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TEMA-2 EĞİTİM VE ÖĞRETİME KALİTE

GELECEĞE YÖNELİM

3.4.2. TEMA-2 EĞİTİM VE ÖĞRETİME KALİTE

Durante o Século XX e, continuadamente, no Século XXI, a democracia se tornou o regime político dominante em todos os países desenvolvidos e está sendo recorrente nos países em desenvolvimento. Isso nos coloca uma questão: qual o modelo de democracia que tem sido absorvido por essas nações? O liberal, que predominou na maioria dos países avançados, com seu caráter elitista e competitivo? Ou o republicano, pautado na opinião pública?

Essas questões servem de parâmetros para se analisar a sociedade contemporânea no que tange a sua estrutura político-social, pois, de acordo com Bresser-Pereira (2005, p. 02), no final do século, houve uma crescente presença de organizações de responsabilização social (social accountability) no âmbito da sociedade civil. Isso indica que ―os regimes democráticos nas sociedades mais avançadas, bem como em países como o Brasil e a Índia, estavam alcançando um novo estágio de desenvolvimento político: o debate público se ampliou e

ganhou alguma profundidade‖. Para o autor, ―essa nova forma de democracia foi chamada de ‗democracia participativa15‘ e ‗democracia deliberativa‘‖ (BRESSER PEREIRA, 2005, p. 02).

O modelo de democracia deliberativa é defendido por autores diversos, como Bobbio (1981, 1986), Dahl (2005, 2012) e Habermas (1980, 1995, 1997a, 1997b, 2002), entre outros. No entanto, para fins deste estudo, teceremos argumentos para compreender a teoria discursiva de democracia defendida por Habermas16, porque acreditamos que ela é compatível com os procedimentos necessários para um processo de deliberação pautado na igualdade, na implantação ou na reconstrução do processo democrático que requer a sociedade moderna.

A seguir, apresentamos uma discussão habermasiana sobre os modelos normativos de democracia, com o objetivo de desenvolver argumentos em defesa do projeto de democracia procedimental que endossa este estudo.

Na tentativa de estabelecer esses procedimentos, Habermas (1995, 1997a, 1997b, 2002) se propõe a reconstruir considerações pragmáticas e compromissos acerca da justiça em um único procedimento democrático, o qual está baseado na suposição de que toda forma de

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De acordo com Bresser Pereira (2005, p.82), [...] o modelo de democracia que emerge nas sociedades mais avançadas é menos exigente: é uma democracia participativa ou republicana. E menos exigente porque claramente não exige igual poder substantivo entre os participantes do debate público nem presume que o consenso será atingido. Satisfaz-se com as condições de que o debate envolva uma participação substancial das organizações da sociedade civil e siga regras mínimas de ação comunicativa, em especial a do respeito mútuo pelos argumentos que justificam cada posição. As decisões serão tomadas, em última estância, pelos parlamentares eleitos no contexto de um sistema representativo, mas cada decisão importante será precedida de um vivo e amplo debate público. Tal debate influenciará a agenda e o enquadramento das principais alternativas para cada decisão. Em alguns casos os argumentos apresentados serão suficientemente fortes para convencera outra parte. Em outros uma nova alternativa surgida do debate poderá satisfazer os grupos conflitantes, superando-se assim o conflito. Na maior parte dos casos, porém, o compromisso continuará sendo necessário, e o voto da maioria acabará decidindo o assunto".

16 Paralelamente à construção do modelo de política deliberativa, Habermas retoma discussões sobre categorias e pensadores e reconstrói a tradição filosófica desde Kant até os dias de hoje. A larga literatura produzida envolve a filosofia social alemã, a hermenêutica, aspectos da filosofia analítica e o pragmatismo. A partir do pensamento de que a Filosofia desenvolve o papel de orientadora do mundo da vida cotidiana, Habermas acredita que,assim e somente assim, é que a Filosofia pode examinar a irracionalidade que se estabeleceu, equivocadamente, na sociedade atual.Ele entende que há uma diferenciação entre as esferas públicas e as privadas. Para tanto, não as considera como mera condição para explicar a dinâmica da sociedade moderna. O autor propõe um modelo tangencial, no qual, no interior das sociedades complexas, há uma diferença entre duas categorias: o sistema e o mundo da vida. Para ele, o "Mundo da Vida constitui a esfera que contribui para manter a identidade social e individual e compreende o acervo de padrões de interpretação transmitidos culturalmente e organizados linguisticamente. É a instancia intersubjetiva que se orienta, a princípio, pelo agir comunicativo. O sistema é o conjunto de atividades orientadas e reguladas estrategicamente com o objetivo de obter êxito e garantir a sobrevivência econômica e política das instituições. Orienta-se, pois, por critérios econômicos (dinheiro) e políticos (poder). Assim, a diferenciação entre sistema e mundo da vida ocorre, no entendimento de Habermas, pela diferenciação dos tipos de racionalidades embutidos em cada uma dessas instâncias. Enquanto a evolução do sistema é medido pelo aumento da capacidade de comando das instituições, a avaliação evolutiva do mundo da vida dá-se pela crescente autonomia das esferas da cultura, sociedade e personalidade" (HABERMAS; INGRAM apud SANTANA, 2012, p. 13).

