1.3 Otel İşletmesi
1.3.4 Otel Muhasebesi
1.3.4.5 Tekdüzen Hesap Çerçevesi
Foram selecionadas algumas jurisprudências de determinados Tribunais Federais de forma a aferir, ainda que não de forma sistematizada nem passível de generalização, se os tribunais têm agido em retrocesso ou se estão dando máxima aplicabilidade à legislação brasileira em matéria de tráfico e temas
correlatos, considerando a sua insuficiência e trazendo elementos outros aos seus julgamentos.
A coletânea realizada na base de dados do Tribunal Regional Federal da Primeira Região indicou que há uma tendência geral à percepção do consentimento como elemento irrelevante para o exame da culpabilidade do agente. O Tribunal vem considerando que são elementos essenciais do tipo a fraude e o propósito de exploração das vítimas. Assim, considera-se que, mesmo que haja ciência quanto ao tipo de atividade a ser desempenhada no local de destino, a fraude fica caracterizada pelo desconhecimento do modo aviltante como será realizada.
Verifica-se que o art. 231 tem sido interpretado e aplicado apenas em casos de deslocamento da vítima para exploração da prostituição, já que só essa espécie de atividade exploratória é abrangida pelo tipo comentado. De todo modo, mesmo nesses julgados, o Tribunal tem feito remissão ao Protocolo de Palermo, evidenciando que há conhecimento de que o tráfico não se concretiza apenas com intuito exploratório em atividades inseridas no mercado sexual. É de se considerar que o Tribunal tem consignado expressamente que o delito se torna consumado com o mero deslocamento geográfico da vítima, mediante fraude e com fins de exploração, sendo irrelevante o fato de esta chegar ou não a ser consumada.
O Tribunal também tem reconhecido a existência do tráfico interno e de modalidades de tráfico tuteladas pelo Estatuto da Criança e do Adolescente em casos em que são realizadas viagens ao exterior com inobservância das determinações legais ou com fins lucrativos. Em relação à exploração da pessoa em condição análoga à escravidão, foi evidenciada a consciência da desnecessidade de efetiva privação da liberdade de ir e vir mediante constrangimento de ordem física, para reconhecer a existência do delito em casos em que o trabalhador é submetido a condições degradantes de trabalho, as quais não podem ser consideradas hipóteses de trabalho realmente livre em sentido amplo.
Esses entendimentos podem sem extraídos dos seguintes acórdãos: ACR
0001188-98.2011.4.01.3000/AC; APELAÇÃO CRIMINAL117; ACR
2003.38.03.000360-4/MG; APELAÇÃO CRIMINAL118; EDACR
2007.39.01.001175-8/PA; EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NA APELAÇÃO
CRIMINAL119; ACR 2007.39.01.000618-0/PA; APELAÇÃO CRIMINAL120.
A pesquisa empreendida na base e dados do Tribunal Regional Federal da Terceira Região demonstrou a existência de julgamento de casos tipicamente omissos na legislação brasileira com recurso aos dispositivos dos quais os julgadores dispõem. Conforme já se teve oportunidade de expor, casos de tráfico de seres humanos com fins de exploração laboral em atividades sem fins sexuais não são especificamente previstos no ordenamento brasileiro. Nesses casos, frequentemente é aplicado o art. 149 do CPB, que trata da redução à condição análoga à de escravo, o que corresponde a uma possível finalidade exploratória via tráfico de pessoas.
No acórdão ACR - APELAÇÃO CRIMINAL – 4665 – 00006339-
85.2006.4.03.6000/MS121, foi apreciado um desses casos típicos. Na hipótese do
referido julgado, o réu era acusado de aliciar paraguaios para que trabalhassem em sua propriedade rural, com privação de liberdade. A hipótese configura, a teor do Protocolo de Palermo, tráfico de seres humanos. Contudo, diante da omissão da lei brasileira, a condenação se deu com base no referido art. 149 do CPB em adição ao crime previsto no art. 125, XII do Estatuto do Estrangeiro (Lei 6.815/80), que tipifica o crime de introdução ou ocultação de estrangeiro em situação migratória irregular.
117 ACR 0001188-98.2011.4.01.3000/AC; APELAÇÃO CRIMINAL. Relator DESEMBARGADOR
FEDERAL TOURINHO NETO. TERCEIRA TURMA. Publicação 05/04/2013 e-DJF1 P. 291. Data Decisão 26/03/2013.
