Nesse tópico, busca-se descrever os aspectos que denotam significados e aspectos simbólicos do comportamento de consumo do reggae, a partir das entrevistas realizadas com o público regueiro. Foram realizadas, conforme descrição no capítulo que retrata o método utilizado no presente trabalho, 09 (nove) entrevistas com pessoas que freqüentam as festas das radiolas, abordadas em bares e espaços de reggae onde aconteciam alguns dos eventos observados, ilustrados no quadro 11, somadas a mais 03 (três) entrevistas com
pessoas fora do ambiente das festas, que foram abordadas por indicação de amigos e que pelo conhecimento e experiência deram importantes contribuições para o entendimento da matéria em questão. Cabe ressaltar que o quantitativo aqui apresentado representa o limite adequado de opiniões coletadas, seguindo a proposta de saturação teórica para as informações obtidas com este grupo de sujeitos de pesquisa.
Em um contexto geral, verifica-se que o reggae em São Luís é o elemento de identificação da juventude negra e como características identitárias observou- se alguns aspectos que auxiliaram no mapeamento de significações do movimento para o regueiro na cidade. Inicialmente, cabe conceituar o “regueiro”, esse importante elemento da cultura reggae no Maranhão. Nesse sentido, Costa (2008, p.13) faz as seguintes considerações:
Regueiro é exatamente a denominação utilizada para os fãs e militantes do movimento reggae no Maranhão. São estes que permitem ou são conduzidos a permitirem todas as dinâmicas que ocorrem no cotidiano. É o regueiro o principal representante dos ideais rastafarianistas desviados no Maranhão. Desviados não por um desligamento das raízes, mas porque o reggae, enquanto produto cultural, despertou nas camadas populares uma nova forma mais possível de entretenimento, que predomina dentre as muitas características do reggae na atualidade em que pode ser destacado o comércio de discos no comércio informal, sendo que esta é a principal forma de contato dos indivíduos com as obras, uma vez que, mesmo sendo de acesso popular, os bailes nem sempre são aprazíveis.
Na visão de Oliveira (2009), ser “regueiro” é ser a materialização do reggae em todas as suas concepções, mudando-se apenas as significações históricas por relações atuais estabelecidas com a absorção da música. Já Silva (1995, p.124), considera que “a festa para os regueiros é um local de encontrar seus iguais, é o espaço da alegria e do prazer que minimiza as dificuldades do cotidiano”.
Assim, diante das abordagens anteriores, pode-se interpretar o termo “regueiro” como relacionado a todo indivíduo que milita no movimento, buscando o enfrentamento de questões étnicas e sociais a partir da legitimação e reconhecimento de uma identidade cultural ressignificada e absorvida pelos ideais de liberdade e lazer acessível, evocadas por um aparato instrumental e por uma musicalidade, cuja vibração lhe traz significações e simbologias, proporcionando sentimentos e percepções que o fortalecem como um indivíduo que luta por um espaço na sociedade.
Quanto ao perfil do regueiro, o DJ Luizinho Black e o informante-chave Paulo Caribe afirmam:
Hoje nós temos dois tipos de regueiros: os que gostam de músicas do passado e os que gostam de reggae da atualidade. Os do passado gostam do reggae roots, o reggae de raiz, com músicas feitas para se dançar agarradinho, já os reggaes da atualidade tem público maior nos meninos de 18 a 25 anos mais ou menos que gostam das músicas feitas aqui no Maranhão, em estúdios, ou seja, músicas eletrônicas, reggae eletrônico (Luizinho Black, entrevistado em 16 de maio de 2009).
Olha, o regueiro quer uma diversão. O regueiro é uma pessoa carente, geralmente da periferia de São Luís, ele quer uma diversão barata, uma porta de festa barata. Geralmente, os donos dos clubes colocam uma entrada barata, liberam as mulheres e a cerveja fica mais barata, então a diversão está garantida e o regueiro pode curtir as suas músicas de forma mais tranqüila. (Paulo Caribe, depoimento obtido em 17 de maio de 2009).
Considerando uma distinção entre o regueiro de radiola, que consome em grande parte o reggae eletrônico e o regueiro das antigas, ou seja, o consumidor de reggae roots, Magno Roots, proprietário do Point Magno Roots é categórico:
O público de radiola é mais juventude, que não teve aquela tradição dos anos 80. O regueiro de radiola de hoje curte música atual, de batida eletrônica. Ele está ligado na empolgação da mídia, mais um dia ele vai parar para pensar, ele está iludido com a mídia, ele curte o que as radiolas colocaram para ele como imposição, só que acabou caindo na graça do público e aí cresceu. O regueiro das antigas é mais consciente, ele tem compromisso e limites, gosta de uma boa música, de músicas antigas, gosta de músicas que dão para dançar agarradinho, curte os cantores clássicos jamaicanos, ele é meio saudosista, porque percebe que o reggae rooots está cada vez mais sem espaço nas radiolas, aparecendo somente em alguns bares da cidade, dentre eles o meu. (Magno Roots, entrevistado em 16 de maio de 2009)
Analisando as opiniões de Luizinho Black, Paulo Caribe e Magno Roots, contata-se que a produção das radiolas, na atualidade, tem massificado o consumo do reggae eletrônico pela cidade, fazendo do reggae roots cada vez mais um movimento de resistência restrito aos bares e mantidos principalmente pela organização de alguns DJ´s, proprietários de estabelecimentos e colecionadores que periodicamente realizam festas temáticas programadas, a exemplo dos eventos da figura 34.
