BEN SANA MECBURUM
2. tension a smyrne
Grande parte dos nomes manoki e mỹky têm origem em narrativas míticas, em que animais – peixes e abelhas, sobretudo – perdem seus nomes para os humanos – que já se apresentavam potencialmente enquanto tais, como se observa nos eventos da narrativa e, a partir de então, as diferenciações interespecíficas têm lugar. O primeiro mito, contado alhures (Bueno, 2008) e reproduzido abaixo, narra a saga de um casal que concebeu uma criança antes do casamento e não tinha nomes para dar para a criança:
M7. Os nomes e os peixes
Em uma aldeia um rapaz vivia mexendo com uma moça, sem que seus pais soubessem. Quando ela ficou reclusa após a primeira menstruação, o
141 rapaz, por um buraco na palha, continuou se encontrando com ela às escondidas até que ela ficou grávida.
Após irem buscar mandioca brava na roça, a tia da moça [MZ], imaginou que o sangramento da sobrinha já teria cessado e foi tirá-la da casa para que a ajudasse a descascar mandioca. A tia viu que a barriga dela estava muito grande, faltando poucas semanas para o nascimento da criança e pensou que um rapaz devia estar entregando carne de caça aos pais da menina como pagamento, e que não dividiam com ela. Contou a novidade para a mãe da moça, que ficou surpresa e afirmou não ter recebido porção de carne de rapaz algum.
O pai da moça ficou sabendo da confusão pela sua mulher e, no dia seguinte, foi conversar com o pai do rapaz e exigir o pagamento pelo ocorrido. O pai do moço, também surpreso, se recusou a pagar o outro homem com algo de valor, dando a ele apenas ferramentas velhas. Ofendido, o pai da moça ameaçava-o com suas criações bravas – um gambazinho vermelho e depois uma onça – até que recebeu todas as boas ferramentas que o outro possuía.
O pai do rapaz conversou com seu filho e disse que ele teria que ficar com a menina grávida e sustentá-la. Os pais da moça, por sua vez, ficaram muito bravos e envergonhados e foram embora da aldeia com sua outra filha, não sem antes alertá-los de que não queriam que seus nomes fossem dados ao bebê.
No caminho passaram pela aldeia dos peixes num rio e contaram sua história, pedindo que eles não dessem os nomes do casal quando a filha passasse por lá para procurá-los. Seguiram a caminhada e encontraram uma lagoa bonita, e resolveram morar perto dela.
O pai do rapaz, muito zangado por ter perdido suas ferramentas, mandou que o casal fosse embora dizendo que podiam ter pedido o casamento deles para as famílias. Ao saírem de sua aldeia, caminharam e chegaram também à aldeia dos peixes, e depois de contar sua história, falaram que teriam que colocar o próprio nome à criança. Foi então que um peixe falou: se for menino pode colocar o meu nome, Nápulí, é bonito , disse o matrinxã. Ou Napoku, disse a traíra. Outras sugestões foram dadas por
142 diferentes pessoas-peixes: Tupi disse u , Waraculí’, disse a piava. A piava- de-cabeça-vermelha sugeriu o seu, Mãkakolí, e Ta ũ i, o lambari lembrou o seu. “e fo ulhe , Yurulú (pacu), Atusi (acará) . Quando a criança nasceu era um menino, a quem chamaram Napoku. Colocaram-no em uma lagoinha para que crescesse depressa.
Já rapaz e conhecendo a história desde a barriga de sua mãe, ele quis se vingar do avô materno e todos foram atrás dele e da avó. Quando os encontraram, porém eles já estavam com saudades e receberam bem a família toda, e passaram todos a viver juntos. O avô, observado pelo neto, fez pólvora com quenquém amassado e seco e, com umas taquarinhas do brejo emendadas, fez uma espingarda45.
A primeira narrativa (M7), além da origem dos nomes vindos dos peixes, informa-nos sobre práticas do resguardo menstrual feminino e da troca matrimonial, e introduz a relação com as ferramentas dos brancos, geradora de desentendimentos, e as armas de fogo. Passemos por cada uma delas.
A narrativa começa apresentando dois problemas: o primeiro é a prática sexual da menina, ainda muito nova – não tinha tido ainda a menarca. A passagem das meninas para uma nova fase da vida, marcada pela menarca e que a habilita para o casamento no futuro, não é enfatizada publicamente, como acontece entre os meninos, que passam pela experiência de ver os vizinhos-espíritos pela primeira vez. Costumava-se deixá-las reclusas em suas próprias casas ou em uma casinha construída especialmente para isso até que o sangramento cessasse, sob os cuidados de sua mãe e de suas tias maternas (MZ) – a quem também se referiam pelo termo equivalente a mãe (mjiu´u). Elas se encarregavam de manter as outras pessoas afastadas e de levar os alimentos que podiam ser ingeridos pela menina, que excluía todo tipo de carne. Entre os Mỹky essa prática acontecia pelo menos até o início dos anos 2000, como conta Pauli. A rede da menina era amarrada no canto mais escuro da sua casa, longe da vista e da interação com a vida do restante da comunidade. Ninguém podia falar
45 Versão narrada por Luiz Ta ũ ià aàaldeiaàC a a i (2007). A primeira parte (sobre a saída dos pais) foi
extraída da versão encontrada em Pereira, 1985:57, de onde também foram retirados os nomes das espécies dos peixes apresentadas nas tabelas que seguem.
