No final do século XIX, algumas mudanças importantes na sociedade brasileira começavam a ocorrer. Entre as quais, destacamos a ampla difusão do trabalho assalariado e de atividades industriais. A abolição significou o fim dos entraves à expansão do trabalho assalariado e favoreceu a imigração. A década de 1880 a 1890 representou também um surto industrial no país. Em 1885 o estado de São Paulo registrava treze fábricas têxteis com 1670 operários, três fábricas de chapéus com 315 operários, sete empresas metalúrgicas com 500 operários. Em 1889 havia no Brasil cerca de 636 empresas industriais onde trabalhavam cerca de 54 mil operários. Em 1901, entre as 91 mais importantes empresas industriais paulistas, 33 empregavam de 10 a 49 operários, outras 33 de 50 a 199, e 22 de 200 a 499, duas outras ocupavam 600 operários cada e apenas uma dessas empresas possuía cerca de 800 operários (SIMONSEN24, 1973 apud SILVA, 1995).
Este surto industrial no país é uma dimensão da Revolução Industrial iniciada no século XVIII, na Inglaterra, que alterou significativamente as formas de utilização da força de trabalho. A instauração de uma sociedade industrial implicava em uma nova ordem, uma nova racionalidade, em transformações econômicas, tecnológicas e na criação de novas regras e disciplina. A fábrica passou a compor mais uma das muitas instituições que elaboraram regulamentações como a escola, o exército, a prisão. Porém, a maior dificuldade da fábrica, foi conseguir que pessoas livres assumissem o trabalho regular e a pontualidade. Durante este processo, as grandes fábricas coexistiram ao lado das pequenas oficinas e abrigavam, muitas vezes, formas variadas de organização de trabalho. Ao referir-se à França, Perrot (1988) mostra que eram recorrentes as reivindicações de operários contra as regras de horário fixo, jogos e bebidas durante o trabalho e o direito de sair para se refrescar do lado de fora, observadas no início do século XX. Como solução a
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SIMONSEN, Roberto C. Evolução industrial no Brasil e outros estudos. São Paulo: Nacional; Ed.USP, 1973.
esses conflitos foi introduzido um novo modelo de gerenciamento, largamente utilizado até o final do século XIX: o paternalismo25 (PERROT, 1988).
No Brasil, a primeira metade do século XIX foi caracterizada pelo regime escravista que imperava nos latifúndios com um sistema de transporte deficiente e rudimentar (carros de boi e tropas de mulas em estradas que ofereciam péssimas condições para o fluxo), e um grau ainda incipiente de urbanização. As dificuldades ainda eram compostas pelas grandes distâncias entre os principais centros urbanos e a dificuldade de estabelecer comunicação, além de uma limitação do mercado interno que se apresentava restrito e fragmentado e uma escassez de capital para investimento em máquinas. Foi a partir da atividade industrial, mostrada com mais determinação durante as décadas de 1880-1890, que ocorreu uma alteração significativa na cidade. Podemos citar como exemplo desse fenômeno, a cidade paulista de Salto que, com suas fábricas têxteis, de papel e fiação e estamparia, proporcionou a alteração das condições urbanas, como construção de pontes, jardins e iluminação pública. Vale destacar que, em São Paulo, além do crescente número de indústrias têxteis que proliferaram nesse período, haviam um elevado número de pequenas fábricas onde patrão e empregados trabalhavam juntos, como as atividades desenvolvidas em olarias, cerâmicas, pedreiras e marmorarias26 (HARDMAN; LEONARDI, 1982). Assim como na Europa, durante o processo de instauração da sociedade industrial, no Brasil, também co-existiam pequenas unidades de trabalho ao lado de grandes indústrias que começavam a surgir.
A segunda metade do século XIX, entretanto, mostrou-se prodigiosa para a indústria paulista, principalmente com a valorização do café no mercado internacional. O café promoveu a expansão territorial, urbana e do capital. Assim, estradas de ferro foram estendidas pelo interior, cidades foram fundadas, bancos, escolas e indústrias foram instaladas, máquinas foram importadas e com o fim do trabalho escravo, muitos imigrantes desembarcavam no porto de Santos à procura de oportunidade de trabalho e fortuna. É neste cenário que surge, se expande e se consolida a Cia. Melhoramentos e seu núcleo fabril fundado por Antonio Proost Rodovalho.
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O paternalismo era caracterizado por três traços principais: a presença física do patrão no local de produção, relações socais do trabalho concebidas conforme o modelo familiar (o patrão é o pai e os operários são os filhos), a constante participação dos operários nas festas promovidas pelo patrão e a aceitação desta integração pelos operários que se orgulhavam de participar da empresa com a qual se identificavam (PERROT, 1988).