118 ACR 2003.38.03.000360-4/MG; APELAÇÃO CRIMINAL. Relator DESEMBARGADOR
FEDERAL TOURINHO NETO. TERCEIRA TURMA. Publicação 07/12/2012 e-DJF1 P. 524. Data Decisão 26/11/2012.
119 EDACR 2007.39.01.001175-8 / PA; EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NA APELAÇÃO
CRIMINAL. Relator DESEMBARGADOR FEDERAL CATÃO ALVES. Órgão TERCEIRA TURMA. Publicação 23/08/2013 e-DJF1 P. 411. Data Decisão 13/08/2013.
120 ACR 2007.39.01.000618-0/PA; APELAÇÃO CRIMINAL. Relator DESEMBARGADOR
FEDERAL TOURINHO NETO. Órgão TERCEIRA TURMA. Publicação 11/01/2013 e-DJF1 P. 769. Data Decisão 17/12/2012.
121 ACR - APELAÇÃO CRIMINAL - 466500006339-85.2006.4.03.6000/MS. Relatora JUÍZA
CONVOCADA TÂNIA MARANGONI. QUINTA TURMA. Data do julgamento 17/12/2012. Fonte: e- DJF3 Judicial 1. DATA: 20/12/2012.
A mesma orientação foi seguida no julgamento da ACR - APELAÇÃO
CRIMINAL - 18754 - 0004219-16.2003.4.03.6181122, no qual foi apreciada uma
hipótese fática em que o réu era acusado de trazer ao Brasil bolivianos e paraguaios que eram explorados em atividades de confecção, ficando evidenciado que os salários eram pagos com atraso e em valores irrisórios (15 a 25 centavos por peça de roupa produzida), não havia o recolhimento das contribuições devidas à seguridade social, a alimentação era escassa e os indivíduos estavam submetidos à cerceamento de liberdade. Nesse caso, também foi aplicado o art. 149 do CPB somado ao art. 125, XII da Lei 6815/80.
De fato, a intenção do Tribunal, ao aplicar a Lei 6.815/80, é não deixar sem reprimenda o recurso à mão-de-obra estrangeira para exploração laboral no Brasil. No entanto, segundo já se explorou em momento oportuno neste estudo, o delito previsto no art. 125, XII visa punir infração à legislação migratória e não à ofensa à dignidade das vítimas, que, in casu, sofreu aviltamento. A aplicação desse dispositivo seria mais adequada a casos de contrabando de migrantes e não a tráfico de pessoas.
Foram verificadas também, na base de dados do Tribunal Regional Federal da Terceira Região, hipóteses de tráfico interno de pessoas com fins de exploração laboral em atividades não inseridas no mercado do sexo. Conforme também tratado em tópico apropriado, não há previsão legislativa específica para esse caso.
No julgamento da ACR - APELAÇÃO CRIMINAL - 16940 - 0712532-
63.1997.4.03.6106123, foi apreciado um caso em que duas pessoas se
encarregavam de aliciar trabalhadores mediante anúncios em carro de som, por meio de promessa de salários elevados em outras localidades. No local de destino, as promessas não eram cumpridas, as carteiras de trabalho não eram assinadas, os salários combinados não eram pagos, os trabalhadores eram alojados em condições precárias e os gêneros básicos de higiene e alimentação eram vendidos aos trabalhadores a preços patentemente superiores aos de mercado. A análise do caso permite concluir que se trata de típico caso de tráfico
122 ACR - APELAÇÃO CRIMINAL - 18754 - 0004219-16.2003.4.03.6181/SP. Relatora
DESEMBARGADORA FEDERAL RAMZA TARTUCE. SEGUNDA TURMA. Data do julgamento 02/09/2008. Fonte: DJF3. DATA: 18/09/2008.
123 ACR - APELAÇÃO CRIMINAL - 16940 - 0712532-63.1997.4.03.6106/SP. Relatora
DESEMBARGADORA FEDERAL SUZANA CAMARGO. QUINTA TURMA. Data do Julgamento 24/04/2006. Fonte: DJU. DATA: 08/08/2006.
interno de pessoas para fins de exploração laboral. Diante da omissão legislativa, in casu, foram aplicados o art. 207 do Código Penal, que trata do aliciamento de trabalhadores de um local para outro do território nacional, o art. 203 do Código Penal, que versa sobre a frustração de direitos trabalhistas, e o art. 149, também do Código Penal.
