Há poucos dados e estudos acerca das instituições de ensino superior estaduais em comparação com as instituições federais em razão, sobretudo, dos programas como o REUNI e o FIES, que são constantemente analisados. A conjuntura da educação superior estadual no Ceará, no entanto, não é muito diferente das IFES no que tange a avalanche de mercantilização neste âmbito. Com efeito, a próxima tabela exprime a quantidade de IES por organização acadêmica no Estado do Ceará.
Tabela 3 - Número de Instituições de Educação Superior, por Organização Acadêmica, das IES no Ceará – 2010
Categoria Administrativa Instituições
Total Universidades Universitários Faculdades Centros CEFET IF e
Pública 5 4 . . 1
Federal24 2 1 . . 1
Estadual25 3 3 . . .
Privada 43 1 . 42 .
Total 48 5 . 42 1
Fonte: Censo da Educação Superior – 2010.
O indicador mais alarmante é o da privatização, considerando que, em 2010, existiam 43 IES privadas, o que corresponde a 89,58%, totalizando apenas 5 IES públicas no Ceará, correspondendo a 10,42%. Há, portanto, um empresariamento da educação superior no Estado do Ceará. Além disso, havia 42 faculdades, representando 87,5% e apenas 4 universidades, correspondendo a 10,41%, e 1 Instituto Federal, equivalendo a 2,08%. Percebe-se, então, que o ensino superior cearense segue a lógica da privatização e da diversificação das instituições, objetivando uma ampliação do ensino superior.
Outro dado que evidencia a mercantilização da educação superior cearense é o quantitativo de cursos de graduação presenciais. Ainda de acordo com o Censo da Educação Superior de 2010, verifica-se, mais uma vez, a privatização do ensino superior cearense, ao se observar que existem 295 cursos de graduação presenciais no setor privado, representado um percentual de 53,05% e 261 cursos no setor público, correspondendo a 46,95%.
No que tange à educação a distância, há também cursos de graduação dessa modalidade no setor público. De acordo com o INEP (2011), em 2010, a UFC possuía 8 cursos de graduação a distância, com 3.281 alunos matriculados, e a UECE tinha 9 cursos de graduação nessa modalidade, com 1.361 com alunos matriculados.
24 As universidades federais cearenses em 2010 eram a Universidade Federal do Ceará (UFC) e o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE).
25 As universidades estaduais cearenses são: Universidade Estadual do Ceará (UECE), Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA) e Universidade Regional do Cariri (URCA).
Verifica-se que a EaD está presente não só no âmbito privado, em que seria previsível, mas também na esfera pública, tanto em cursos de formação complementar, como as especializações, quanto em cursos de graduação.
Com relação às funções docentes, existem dados acerca do regime de trabalho deles, podendo ser verificado a seguir.
Tabela 4 - Número Total de Funções Docentes em Exercício, conforme o Regime de Trabalho das IES no Ceará – 2010
Categoria Administrativa Funções Docentes em Exercício Total Integral Tempo Tempo Parcial Horista
Pública 4.171 3.706 336 129
Federal 2.370 2.117 250 3
Estadual 1.801 1.589 86 126
Privada 4.651 1.359 1.593 1.699
Total 8.822 5.065 1.929 1.828
Fonte: Censo da Educação Superior – 2010 (organização da autora).
É notório o fato de que, apesar de existir 43 IES privadas e 5 IES públicas26, a diferença da quantidade de docentes de cada setor é pequena, uma vez que as IES privadas apresentam apenas 480 professores a mais do que as IES públicas, considerando que existem 4.171 professores trabalhando no serviço público e 4.651 professores no serviço privado.
Além disso, pode-se verificar que o regime de contratação do trabalho docente no setor público caracteriza-se por ser na maioria em tempo integral, com um percentual de 88,22% nas estaduais e 89,32% nas federais. Em contraposição, verifica-se uma acentuada subcontratação dos docentes do setor privado, considerando que 34,25% são contratos por tempo parcial e 36,52% como horista, totalizando 70,77% de professores que possuem contratos de trabalho fragilizados. Vale destacar que o Departamento de Pessoal da UECE informou, na pesquisa de campo, que não há mais contratação de professores horistas na Instituição.
O descaso relativo à educação no cenário nacional, a acumulação do trabalho do professor, a diversificação de tarefas, a pressão por metas de produtividade em menor tempo, o aumento das exigências sobre os professores pela necessidade de capacitação refletem nas condições de trabalho dos docentes.
Existe uma exigência maior de qualificação dos trabalhadores, que se sentem pressionados pelo exército de reserva cada vez maior. Os docentes não estão imunes a esse processo, repercutindo na titulação; além de muitas vezes o tempo ser escasso para o aperfeiçoamento profissional, embora haja oferta de cursos pagos, não só no âmbito dos cursos de lato sensu, mas também no stricto sensu.
Vale ressaltar que a necessidade de maior qualificação dos professores articula-se à proliferação, cada vez maior, dos cursos de pós- graduação, principalmente pagos.
Verifica-se, com suporte nas estatísticas do INEP (2011) que, no Ceará, em 2010, 43,82% dos professores das IES públicas e privadas possuem o título de mestre, sendo, portanto, a maioria. Nas IEES, este dado se repete, considerando que a grande parte dos docentes possui mestrado, correspondendo a 40,53%, e de professores doutores totaliza 22,7%. Já nas IFES a maioria dos professores possui doutorado, perfazendo 48,9% e de professores mestres equivale a 29,5%.
Na esfera privada, os professores cearenses possuem, em sua maioria, mestrado, equivalendo a 52,39%. Ressalta-se o fato de existirem poucos doutores neste setor, correspondendo somente a 13,39%.
Os dados a seguir elucidam o quantitativo de docentes do sexo masculino e feminino no Estado do Ceará.
Tabela 5 - Número total de Funções Docentes em Exercício, por Sexo e Categoria Administrativa, das IES no Ceará – 2010
Categoria Administrativa Funções Docentes em Exercício Total Masculino Feminino
Pública 4.171 2.481 1.690
Privada 4.651 2.441 2.210
Total 8.822 4.922 3.900
Fonte: Censo da Educação Superior – 2010 (organização da autora).
Apesar do fenômeno da feminização no mundo do trabalho (ANTUNES, 2010), verifica-se que ocorre a predominância de professores do sexo masculino, pois esses representam um percentual de 55,79%. Já os docentes do sexo feminino equivalem a um total de 44,21%.
Convém informar que a comunidade acadêmica também é composta por funcionários técnico-administrativos, fundamentais para execução de trabalhos burocráticos nas IES, que por vezes fica a cargo dos professores, por não haver outro profissional que realize tal atividade. Entre 48 IES só existem 9.799 funcionários técnico-administrativos, sendo que 5.177 desses funcionários estão em 5 IES públicas e 4.622 encontram-se nas IES privadas. Há, portanto, carência destes profissionais, tendo como consequência a intensificação do trabalho docente.
Segundo dados do UECE em Números, de 2012, havia apenas 285 servidores técnicos administrativos para 11.611 alunos e 1043 professores. Isso repercute sobremaneira no trabalho docente, pois esse profissional docente dedica seu tempo não só às atribuições de professor, mas também à realização de atividades burocráticas.
Ante o exposto, evidencia-se que a privatização e a mercantilização da educação superior, no Ceará, acentuadas com a contrarreforma do ensino superior aguçam a precarização das condições do trabalho docente.