argumentação e de discussão17 particulares à democracia dá continuidade à 'ideia de direitos humanos universais' e a 'substâncias éticas de comunidades específicas' (AVRITZER, 1995).

Nesse contexto, a política deliberativa desenvolvida por Habermas (1997b) tem como base o direito, que a entende como um processo que envolve negociações e formas de argumentar. Mas a criação desse direito "depende de condições exigentes derivadas dos processos e pressupostos da comunicação, onde a razão que instaura e examina assume uma figura procedimental" (HABERMAS, 1997b, p. 09), pois, para o mesmo autor, a política deliberativa constitui o âmago do processo democrático.

Assim, esse modelo de democracia difere dos modelos democráticos tradicionais, em que o conceito de sociedade está centrado no Estado. Essas diferenças são consubstanciadas na condição de Estado como protetor da sociedade econômica - essa é uma tendência liberal - e na comunidade ética institucionalizada na forma de Estado - interpretação derivada da tendência republicana (HABERMAS, 1997b, p. 19).

Na concepção liberal, o processo democrático se caracteriza pela primazia do indivíduo regulado pela defesa de interesses privados e numa lógica de mercado em que o Estado, como esfera administrativa, especializa-se em administrar esses interesses a fim de atingir objetivos coletivos. Nesse sentido, Habermas (1995, p. 107-108) enuncia que,

[n]a visão "liberal" ou lockiana, o processo democrático realiza a tarefa de programar o Governo segundo o interesse da sociedade, sendo o Governo representado como um aparato de administração pública e a sociedade, como uma rede de interações entre pessoas privadas estruturada na forma do mercado.Aqui a política (no sentido da formação política da vontade do cidadão) tem a função de reunir os interesses privados e encaminhá-los a um aparato governamental que se especializa em administrar o uso do poder político para atingir objetivos coletivos. Já na visão republicana, a política assume um papel que vai além da mediação, pois constitui os processos da sociedade como um todo. Dessa forma, a política reflete a vida ética real, ou seja, assenta-se como o meio em que os membros da comunidade se tornam conscientes de sua dependência uns com os outros e, agindo com plena capacidade de deliberar, como cidadãos, modelam relações e as transformam em uma associação livre e igual sob a vigência da lei (HABERMAS, 1995).

Na elaboração da teoria do discurso18, Habermas (1995, 1997a, 1997b, 2002) assimila elementos de ambos os lados, integrando-os ao conceito procedimental ideal para a

17 Sobre essa temática, ver HABERMAS, J. Teoria de la acción comunicativa. Crítica a la razón funcionalista. Trad. Miguel Jiménez Redondo. Espanha: Taurus, 1999. Vol. I e I.

deliberação racional19 e a tomada de decisão. Na elaboração do autor, o processo democrático funde considerações pragmáticas e compromissos a respeito da justiça para evidenciar que é possível chegar a resultados racionais e equitativos. A partir desse entendimento,"a razão prática passa dos direitos humanos universais ou eticidade concreta de determinada comunidade para as regras do discurso e as formas de argumentação" (HABERMAS, 1997b, p. 19), porque o discurso e as formas de argumentação "extraem seu conteúdo normativo da base de validade do agir orientado pelo entendimento e, em última instância, da estrutura da comunicação linguística e da ordem insubstituível da socialização comunicativa" (HABERMAS, 1997b).

