C- ÖLÜMDEN SONRA DİRİLİŞİ İNKAR
6- Tekrar Dirilişi İnkarın, Hesap Endişesinden Kaynaklanması
No sétimo capítulo de sua obra, o autor faz referência ao caso de um garoto de nome Jean Grenier. Embora não aponte a data em que este caso ocorreu, Sabine Baring-Gould deixa clara a fonte de onde retirou esta história: Tableau de l‟inconstance, de 1612, de Pierre de Lancre. 83
Segundo Baring-Gould (2003, p.64), uma série de desaparecimentos de crianças, na região de Bordeaux, na França, levou as famílias a entregarem ao Parlamento da região uma criança de nome Jean Grenier:
O menino tinha uma aparência peculiar. Seu cabelo era vermelho e grosso, cobrindo-lhe os ombros e as sobrancelhas estreitas. Seus pequenos olhos acinzentados eram profundos e brilhantes, com uma expressão de fúria horrível e astúcia. A pele era de cor oliva escura, os dentes, fortes e brancos e os caninos protuberavam sobre o lábio inferior quando ele fechava a boca. As mãos do menino eram grandes e fortes e as unhas enegrecidas e pontudas como as garras de uma ave. Suas vestes estavam gastas e davam impressão de absoluta miséria. Os poucos panos que o cobriam estavam em retalhos e pelos buracos era possível ver claramente a magreza de seus membros.
Grenier não foi aprisionado apenas por sua aparência estranha. O rapaz, então com 13 anos, era conhecido por viver nas matas da região e por contar a todos que era um loup-garoux, que havia devorado muitas crianças da região, matado muitos cães e bebido o sangue de todos.
Embora tivesse família, o jovem havia fugido de casa para viver na mata e apesar de muitos tentarem empregá-lo como pastor ou aprendiz, sempre fugia das cidades e vilas e voltava a perambular pela floresta, contando histórias fantásticas de suas transformações em lobo, seus festins antropofágicos e pactos com o demônio.
Diante do tribunal, Grenier contou ao juiz que, quando tinha dez anos, fora levado pelo
vizinho, Duthillaire, ao interior da floresta. Lá ele o apresentou a um ser chamado “Lorde da Floresta”, que o marcou na testa com a unha e deu-lhe um unguento mágico e uma capa de pele de
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Pierre de Lancre foi um juiz controverso, considerado “caçador de bruxas”, que atuou e viveu no início do século XVII. Trabalhando ao lado da Igreja, ele documentou e investigou diversos casos de bruxaria, possessão diabólica e licantropia na zona rural da França, sobretudo na região de Labourd, no território basco da França.
lobo, ensinando-o a se transformar em loup-garoux. Afirmou também que o “Lorde da Floresta” era conhecido como Pierre Labourant, usava uma corrente de ferro no pescoço à qual estava sempre roendo e vivia no Inferno, comprando as almas dos mortais que ingressavam na floresta para o
sabbat. Uma espécie de intermediário entre o demônio e os mortais.
Segundo a narrativa, após Jean Grenier fazer um pacto com o Lorde da Floresta, este o instruiu a jamais roer a unha de seu polegar direito, que havia se tornado mais grossa e longa do que as outras, ou o pacto seria quebrado.
Com o suposto poder de se transformar em lobo, Jean Grenier disse ter passado a viver nas imediações da floresta. Sua primeira vítima foi uma garota de nome Marguerite Poirier, a quem havia atacado a mordidas quando transformado, mas a menina havia conseguido nocauteá-lo com um pedaço de pau e então fugira.
Chamada à corte, Marguerite confirmou a história. Segundo ela, um animal semelhante a um lobo, porém de pelagem ruiva, a havia atacado e a teria devorado se não o tivesse atingido com um cajado e fugido. Os detalhes fornecidos por Jean Grenier e a jovem Poirier coincidiram e a corte deu continuidade ao processo.
