Fonte: Química & Sociedade, 2005, p. 46 e 68.
Dialogar, defendendo sua comprovação e negociar sua construção o levará a solidificar alguns aspectos ou até a retificar outros, ampliando seu estágio de complexidade na forma de saber com sabor. Nesse contexto, pode-se dizer que, como se lê em Papert (1980), citado por Fino (1998), Química & Sociedade (Q&S) satura o ambiente de “(...) nutrientes cognitivos, a partir dos quais os alunos constroem conhecimento (...)” (Fino, 1998, p. 2).
Esses nutrientes estão por toda a parte no Química & Sociedade (Q&S) e não se limitam a gravuras ilustrativas de meros informes socioambientais, por exemplo. Assim, a orientação pode ser útil ao longo do processo, desde que não haja a intenção de abreviar a criatividade e a curiosidade, que são como sabores significativos.
Isto porque ao ser introduzido e aplicado em sala de aula, o Química & Sociedade (Q&S) pode oferecer, a cada ser apreendente, oportunidades para pesquisa, embasamento, discussão, reflexão, confecção de relatórios e produções de texto com as hipóteses e possíveis soluções, sem diminuir a responsabilidade inicial pelo gosto com a sustentabilidade nas atividades humanas.
É essencial uma política de formação continuada na qual estejam previstas ações em que possam ser discutidas e compreendidas as orientações estabelecidas, e reestruturadas as ações que possam colocar essas orientações em prática, transformando, na sala de aula, os marcos teóricos em práticas pedagógicas. Desse modo, a interação com os próprios materiais promove maior significação para os professores e, consequentemente, os estudantes; todos, seres apreendentes.
Promover uma aproximação pedagógica, segundo Papert (1994), envolve utilizar ferramentas como o Química & Sociedade (Q&S) para alcançar o sucesso escolar em que se destaca o sentido pedagógico para inovação enquanto metodologia, pois tal classificação não deve seguir apenas por um raciocínio temporal do sucesso em obter uma aprovação seriada.
Diante disso, os critérios para elencar o Química & Sociedade (Q&S) como livro didático inovador envolveram, entre outros, sua disposição à mediação, sua correção quanto ao conhecimento químico, suas capacidades de se atualizar, libertar, ser trabalhado e se superar o contexto sócio-econômico-cultural. Isso significa evoluir sua aplicabilidade de uma sociedade industrial e mecanicista, como destaca Freire (1996), para a era da informação.
Há a possibilidade de não se chegar a uma resposta definitiva para aqueles porquês, mas deve-se continuar buscando, e nessa trajetória contínua, mas não traumática, revolucionar-se e influenciar na reconstrução de sua comunidade, atraindo ao invés de afastar ou, simplesmente, “perder” seus estudantes que desistem, ante o desafio de superarem a si próprios.
Para tanto, é preciso encarar a abordagem temática como um poderoso princípio contextualizador e interdisciplinar de abertura ao processo de resignificação e construção do processo de produção do conhecimento. Por isso, tal como a ética, é necessário que esse diálogo também seja construído continuamente.
Da mesma forma, utilizar o Química & Sociedade (Q&S) pode favorecer a criação de incentivos para romper com a inércia da produção científica brasileira com projetos
atitudinais repletos de hipertextos e tecnologias internéticas para com as futuras gerações, pois
(...) somente um movimento que desperte a espiritualidade de cada indivíduo e que se empenhe em dar poderes às pessoas – um movimento feito pelas pessoas e para as pessoas – pode tornar-se a força motriz da verdadeira reforma do mundo. (Ikeda & Henderson, 2005, p. 215)
Acessar um material didático que permita afinar o processo a partir da observação para a explicação, do macroscópico para o microscópico é, em especial, o que o Química & Sociedade (Q&S) procura fazer, pois não se deve deixar que se parem logo no primeiro
degrau do conhecimento. Isso vem estimular a automediação da jornada com um livro didático que se introduza na vida dos estudantes e seja por eles apropriado.
Em consequência de a cultura evolutiva ou mutante da atualidade exigir uma maior competência, cada vez mais dinâmica e flexível, ocorreram pequenas mudanças, aqui e ali nos livros didáticos. Como se adotava um determinado modelo de desenvolvimento, a Química passou, em decorrência disso, a ser vista como causadora de danos ambientais e sociais, por se despreocupar com a sustentabilidade.
Com a tendência didático-pedagógica conhecida como Ciência Tecnologia e Sociedade (CTS), o Química & Sociedade (Q&S) procura aproximar o conhecimento científico e específico em prol da comunidade, o que exige dos professores em ação um desprendimento, a liberalização de preconceitos. Isso se justifica porque “a cultura mutante pode necessitar, nos sistemas educativos organizados, da disponibilidade do professorado para sua possível reconversão ou, talvez, uma polivalência em sua formação e função”. (Gimeno, 2000, p. 79).
A tendência Ciência Tecnologia e Sociedade (CTS) passaria então a ser incorporada dos livros didáticos de Química às aulas de Química. E esses conceitos, já acrescidos ao currículo escolar, poderiam transmutar-se em Cultura Química, por representar a aplicação da ética no dia-a-dia, com conceitos sociais e de outras ciências humanas que considerem também o ambiente (CTSA) e o desenvolvimento sustentável.