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Na periferia norte da cidade de São Paulo havia por volta de 4.000 operários, na década de 1890, que trabalhavam em diferentes caieiras e pedreiras, para a construção de novos bairros – uma exigência da expansão urbana da época (HARDMAN, 1982).
Como já vimos, a consolidação da Companhia Melhoramentos ocorreu em 1890, a partir dos estabelecimentos fabris do coronel Rodovalho. Com o projeto elaborado pela empresa Gebrüder Hemmer, iniciava-se a construção da fábrica utilizando-se pedras de um morro próximo - conhecido por Tico-Tico - cimento e folhas de zinco importados da Europa. Começaram também as pesquisas de análise para matéria prima, com a utilização da cal na celulose. A situação geográfica era favorável para o empreendimento com a utilização do Rio Juqueri que fornecia energia hidráulica para o funcionamento das máquinas e favorecia o transporte fluvial de cargas que, juntamente com o transporte ferroviário interno trazia movimentação à região (DONATO, 1990).
Até a consolidação da Companhia Melhoramentos de São Paulo, a empresa de Rodovalho ainda era anunciada como Fazenda Industrial Caieyras27 (VICENTINI, 2007). A notícia publicada na primeira página do jornal O Estado de São Paulo, em 1890, sob o título EXCURSÃO A´S CAYEIRAS retratava o prestígio dos estabelecimentos de Rodovalho:
O sr. Coronel Antonio Proost Rodovalho convidou alguns amigos a visitar hontem os seus grandes estabelecimentos industriaes situados juncto à estação das Cayeiras.
As pessoas que foram gosar o agradável e pittoresco passeio, salvo desculpavel esquecimento, foram as seguintes:
Dr. Governador do Estado, Drs. Paula Souza, Rubião Junior, Paes de Barros, José Luiz de Almeida Nogueira, do Correio Paulistano, Ignacio Cochrane, Vieira de Carvalho, Delfino Cintra, Dino Bueno, Americo dos Santos, A. Pinto, Ernesto Silva, Ramos de Azevedo, Cantinho, Lins de Vasconcellos, Silveira Mello, Ezequiel Ramos, Lencke, Marcos Arruda, barões de Jaguará e de Mello Oliveira, commendador Hammond, Anselmo de Carvalho, Horácio de Carvalho; Hippolyto da Silva e Filinto d´Almeida, d´esta folha.
Tendo tomado lugar em uma carruagem especial do trem das 6,20 da manhã apeiou-se a longa companha, uma hora depois, na estação das Cayeiras, perto da qual havia uma casa onde lhe foi servido o indispensável café.
Em seguida começou a viagem mais variada do que é possível fazer-se: Dois kilometros de bonds a vapor até a ponte do rio Juquery que corta a grande propriedade do coronel Rodovalho; embarque em duas lanchas rebocadas por um vaporsinho – tres kilometros de navegação pelo rio pittoresco, encantador, marginado por uma vegetação abundante, cortado por pontilhões, afestoado de cipós e lianas bellissimas. Desembarque junto aos edifícios em construcção para a fabrica de papel que deve ser inaugurada em principio em Julho e onde já estão assentados quase todos os grandes machinismos, tesouras, enormes caldeiras suspensas e gyratorias para a cocção das fibras textis, trituradores, clarificadores, turbinas gigantescas ao lado de uma extensa represa do rio, sobre a qual as aguas se despenham magestosamente, e, occupado todo o vasto edificio inferior, as duas monstruosas machinas de cilindragem, extensíssimas, de uma
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No primeiro momento de difusão da indústria no Brasil, os grupos de casas localizados em áreas rurais eram chamados muitas vezes de “vilas” ou “povoado”, por tratar-se de local com população reduzida e subordinação política a uma cidade, ou eram chamados de “fazenda” em referência ao vínculo agrário do empreendimento industrial, onde em muitos casos a empresa se constituía em uma antiga fazenda e assim continuava a ser chamada (CORREIA, 2001).
entontecedora quantidade de cilindros desde os de um ou dois centímetros de diametro até os de mais de um metro.
Vistos os bellos edificios, todos construídos de pedra, cal e tijolos, sobre rocha viva, e admirados os machinismos que o administrador techino sr. Frederico Sidow teve a amabilidade de explicar minuciosamente aos circumstantes, estes montaram a cavallo e foram até o primeiro e elegantíssimo fôrno continuo das cayeiras.