A análise da base de dados do Tribunal Regional Federal da Quarta Região permitiu evidenciar a aplicação de diversos dispositivos legais em casos de tráfico com fins de exploração sexual, tendo em vista o cometimento de crimes correlatos. Assim é que os arts. 231 e 231-A, que tratam, respectivamente, do tráfico internacional e interno de pessoas com fins de exploração sexual, têm sido aplicados de forma combinada com outros dispositivos como os artigos 228 e 229 do Código Penal, entre outros. O art. 228 prevê como delito a ação de induzir ou atrair alguém à prostituição ou a outra forma de exploração sexual, facilitá-la, impedir ou dificultar que alguém a abandone; o art. 229 versa sobre a manutenção, por conta própria ou de terceiro, de estabelecimento em que ocorra exploração sexual, haja ou não intuito de lucro ou mediação direta do proprietário ou gerente.
Essa orientação foi, inclusive, adotada no julgamento da ACR -
APELAÇÃO CRIMINAL 0000957-09.2007.404.7210/SC124. Deve-se registrar
apenas que se considera adequada a aplicação combinada de dispositivos em tais casos. Ressalva-se, porém, que, tendo em vista o norte oferecido pelo Protocolo de Palermo, deve ser criteriosa a aplicação combinada do disposto no art. 228 em caso de tráfico, porquanto o aliciamento de pessoa mediante fraude com fins de exploração humana em atividades de cunho sexual constitui, em certa medida, indução, atração ou facilitação a mecanismos de exploração sexual, o que poderia ensejar argumentações acerca de bis in idem.
Ainda considerando o tráfico com fins de exploração sexual, os julgados têm revelado a convicção de que a configuração do delito não exige a consumação da efetiva exploração dos serviços sexuais da vítima, bastando o seu deslocamento geográfico mediante fraude com intuito de explorá-la. Têm sido considerados irrelevantes também a ciência do tipo de atividade a ser exercida e
124 ACR - APELAÇÃO CRIMINAL 0000957-09.2007.404.7210/SC. Relator JOSÉ PAULO
a existência de pretenso consentimento da vítima125. Quanto à redução do
trabalhador a condições análogas à escravidão, o Tribunal tem admitido a sua configuração, ainda que não haja efetiva frustração da liberdade de ir e vir, conforme se pode extrair do julgamento da ACR - APELAÇÃO CRIMINAL
0006251-27.2006.404.7000/PR126 e do Recurso Criminal em Sentido Estrito
5001668-62.2012.404.7012/PR127.
Na Justiça Comum Estadual, identificaram-se julgados em que a caracterização do trabalho em condições análogas à de escravo foi reconhecida, independentemente da existência de agressões físicas, considerando suficiente o não registro das carteiras de trabalho e o não pagamento dos salários, notadamente quando retidos sob o pretexto de cobertura de despesas com alimentação, moradia e saúde. Nesse sentido, a Apelação Criminal - Reclusão -
N. 2001.000508-8/0000-00 - Ribas do Rio Pardo/MS128.
Chamou particularmente a atenção uma ação que visava ao impedimento de um condômino de residir em um edifício, tendo em vista sua conduta desregrada, notadamente envolvendo situações abusivas, por diversas vezes praticadas contra suas empregadas domésticas. Estas eram atraídas, inclusive de outras cidades, por meio de promessas de salário acima do valor de mercado, e lá sofriam abusos, eram trancafiadas, mantidas incomunicáveis e tinham seus documentos retidos. O réu in casu era acusado em processo criminal pelos delitos de estupro, cárcere privado e redução de pessoa à condição análoga à de
escravo (APELAÇÃO CÍVEL Nº 957.743-1 - PR129).
Também sobre submissão de trabalhadores domésticos a condições
análogas à de escravo cita-se a REVISÃO CRIMINAL Nº 723.640-6-PR130, que
125 Vide ACR - APELAÇÃO CRIMINAL 2006.70.00.029496-6/PR. Relator: GILSON LUIZ INÁCIO.
OITAVA TURMA. Data da decisão 21/08/2012. Fonte D.E. 06/09/2012. E também ACR - APELAÇÃO CRIMINAL 2001.70.02.002926-9/ PR. SÉTIMA TURMA. Data da decisão 27/07/2010. Fonte D.E. 05/08/2010.
126 ACR - APELAÇÃO CRIMINAL 0006251-27.2006.404.7000/PR. Relator JOSÉ PAULO
BALTAZAR JÚNIOR. SÉTIMA TURMA. Data da decisão 06/08/2013. Fonte: D.E. 16/08/2013.
