C. ORTA-YÜKSEK TEKNOLOJİLİ YATIRIMLAR
5. TEKNOLOJİ ODAKLI SANAYİ HAMLESİ PROGRAMI
A chegada ao Dendê surpreende. A paisagem urbana que se descortina ao se cruzar a amplidão das ruas largas e arborizadas das cercanias do Fórum Clóvis Beviláqua e da Universidade de Fortaleza dá a vaga noção de encolhimento, como se houvesse uma redução do espaço físico, como se de súbito todo aquele universo tivesse sido compactado para acomodar um cotidiano diferente do da vizinhança nobre e sofisticada.
É como se um enorme muro invisível separasse os dois mundos: o da opulência e o da exclusão. Essa é a primeira sensação que toma conta de nós ao percebermos como essas
diferenças estão bem demarcadas - de um lado, o bairro Edson Queiroz, uma das áreas residenciais que mais cresce em Fortaleza, com estruturas de pedra e cal imponentes, majestosas, abrigando o Palácio da Justiça Estadual e a maior universidade privada da região Nordeste. De outro, as ruas estreitas, mas asfaltadas, com o esgoto correndo lento e silencioso, uma profusão de gente na rua, crianças, bicicletas, carros...
A organização espacial do lugar, o burburinho, o movimento de pessoas, indicam ser o Dendê um universo paralelo, diferente do que cruzamos a poucos metros. O mundo agigantado ficou para trás. O que se vê agora são casas, muitas de dois pisos, fininhas, bem juntinhas umas das outras; não há praticamente calçadas e por isso as pessoas disputam com os carros a faixa estreita de asfalto. Os fios dos postes de energia elétrica revelam enorme contingente de crianças: estão ali emaranhados de linhas, rabos de arraia, esqueletos de pipa, alguns ainda com papel de seda desbotado, marcas das travessuras de meninos e meninas que buscam, na amplidão do céu e na camaradagem do vento, espaço para manifestação da meninice.
O olhar esquadrinha tudo. O céu azul, casas, pessoas, ruas, becos, postes...Em alguns postes, caixas de zinco emolduram alto-falantes que transmitem as músicas do momento. O som não incomoda, incorpora-se àquela trilha sonora do cotidiano do Dendê.
Mais um pouco e se chega à rua Otávio Rocha, 327, onde fica a Rádio Comunitária Edson Queiroz. A pintura na fachada da casa de dois andares anuncia. A escada íngreme leva ao estúdio da emissora, uma sala pequena, sem janela, abriga os equipamentos: um tape-deck, um toca CD, um computador, dois microfones, um amplificador, alguns poucos CDs, uma pilha de jornais velhos também se acomoda no ambiente: já foram úteis dias atrás. Um pequeno ventilador refresca os equipamentos.
É do estúdio da Rádio Comunitária Edson Queiroz que, às terças-feiras, é apresentado o programa Momento Saúde, produzido pelas estudantes de Enfermagem da Universidade de Fortaleza e que será comentado posteriormente. Faz-se necessário, dizer, no entanto, que a emissora comunitária encontra-se inscrita no bairro, daí a importância de, inicialmente, descrevermos como está organizado o bairro.
A discussão sobre identidade é pertinente e a intenção de incorporá-la tem a finalidade de ensejar melhor compreensão do que é a comunidade, com seus sujeitos e sua complexa teia de relações. Neste sentido, recorremos à referência de Stuart Hall, para quem o sujeito pós-moderno não tem uma identidade fixa ou permanente.
O sujeito assume identidades diferentes em diferentes períodos, identidades que não são unificadas ao redor de um ‘eu’ coerente. [...] A noção de identidade torna-se uma celebração móvel: formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais (HALL, 2000, p. 13).
Essa acepção de identidade como algo móvel e, portanto, passível de transformações contínuas, aproxima-nos de uma idéia de sujeito, como que a situa em um tecido movente, complexo, alimentado pelo conjunto de relações vividas e intercambiadas nos sistemas culturais.
Para França e Simões a reflexão sobre identidade ganha corpo quando associada à linguagem, que assinala a idéia de posição junto à discursividade sobre os lugares.
[...] A identidade tem a ver com discursos, objetos, práticas simbólicas que nos posicionam no mundo – que dizem nosso lugar em relação a outro (outros pontos de referência, outro lugar). Ao fazer isto, a identidade também marca e estabelece uma posição, o lugar que efetivamente construímos e no qual nos inserimos. Ela se constrói assim – nessa interseção entre discursos que nos posicionam e o nosso movimento de nos posicionarmos enquanto sujeitos no mundo (FRANÇA e SIMÕES, 2002, p. 28).