Ali houve ainda mudança do meio de transporte: como chovesse, tiveram de ir todos de carros... de bois, mas carros já preparados para a excusão, com bancos e cobertos de lona e palmas. Nestes carros foi companha até ao local desejado do almoço, perto do segundo grande fôrno continuo.
Depois do almoço visita ao fôrno, de onde vimos cahir o calcareo calcinado e assistimos ao processo simplicimo mas curioso da hydratação: sobre as pequenas pedras calcinadas os operarios atiram baldes de agua e ellas vão-se esboroando pela acção do vapor desenvolvido, até ficarem reduzidas a pó.
Voltâmos nos carros de bois até o primeiro fôrno contínuo, tendo visto os vários outros intermittentes, situados no caminho do segundo.
Livres dos carros de bois a que a dura necessidade nos obrigara, expirimentámos ainda outro systema de viação: um ascensor funicular, que sobe um plano inclinado suavemente, até galgar a plataforma quase plana da montanha que conduz à pedreira calcarea. No alto da montanha, foi desatrelada a locomotiva e os carros passaram a ser tirados por bestas.
Vimos a pedreira calcárea de pedra negra semelhante à ardosia na apparencia. Bebemos agua fresquissima numa fonte próxima e tornamos a subir a vertente da montanha; no alto começa a descida de tracção: deslisam sobre os trilhos, de breack apertado.
Chegamos ao ponto de partida, esperavam-nos a pequena locomotiva com os seus dois carros, que nos conduziram até a grande olaria, onde assistimos a fabricação rapida de tijolos e telhas de todos os feitios e onde se está construindo um grande forno para cinco milheiros de tijolos. Em uma das vastíssimas dependências da olaria vimos fabricar papel à mão; o processo é simples: em uma tina está a materia-prima, a fibra, reduzida a liquido; um operario mergulha nesse liquido numa peneira quadrada, de rêde finíssima; o que fica dentro da peneira já é papel, que outro operario vae collocando folha a folha entre quadrados de baeta; d´alli vae a uma pequena prensa de mão onde é premido; depois disso falta apenas pôl-o a seccar. E assim se faz o papel ordinario, para embrulho, pardo e amarellado, e o branco para phyltrar.
Vistas todas estas curiosidades industriaes, tão variadas e complexas, que dão trabalho a cerca de mil e quatrocentos operarios, homens, mulheres e crianças, e que são devidas à extraordinaria iniciativa e ao poderoso espírito emprehendedor de um único cidadão – o coronel Rodovalho; tendo recebido a mais grata impressão de todo aquelle enorme esforço em prol do grogresso inegualavel deste estado, voltámos até à casa junta a estação das Cayeiras, onde nos esperava um jantar não menos lauto e bem servido do que o almoço.
Acabado o jantar entrámos no wagon da linha ingleza.
De um lado e de outro do trem, formados em longa fila, os operarios agitavam as bandeiras das suas respectivas nacionalidades, italianas, suissas, francezas, allemãs, e erguiam calorosos vivas ao coronel Rodovalho, ao dr. Governador do Estado e aos outros convidados. No meio do enthusiasmo d´aquelles rudes trabalhadores, o trem apitou e partio [...] Ao tomarmos pela primeira vez os bonds a vapor, passámos pela escola dos estabelecimentos, à frente da qual estavam os seus 70 alumnos em fórma. O professor ergueu vivas ao dr. Governador, ao coronel Rodovalho e à república.
Agradecendo ao digno e notável industrial que nos proporcionou tão gentilmente as inolvidaveis impressões do dia de hontem, devemos também agradecer aos três administradores das officinas, sr. Ascagno, Sidow e Fischop as muitas amabilidades que tiveram para comnosco, assim como para todos os convidados. Além das industrias já estabelecidas pretende ainda o sr. coronel Rodovalho montar nas caieiras uma pelleteria ou cortume, para o qual já lá estão todos os
machinismos necessários (Jornal o Estado de São Paulo, 20 de abril de 1890, p.1).
Henri Raffard apontava a visão administrativa de Rodovalho em relato de 1890:
A 26 quilômetros de São Paulo, pode-se igualmente ver uma instalação de luz elétrica com lâmpadas Edison da força de 20 velas nas propriedades do coronel Antonio Proost Rodovalho, vizinhas da estação de Caieiras na linha inglesa, onde este capitalista fez montar uma fábrica de cal, depois outra de cerâmica e ultimamente uma de papel (RAFFARD28, 1892 apud LEMOS, 1989, p.46-47). Diante das demandas das principais cidades brasileiras e com a facilitação de recursos às empresas comprometidas com as melhorias de infraestrutura urbana, a Empresa Industrial de Melhoramentos no Brasil pretendia criar Companhias de Melhoramentos nos estados. Atraído pela possibilidade de transformar a Fazenda Industrial Caieiras em empresa e incorporar os seus estabelecimentos fabris a uma companhia nacional, Rodovalho percebeu a oportunidade de ampliar seu mercado consumidor. Assim, na sede do Banco do Brasil, representantes da Empresa Industrial de Melhoramentos no Brasil e acionistas da Companhia Melhoramentos de São Paulo selaram sua instalação.