A formação política da opinião e da vontade das pessoas privadas, na visão republicana, constitui o todo estruturado politicamente da sociedade. No entanto, cabe salientar que a sociedade é, por si, uma sociedade política - societas civilis – quando, na prática de autodeterminação dos sujeitos privados, a comunidade toma consciência de si mesma e decide através da vontade coletiva. Isso faz com que a democracia seja sinônima de auto-organização política da sociedade como um todo. Essa compreensão leva a uma polêmica acerca da política voltada para o aparato estatal (HABERMAS, 1997b, p 20).

Essa separação causa uma reação polêmica nos republicanos, enquanto os liberais não a eliminam, porém consideram como atenuante no processo democrático. Para eles, a separação do aparelho estatal serve como canal constitucional necessário ao equilíbrio regulado do poder e dos interesses. No entanto, a formação democrática da vontade dos cidadãos é normativamente fraca e fica à espera de que a Constituição controle o aparelho estatal através das restrições normativas. Dessa forma, a política centrada no Estado, em que se acredita que todos os cidadãos são capazes de uma ação coletiva dentro de uma sociedade autorreguladora, é bombardeada de crítica pelos liberais. Isso porque o modelo liberal não depende da autodeterminação de cidadãos capazes de deliberar, mas da institucionalização jurídica de uma sociedade econômica que possa garantir um bem comum apolítico e satisfazer às preferências particulares (HABERMAS, 1995).

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"O autor propõe um modelo ideal de ação comunicativa, em que as pessoas interagem e, através da utilização da linguagem organizam-se socialmente, buscando o consenso de uma forma livre de toda a coação externa e interna. O processo de comunicação, que visa ao entendimento mútuo, está na base de toda a interação, pois somente uma argumentação em forma de discurso permite o acordo de indivíduos quanto à validade das proposições ou à legalidade das normas. Por outro lado, o discurso pressupõe a interação, isto é, a participação de atores que se comunicam livremente e em situação de sistema" (MOITA, 2006, p. 216).

19―A deliberação é racional na medida em que os participantes são chamados a enunciar seus argumentos a favor das propostas feitas, a suportá-los ou a criticá-los'".Os argumentos são oferecidos com a pretensão de levar os outros a aceitarem a proposta, tendo em conta seus objetivos díspares e sua obrigação de proporcionar as condições de sua associação através da deliberação livre entre iguais (COHEN apud HBERMAS, 1997b, p. 29).

Outra questão que gera conflito entre as duas tendências democráticas é o status dos cidadãos. Na visão liberal, o status do cidadão é determinado de acordo com os direitos negativos em relação ao Estado e com os outros cidadãos. Como portadores desses direitos, eles gozam de proteção do Estado na medida em que realizam seus interesses privados dentro dos limites traçados pelos estatutos legais, incluindo a proteção contra intervenções governamentais (HABERMAS, 1995).

Assim, o direito ao voto e à livre expressão não tem a mesma estrutura, mas significados diferentes como direitos civis que abrem um espaço onde os assuntos legais tornam-se livres de coerção externa. Assim, é dada ao cidadão a oportunidade de afirmar seus interesses privados, em que as eleições, a composição dos corpos parlamentares e a formação do governo tornam-se meios onde esses interesses são agregados a uma vontade política provocando impacto na administração (HABERMAS, 1995).

Segundo a visão republicana, "o status do cidadão não é determinado pelo modelo das liberdades negativas que podem ser reivindicadas por esses cidadãos enquanto pessoa privada" (HABERMAS, 1995, p.09). Para os republicanos, direitos políticos, especialmente os de comunicação e participação, são entendidos como liberdades positivas. Ao contrário dos liberais, esses direitos não garantem a liberdade de coerção externa, mas a possibilidade de participar de uma práxis em que os cidadãos possam ser atores politicamente autônomos em uma comunidade de pessoas livres e iguais (HABERMAS, 1995).

Há que se ressaltar que o processo político não serve como regulador das ações do governo, tampouco como elo entre o Estado e a sociedade. A autoridade emerge do poder dos cidadãos comunicativamente produzidos na autolegislação, e a legitimação ocorre quando é institucionalizada a liberdade pública. Assim, o Estado não se constitui no interesse privado, mas na garantia de uma formação abrangente da vontade e da opinião, em que cidadãos livres e iguais chegam a um consenso, e objetivos e normas são elaborados baseados no interesse de todos (HABERMAS, 1995).