143 com ela, que conversava apenas com sua mãe em voz baixa. Nesse período a menina recebia as instruções que preparavam-na para o casamento, como os tabus que deveria observar nas próximas menstruações, gravidez, parto e os cuidados de cada acontecimento (op.cit:225). Entre os Manoki, a mulher mais velha entre eles afirma não ter passado por resguardo, embora tenha dito que ele existia quando era menina. Não tive informações sobre um tipo de alimentação ou resguardo da menarca, ou de qualquer outra prática relevante atualmente.
O segundo problema apresentado na narrativa diz respeito à entrada do rapaz escondido na casinha onde a menina estava reclusa, desobedecendo todas as prescrições e cuidados que devem ser tomados nessa época. No limite, todos foram colocados em perigo contagiados pelo sangue menstrual, e não foram seguidas as práticas que antecedem o casamento e possibilitam a construção de alianças entre as duas famílias. O problema gerou conflitos entre consanguíneos e entre afins. Entre os próprios consanguíneos, aconteceu de duas maneiras diferentes. Inicialmente pela confusão gerada com as duas irmãs, pois que a tia da menina pensou estar sendo enganada pela própria irmã e pelo cunhado, que não repartiam os alimentos dados em pagamento pela sobrinha com ela. A segunda, ainda entre consanguíneos, culminou na saída dos pais da moça da aldeia e da expulsão do jovem casal por parte do pai do rapaz, além da proibição de usar o nome dos avós para nomear o bebê, produzir-lhes um xará, como veremos a seguir. Entre os afins que, ao invés de ensaiarem uma aproximação proporcionada pelo casamento de seus filhos, cujo pagamento pela noiva seria a medida correta, a relação se mostrou assimétrica e o desfecho hostil. O pai da moça é lesado por ter sido enganado e perder sua filha sem algo de valor em troca. O pai do rapaz que inicialmente se mostra mesquinho, perde tudo o que tem ao ser ameaçado pelo poder do primeiro, que cria bichos perigosos. O perigo da afinidade potencial, representado pelos animais bravos usados como ameaça, vence as relações domesticadas (porém nunca estáveis) pela atualização da afinidade. As relações de troca entre os afins foram mal sucedidas e todos – ao menos inicialmente – saíram perdendo.
Por último, observa-se a relação dos pais – da moça e do rapaz – com artigos tipicamente introduzidos pelos brancos: ferramentas, arma de fogo e pólvora. O pai do rapaz, que tinha ferramentas, é destituído de sua posse. O erro do filho saiu caro para
144 ele, que se viu sem nada de valor e, muito zangado, mandou-os embora. O outro pai, o da moça, levou consigo as ferramentas do outro e construiu sua própria arma de fogo. Embora a posse desse tipo de artigo os coloque a todos em um lugar potencialmente mais próximo ao dos brancos, faltava-lhes um arsenal de nomes possíveis. Vejamos a narrativa seguinte sobre a aquisição dos nomes das abelhas.
M8. Os nomes e as abelhas
No começo, quando abelha era gente, não havia nomes para as crianças em uma aldeia. Quando um homem foi tirar mel, escutou um barulho e perguntou quem o estava fazendo. Era o mambucão, pai de Kamunu e Kamu(l)46u. O homem logo pensou que estes seriam bons nomes para meninas. O mambucão convidou o homem para pegar mel na aldeia em que era chefe, onde todos os homens-abelha estavam jogando bola de cabeça e fazendo festa. Na procura por outros nomes, o homem perguntou para o iraxim como este se chamava. Seu nome era Wãtulu. A mesma pergunta foi feita para o manduri, dono da chicha mais gostosa, que respondeu que seu nome era Ka ũ i. O manduri-preto, dono de outra chicha muito saborosa chamava-se Kawyxi. O homem ficou satisfeito com os novos nomes que levaria para sua aldeia, dois femininos – Kamu(l)u e Kamunu – e dois de meninos – Ka ũ i e Kawyxi. Então o homem se despediu do mambucão, que lhe encheu uma cabaça de chicha, pegou um beiju e uma bola de massa de mandioca, além de três tipos diferentes de mel; colocou tudo dentro de um xire e deu para que o homem levasse. Pediu, no entanto, que o homem não olhasse o que havia dentro do xire, que não ficasse sentado no caminho. Mas este ficou muito cansado durante a volta para sua aldeia. Ficou sentado e olhou. A massa virou cera, o beiju virou polvilho e a chicha virou abelha, assim como todos os moradores da aldeia do mambucão47.
46 Refere-seà àdife e çaàdialetalàdaàl guaàI a eà ueà ep oduzàoàso àdeà l àeàoàMỹky, co-dialeto da
língua Iranxe ueà oà ep oduzàoàso àdeà l .
145 Observa-se nesta narrativa que, justamente ao pegar os nomes das abelhas e cometer um erro crucial, os humanos potenciais afastam-se dela, que são potencialmente menos gente – logo viram espécies animais (peixes em um caso e abelhas no outro), destituídos de nomes. As potências se atualizam e as diferenças, entre aqueles que deram/perderam seus nomes se tornam perenes. Os nomes pertencem agora aos que continuaram humanos e já não podem mais voltar aos seus antigos donos.