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Antunes (2001) prefere utilizar o termo ‘pensamento psicológico’, ao invés de Psicologia, para se referir aos conhecimentos dessa área existentes antes do final do século XIX, momento em que ela se desvincula da Filosofia e adquire o status de saber científico autônomo. Salienta, assim, que foi, sobretudo na área da Educação, que o pensamento psicológico surgiu e se desenvolveu sobremaneira. No período colonial, uma das maiores preocupações do pensamento psicológico dizia respeito à educação dos jovens e adultos, já que havia interesse da metrópole, principalmente por meio da Igreja Católica, de manter viva e ativa, na colônia, a sua própria ideologia. Educar, neste período, significava moldar e formar (no sentido de dar contorno e possibilidade de expressão) a personalidade humana, domando e submetendo as tendências inatas às regras sociais dominantes que, no caso, seriam as da ética, da moral e da religião católicas.

Ou seja, educar equivalia a regular o comportamento humano por meio de prêmios e castigos, havendo, portanto, autores que os defendiam e outros que os criticavam. Ambos, no entanto, atuavam sob a influência da concepção empirista de aprendizagem. Foi neste momento que novas correntes do conhecimento apareceram: o liberalismo e o positivismo, o tomismo e o empirismo e até mesmo o espiritualismo francês e o idealismo alemão. Foram essas correntes que serviram de base para se responder às questões de natureza psicológica que importavam naquele momento histórico: os esforços pedagógicos debruçaram-se sobre o desenvolvimento infantil, os processos de aprendizagem, os métodos mais adequados de ensino, as faixas etárias propícias para determinadas aprendizagens ocorrerem, os

mecanismos educativos de recompensas e castigos etc. Houve, também, marcado interesse acerca da formação a ser dada ao educador, da importância dos jogos infantis, da educação da criança no seio familiar, e da educação da mulher, tendo em vista o confronto de costumes ligados ao gênero entre as culturas indígenas e lusitanas.

Todos esses temas abordados, tão discutidos na atualidade, forçaram uma ampliação do pensamento psicológico e, neste sentido, instituições educativas foram aparecendo, com conteúdos melhor elaborados. O início do século XIX viu a constituição de cursos superiores que pretendiam formar profissionais em conformidade com as tendências européias. Nestes cursos, os alunos precisavam defender uma tese no início e no final do curso, algo que contribuiu para a produção de importantes idéias psicológicas. Como bem indica Antunes; Meira (2003 A), tais idéias refletiam, em sua maioria, o pensamento médico da época, ou seja, a concepção de que a criança com problemas devia ser diagnosticada para que seus comportamentos inadequados fossem substituídos por outros, adequados, via tratamentos de natureza clínica, de psicoterapia e de orientação familiar.

A partir de 1830, começaram a surgir as Escolas Normais, que se preocupavam com a formação de professores e com as metodologias de ensino. O ensino da Psicologia foi a elas incorporado, formalmente, em 1890. Foi por meio das Escolas Normais, portanto, que o saber psicológico acabou sendo vinculado às questões educacionais. Vale dizer que uma das razões favoreceu o aparecimento de tais cursos (além da chegada da família real ao Brasil, que exigiu aparato semelhante ao das condições da Corte) foi o problema das precárias condições de saneamento, habitação e educação. De repente, elas passaram a ser vistas como fontes de todos os outros problemas e, por esse motivo, combatidas pelo conhecimento psicológico, considerado um importante instrumento de controle e prevenção de moléstias e doenças variadas. Quando a família real se retirou do Brasil, a Educação era acessível apenas a uma ínfima parcela da população, ou seja, os filhos da elite, que recebiam saberes oriundos da Europa por via indireta, nos cursos superiores do Brasil, ou direta, indo estudar em Paris, por exemplo. Assim, os saberes de uma Europa capitalista foram transplantados para o Brasil, desconsiderando as diferenças existentes entre as duas realidades sócio-históricas.

Assim, já no final do século XIX, o Brasil tornou-se república, efetivando o processo de industrialização, com forte influência do ideal liberal e de sua sede de progresso e modernidade. E, nesse movimento, a Educação, considerada instrumento fundamental para que a industrialização se concretizasse, ganhou destaque, e a Psicologia, seu principal subsídio, foi amplamente desenvolvida tanto na Europa como nos Estados Unidos, tornando-

se área de interesse dos intelectuais da época no Brasil e, conquistando desse modo, sua autonomia como área específica de conhecimento. Neste momento passou a ser denominada Psicologia Científica.

No início do século XX, ocorreu a revolução industrial, que exigiu a presença de um novo homem, para o qual a educação deveria contribuir de forma acentuada, por meio da capacitação técnica escolar mínima (saber ler, escrever e contar). Com isso, o objetivo principal da nação era o combate ao analfabetismo, favorecendo o aumento do número de escolas e o surgimento dos profissionais da educação. Neste âmbito, apareceram teóricos e políticos que defendiam a necessidade da difusão da educação vinculada a diferentes interesses: para superar o atraso econômico brasileiro, para a educação ser um instrumento contra a opressão, para o analfabeto tornar-se eleitor, para a higienização da raça, para a criação de um povo forte física e mentalmente etc. Assim, as teorias pedagógicas passaram a buscar subsídios nas teorias e técnicas da Psicologia, almejando compreender melhor e facilitar o processo ensino-aprendizagem. Esse movimento, chamado escolanovismo, constituía, também, um projeto de sociedade.