Para a visão republicana, a formação da opinião e da vontade, na esfera pública e na privada, não obedece a padrões de mercado, e é caracterizada como uma comunicação pública orientada para um entendimento mútuo cujo paradigma é o diálogo, e não, o mercado. Dessa forma, a política é colocada como uma disputa de questões de valor, e não, de preferência (HABERMAS, 1995).

Ao comparar os dois modelos democráticos, percebemos a vantagem do modelo republicano, já que preserva o processo democrático institucionalizando a razão exercida por cidadãos autônomos. De acordo com Habermas (1995), o modelo republicano oferece

condições que se podem esperar de um processo político que produza resultados porque considera as condições de comunicação legitimadora da formação da opinião e da vontade. Assim, "a confiança republicana na força dos discursos políticos contrasta com o ceticismo liberal quanto à razão" (HABERMAS, 1995, p.111).

Buscando elucidar esse debate, Habermas (1995, p.111) diz: "O objetivo de tais discursos é permitir que se discuta sobre interpretações e orientações de valor quanto às necessidades e às carências, e então, que elas sejam transformadas de uma maneira inteligente". Para esse autor (1997a), os discursos éticos, a razão e a vontade determinam-se reciprocamente porque estão inseridos no contexto que os tematizam. "No autoentendimento, os participantes da argumentação não podem catapultar-se para fora da forma devida concreta na qual se encontram" (HABERMAS, 1997a, p. 205).

O modelo de democracia procedimental de Habermas (1995, 1997a, 1997b, 2002) se constitui a partir de elementos das visões liberal e republicana. No entanto, a teoria do discurso atribui ao processo democrático mais conotações normativas do que o liberal, mas elas se apresentam mais fracas do que no modelo republicano, no qual a constituição do Estado de Direto na formação da opinião e da vontade no processo político é colocada como secundária. É nesse ponto em que a teoria do discurso difere do republicanismo, porque a política deliberativa não depende de uma cidadania capaz de agir coletivamente, mas da institucionalização dos processos e dos pressupostos da comunicação, além da institucionalização das opiniões públicas que se formam de modo informal (HABERMAS, 1997b).

A intersubjetividade é uma categoria importante na teoria do discurso. Ela é entendida como um processo de entendimento situado no nível superior, onde se realiza através de procedimentos democráticos ou na rede comunicacional de esferas públicas políticas. Essas comunicações são destituídas de sujeito e tanto podem ocorrer no complexo parlamentar quanto fora dele. Elas formam arenas onde podem acontecer a formação da opinião e da vontade e as deliberações e as tomadas de decisão que transformam o poder comunicacional em poder aplicável pelo poder administrativo através da legislação (HABERMAS, 1997b).

Podemos perceber que as fronteiras entre o Estado e a sociedade propostas pelo modelo liberal são conservadas. No entanto, o modelo procedimental se distingue do liberal quando tem como base esferas públicas autônomas, além dos significados dados ao sistema econômico e à administração pública (HABERMAS, 1997b). Habermas (1997b, p.22) diz que desse entendimento ―resulta a exigência normativa de um deslocamento de pesos nas relações entre dinheiro, poder administrativo e solidariedade, a partir das quais as sociedades modernas

satisfazem suas necessidades de integração e regulação‖, e que isso provoca implicações normativas, porque:

a força social e integradora da solidariedade, que não pode ser extraída apenas de fontes do agir comunicativo, deve desenvolver-se através de um amplo leque de esferas públicas autônomas e de processos de formação democrática da opinião e da vontade, institucionalizados através de uma constituição, e atingir os outros mecanismos da integração social - o dinheiro e o poder administrativo - através do medium do direito (1997b, p. 22).

Essa colocação traz consequências para se compreenderem a legitimidade e a soberania popular. A legitimação do exercício do poder político, na visão liberal, é resultado da formação da opinião e da vontade. Nesse modelo, as eleições autorizam a assunção de poder pelo governo, que é responsável por justificar suas ações perante a esfera pública e o parlamento. Por sua vez, a interpretação republicana entende a formação da opinião e da vontade como a função de construir a sociedade como comunidade política e, em cada eleição, manter viva a recordação do ato fundador. Num mandato livre, o governo recebe o poder de escolher suas equipes de direção vinculando-se a determinadas políticas, ou seja, a comunidade política administra a si mesma como mais como uma comissão do que um órgão do Estado (HABERMAS, 1997b).