Em se tratando das opções existentes no mercado de livros, os professores correm o risco de se limitar àqueles que conservam a linha de pensar pelo estudante, àqueles que reproduzem o conhecimento para auxiliar na sua memorização, ou ainda, àqueles que oferecem “mais inovações” – CD-ROM, salas virtuais, entre outros –, só que do mesmo, com os mesmos aspectos aqui já destacados.
Ao cair nessas armadilhas, não parece que os professores estejam em condições de escolher as ferramentas e inovar no uso que se faz delas para mediação. Nesse sentido, Gimeno (2000) parece sublinhar que o papel da Cultura Química seria o de contribuir para que o estudante alcance níveis mais elevados e não “(...) o de substituir a escola proporcionando o que ela já proporciona, mas, ao contrário, abrir portas que a escola nem imagina (...)” (Ibid., p. 7).
Podemos recorrer a Vigotsky (1989) para destacar o exercício da função do professor em mediar o processo de ensino-aprendizagem e atuar, como defende Vigotsky (1989), nas zonas de desenvolvimento proximal de seus estudantes, com instrumentos como o Química & Sociedade (Q&S). Isso proporcionaria recursos, de modo que não apenas os estudantes, mas também os próprios professores sejam capazes de avançar em sua Cultura Química por meio de conhecimentos que propiciem novos conhecimentos.
Então, o Química & Sociedade (Q&S) se constitui como uma ferramenta importante, e avaliar se um material didático realmente o é – se pode possibilitar a mediação ou não, a interação com outros indivíduos, com o mundo; enfim, se pode ser utilizado como a ferramenta de metacognição e aprendizagem – propõe-se como uma competência cada vez mais necessária ao docente de hoje.
A mudança de postura diante dessa competência se mostra essencial, pois se continua “(...) a avaliar apenas o que somos capazes de ver (...)” (Fino, 1998, p. 2), ao invés de ampliar os horizontes do que parece significativo, segundo Fino (1998), para se ver além da “(...) janela de aprendizagem (...) de Vigotsky (...)” (Ibid., p. 3), utilizando sua Cultura Química construída.
Passaríamos então a considerar tantas janelas quantos fossem os estudantes envolvidos no processo, uma vez que cada um deles representa para esse autor, que se fundamenta em Vigotsky, uma janela individualizada, única que, no coletivo, se abre para o “(...) caminho a uma consideração do indivíduo psicológico, não como ser isolado, mas como profundamente enraizado socialmente (...)” (Fino, 1998, p. 3).
Esse sentido é indispensável para que se decida levar o conhecimento por esse ou aquele caminho apontado pelo Química & Sociedade (Q&S), a fim de estimular suas construções e testar suas soluções junto aos seus pares, ou até em diálogos mais amplos, empenhando-se na busca de resignificações dos conceitos do ensino-aprendizagem.
4.4 A Cultura Química e o Química & Sociedade
Particularmente no momento atual, há dois discursos hegemonizados, segundo Casemiro Lopes (2007), nas escolas: os de valorização da cultura comum e da cultura da performatividade, ou seja, do desempenho dos estudantes. No caso da Cultura Química, mais do que a disseminação dos princípios curriculares específicos dos parâmetros nacionais e de outras propostas correlatas, ainda que isso também ocorra, concordamos com a autora que é possível constatar a disseminação da defesa de um consenso em torno de conhecimentos significativos.
Não se trata de uma ideia nova, como lembra Casemiro Lopes (2007), pois essa faz parte do ideário pedagógico da pedagogia crítico-social dos conteúdos e mesmo de propostas pedagógicas tradicionais, ainda que com finalidades e projetos distintos. Esses conteúdos na Cultura Química buscam ser garantidos a partir da articulação dos saberes populares, dos conhecimentos prévios, aos conhecimentos científicos; tanto nas propostas curriculares centralizadas quanto pela distribuição de livro didático, mesmo que distintos da defesa das competências e habilidades, como argumenta a autora.
Na atualidade, entretanto, esta articulação busca uma avaliação desses mesmos conteúdos, como forma de garantir o que se supõe ser a maior qualidade do ensino e políticas de currículo que defendem, por intermédio desta articulação. Isso em outras épocas seria considerado impensável, uma vez que, segundo Casemiro Lopes (2007), revelam uma contradição entre perspectivas cognitivistas (associadas aos conteúdos) e perspectivas comportamentalistas (associadas às competências). Como é possível observar na foto 12, do livro Química & Sociedade, há conteúdos químicos que podem ser trabalhados numa perspectiva de comportamento cognitivo, a fim de contribuir com a qualidade de vida da sociedade.
Em uma Cultura Química, esses conteúdos são articulados de forma a hegemonizar uma proposta entendida como capaz de apontar novos rumos ao ensino de qualidade social de Química, e passível de análise, recorrendo a Casemiro Lopes (2007):
Nessa análise tanto as questões da diferença podem ser contempladas, de maneira a questionar totalidades fechadas construídas com base no determinismo econômico, quanto a cultura pode ser compreendida no âmbito político- econômico, superando o que se supõe ser uma visão culturalista e reducionista do currículo. Em outras palavras, discutir a diferença e a cultura torna-se diretamente implicada a uma discussão sobre política e economia (Casemiro Lopes, 2007, p. 59).