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A Fundação Educacional do Estado do Ceará (FUNECE) surgiu em plena ditadura militar, no ano de 1973, com a Lei Nº 9.753, de 18 de outubro,

que se instituiu com a finalidade de atender às necessidades do desenvolvimento científico e tecnológico do Estado do Ceará.

Com a Resolução Nº 02, de 05 de março de 1975, foi criada a Universidade Estadual do Ceará27 (UECE) que incorporou em seu patrimônio as unidades de ensino superior existentes na época, dentre as quais a Escola de Serviço Social de Fortaleza, a Escola de Administração do Ceará, a Faculdade de Veterinária do Ceará, a Escola de Enfermagem São Vicente de Paula e a Faculdade de Filosofia Dom Aurelino Matos. Assim, a UECE, ao firmar-se como universidade, transformou essas escolas em seus primeiros cursos de graduação aos quais outros foram sendo formados gradativamente.

O período de transformação da UECE em “universidade de resultados”, alinhando-se às propostas dos órgãos internacionais e aos pressupostos da contrarreforma do ensino superior, inicia entre os anos de 1992 e 1993 os quais foram significativos para o sistema de educação superior pública do Ceará. Consoante Morais (2000), o governo não visava uma reforma universitária propriamente dita, mas pretendia integrar as universidades públicas estaduais numa política de ciência e tecnologia direcionada para o desenvolvimento econômico e social do Ceará.

Nesse sentido, as propostas para a educação superior pública estadual estão ligadas ao Centro Industrial do Ceará (CIC). O CIC passou por uma transformação radical em 1978 com a ascensão de jovens empresários à presidência, representando uma nova forma de conduzir apolítica no estado.

Com Tasso Jereissati28 no governo, houve uma ascensão do empresariado ao poder. O grupo de empresários conduziu a política do Estado do Ceará como se fosse uma entidade privada, privilegiando a lucratividade e a

27 UECE, além de Fortaleza, passou a atuar em outros municípios do Estado do Ceará, a saber: a Faculdade de Educação de Itapipoca – FACEDI, Faculdade de Educação de Crateús – FAEC, Faculdade de Filosofia Dom Aureliano Matos – FAFIDAM, Faculdade de Educação, Ciências e Letras do Sertão Central – FECLESC, Faculdade de Educação, Ciências e Letras de Iguatu – FECLI, Faculdade de Educação, Ciências e Letras dos Inhamuns – FECLIN. Em Fortaleza a UECE possui cinco Centros, a saber: Centro de Educação – CED, Centro de Estudos Sociais Aplicadas – CESA, Centro de Humanidades – CH, Centro de Ciências da Saúde – CCS , e Centro de Ciências e Tecnologia – CCT.

28 Governador do Ceará pela primeira vez no período de 1987 a 1991, retornando ao cargo de governador por dois mandatos consecutivos, no período que se estende de 1995 a 2002.

produtividade, logo “a coisa pública tradicional é substituída pela coisa pública moderna [...] buscando firmar o consenso em torno do seu projeto de modernização e desenvolvimento do Ceará” (MORAIS, 2000, p. 77). Dessa forma, as políticas e as práticas realizadas durante a Era Tasso estão de acordo com a ideologia neoliberal.

Ao longo desse ciclo de poder, as ações estatais privilegiavam o mercado em vez do bem-estar da população cearense, além da busca desenfreada pela “reforma” do Estado, visando a se aliarem às novas demandas de acumulação do capital. Para tanto, o grande esforço de mudanças concentrou-se no “enxugamento” da estrutura estatal com a redução do quadro de pessoal. A justificativa para tal atitude se encontra no fato de o “grupo das mudanças” acreditar que um maior número de funcionários sobrecarrega os gastos do Estado e contribui para a manutenção da crise fiscal.

O governador Ciro Gomes29 propôs a adequação das universidades estaduais ao projeto de modernização do Ceará, baseado no projeto neoliberal, em que as universidades estão alicerçadas na relação custo/benefício, de tal modo que estas instituições devem oferecer resultados positivos para a ampliação da acumulação de capital. A docência e a pesquisa, nesse novo modelo, estão voltadas para satisfazer o mercado, consistindo na privatização do público, visando a maior obtenção de lucro.

