicação da matéria e as pesquisas encomendadas aos arquivos citados pela repórter. Essa carta jamais foi publicada pelo jornal, exceto alguns pequenos trechos que ofereciam menores questionamentos aos posicionamentos do jornal, diluídos no interior de uma matéria em 25 de abril de 2009. A então ministra passou, então, a difundir a carta na Internet, primeiramente por meio do blogue do jornalista Luis Nassif (7 jul. 2009), daí se espalhando para inúmeros outros blogues e sites. Dentre os questionamentos da carta estão a associação de sua pessoa com o plano de sequestro de Delfim Netto e a ficha de origem escusa:

Apesar da minha negativa durante a entrevista telefônica de 30/03 sobre minha participação ou meu conhecimento do suposto sequestro de Delfim Neto, a matéria publicada tinha como título de capa ―Grupo de Dilma planejou sequestro do Delfim‖. O título, que não levou em consideração a minha veemente negativa, tem características de ―factoide‖, uma vez que o fato, que teria se dado há 40 anos, simplesmente não ocorreu. Tal procedimento não parece ser o padrão da Folha de São Paulo.

O mais grave é que o jornal Folha de São Paulo estampou na página A10, acompanhando o texto da reportagem, uma ficha policial falsa sobre mim. Essa falsificação circula pelo menos desde 30 de novembro do ano passado na Internet, postada no site

resistência à ditadura militar e sua relação com Dilma Rousseff. Uma pesquisa em qualquer site de busca oferece uma enorme quantidade de links para o assunto ―ficha falsa de Dilma Rousseff‖, ou ―ficha de Dilma Rousseff‖, incluindo-se aí sites com esclarecimentos e sites favoráveis à tese da ficha.

www.ternuma.com.br (―terrorismo nunca mais‖),40 atribuindo-me diversas ações que não

cometi e pelas quais nunca respondi, nem nos constantes interrogatórios, nem nas sessões de tortura a que fui submetida quando fui presa pela ditadura. Registre-se também que nunca fui denunciada ou processada pelos atos mencionados na ficha falsa.

[...]

Além disso, elas ocorreram em São Paulo em datas em que eu morava em Belo Horizonte ou no Rio de Janeiro. Ressalte-se que todas essas ações foram objeto de processos judiciais nos quais não fui indiciada e, portanto, não sofri qualquer condenação. Repito, sequer fui interrogada, sob tortura ou não, sobre aqueles fatos (NASSIF, 7 jul. 2009 – Cf. anexo 13).

Nessa carta, Dilma ainda aborda a insuficiência de esclarecimentos na matéria da Folha de 18 de abril, questiona a demora do jornal em esclarecer o caso e faz alusão à falta de responsabilidade em se publicarem documentos sobre os quais não se tem certeza da origem:

Considero ainda que a matéria publicada na sexta-feira, 17 de abril (sic), em que a Folha relata as minhas declarações ao jornalista Eduardo Costa, da rádio Itatiaia, de Belo Horizonte, não esclarece o cerne da questão sobre a responsabilidade do jornal no lamentável e até agora estranho episódio: de onde veio a ficha que afirmo ser falsa? Após 21 dias de espera, não acredito ser necessária uma grande investigação para responder às seguintes questões: em que órgão público a Folha de São Paulo obteve a ficha falsa? A quem interessa essa manipulação? Parece-me óbvio que a certeza sobre a origem de documentos publicados como oficiais é um pré-requisito para qualquer publicação responsável (Ibid.).

Dilma Rousseff anexou à carta diversos documentos: fichas autênticas escaneadas do arquivo público de São Paulo; cópias das solicitações de pesquisa ao STM e termo de responsabilidade tanto do STM como do Arquivo Público de São Paulo, todos assinados pela repórter Fernanda Odilla, responsável pela matéria; cópias das autorizações de Antonio Espinosa para que a repórter pesquisasse em suas pastas no arquivo.41 Nos termos de responsabilidade assinados pela jornalista, são assumidas ―plenas e exclusivas responsabilidades, no âmbito civil e criminal, por quaisquer danos morais ou materiais que possa causar a terceiros a divulgação de informações contidas em documentos por mim examinados e a que eu tenha dado causa‖. Também declarou ―estar ciente da legislação em vigor atinente ao uso de documentos públicos, em especial com relação aos artigos 138 e 145 (calúnia, injúria e difamação) do Código Penal Brasileiro‖. Entretanto, até hoje não há notícia de que Dilma tenha processado a repórter ou o jornal com relação a essas questões.

40 Em outro ponto da carta Dilma Rousseff elenca outros sites que divulgaram inicialmente a ficha, todos com

identificação com a ditadura militar ou mesmo criados por militares reformados que pertenceram ao regime (Cf. anexo 13).

41 Toda essa documentação pode ser acessada em OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA, 25 abr. 2009 e em

Não havendo suficientes esclarecimentos por parte da Folha, a própria Dilma Rousseff encomendou laudos da ficha a institutos de pesquisa de duas universidades públicas, os quais abordaremos em 1.6.

Belgede Volume: 2 October 2020 Issue: 4 (sayfa 73-78)