Referida ponderação será retomada na análise dos Programas Momento Saúde, mas vale salientar que é assim que compreendemos a idéia de identidade e linguagem: situando-as na intersecção dos discursos e no movimento dos posicionamentos dos sujeitos nos sistemas culturais.
A Universidade de Fortaleza desenvolve um conjunto de atividades no Edson Queiroz, por meio da Escola Yolanda Queiroz, que atende as crianças do bairro, seja por intermédio do Núcleo de Atenção Médica Integrada, que mantém um conjunto de profissionais de saúde atuando junto à população do bairro, ou ainda do Centro de Formação Profissional, organizado na comunidade em parceria com a Associação dos Moradores da Água Fria e que oferece cursos técnicos e profissionalizantes, nas áreas de instalações elétricas, cuidados infantis, consertos de eletrodomésticos, formação de bombeiro hidráulico e em informática.
Há ainda a atuação de outros grupos no bairro, tais como a Associação de Moradores, igrejas e o Instituto Florestan Fernandes, ONG que desenvolve projetos de socioeconomia solidária, já citados.
Nossas referências sobre o bairro foram esteadas nas inúmeras visitas que fizemos à Rádio Comunitária, acompanhando os alunos do Curso de Publicidade e Propaganda da Universidade de Fortaleza, onde lecionamos e, nesse caso, a interlocução acontecia sempre
com as pessoas que compunham a equipe da rádio e que nos viam como uma pessoa de fora, “a professora Andréa”.
Estávamos interessada em nos movimentar no bairro de modo independente, sem a vinculação com a Universidade de Fortaleza, da forma como ela se apresentava junto à rádio. Estávamos experimentando, como dizia Hall (2000), o fenômeno das múltiplas identidades.
Por isso, buscamos contato com pessoas de segmentos distintos que nos pudessem fornecer outras informações sobre o local. Contatamos, na ocasião da entrevista, julho de 2005, com o então presidente da Associação dos Moradores do Bairro Água Fria e optamos por fazer uma entrevista semi-estruturada com o presidente do Instituto Florestan Fernandes. Já o conhecíamos pela sua participação na Pastoral Operária, e depois como presidente da Central Única dos Trabalhadores. A nossa intenção era conhecer melhor o trabalho desenvolvido pela entidade que ele dirigia e também poder observar o bairro de outra perspectiva.
A entrevista com o presidente do IFF possibilitou-nos um contato com um Dendê que ainda não sido possível perceber. Conversamos na sede do Instituto Florestan Fernandes, numa manhã ensolarada de sábado, e depois visitamos, juntos, alguns locais importantes do bairro, como a Rocinha e a Baixada.
Nova geografia humana nos foi apresentada. Percebemos então a intensidade com que a vida pulsa nas condições de vida mais adversas. E demo-nos conta de que esta pesquisa precisava, de alguma maneira, refletir tal fato.
A história do bairro começava a ganhar vida no concerto das diásporas que ali se estendiam. Ao buscarmos a cartografia das relações vividas e apontadas pelos sujeitos que íamos conhecendo, nos apercebíamos do modo como o bairro havia sido constituído. A partir do deslocamento de várias famílias para a área, na década de 1970, como já citado, situavam- se paulatinamente essas identidades em diáspora.
Eu moro aqui desde 75, nessa área de ocupação que foi uma das maiores de Fortaleza. Logo que a gente chegou aqui ninguém tinha terra e as pessoas foram construindo as casas. Desde então estou envolvido com o trabalho social. Teve o grupo de jovens, depois a primeira associação de moradores e desde 99 começou o trabalho com o Instituto (Entrevistado n.3, presidente do Instituto Florestan Fernandes)12.
Antes eu morava na Praia do Futuro, perto do Moinho. A gente se mudou pra cá por causa da desabitação, na época estavam construindo aqueles edifícios, aqueles
condomínios grandes e desabitaram o povo que morava naquelas casas pequenas. Aí conseguimos comprar um terreno grande e viemos morar aqui, uma média de 25 pessoas da minha família, meus pais, avós e dois tios (Entrevistado n.1, diretor da Rádio Comunitária Edson Queiroz, mora no bairro há 25 anos).13
A região hoje é composta por diversas áreas: Rocinha, Baixada, Comunidade Chico Mendes e a parte que é chamada de Edson Queiroz.