Em 1991, o governador Ciro Gomes criou o Grupo de Trabalho (GT) da educação superior, conhecido como Comissão de Notáveis, que possuía como ofício a elaboração, no prazo de 60 dias, de um relatório intitulado “Universidade, Ciência e Tecnologia: um projeto para o Ceará”.

O GT destaca o papel estratégico da universidade como o locus dinamizador do desenvolvimento e da inovação. Em verdade, as universidades estaduais, na esfera da educação, poderiam contribuir como indutoras de treinamento e reciclagem dos professores da rede oficial de ensino. Estas instituições deveriam também atender às necessidades do Estado quanto ao aperfeiçoamento dos técnicos das várias áreas e dos servidores públicos, além de poder oferecer sua cooperação ao setor produtivo. (MORAIS, 2000, p. 78).

O GT compreendia que as universidades estaduais deviam ser utilizadas pelo governo para possibilitar o avanço do sistema capitalista no Ceará, atendendo, assim, às exigências de modernização da nova geração de empresários presentes na política do estado.

Na apresentação do Relatório estava o discurso do senador Beni Veras (1992 apud MORAIS, 2000) sobre o novo modelo de universidade para o Ceará, no qual afirmava que a UECE deve

[...] ser uma universidade no tamanho certo. Uma universidade de 6 a 7 mil alunos, bem motivada [...] Uma universidade que atenda o mercado de trabalho do Ceará, com cursos próprios e reciclagem de professores, conveniada com empresas locais. Melhor do que está formando em certas carreiras, sem muita justificativa e que não dão retorno. (p. 79).

O discurso de Beni Veras está fundamentado na concepção de universidade pautada pela lógica de acumulação capitalista. Tal instituição deve oferecer serviços ao mercado para compensar seus custos em recursos humanos e infraestrutura, além de afirmar que, pelo fato de algumas profissões não se apresentarem rentáveis ao sistema capitalista, devem ser deixadas em segundo plano, sendo inevitáveis a precarização e o sucateamento de alguns cursos.

Em 1992, surgiu o projeto “Nova UECE”, que propõe a modernização dessa universidade, baseada no documento “Diretrizes para a transformação da UECE numa universidade tecnológica”, elaborado pelo reitor eleito Paulo de Melo Jorge Filho. É importante destacar que a autonomia da UECE, nesse documento, restringiu-se à autonomia financeira, baseada na gestão empresarial, além de apontar que a UECE passava por uma crise em que suas causas se encontram na baixa titulação e no avanço da idade do corpo docente.

Jorge Filho, Petrola, afirmou que, para solucionar essa crise, era preciso modificar a UECE, tornando-a uma universidade tecnológica. A intenção era transformar a UECE na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) do Nordeste a serviço do semiárido, na perspectiva de criação de um Parque Científico e Tecnológico. Esse processo estava fundamentado em

uma nova ideologia universitária e na racionalização da estrutura e do funcionamento da Universidade.

Em 1996, ao final do mandato de Jorge Filho, foi elaborado um documento intitulado “Proposta para o Sistema Universitário Estadual” com base nas contribuições dos candidatos a reitor daquele ano, em que a ideia central era criar estratégias para aperfeiçoar o sistema universitário com retorno produtivo. Manassés Claudino Fonteles é eleito para o mandato de 1996 a 2000, durante o período do segundo mandato de Tasso Jereissati como governador. As ações realizadas na UECE durante aqueles quatro anos alicerçaram-se também na ofensiva do projeto neoliberal de educação superior. Em 2003, Manassés Fonteles afastou-se, assumindo como Reitor Francisco de Assis Moura Araripe. Em 2004, Jader Onofre de Morais assume o cargo. Atualmente, a gestão é exercida por José Jackson Coelho Sampaio.

Na atualidade, há uma continuidade na adaptação da organização universitária da UECE aos ditames da privatização. O atual governador, Cid Gomes (2007-2014), segundo Farias (2009, p. 372) “em termos de economia e administração, o projeto burguês continuou o mesmo”, além disso, faz pouca ou nenhuma referência ao projeto para as universidades estaduais.

3.5 O trabalho docente no Centro de Estudos Sociais Aplicados da UECE

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