• Sonuç bulunamadı

4. BULGULAR VE YORUM

4.8. Hipotez Testleri

4.8.3. Tek Yönlü Varyans Analizi Sonuçları (Anova)

A concentração estabelecida na mídia no amplo processo acima descrito não consiste em problema relativo à mera eficiência econômica e que prejudica a livre fixação de preços. Trata-se de questão que também alcança o regime democrático, diante da aproximação da grande mídia aos interesses das corporações e dos grupos políticos, chegando por várias ocasiões a conduzi-los, confundindo benefícios particulares com o interesse público.

O relacionamento estreito entre os sistemas econômico e estatal não é novidade. A própria instituição do Estado de Direito decorreu da necessidade de fornecer um ambiente estável e seguro para que a burguesia pudesse realizar o processo de produção de bens e serviços ao mercado consumidor. Da mesma maneira, no atual mundo globalizado, as políticas de abertura e desregulamentação comercial (sob o chamado neoliberalismo) derivam da exigência empresarial de conquista de novos mercados, havendo até quem diga que os governos nacionais transformaram-se em singelos mecanismos de atuação dos interesses das empresas transnacionais ou das

diretrizes das organizações multilaterais24.

A peculiaridade do problema da associação dos sistemas político e mercadológico à grande mídia está no papel a ela atribuído em

24 “ H á a l g o d e u m a g u e r r a c i v i l d i f u s a p o r t o d o s o s c a n t o s e r e c a n t o s d o m u n d o . O q u e a G u e r r a F r i a p a r e c i a c o n t r o l a r , o u e n c o b r i r , l o g o s e r e v e l a à l u z d o d i a s o b o n e o l i b e r a l i s m o . A n o v a o r d e m e c o n ô m i c a m u n d i a l a p e n a s c o n t e m p l a o s i n t e r e s s e s d a s c o r p o r a ç õ e s t r a n s n a c i o n a i s , o u a s d i r e t r i z e s d a s o r g a n i z a ç õ e s m u l t i l a t e r a i s , q u e a d m i n i s t r a m a e c o n o m i a m u n d i a l e o s i n t e r e s s e s d a m a i o r i a d o s g o v e r n o s n a c i o n a i s a t r e l a d o s à s c o n d i ç õ e s e à s e x i g ê n c i a s d o n e o l i b e r a l i s m o ” ( I A N N I , 2 0 0 7 , p . 2 2 3 ) .

efetivar a liberdade de expressão, levando à esfera pública os informes e os pontos de vista suscetíveis de influenciar os cidadãos nos debates e nas tomadas de decisões. Nestes termos, deveria haver plena independência dos meios de comunicação perante os sistemas, o que possibilitaria aos empreendimentos midiáticos exercer suas atividades em conformidade à responsabilidade social que, como vimos, eles mesmos se atribuíram.

A almejada autonomia, todavia, não se concretizou.

Consolidado o capitalismo, a grande mídia empresarial, como produto dos sistemas montados, transformou-se definitivamente em um aparelho privado de hegemonia visando a formação do consenso (FONSECA, 2005, p. 27), favorável à lógica do mercado; e os autores de suas mensagens, “[...] ‘comissários’ do grupo dominante para o exercício das funções subalternas da

hegemonia social e do governo político [...]” (GRAMSCI, 1982, p. 11)25. Daí

a instrumentalização da grande mídia em favor do capital:

A g r a n d e t r o u v a i l l e d o e m p r e s á r i o c a p i t a l i s t a f o i , s e m d ú v i d a , p e r c e b e r , m u i t o c e d o , q u e a s u a p r i n c i p a l a r m a p a r a a c o n q u i s t a d o s m e r c a d o s e d o p r ó p r i o p o d e r p o l í t i c o e r a a a p r o p r i a ç ã o e o d e s e n v o l v i m e n t o i n c e s s a n t e d a t e c n o l o g i a , r e c o n h e c i d a c o m o p r i n c i p a l f a t o r d e p r o d u ç ã o d e b e n s e d e m o d e l a g e m d e o p i n i ã o p ú b l i c a , p e l a d o m i n a ç ã o d o s m e i o s d e c o m u n i c a ç ã o d e m a s s a . D e q u e s e r v i a m , c o m e f e i t o , o s g r a n d e s l a t i f ú n d i o s , o u a a c u m u l a ç ã o m e r c a n t i l i s t a d e m e t a i s p r e c i o s o s , s e m o s m e i o s t é c n i c o s p a r a f a z ê - l o s f r u t i f i c a r ? D a m e s m a s o r t e , c o m o s u r g i m e n t o d a s o c i e d a d e d e m a s s a s , n a q u a l a s r e l a ç õ e s s o c i a i s s ã o c r e s c e n t e m e n t e i m p e s s o a i s , p e r c e b e u - s e q u e a t e c n o l o g i a d a c o m u n i c a ç ã o c o l e t i v a , s o b r e t u d o a p a r t i r d o d e s e n v o l v i m e n t o d a e l e t r ô n i c a , a b r i a e s p a ç o a u m a v e r d a d e i r a i n d ú s t r i a d a m a n i p u l a ç ã o d a o p i n i ã o p ú b l i c a , p e l o c o n t r o l e d o s m e i o s d e c o m u n i c a ç ã o d e m a s s a . C o m i s s o , a s r e l a ç õ e s d e e x e r c í c i o d o p o d e r p o l í t i c o p a s s a r a m a s e r e s t r u t u r a d a s s e g u n d o o s c r i t é r i o s e m p r e s a r i a i s d e e f i c á c i a e d e c u s t o - b e n e f í c i o , m u i t o s e m e l h a n t e s à q u e l e s e m p r e g a d o s n a p r o d u ç ã o d e b e n s ( a c h a m a d a " p o l í t i c a d e r e s u l t a d o s " ) ( C O M P A R A T O , 2 0 0 6 b , p . 3 4 3 - 3 4 4 ) .

Aos meios de comunicação foi, assim, incumbida a tarefa de, segundo Habermas (2003b, p. 226), trabalhar a opinião pública em busca de

consenso fabricado. Para isso, a propaganda por eles veiculada passou a dar

“[...] a seu objeto a autoridade de um objeto de interesse público, a respeito

25 N a s p a l a v r a s d e G r a m s c i ( 1 9 8 2 , p . 1 1 ) , i s s o s i g n i f i c a o e x e r c í c i o : “ 1 ) d o c o n s e n s o ‘ e s p o n t â n e o ’ d a d o p e l a s g r a n d e s m a s s a s d a p o p u l a ç ã o à o r i e n t a ç ã o i m p r e s s a p e l o g r u p o f u n d a m e n t a l d o m i n a n t e à v i d a s o c i a l , c o n s e n s o q u e n a s c e ‘ h i s t o r i c a m e n t e ’ d o p r e s t í g i o ( e , p o r t a n t o , d a c o n f i a n ç a ) q u e o g r u p o d o m i n a n t e o b t é m , p o r c a u s a d e s u a p o s i ç ã o e d e s u a f u n ç ã o n o m u n d o d a p r o d u ç ã o ; 2 ) d o a p a r a t o d e c o e r ç ã o e s t a t a l q u e a s s e g u r a ‘ l e g a l m e n t e ’ a d i s c i p l i n a d o s g r u p o s q u e n ã o ‘ c o n s e n t e m ’ , n e m a t i v a n e m p a s s i v a m e n t e , m a s q u e é c o n s t r u í d o p a r a t o d a a s o c i e d a d e , n a p r e v i s ã o d o s m o m e n t o s d e c r i s e n o c o m a n d o e n a d i r e ç ã o , n o s q u a i s f r a c a s s a o c o n s e n s o e s p o n t â n e o . ”

do qual, como se pretende que isso pareça, o público das pessoas privadas cultas forme livremente sua opinião" (HABERMAS, 2003b, p. 228).

Há diversos exemplos de como entidades privadas e políticas fizeram uso da mídia em favor de seu domínio no decorrer dos anos, especialmente na América Latina e nos países analisados neste trabalho. Chamam a atenção, porém, os Estados Unidos da América, em razão de sua estabilidade política e - ao contrário de seus vizinhos do sul – não terem sofrido golpes militares e nem se submetido a regimes ditatoriais ao longo dos anos. Este fato, porém, não os livrou da instrumentalização dos meios de comunicação visando a opinião pública.