127 RECURSO CRIMINAL EM SENTIDO ESTRITO 5001668-62.2012.404.7012/PR. Relator:
PAULO AFONSO BRUM VAZ. OITAVA TURMA. Data da decisão 05/06/2013. Fonte: D.E. 07/06/2013.
128 APELAÇÃO CRIMINAL - RECLUSÃO - N. 2001.000508-8/0000-00 - Ribas do Rio Pardo.
Relator - DES. JOÃO CARLOS BRANDES GARCIA. SEGUNDA TURMA CRIMINAL. Julgamento em 30/05/2001. Fonte: DJE TJ-MS- FL.: 188 23/05/2001.
129 APELAÇÃO 957743-1. relator(a): ARQUELAU ARAUJO RIBAS. 10ª Câmara Cível. Data do
Julgamento: 13/12/2012 16:00:00. Fonte/Data da Publicação: DJ: 1023 22/01/2013.
130 REVISÃO CRIMINAL 723.640-6/PR. Relator JOSÉ MAURÍCIO PINTO DE ALMEIDA. 2ª
confirma sentença que condena a ré por esse delito, diante da existência de provas de que a vítima era impedida de sair do imóvel, sendo, por vezes, trancada na despensa e privada de alimentação. Além disso, a vítima sofria violência consistente no emprego de utensílios domésticos e instrumentos cortantes para que fosse compelida a realizar pesados e ininterruptos serviços domésticos, sem qualquer remuneração. Situações semelhantes mantidas em desfavor de menores de idade foram também discutidas na Apelação Criminal n. 147182-9-Cascavel/PR131, no HC 70049968449 – Lajeado/RS132 e na Apelação
70004353017 – Pelotas/RS133.
No tocante à configuração do delito tráfico interno de pessoas para fins de exploração sexual, foram encontradas jurisprudências no sentido de imputar o delito a pessoas responsáveis pelo transporte que conduzia vítimas para que tivessem suas atividades sexuais exploradas em uma boate (Apelação - Nº
0008661-51.2011.8.12.0008 – Corumbá/MS)134, bem como indivíduos que eram
proprietários de estabelecimentos em que eram explorados os serviços sexuais de pessoas trazidas mediante engano de outras localidades (Apelação Criminal -
Reclusão - N. 2011.036267-4/0000-00 – Dourados/MS)135.
Em um caso julgado pelo Tribunal de Justiça do Pará, um dos acusados pelo tráfico de pessoas era um delegado, que, inclusive, estava preso preventivamente, notadamente por sua condição profissional gerar particular
temor de represália às vítimas136. Além disso, no caso, discutiu-se o local do
cometimento do delito, já que o crime comporta um movimento migratório,
131 APELAÇÃO CRIMINAL n. 147182-9. Relator: LUIZ CEZAR DE OLIVEIRA. Primeira Câmara
Criminal (extinto TA). Data do Julgamento: 03/03/2000 13:05:00. Fonte/Data da Publicação: DJ: 5623 28/04/2000.
132 HC 70049968449. Relator: FRANCESCO CONTI. QUINTA CÂMARA CRIMINAL. Data de
Julgamento: 01/08/2012. Publicação: Diário da Justiça do dia 09/08/2012.
133 APELAÇÃO 70004353017. Relator: JOSÉ ANTÔNIO HIRT PREISS. TERCEIRA CÂMARA
CRIMINAL. Data de Julgamento: 27/06/2002.
134 APELAÇÃO - Nº 0008661-51.2011.8.12.0008 – Corumbá. Relator: DES. ROMERO OSME
DIAS LOPES. Segunda Câmara Criminal. Julgamento em: 22/04/2013.
135 APELAÇÃO CRIMINAL - RECLUSÃO - N. 2011.036267-4/0000-00 - Dourados. Relator: DES.
JOÃO CARLOS BRANDES GARCIA. PRIMEIRA CÂMARA CRIMINAL. Julgamento em 14/05/2012. Fonte: DJE TJ-MS 14/05/2013.
136 Também a respeito da manutenção do acusado em prisão preventiva em razão de ameaça a
testemunhas do crime de tráfico de pessoas, confira-se: HABEAS CORPUS Nº. 744358-3. Relator: JEFFERSON ALBERTO JOHNSSON. 3ª CÂMARA CRIMINAL. Data do Julgamento: 24/03/2011 18:00:00. Fonte/Data da Publicação: DJ: 623 04/05/2011.
indicando a aplicação da teoria da ubiquidade (HC N. 2010.3.006491- Belém/PA137)138.
4.2.3.3 Questões discutidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior