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1. NURİ PAKDİL VE DENEMELERİNE GENEL BİR BAKIŞ

1.3. Teknolojiye Bakışı

Esse último campo psicológico-vivencial que chamamos de “Realização pessoal” organiza-se a partir da crença de que é possível encontrar um trabalho que faça sentido e que traga alegria e satisfação.

Nesse campo, as personagens mostram-se felizes em suas atividades profissionais, envolvidas em suas tarefas, bem dispostas e interessadas no que estão fazendo. Aparentemente, os jovens vislumbram aqui a possibilidade de um trabalho afinado com seus interesses e singularidades, permitindo que se reconheçam na atividade realizada.

Encontramos nas peças criadas por esse grupo de jovens que participou da pesquisa o jogador de futebol apaixonado pela sua profissão e o vendedor de livros e chocolates, que, embora atravessado por dificuldades financeiras e doença na família, mostra-se orgulhoso e empolgado diante do trabalho que realiza. Temos ainda as empresárias da fábrica de chocolates e da livraria comprometidas em desenvolver suas empresas, sendo interessante notar a atividade desta última, que articula comércio e conhecimento, mostrando a

possibilidade de criar e encontrar atividades muito variadas, combinando interesses pessoais88.

As personagens relacionadas a esse campo “Realização pessoal” apresentam condições de vida muito diversas, pois algumas são ricas e famosas enquanto outras são mais sofridas e enfrentam dificuldades financeiras. No entanto, independentemente do dinheiro que cada uma delas tem, elas parecem felizes e satisfeitas em suas atividades diárias. Aparentemente, não encontramos aqui a equivalência entre realização profissional e sucesso financeiro sugerida no campo “Miséria e riqueza”, e que apareceu de forma muito forte na primeira peça, “Uma convidada inesperada”.

Esse campo faz alusão à possibilidade de um trabalho acontecendo como viver criativo, integrado ao ser, no qual o gesto se dá de forma espontânea, criando e encontrando aquilo que já estava lá para ser encontrado e que tem “a cara” daquele que o realiza. Os sentimentos que surgem nesse campo psicológico-vivencial da “Realização pessoal” parecem ser de confiança em si e no mundo, revelando um estado de ser mais tranqüilo e relaxado, a partir do qual os jovens arriscam seus movimentos de criação singular, inovando e abrindo novos horizontes diante do que se apresenta para eles. Encontramos aqui aquele engajamento tão buscado, pois reconhecemos um

88 Retomando algumas peças apresentadas ao longo deste trabalho e criadas por outros

grupos, também encontramos personagens que ilustram esse campo “Realização pessoal” como, por exemplo, o pedreiro feliz do programa Silvio Santos (p. 120), o engenheiro falando em entrevista a jornalistas a respeito de seus projetos e construções (p. 185) ou ainda a artista plástica orgulhosa de seus trabalhos (p. 181).

movimento pessoal em direção ao que interessa, encanta, enriquecendo a vida de sentido.

Esse campo nos faz lembrar da personagem Ana89, que buscava um viver que fizesse sentido para ela, que queria seguir uma carreira na qual pudesse sentir-se viva e real, próxima de si. Questões relacionadas à escolha de uma profissão e à possibilidade de realização pessoal, que carregam em si temas como a busca de autenticidade no viver, de contato consigo e procura de um “Ser e Fazer” no mundo de acordo com o que existe de mais sagrado e singular em si parecem se colocar de forma mais evidente na adolescência, no momento em que os jovens preparam-se para se inserir no mundo do trabalho. No entanto, notamos que essas preocupações de cunho existencial acompanham as pessoas ao longo de suas vidas, de forma mais ou menos intensa, dependendo de cada um e das situações que se apresentam, das escolhas que têm de fazer. A qualquer instante, podemos ser atravessados por pensamentos e sentimentos que revêem as escolhas feitas, que checam o quanto estamos ou não vivendo no ser, se nossas ações estão mesmo afinadas com o que sentimos existir de verdadeiro em nós.

Sendo assim, mais do que uma questão ligada à escolha de uma profissão, estamos diante de temas mais amplos, que ultrapassam o universo adolescente, fazendo alusão a uma condição existencial a partir da qual seja possível escolher, mantendo-se próximo de si e presente no viver, realizando o seu potencial pessoal.

89 Encontramos essa personagem na narrativa que se encontra na página 17 e cuja

Vale observar que o fato de se optar por um curso superior, ou uma carreira socialmente valorizada, não necessariamente significa uma ação autêntica do self. Às vezes, confundem-se aquisições sociais, tais como um bom emprego ou uma determinada formação superior, como sinal de bem- estar, de maturidade, de conquista de um estado de ser autêntico, centrado em si. No entanto, condutas muitas vezes compreendidas como adequadas podem, na verdade, ser sintomáticas, remetendo a ações falso self, que ocasionam sentimentos de desconforto, inadequação, de afastamento de si, de falta de presença no viver.

O campo “Realização pessoal”, no conjunto das peças realizadas, parece, no entanto, ter ficado em último plano para os jovens. Aparentemente, eles estão bem mais preocupados com posição social, poder e dinheiro, demonstrando uma certa desesperança na possibilidade de expressão de suas potencialidades. Em sua tese de livre docência, investigando o imaginário de alunos de psicopatologia acerca da loucura, Aiello-Vaisberg (1999) observa fenômeno semelhante quando assinala uma íntima conexão entre a violência decorrente de desencontros e contrariedades da vida amorosa, ocasionando uma dramática fatalista que chega a incluir homicídios, apontando não apenas para uma desesperança, mas também para uma sensação de vazio e uma superficialidade no modo de encarar a vida e o mundo. Nas peças apresentadas ao longo deste trabalho, encontramos cenas de violência que

parecem diferir do que Winnicott (1950/2000)90 falava a respeito da

agressividade como expressão de vitalidade, sugerindo aqui uma relação entre essa violência observada em algumas dramatizações e sentimentos de desesperança, vazio e superficialidade, que assustam e desafiam a possibilidade de um viver mais harmonioso.

90 Vale a pena lembrar que Winnicott abordou o tema da delinqüência e da violência em um

contexto histórico ligado à segunda guerra mundial. Pelo fato do autor não ter conhecido formas extremas e radicais de violência que parecem ter emergido mais recentemente, somos levados a considerar que sua teorização, que privilegia o aspecto vital da violência, faz sentido em certos contextos sócio-culturais, mas que talvez precise ser revista no mundo atual.

Potencialidade mutativa – Transição entre