Por essa razão é que consideramos como marco fundamental dessa nova etapa da história da mídia, a propaganda em favor da Primeira Guerra Mundial ocorrida sob o governo democraticamente eleito de Woodrow Wilson. Lembra, a respeito, Noam Chomsky (2003, p. 11) que, na época, a população norte-americana não via nenhum motivo para ter seu país envolvido em um conflito bélico eminentemente europeu, o que se tornou uma preocupação governamental. Criou-se, então, o comitê de propaganda denominado Comissão Creel, que, nas palavras do autor, "[...] conseguiu, em seis meses, transformar uma população pacífica em histéricos beligerantes, determinados a destruir tudo o que fosse germânico, esquartejar alemães, ir à guerra e salvar o mundo."

O êxito obtido na propaganda governamental em pró da adesão à Primeira Guerra Mundial deixou claro o poder da grande mídia. Não se tratou, porém, de único caso na história norte-americana do século XX. A partir da leitura de Chomsky (2003, p. 22-42), podemos citar outras situações semelhantemente sucedidas, como: a) atribuição de movimentos grevistas ocorridos na década de 1930 como desagregadores e prejudiciais à comunidade, como se todos – empregados e empregadores – comungassem dos mesmos interesses; b) apoio à derrubada de governo democraticamente eleito da Guatemala em 1954 como forma de atender aos anseios econômicos da corporação norte-americana United Fruit Company; c) omissão na divulgação de violação a direitos humanos praticada em 1986 pelo governo de El Salvador, por ser aliado dos estadunidenses; d) associação de governantes

que, nas duas últimas décadas do século XX, administraram países como Granada, Panamá e Iraque em desconformidade aos interesses dos Estados Unidos da América, a atos de narcotráfico ou de terrorismo internacional.

Como se vê, todos esses casos referem-se ao trabalho da opinião pública em favor de políticas governamentais, muitas das quais voltadas para os interesses do mercado e que, dentro da normalidade, jamais seriam admitidas pelos eleitores. Cuida-se de casos que não deixam dúvida de que a mídia empresarial pode agir de forma tão repressora quanto o Estado, praticando até mesmo censura privada, segundo Ciro Marcondes Filho (1986, p. 99), “[...] diluída nas relações de poder internas, na linha editorial, nos ‘indivíduos incriticáveis’, nas formas de adaptação de textos etc.”

A evolução ora descrita, contudo, não significa que a grande mídia tornou-se, por si só, nociva à liberdade de expressão e à democracia. Na complexa sociedade contemporânea, as informações levadas por tais meios não são necessariamente divulgadas a um “[...] consumidor passivo, dirigido pelos programas oferecidos” (HABERMAS, 2003a, p. 111). São informações difundidas a usuários aptos a reinterpretá-las e que podem, através delas (como já dissemos, somente a grande mídia é capaz de levar informes prontamente a grandes extensões territoriais), criar outras formas, autônomas e não hierarquizadas, de comunicação perante a esfera pública:

C e r t a m e n t e , a p o s s i b i l i d a d e d e c o n t r o l e s o c i a l a u m e n t a c o m o m o d e l o d e c o m u n i c a ç ã o d e m a s s a d e c i m a p a r a b a i x o e d o c e n t r o p a r a a p e r i f e r i a . N o e n t a n t o , a s f o r m a s g e n e r a l i z a n t e s d e c o m u n i c a ç ã o d e s p r o v i n c i a l i z a m , e x p a n d e m e c o n s t i t u e m n o v o s p ú b l i c o s . A l é m d o m a i s , o d e s e n v o l v i m e n t o t é c n i c o d o s m e i o s e l e t r ô n i c o s d e c o m u n i c a ç ã o n ã o c o n d u z , n e c e s s a r i a m e n t e , à c e n t r a l i z a ç ã o , t a l c o m o p a r e c e e v i d e n t e a t u a l m e n t e . E l e p o d e t a m b é m l e v a r à c r i a ç ã o d e f o r m a s m a i s h o r i z o n t a i s , a u t ô n o m a s e c r i a t i v a s d e p l u r a l i s m o c o m u n i c a t i v o ( A R A T O ; C O H E N , 1 9 9 4 , p . 1 6 8 - 1 6 9 ) .

