4. BULGULAR VE TARTIŞMA
4.5 Tekli Tahar Türünde Örnek Uygulamalar
requerimento do Ministério Público, fundamentado na conclusão de que os investigados teriam agido em legítima defesa. Ocorre que, mesmo após arquivado o inquérito por determinação judicial, o Ministério Público retomou as investigações.
Em seu voto, o ministro relator discorreu:
A decisão judicial que examina o mérito e reconhece a atipia ou a excludente da ilicitude, é prolatada somente em caso de convencimento com grau de certeza jurídica pelo magistrado. Na dúvida se o fato deu-se em legítima defesa, a previsão legal de presença de suporte probatório de autoria e materialidade exigiria o desenvolvimento da persecução criminal. Se reconheceu o juiz a legitima defesa, o fez com grau de certeza jurídica e sua decisão gera coisa julgada material.
Dessa forma, a turma entendeu que, considerando que o inquérito foi arquivado em razão do reconhecimento de uma causa excludente de ilicitude, e não apenas por ausência de suporte probatório, houve a apreciação do mérito, constituindo-se a coisa julgada e impedindo- se a rediscussão da matéria. Caso contrário, estar-se-ia se autorizando a reabertura de inquéritos
por revaloração jurídica, afastando a segurança jurídica das decisões judiciais de mérito.247
4.3.3 Segurança jurídica
Durante o julgamento do Habeas Corpus nº 87.395/PR, ficou clara a colisão entre os dois valores: a justiça material e a segurança jurídica. De acordo com o ex-ministro Cezar Peluso, em se tratando de decisão que faz coisa julgada material, não pode o cidadão ficar na expectativa de a qualquer momento ser novamente investigado sobre os mesmos fatos. A reabertura da persecução penal em casos como esse, segundo o ministro Marco Aurélio, caminharia à insegurança jurídica.
A segurança jurídica, para além de ser uma garantia fundamental do indivíduo, também se apresenta como um princípio concretizador do Estado de Direito. Trata-se de garantia que possibilita a efetivação dos direitos fundamentais, visto que a proteção desses
247 No mesmo sentido: BRASIL. Superior Tribunal de Justiça (STJ). Recurso Ordinário em Habeas Corpus nº
17.389. Relatora: Ministra Laurita Vaz. Diário de Justiça Eletrônico. Brasília, 7 abril 2008. Disponível em: <https://ww2.stj.jus.br/processo/revista/documento/mediado/?componente=ATC&sequencial=3441244&num_re gistro=200500343088&data=20080407&tipo=5&formato=PDF>. Acesso em: 19 maio 2018. “[...] embora o inquérito policial possa ser desarquivado em face de novas provas, tal providência somente se mostra cabível quando o arquivamento tenha sido determinado por falta de elementos suficientes à deflagração da ação penal [...]”.
direitos, principalmente no núcleo da dignidade da pessoa humana, somente será possível se
assegurado o mínimo em segurança jurídica.248
A segurança, além de ser tratada como um valor fundamental no preâmbulo da constituição de 1988, está prevista no caput do art. 5º, ao lado do direito à vida e à liberdade,
como um direito inviolável.249 Quanto à segurança jurídica, apesar de não haver nenhum
dispositivo constitucional específico, esse direito encontra-se contemplado em diversos dispositivos, entre eles na garantia de proteção ao direito adquirido, ao ato jurídico perfeito e à coisa julgada.250
De acordo com Schmidt, a coisa julgada está a serviço de um importante valor
social: a segurança jurídica.251 Trata-se do fundamento político da coisa julgada, isto é, a
exigência imutabilidade da sentença, de forma a garantir a segurança e estabilidade das relações jurídicas.252
Conforme Bermudes, a garantia da coisa julgada não decorre da presunção de verdade ou da verdade ficta, mas sim da vontade estatal, consolidada nas normas jurídicas. Isso porque, a necessidade de solucionar os conflitos faz com que a lei os tenha como compostos a partir de um certo momento. Segundo o autor, a segurança jurídica, instrumentalizada na coisa
julgada, torna, ao menos para o mundo jurídico, aquela relação como encerrada.253
A sentença de mérito transitada em julgado esgota o exercício da atividade jurisdicional do Estado, da mesma forma em que encerra o direito das partes de exigirem do
Poder Judiciário uma nova apreciação sobre o mesmo objeto litigioso.254 A elas não cabe mais
pleitear uma nova prestação jurisdicional baseada naqueles mesmos fatos, nem discutir a justiça
ou injustiça daquela decisão. 255
248 SARLET, Ingo Wolfgang. A eficácia do direito fundamental à segurança jurídica: dignidade da pessoa humana,
direitos fundamentais e proibição do retrocesso social no direito constitucional brasileiro. In: ROCHA, Carmén Lúcia Atunes (Coord.). Constituição e segurança jurídica: direito adquirido, ato jurídico perfeito e coisa julgada. 2. ed. Belo Horizonte: Fórum, 2009, p. 90-95.
249 BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm>. Acesso em: 28 fev. 2018. “Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: [...]”.
250 SARLET, op. cit., p. 91.
251 SCHMIDT, Eberhard. Los fundamentos teóricos y constitucionales del derecho procesal penal. [S. l.: s.
n.], 1957, p. 164 apud MARQUES, José Frederico. Elementos de direito processual penal. Campinas: Bookseller, 1997, v. 3, p. 84.
252 ALVIM, J. E. Carreira. Elementos de teoria geral do processo. Rio de Janeiro: Forense, 1989, p. 394. 253 BERMUDES, Sérgio. Coisa julgada ilegal e segurança jurídica. In: ROCHA, Carmén Lúcia Atunes (Coord.). Constituição e segurança jurídica: direito adquirido, ato jurídico perfeito e coisa julgada. 2. ed. Belo Horizonte:
Fórum, 2009, p. 131.
254 ROCCO, Ugo. Trattato di Diritto Processuale Civille. [S. l.: s. n.], 1957, v.2, p. 307 apud MARQUES, José
Frederico. Elementos de direito processual penal. Campinas: Bookseller, 1997, v. 3, p. 81.
Isso se justifica na medida em que o indivíduo não pode suportar uma renovação
constante da persecução penal, preferindo-se, então, o efeito preclusivo da coisa julgada.256
Nesse aspecto, Fenech esclarece:
[...] o Direito necessita correr o risco de que se não possa reexaminar uma decisão injusta para evitar a consagração da instabilidade das decisões justas. Justiça e segurança jurídica, em conclusão, não se encontram em posição antagônica, e sim, em perfeita harmonia; e a coisa julgada, enquanto serve à segunda, colabora indubitavelmente para a efetivação da primeira.257
No inquérito policial, se se partir do pressuposto que a decisão que determina o seu arquivamento com base em excludente de ilicitude resolve o mérito e transita em julgado, a renovação do procedimento investigatório, mesmo quando já proferida sentença de mérito, acarretaria grande insegurança jurídica e, consequentemente, um prolongamento do estado de ânsia do investigado.
Conforme assevera Aury Lopes Júnior, “é inegável que o IP gera, no mínimo, uma intranquilidade real e inequívoca para o sujeito passivo, que pode ser inclusive mais grave que
a pena eventualmente aplicável ao caso”.258
Apesar de não constituir um processo penal propriamente dito, a fase investigatória preliminar, em razão do seu caráter inquisitivo, gera inevitavelmente um constrangimento ao indivíduo. A possibilidade da prolongação dessa atividade por tempo indefinido, mesmo quando já tiver havido pronunciamento judicial pela inexistência de crime, seria, por isso, incompatível com as garantias da coisa julgada e da segurança jurídica.