Quanto à avaliação dos bens a serem incorporados à Companhia, a Ata da Assembléia Geral de instalação em 12 de setembro de 1890 emitiu o parecer29 de avaliação:
[...] Os louvados abaixo assinados eleitos pela assembléia geral constituinte da Companhia Melhoramentos de São Paulo passam a emitir o seu laudo relativamente às propriedades e estabelecimentos industriais, as quais de conformidade com o artigo 20º, parágrafo 2º, têm de ser incorporados à companhia. Estas propriedades podem se dividir em dois grupos: o primeiro industrial e o segundo agrícola. Fazem parte deste primeiro grupo os estabelecimentos industriais montados nas propriedades territoriais de Caieiras, pertencentes ao coronel Antonio Proost Rodovalho e estas mesmas propriedades, as quais representam uma área de cerca de seis léguas quadradas formada pelas fazendas da Conceição, Monjolinho, Bom Sucesso e Manquinho, Cresciuma e
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RAFFARD, Henri. Alguns dias na Paulicéa. Revista do Instituto Histórico e Geográphico Brazileiro, Rio de Janeiro, 55 (parte 2):159-258, 1892.
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O parecer foi assinado por Theophilo Teixeira de Almeida, Virgilio Ramos Gordilho, José Pinto de Oliveira. Posto a votos, foi aprovado unaninemente. A assembléia foi presidida por Luis Martins do Amaral e teve como primeiro e segundos secretários Eduardo P. Guinle e João Gomes Ribeiro de Avellar. O presidente da Assembléia proclamou a diretoria da Companhia Melhoramentos de São Paulo, de conformidade com os estatutos aprovados por Manuel Vicente Lisboa, presidente, Antonio Alves de Carvalho, tesoureiro, Carlos César de Oliveiras Sampaio, diretor industrial, Manuel Dias do Prado, diretor agrícola. Os membros do conselho fiscal efetivo: coronel Antonio Proost Rodovalho, Fabio de Mendonça Uchoa, Luis Raphael Vieira Souto, Frederico Augusto Schimidt, André Gustavo Paulo de Fontin e suplentes do mesmo conselho: Virgilio Ramos Gordilho, comendador José Ferreira Alegria, Manuel Candido Pinto de Azevedo, comendador Joaquim Álvaro da Armada, Alfredo Coelho da Rocha (DONATO, 1990).
Fazendinha. As indústrias aí estabelecidas são as seguintes: caieiras, olarias, pedreiras para cantaria, paralelepípedos e alvenaria.
Existem plantações desenvolvidas de videiras atingindo já a oitenta mil pés. Importantes matas fornecem o combustível necessário às duas primeiras indústrias, outrossim estão assentadas nas propriedades linhas férreas, tendo 15 quilômetros de extensão e no Rio Juqueri há navegação por lancha a vapor já criada. Avaliamos estas propriedades, inclusive os estabelecimentos industriais, lavoura, gado, vias férreas, casas para armazéns e colonos, lanchas a vapor e todos os demais acessórios em três mil e oitocentos contos de réis.
Na Fazendinha está a concluir-se a montagem de uma fábrica de papel do tipo mais aperfeiçoada, dotada de todas as máquinas necessárias, edifício incombustível, força motriz hidráulica, três turbinas e etc. Os louvados são de parecer que a conclusão desta importante fábrica de papel deverá ser ultimada pela atual proprietária e incluindo a matéria prima já em depósito avaliam esta fábrica de papel em mil e duzentos contos de réis. Fica assim avaliado o primeiro grupo de propriedades a serem incorporados à companhia e que constitui as caieiras em cinco mil contos de réis.