Jean afirmou ainda ter matado quatro crianças, das quais devorou a carne e bebeu o sangue. Seu testemunho foi detalhado, com as datas dos ataques, locais e circunstâncias destes. Após uma cuidadosa investigação, as autoridades do Parlamento de Bordeaux confirmaram o desaparecimento de quatro crianças nas datas referidas pelo réu. Todas tinham as características físicas e vestiam as roupas descritas por Jean Grenier.
Devido a tais evidências, a corte considerou o réu culpado e o sentenciou a ser internado em um monastério, para que, junto aos homens de Deus, aprendesse novamente os valores éticos e morais que deveriam ser seguidos pelas pessoas de bem. Caso fugisse ou escapasse do claustro, a corte determinou que fosse aplicada a pena de morte.
O autor citado por Baring-Gould (2003, p.69 -70), Pierre de Lancre, visitou o jovem Jean Grenier no monastério:
Pierre de Lancre visitou-o sete anos depois e encontrou-o com a estatura menor, muito tímido, e sem querer olhar ninguém no rosto. Seus olhos estavam profundos e agitados, seus dentes, longos e protuberantes, suas unhas negras e gastas. Sua mente era um terreno árido e ele parecia incapaz de compreender as coisas mais simples. Contou sua história a Pierre de Lancre, como correra pela mata como um lobo e que ainda sentia urgência por carne crua, principalmente de garotas, que dizia ser deliciosa, afirmando que apesar do confinamento, não demoraria muito para que provasse dela novamente.
Disse que o Lorde da Floresta visitara-o duas vezes na prisão, mas que o espantara fazendo o sinal da cruz. Os relatos oferecidos sobre os assassinatos cometidos
coincidiu exatamente com os depoimentos prestados durante o julgamento. Além disso, a história do pacto que fizera com o Senhor Negro e a maneira pela qual realizava sua transformação também coincidiram com os relatos anteriores.
Ele morreu aos vinte anos, depois de permanecer confinado por sete anos, pouco depois da visita de Pierre de Lancre.
O caso de Jean Grenier guarda semelhanças com os casos apresentados anteriormente por Sabine Baring-Gould, sobretudo com o caso dos camponeses Bourgot e Verdung. Com poucas exceções, há um padrão comum nestes casos. Neles uma pessoa comum é levada pela necessidade ou é seduzido a entrar na wilderness, no reino do maravilhoso, da sobrenaturalidade e da magia, quando então a pessoa tem contato com uma entidade sobrenatural ou com um arauto desta, como é o caso dos cavaleiros negros e de Pierre Labourant. O contato acaba em um pacto pelo qual a pessoa se torna um ser híbrido, em parte humano e em parte pertencente ao mundo da wilderness, com uma forma animal. Quando tenta regressar a seu mundo civilizado, a pessoa acaba por perceber que não é mais um ser humano e sim um loup-garoux, com necessidade de carne humana e incapaz de voltar a sua vida antiga.
Este enredo comum nos casos de loup-garoux citados por Baring-Gould ilustra a relação de medo entre os aldeões franceses e a wilderness. Como mencionado anteriormente por Idriceanu e Bartlett, a floresta, a wilderness, era considerada um território onde o humano não tinha controle, um território mágico, onde a noção de tempo e espaço se esvaía, onde o impossível se tornava possível e onde o sobrenatural suplantava o natural. Adentrar tal território era colocar em risco a vida, como as vítimas dos loup-garoux dos casos citados, ou a própria alma, como os loup-garoux Pierre Bourgot, Jean Grenier e Michel Verdung.
No caso de Jean Grenier, assim como no caso do mendigo Roulet, é visível a adoção de uma tentativa de regeneração, por parte das autoridades judiciárias, do réu, ao invés de uma pena de morte. Os juízes preferem internar o jovem loup-garoux em um convento, para que ele reaprenda a moral e os bons costumes católicos, à simplesmente condená-lo à fogueira ou ao cadafalso.