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Ao longo da apresentação deste trabalho, constata-se a preocupação pela identificação de algumas das famílias que habitavam e habitam aglomerados urbanos e rurais presentes no espaço geográfico identificado para a AID. No entanto, outros grupos sociais não inclusos na referida área são continuamente ameaçados pelo projeto Tijuco Alto.

Poder-se-iam incluir aqui os casos das populações a jusante do barramento, que serão, doravente, vítimas de um processo de expropriação difusa, acarretada pelas diferentes alterações do regime hídrico fluvial agora posto sob a gestão descentralizada da UHE. Pescadores, barqueiros, comerciantes, lavadeiras e agricultores de várzea e vazante, serão certamente atingidos, e isto segundo uma temporalidade diversa, para moradores e usuários do rio a montante e a jusante do reservatório e seu barramento, podendo abranger até os estuarinos e litorâneos (SOUZA, 1988: 124).

Considerando estes outros elementos as obras hidrelétricas (em licenciamento, construídas ou em construção) geram para quem estiver à montante e à jusante da barragem, sentimentos de insegurança social que, por si só, provoca receio, medo e insatisfação.

Este sentimento é germinado junto aos aglomerados sociais comunitários e cidades ribeirinhas, para os grupos sociais ameaçados pela infra-estrutura hidrelétrica. Está ameaçado aquele que recebe, vive, convive com ameaças.

“1) Quem recebeu ameaças [...]; 2) está sob risco [...]; está sob influência negativa, castigada” (DICIONÁRIO UNESP, 2004:61). “Que sente alguma ameaça; posto, colocado em situação de perigo” (BIDERMANN, 1998:72). “O que recebe ameaça ou está sob ameaça: mais são os ameaçados e os acutilados” (FIGUEIREDO, 1996:161). “Que se ameaçou; recebeu ameaça; sob ameaça” (HOUAISS, 2001:185). Recebeu ameaça (MICHELIS, 1998:127). “Aquele que teve ou recebeu ameaça” (FERREIRA, 2000:67).

A etimologia da palavra destaca que o ameaçado é aquele que está sobrecarregado pela possibilidade da ocorrência de algum tipo de evento positivo ou negativo. Aproximando o ameaçado do projeto e/ou empreendimento concebido, considerando o seu ponto de vista negativo, ou seja, que está na eminência de sofrer, passar, vivenciar (ou esteja sofrendo, passando, vivenciando) conclui-se que nesta situação a vida social do ameaçado e os seus próprios planejamentos pessoais e familiares, estão constantemente sendo colocados sob risco, sempre ameaçados. Afinal, as interferências produzidas ocupam os espaços da AID e se estendem ao longo das margens do rio, dos anos, dos meses e das décadas.

A era da re-ordenação territorial é a mesma era da multiplicação dos riscos; as possibilidades futuras se estreitam e as alternativas se anulam. Pelo caminho, os escombros se acumulam; a cada estação chuvosa, o rastro de calamidade se amplia, se alonga, rio acima e rio abaixo. A cada obra, mais gente empobrece, enlouquece, fica sem alternativas... (SEVÁ, 1990:18).

O anúncio da potencialidade de geração hidrelétrica para um determinado rio passará a ser uma ameaça para aqueles que subsistem às margens deste mesmo rio que poderá ser uma “jazida energética” em condições de receber represamento. “O conflito transita nas escalas temporais e espaciais [...] antes da existência de qualquer obra, existe atingimento. Durante a obra haverá um outro, depois da obra mais outro” (ARAÚJO, 1994: 6635).

Compartilhemos desta definição, afinal determinar que o ameaçado está no espaço estrito da produção de mercadorias, como por exemplo, no espaço da AID do empreendimento hidrelétrico, seria negar os reflexos deste projeto e isolar as ameaças para com aqueles que compõem o espaço adjacente ao ambiente da produção de mercadorias.

Estes ameaçados são aqueles que estão à montante e à jusante do empreendimento hidrelétrico, vivenciando a possibilidade do reservatório aumentar seu espaço de inundação durante chuvas intensas e atingir cidades à sua montante; ou ainda, na eventualidade do excesso de chuvas, a decisão de abrir as comportas da barragem para preservar o capital investido se sobrepõe às cidades que estiverem à sua jusante e que ficarão sob águas.

35 Sessão de debates durante o “Seminário: conflitos sociais e meio ambiente (28 e 29 de abril de 1994)” organizado pelo Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (IBASE).