Pertencem a este grupo as seguintes propriedades agrícolas:
Santa Olímpia, Santa Carolina, Três Barras, Bela Vista, Boa Vista, Canaam, São Joaquim e Luis Antonio no município de São Simão. Rio Corrente, Anunciação e Santa Rosa no município de Pirassununga. Estas fazendas situadas no oeste de São Paulo possuem mais de dois mil alqueires de terra roxa, mais de dois mil e quinhentos alqueires de terras baixadas ou em pastos, cerca de oitocentos mil pés de café formados e aproximadamente um milhão de pés de um, dois e três anos. A produção do ano vindouro deve exceder a oitocentas mil arrobas, e a colheita dentro de três anos, só pelo que existe de cafezais a formar-se e elevar- se-á a perto de cento e oitenta mil arrobas. Os louvados avaliam estas propriedades agrícolas em quatro mil contos de réis [...] (DONATO, 1990, p.33 e 34)
Um artigo publicado em 1890 demonstra a insatisfação de alguns com o anúncio da instalação da nova companhia:
Mais uma Califórnia! É um assombro de riqueza, um mundo por um real! Desta vez coube a honra de enormíssimo presente à Companhia Melhoramentos do Brasil, única incorporadora desse novo prodígio de tentação. O prospecto é bonito, um encanto! Mas não está completo. Não disse ao público, com todos os guizos do reclame, o preço por quanto foram adquiridas as fazendas do Sr. Rodovalho, e o preço por quanto terão de ser transferidas à nova companhia que vai receber a carga.
Fala-se por aí em uma vantagemsila de 4000 contos que, reunidos ao preço da compra, salga um pouco o lombo dos que ainda acreditam no ovo de três gemas. Tem a palavra a honrada diretoria da Companhia Melhoramentos do Brasil (Jornal do Commercio, 4 de setembro de 1890, p. 9).
As colocações estariam pautadas na desconfiança em relação ao emprego dos recursos disponíveis em decorrência da política econômica adotada pelo governo,
conhecida como encilhamento30, que incentivou a abertura de muitas empresas, das quais, diversas não seriam finalizadas (VICENTINI, 2007). Entretanto, as instalações de Caieiras tiveram intenso crescimento nos anos seguintes e destaque pela sua grandiosidade e qualidade da produção:
O mais interessante conjunto industrial surgiu, contudo, em Caieiras, associando três ramos industriais, todos ligados ao campo através de sua matéria-prima. Trata-se do empreendimento fundado, já antes de 1890, pelo coronel Antonio Proost Rodovalho, e que compreendia a extração de pedras de cantaria, e fábrica de cal, produtos cerâmicos e papel. Êste conjunto industrial se distinguia das indústrias enumeradas acima, por não se localizar junto à estação, mas por se encontrarem os vários estabelecimentos dispersos pelo campo, não longe, é verdade da estação – à qual se ligavam por teleférico e por “tramway” de tracção animal, o qual seria posteriormente ampliado e dotado de tracção mecânica. Fica patenteada a relação locacional com a ferrovia. Em 1890 o conjunto de fábrica era adquirido pela Companhia Melhoramentos de São Paulo. Os estabelecimentos fabris de Caieiras caracterizavam essa área como um dos principais centros industriais dos arredores paulistanos na época. A fábrica de cal, em 1888, era considerada como uma das duas mais importantes da província, e à cerâmica era atribuída a primazia absoluta entre os estabelecimentos congêneres. A fábrica de papel era mencionada bem mais tarde, em 1924, como sendo a mais importante do país (LANGENBUCH, 1971, p. 107 e 108)
Descontente com algumas decisões e posicionamentos da diretoria da empresa, o Coronel Rodovalho desligou-se, em 1900, definitivamente da Companhia (DONATO, 1990). Entretanto, os autos do Inventário do coronel, mostram que Rodovalho manteve até o final de sua vida dois sítios no distrito de Juqueri – Toucinho e Canduá – que a princípio não faziam parte dos empreendimentos disponibilizados para a consolidação da Companhia e o sítio Olhos d´Água, anexado à Fazenda Industrial Cayeiras31, onde ocorria a extração de pedras (VICENTINI, 2007).
Com a crescente demanda para o mercado papeleiro, o plantio de eucaliptos, matéria-prima na fabricação do papel foi intensificado, como descreve o relato de um viajante: “tornara-se verde, com o plantio de 70.000 eucaliptos, dos quais 46.000 em 1912” (DONATO, 1990. p.46 ).
A diminuição do número das obras públicas e particulares, em decorrência dos efeitos da Primeira Guerra, reduziu a exploração da cal. Dos nove fornos já construídos
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Tratava-se da tentativa de estimular a industrialização do Brasil durante o governo provisório de Deodoro da Fonseca (1889-1891). O então Ministro da Fazenda Rui Barbosa adotou uma política baseada em créditos livres aos investimentos industriais garantidos pelas emissões monetárias. A especulação financeira, a inflação e os boicotes através de empresas-fantasmas e ações sem lastro desencadearam, em 1890, a Crise do Encilhamento. O