Figura 34: Eventos temáticos de valorização do reggae roots Fonte: http//www.reggaetotal.com. acesso em 16.10.08
Identificado o perfil do regueiro, partiu-se para o levantamento das significações do reggae para esse público, tendo sido constatado um elenco de proposições de acordo com os segmentos de consumidores identificados, levando-se em conta os que gostam e freqüentam mais eventos de reggae roots e o que gostam e freqüentam as festas de reggae eletrônico.
Considerando o público do reggae roots ou reggae de raiz, verificou-se a predominância nos comentários de todos os informantes desse segmento em relação ao fato de que as festas de reggae roots atrai um público mais tranqüilo, com um nível de instrução melhor, além do fato de se poder curtir melhor a melodia e também dançar com passos mais marcados, com estilo e charme.
O reggae roots é mais intelectual, no sentido de que as pessoas que freqüentam as festas serem aquelas que gostam das músicas antigas, que conhecem a história, que conhecem o cara que canta. As pessoas que vão para os eventos de reggae roots são estudantes universitários, são jornalistas, são trabalhadores da construção civil e uma parcela de outros intelectuais. Então, vejo que tem muita gente interessada no ritmo”. (Walter, funcionário público, entrevistado em 8 de maio de 2009) O movimento do reggae roots é com a galera que se preocupa um pouco mais com a mensagem, o público é um pouco mais informado, pois muitos procuram saber o nome do cantor, o nome da música que ele está ouvindo e também procuram saber o que está acontecendo. O público do reggae roots é a resistência do reggae. (DJ Frank Wailler, entrevistado em 21 de agosto de 2008)
Esses discursos relatam o sentimento de uma atmosfera envolvente sobre o reggae roots, que permite ao regueiro uma espécie de viagem no tempo, um encontro com as músicas do passado que lhes trazem recordações e valorizam ainda mais o ritmo, ainda mais quando executados em espaços onde pode-se encontrar os amigos e pessoas representativas do movimento. Pode-se destacar também, informações relativas ao ambiente das festas desse ritmo que possibilitam rever as mesmas pessoas encontradas em eventos anteriores, o que reforça o fato desse estilo ter um público especializado que o valoriza e garante a sua manutenção na cidade.
Outros aspectos importantes identificados foi o fato do público desse estilo manifestar baixo interesse pelos reggaes cantados em português, havendo uma preferência maior pelo reggae original da Jamaica, ou seja, os clássicos jamaicanos, que na opinião geral dos informantes, promovem uma atmosfera mais tradicional e apaixonada.
Em relação ao público de reggae eletrônico, estes atribuem valoração maior à batida das músicas e não as letras ou mensagens dessas e, diferentemente do público do reggae roots, gostam do ritmo acelerado, visto que podem fazer várias evoluções com seus pares. Um ponto importante destacado pelos informantes evidencia que as festas de reggae eletrônico, principalmente as promovidas pelas grandes radiolas, trazem muita energia, muita diversão, possibilitando aos freqüentadores combinarem encontros com os amigos para se divertirem e fazerem evoluções de danças. Foi relatado pelos informantes que em muitas vezes eles até fazem ensaios para dançarem bem o robozinho nas festas.
O reggae de radiola (o robozinho) tem uma batida forte mexe com o regueiro. Gosto e danço o robozinho que hoje é uma febre nos clubes de reggae da cidade, ele domina o espaço, todo mundo gosta. Vejo o robozinho como mais uma opção para mostrar o reggae do Maranhão, sua variação. Gosto muito de ensaiar com minhas amigas antes de ir para as festas. (Allen, 22 anos, dançarina de grupo afro, entrevistada em 01 de maio de 2008).
Para Toinho Gonçalves, proprietário da radiola FM Gonçalves (entrevistado em 16 de maio de 2009), “o regueiro de radiola quer ouvir músicas novas de qualidade, novidades. Eles valorizam muito as novidades que aparecem no mercado, pois tudo que anunciamos eles querem saber e vão conferir nas festas, onde terminam fazendo seu estilo de dança”. Já Luzico, gerente comercial da Itamaraty Sonorizações (entrevistado em 19 de maio de 2009), complementa,