Foi neste contexto que começaram a ser difundidos e valorizados no Brasil os testes psicológicos de nível mental, aptidão e outros. Cabe mencionar aqui o Instituto de Psicologia de Pernambuco, criado em 1925, por Ulysses Pernambucano, pioneiro no campo da educação para crianças com deficiência mental. Ele criou a Escola para Anormais e várias outras instituições de ensino especial para crianças, buscando ainda formar pessoal especializado para trabalhar em tais instituições. No referido instituto, Ulysses Pernambuco realizou estudos referentes a testes psicológicos e suas padronizações para a realidade brasileira.

Embora fique patente a forte presença da psicometria na produção do instituto, é de se notar também que a sua finalidade vinculava-se à educação de deficientes mentais, ao subsídio à ação psiquiátrica, às questões escolares e à formação de professores, o que contrastava com o que ocorria em outros laboratórios de instituições psiquiátricas. (ANTUNES, 2001, p. 72).

Semelhantemente a este instituto, a Escola de Aperfeiçoamento Pedagógico de Belo Horizonte também trabalhou com testes mentais e preocupou-se com a educação do sujeito com deficiência mental, contando, até mesmo, com uma classe especial. Sua responsável, Helena Antipoff, além de criar várias instituições especializadas, propôs a denominação indivíduo excepcional ao invés de deficiente mental e considerava a inteligência

multideterminada por disposições inatas, pela maturidade biológica e por fatores sociais e culturais. A escola liderada por Antipoff surgiu no final da década de 20 e deu prosseguimento às buscas do instituto de Pernambuco. Na década de 40, fundiu-se com a Escola Normal, que gerou, mais tarde, o Laboratório de Psicologia. Dessa forma, as escolas normais passaram a contribuir com a produção de conhecimento por meio de pesquisas, estudos e experiências. Em 1928, por decreto, a disciplina Psicologia foi inserida em seu currículo. As principais escolas normais situavam-se em Belo Horizonte, Recife, Salvador, Rio de Janeiro, Fortaleza e São Paulo.

Vê-se, pois, que as relações entre Psicologia e Educação no Brasil são bastante estreitas, de maneira tal que não é possível compreender o processo histórico de uma sem a articulação com o desenvolvimento da outra. Assim como a Psicologia tornou-se constitutiva do pensamento educacional e da prática pedagógica, foram estes por sua vez, a base sobre a qual ela se desenvolveu, a ponto de obter reconhecimento como profissão específica. (ANTUNES; MEIRA, 2003 B, p.162)

A Psicologia deveria, portanto, contribuir para o novo modelo de sociedade por meio de suas técnicas específicas, dentre as quais se destacavam os testes psicológicos, os procedimentos de seleção e de formação de trabalhadores, e a orientação profissional. Contou-se, para tanto, com o auxílio do Estado, que financiava o custeio de tais serviços. Como a escolarização foi muito valorizada e o número de vagas nas escolas ficou limitado em face à alta demanda, necessitava-se de um instrumento que permitisse, de certa forma, selecionar os melhores alunos. Com um número elevado de candidatos à escola, as dificuldades pedagógicas também aumentaram. As unidades escolares, até então voltadas para as elites e para certo perfil de aluno, passavam a receber pessoas com características muito distintas, que envolviam desde pessoas com origem rural até trabalhadores urbanos. A falta de preparo dos profissionais da educação fez com que, além do escolanovismo, fossem buscados testes psicológicos para triar os mais aptos para aprender e tirar proveito da educação escolar. Nem é preciso dizer que, com isso, as mulheres, os mestiços, os negros, os advindos da zona rural ou quaisquer pessoas que não se vinculavam às elites foram excluídos da escola.

Na década de 60, do século passado, houve o golpe militar e instaurou-se a ditadura, período que foi marcado pela expansão do ensino superior particular e privado, gerando um grande contingente de profissionais psicólogos que não contavam, entretanto, com a formação adequada. Observou-se, com isso, que os psicólogos se limitavam a fazer atendimento clínico

individual de crianças com problemas de Aprendizagem. A partir da década de 70, muitas críticas foram feitas a essa prática, principalmente no tocante ao uso dos testes psicométricos, considerados, até então, como instrumentos taxativos, que patologizavam as crianças por negligenciar as condições sócio-culturais e pedagógicas em que viviam. Tais críticas são discutidas até os dias atuais e têm ocupado a Psicologia Educacional: Em busca de superar os problemas educacionais, sobretudo aqueles que incidiam em especial nas camadas populacionais socialmente prejudicadas, a Psicologia pretende produzir novos conhecimentos e criar novas formas de intervenção psicológica nas escolas, tornando-as parte da formação do psicólogo. Neste intuito, trabalhos como esse - que tomam a própria Psicologia como objeto de estudo - têm sido desenvolvidos, almejando pensá-la e desenvolvê-la de forma mais satisfatória.

Benzer Belgeler