4. BULGULAR VE YORUM
4.2. Otel İşgörenlerinin Zaman Yönetimi Ölçeğine İlişkin Standart Sapma,
Na exposição acima realizada, mencionamos textos de cinco publicações da Venezuela e do Brasil, que revelaram a posição crítica de empreendimentos midiáticos a respeito da não renovação da concessão da RCTV. Alguns escritos deram ênfase ao tema do monopólio ideológico, ao passo que outros destacaram as questões da independência da mídia, da
repressão ao dissenso, da eliminação do sistema de controles e da implantação da autocracia, sempre por iniciativa da realidade estatal dirigida
por Chávez. Tudo, inexoravelmente, a prejudicar o direito dos cidadãos venezuelanos de receber opiniões e informações plurais e independentes do discurso oficial, requisito indispensável à efetividade da liberdade de expressão.
Dessa forma, é possível perceber certa uniformidade nos pontos de vista expostos, no sentido de que teria havido ato repressor à liberdade de expressão decorrente da ação estatal sobre a mídia. Nada foi dito acerca do apoio da RCTV à tentativa de golpe de Estado ocorrida em 2002 ou
da necessidade de democratizar os meios de comunicação da Venezuela12. A
única circunstância colocada como relevante para a análise do caso consistiu na própria opção de agir do Estado sobre uma empresa de comunicação, o que, por si só, obstaria a liberdade de expressão.
Essa estabelecida incompatibilidade entre o poder estatal e a atuação da mídia permite-nos concluir que o posicionamento ora examinado não configura mera defesa de interesses pessoais, publicada por organizações temerosas de algum dia ter de suportar medida semelhante. Trata-se, na verdade, de exposição que alcança o mais amplo âmbito da Teoria Política, amoldando-se à doutrina liberal.
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T a i s c i r c u n s t â n c i a s a p a r e c e m c o m o a l g u m a s d a s j u s t i f i c a t i v a s à n ã o r e n o v a ç ã o d a c o n c e s s ã o d a e m i s s o r a , c o n f o r m e a n a l i s a d o n o c a p í t u l o d e d i c a d o à V e n e z u e l a .
É certo que o liberalismo encontra-se edificado em notável diversidade de teóricos e de temas, o que dificulta em muito a sua redução a um sistema doutrinário. É certo também que, como sucede em qualquer outra doutrina, os discursos que o modelam variam no tempo, em conformidade às
circunstâncias de cada época13. Todavia, considerando o que há de uniforme e
constante na defesa do ideário, é possível dizer, conforme assevera Bobbio (2005, p.17), que o pensamento liberal constitui a doutrina do Estado limitado no exercício de seus poderes e na atuação de suas funções.
Com efeito, os limites em relação aos poderes são aqueles que dão contorno ao que se conhece como Estado de Direito, constituído por “[...] todos os mecanismos constitucionais que impedem ou obstaculizam o exercício arbitrário e ilegítimo do poder e impedem ou desencorajam a abuso ou o exercício ilegal do poder.” Por sua vez, os limites relacionados às funções são os que dão forma ao denominado Estado Mínimo, caracterizado pela atribuição de “[...] tarefas limitadas à manutenção da ordem pública interna e internacional” (BOBBIO, 2005, p. 19-20).
A base teórica da restrição dos poderes encontra-se na obra de autores como Montesquieu (1689 – 1755), para quem um regime de liberdade só seria alcançável pela divisão das atividades estatais em executiva, legislativa e jurisdicional, em órgãos independentes e harmônicos entre si, submetidos ao controle recíproco e ao ordenamento jurídico: “tudo estaria perdido se o mesmo homem ou o mesmo corpo dos principais, o dos nobres, ou do povo, exercesse esses três poderes [...]” (MONTESQUIEU, 1973, p. 157). A limitação no exercício das funções vem baseada na obra de autores como John Locke (1632 – 1704), para quem a existência da realidade estatal dever-se-ia apenas à necessidade de preservar os direitos naturais – isto é, preexistentes em um hipotético de estado de natureza - da vida, da liberdade, da igualdade e da propriedade, que seriam ameaçados se os indivíduos, na inexistência de uma autoridade para protegê-los, fossem “[...] juiz em seu próprio caso [...]” (LOCKE, 1991, p. 250).