Sobre essa questão, Habermas (1997b, p.23) expõe outra ideia: a de que a teoria do discurso entende que o processo de formação democrático da opinião e da vontade funciona como uma comporta para a racionalização discursiva das decisões de um governo e de uma administração vinculados ao direito e à lei. Para esse autor (1997b), a racionalização vai além da legitimação, porém menos do que a constituição do poder. O autor enuncia que ―o poder disponível administrativamente modifica sua composição durante o tempo em que fica ligado a uma formação democrática da opinião e da vontade, a qual programa, de certa forma, o exercício do poder político‖ (HABERMAS, 1997b, p. 23). Mas acrescenta o autor que, mesmo independente desse aspecto, somente o poder político pode ‗agir‘, pois:

a transmutação do poder comunicativo em administrativo tem o sentido de uma procuração no quadro de permissões legais. A idéia do Estado de direito pode ser interpretada então como a exigência de ligar o sistema administrativo, comandado pelo código do poder, ao poder comunicativo, estatuidor do direito, e de mantê-lo longe das influências do poder social, portanto da implantação fática de interesses privilegiados. O poder administrativo não deve reproduzir-se a si mesmo e sim, regenerar-se a partir da transformação do poder comunicativo. Em última instância, o Estado de direito deve regular essa transferência, sem todavia tocar no próprio código do poder, o que o faria intervir na lógica da auto-orientação do sistema administrativo (1997a, p. 190).

Habermas (1997b) assevera que o sistema é parcial e especializado em tomar decisões em que as estruturas das esferas públicas tornam-se sensores que reagem a problemáticas surgidas no seio da sociedade e estimulam opiniões influentes. Para ele, ―a opinião pública, transformada em poder comunicativo segundo processos democráticos, não pode 'dominar' por si mesma o uso do poder administrativo; mas pode, de certa forma, direcioná-lo‖ (HABERMAS, 1997b, p. 23).

O conceito de soberania, nas visões liberal e republicana, difere. Na interpretação republicana, o poder constituinte baseia-se na autodeterminação das pessoas. Já o liberalismo entende o Estado Democrático de Direito como um poder que emana do povo e é exercitado em eleições e convenções, além dos órgãos Legislativo, Executivo e Judiciário (HABERMAS, 1997b).

A ideia de democracia, apoiada na teoria do discurso, entende a sociedade descentrada do Estado onde a esfera pública é uma arena para perceber, identificar e tratar problemas de toda natureza. Para essa teoria, a soberania não precisa ser pautada no povo, mas também não precisa ser posta no anonimato das competências jurídico-constitucionais. Dessa forma, a identidade da comunidade jurídica é absorvida pelas formas de comunicação destituídas de sujeito que regulam a formação discursiva da opinião e da vontade por meio da racionalidade comunicativa, destituindo, portanto, a soberania de sujeito e dando-lhe uma interpretação intersubjetiva (HABERMAS, 1997b).

Sobre essa questão, Habermas (1997b, p. 24) comenta:

A soberania do povo retira-se para o anonimato dos processos democráticos e para a implementação jurídica de seus pressupostos comunicativos pretensiosos para fazer- se valer como poder produzido comunicativamente. Para sermos mais precisos: esse poder resulta das interações entre a formação da vontade institucionalizada constitucionalmente e esferas públicas mobilizadas culturalmente, as quais encontram, por seu turno, uma base nas associações de uma sociedade civil que se distancia tanto do Estado como da economia.

Na visão procedimentalista, a democracia:

se realiza através dos procedimentos formais da formação institucionalizada da opinião e da vontade, ou apenas informalmente, nas redes da esfera pública política, mantém um nexo interno com os contextos de um mundo da vida racionalizado. As comunicações políticas, filtradas deliberativamente, dependem das fontes do mundo da vida - de uma cultura política libertária e de uma socialização política esclarecida, especialmente das iniciativas de associações que formam a opinião - as quais se formam e se regeneram quase sempre de modo espontâneo, dificultando as intervenções diretas do aparelho político (HABERMAS, 1997b, p. 25).

Na construção de uma teoria reconstrutiva da sociedade, Habermas (1997a) utiliza-se

Benzer Belgeler