Somados a essa circunstâncias, têm-se ainda casos como o do Watergate de 1972 – no qual jornalistas do diário norte-americano Washington Post revelaram ligações entre um assalto à sede do Comitê Nacional Democrata e a Casa Branca, na época presidida por Richard Nixon, do Partido Republicano –, que comprovam empiricamente que tais

organizações podem formar um saber alternativo e autônomo ao do Estado26. Comprovam ainda que a grande mídia, na qualidade de “[...] um dos produtos de consumo da indústria cultural” (MEDINA, 1988, p. 40), não consiste em

inimigo a ser vencido, mas, conforme afirma Marcelino Bisbal27, em uma

realidade necessária para a compreensão do mundo atual, independente de sentimentos nostálgicos.

De toda forma, fica claro que os discursos da objetividade e da responsabilidade social propagados jamais levaram os meios de comunicação a libertar-se da velha prática do jornalismo de opinião para a difusão dos interesses hegemônicos, tal como fazem os partidos políticos. Nos termos do constatado por Francisco Weffort (1984, p. 37):

E q u e d i z e r d a t r a d i ç ã o d a i m p r e n s a m o d e r n a s e n ã o q u e e n r a í z a , t a m b é m , n o p r e s t í g i o d a o p i n i ã o ? E m q u e p e s e o d e s e n v o l v i m e n t o r e c e n t e d o c h a m a d o j o r n a l i s m o o b j e t i v o , a p o i a d o s o b r e t u d o n a f o r c a d a i n f o r m a ç ã o , n ã o s e c o n s e g u i u d e s b a n c a r d a t r a d i ç ã o . A s p á g i n a s e d i t o r i a i s d o s j o r n a i s c o n t i n u a m s e n d o o e s p a ç o n o b r e d o s j o r n a i s e o p i n i ã o f l u i , d e m o d o e x p l í c i t o o u n ã o , e m t o d o o n o t i c i á r i o . S e o s p a r t i d o s s ã o d e o p i n i ã o e o s j o r n a i s t a m b é m s ã o d e o p i n i ã o , n a d a d e s u r p r e e n d e n t e s e e s t e s à s v e z e s s e c o m p o r t a m c o m o a q u e l e s .

O problema é que não há como comparar o poder de penetração na esfera pública de um panfleto redigido nos tempos revolucionários burgueses de um jornal ou telejornal veiculado por empresa dotada de elevado capital e pretensamente objetiva. Por isso, o potencial lesivo da associação da grande mídia a interesses privados de grupos econômicos ou políticos, fantasiados de interesse público.

26 A i n d a q u e , c o m o s a l i e n t a C i r o M a r c o n d e s F i l h o ( 1 9 9 6 , p p . 1 1 7 - 1 1 9 ) , a q u e d a d e N i x o n t e n h a i d o d e e n c o n t r o a o s i n t e r e s s e s p r i v a d o s d o W a s h i n g t o n P o s t e t e n h a s i d o p r o v i d e n c i a l à p r o p a g a n d a e s t a d u n i d e n s e n a s r e l a ç õ e s i n t e r n a c i o n a i s , r e d i m i n d o o p a í s d o s m a l e s c o m e t i d o s n o S u d e s t e A s i á t i c o . 27 “ H a y u n a v i s i ó n e n l a i m a g i n a c i ó n t e ó r i c a q u e c o n c i b e l o s m e d i o s y l a s i n d u s t r i a s c u l t u r a l e s c o m o e n e m i g o s a v e n c e r , c o m o s e f u e r a n l o s c u l p a b l e s d e t a n t a ‘ b a r b a r i e ’ e n e l m u n d o . U n a m i r a d a q u e a c u d e a l a s n o s t a l g i a s , p o r t a n t o a u n s a b e r i n a d e c u a d o , p a r a t r a t a r d e e n t e n d e r l o q u e p a s a e n e l m u n d o - h o y y e n l a f o r m a c i ó n c u l t u r a l d e e s t o s t i e m p o s ” . ( B I S B A L , 2 0 0 1 , p . 8 6 ) .

Benzer Belgeler