O projeto Tijuco Alto tem a sua peculiaridade. A faixa de contenção do virtual reservatório atinge a comunidade do Quarteirão dos Órfãos, no rio Ponta Grossa, afluente do Ribeira de Iguape, no município de Cerro Azul (cuja sede municipal está a aproximados 4 km da sede municipal de Cerro Azul/PR). O desnível entre a faixa de contenção e a praça municipal é baixo e o receio de que às águas do virtual reservatório possam alcançar a sede municipal num período de chuvas é alto.

Quando ocorrem chuvas fortes, os rios, devido à inclinação do solo, aumentam rapidamente a sua vazão, de forma desproporcional ao seu volume normal. Todas as águas correrão para o lago da represa. O resultado disso pode ser o alagamento da cidade de Cerro Azul/PR, que já vai perder um dos seus bairros mais populosos, a Barra do rio Ponta Grossa com a formação do reservatório (RIMA COMUNITÁRIO, 1987).

Soçobra receio, medo, sentimento de ameaça para com a possibilidade da instalação hidrelétrica e da faixa de contenção não ser suficiente.

A montante da virtual barragem de Tijuco Alto estão os municípios de Dr. Ulysses/PR, Itaperuçu/SP e Cerro Azul/PR, e a jusante “[...] a 10 km da barragem, estão os municípios de Adrianópolis/PR e Ribeira/SP e suas sedes municipais” (CBA e CNEC, 2005b). Novamente a ameaça ganha notoriedade. Desta vez, o receio é a possibilidade de que as águas não fiquem retidas na barragem quando ocorrerem chuvas intensas e as comportas do reservatório forem abertas.

Apenas a existência do projeto tem provocado bruscas interferências na vida social das Comunidades Quilombolas que estão inseridas social, cultural e economicamente ao longo do rio Ribeira de Iguape e à jusante da virtual barragem. Os Quilombos se identificam como grupos sociais ameaçados pelo Projeto Tijuco Alto e integram a organização do Movimento dos Ameaçados por Barragens do Vale do Ribeira – MOAB.

Para os quilombolas, Tijuco Alto não está isolado, uma vez que existem os Projetos hidrelétricos de Funil, Itaóca e Batatal no mesmo rio Ribeira, que podem suscitar interesses de grupos econômicos, do setor industrial eletrointensivo, ou de qualquer outro setor produtivo, para investir em algum dos outros três projetos hidrelétricos ou os três projetos.

A gente tem medo da construção da barragem porque podem desencadear vários projetos que estão previstos no Vale do Ribeira. Então, quando vemos alguma coisa que vai colocar em risco os nossos quilombos, a gente fica com o pé atrás e não aceita. Nem aceita negociação, quando se trata de colocar em risco a nossa terra e a nossa cultura, porque temos muito valor. É por isso que estamos nesse movimento, engajando cada vez mais, pra que possamos dar um basta nesse projeto e ficar livre, porque esse projeto já vem nos incomodando a bastante tempo. Queremos que seja tomada uma decisão definitiva contra”. (José da Guia Rodrigues Mourato, Presidente da Associação Quilombo de São Pedro (CPISP, 2006). Essa barragem é pra nós um grande crime, isso é uma coisa que não devia acontecer. Simplesmente nós estamos correndo este risco e lutando quase vinte anos contra essa barragem. Nosso objetivo é impedir esta barragem, porque se ela acontecer, muitas comunidades quilombolas vão desaparecer porque, se fizer essa primeira barragem lá, pode fazer as outras, afinal são quatro projetos. Fazendo os quatro, todas as comunidades vão desaparecer e, no nosso ponto de entender, vai violar um patrimônio brasileiro que são os quilombos”. Benedito Alves da silva, da Equipe de Articulação e Assessoria às comunidades Quilombolas (CPISP, 2006).

As falas expressam preocupações com o projeto Tijuco Alto e os outros três empreendimentos hidrelétricos. Estas preocupações suscitam sentimentos de receio e ameaças para as Comunidades Quilombolas.

Seja à montante, seja à jusante, a ameaça para as sedes municipais de Cerro Azul/PR, Adrianópolis/PR e Ribeira/SP, os aglomerados urbanos às margens do rio Ribeira e as comunidades quilombolas, não inclusos na AID identificadas pelo empreendedor CBA, pertencem ao grupo de risco, que é o grupo ameaçado pelo projeto Usina Hidrelétrica de Tijuco Alto.

Benzer Belgeler