13 P o r i s s o , a f i r m a o s h i s t o r i a d o r a r g e n t i n o E l i a s J o s é P a l t i ( 2 0 0 5 , p . 4 1 ) q u e : “ u n a d e l a s l i m i t a c i o n e s i n h e r e n t e s a l a h i s t o r i a d e i d e a s r a d i c a , j u s t a m e n t e , e n q u e t i e n d e a c r e a r u n a i m a g e n d e e s t a b i l i d a d t r a n s h i t ó r i c a e n l a h i s t o r i a i n t e l e c t u a l [ . . . ] . D e a l l í q u e , s i s e l e s a n a l i z a e x c l u s i v a m e n t e d e s d e e l p u n t o d e v i s t a d e s u s c o n t e n i d o s i d e o l ó g i c o s , l o s d i s c u r s o s a p a r e z c a n c o m o s u m a m e n t e e s t a b l e s e n e l t i e m p o . ”
O liberalismo consiste, pois, na doutrina da abstenção estatal. Para seus teóricos, deveria o Estado limitar-se a garantir a vida, a circulação de idéias e a negociação de bens, sob o manto protetor da igualdade formal perante a lei e do controle recíproco dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. É, por isso, o pensamento da autonomia do indivíduo perante o Estado: A d o u t r i n a l i b e r a l e c o n ô m i c o - p o l í t i c a t e m c o m o c a r a c t e r í s t i c a u m a c o n c e p ç ã o n e g a t i v a d o E s t a d o , r e d u z i d o a p u r o i n s t r u m e n t o d e r e a l i z a ç ã o d o s f i n s i n d i v i d u a i s , e p o r c o n t r a s t e u m a c o n c e p ç ã o p o s i t i v a d e n ã o - E s t a d o , e n t e n d i d o c o m o a e s f e r a d a s r e l a ç õ e s n a s q u a i s o i n d i v í d u o e m r e l a ç ã o c o m o s o u t r o s i n d i v í d u o s f o r m a , e x p l i c i t a e a p e r f e i ç o a a p r ó p r i a p e r s o n a l i d a d e ( B O B B I O , 2 0 0 9 , p . 1 3 0 ) .
A objetivada realização de fins individuais pressupõe uma
sociedade formada por pessoas moralmente responsáveis14 e, nesta condição,
não suscetíveis de tratamento como seres subordinados ao aparelho estatal. Para o liberalismo, os cidadãos não seriam filhos menores, assim como o Estado não consistiria em um pai protetor.
Nesses termos, à realidade estatal não assistiria a prerrogativa de atuar sobre a atividade dos meios de comunicação na veiculação de informações. Assim agindo, o Estado estaria a negar a capacidade dos indivíduos em saber discernir entre o bem e o mal (como dito por John Milton
em seu célebre discurso ao Parlamento britânico em 164415) e em ter contato
com opiniões divergentes da maioria (caso em que jamais se poderia saber se
estão certas ou erradas, como defendido por Stuart Mill16). Estaria, em suma,
14 S e g u n d o R o n a l d D w o r k i n ( 2 0 0 6 , p . 3 1 9 - 3 2 0 ) , “ [ . . . ] a s p e s s o a s m o r a l m e n t e r e s p o n s á v e i s f a z e m q u e s t ã o d e t o m a r s u a s p r ó p r i a s d e c i s õ e s a c e r c a d o q u e é b o m o u m a l n a v i d a e n a p o l í t i c a e d o q u e é v e r d a d e i r o o u f a l s o n a j u s t i ç a o u n a f é . [ . . . ] P a r a m u i t a g e n t e , a r e s p o n s a b i l i d a d e m o r a l t e m u m o u t r o a s p e c t o , u m a s p e c t o m a i s a t i v o : s e r i a a r e s p o n s a b i l i d a d e n ã o s ó d e c o n s t r u i r c o n v i c ç õ e s p r ó p r i a s , m a s t a m b é m d e e x p r e s s á - l a s p a r a o s o u t r o s , s e n d o e s s a e x p r e s s ã o m o v i d a p e l o r e s p e i t o p a r a c o m a s o u t r a s p e s s o a s e p e l o d e s e j o a r d e n t e d e q u e a v e r d a d e s e j a c o n h e c i d a , a j u s t i ç a s e j a f e i t a e o b e m t r i u n f e . ” 15 P o r e s s a r a z ã o , q u e s t i o n a v a : “ q u e v a n t a g e m t e m o h o m e m f e i t o s o b r e o j o v e m e s t u d a n t e , s e e l e a p e n a s e s c a p o u d a p a l m a t ó r i a p a r a a p a n h a r c o m a v a r a d o i m p r i m a t u r ? ” ( M I L T O N , 1 9 9 9 , p . 1 2 1 ) . 16 “ M a s o e s t r a n h o m a l d e s i l e n c i a r a e x p r e s s ã o d e u m a o p i n i ã o é q u e i s s o d e f r a u d a a r a ç a h u m a n a ; n ã o s ó a g e r a ç ã o a c t u a l , c o m o a p o s t e r i d a d e ; o s q u e d i v e r g e m d a o p i n i ã o , a i n d a m a i s q u e o s q u e a d e t é m . S e a o p i n i ã o e s t i v e r c o r r e c t a , e l e s f i c a m p r i v a d o s d a o p o r t u n i d a d e d e t r o c a r o e r r o p e l a v e r d a d e ; s e e l a e s t i v e r e r r a d a , e l e s p e r d e m , o q u e c o n s t i t u i r i a u m b e n e f í c i o q u a s e t ã o g r a n d e , a p e r c e p ç ã o m a i s n í t i d a e a i d é i a m a i s v í v i d a d a v e r d a d e , p r o d u z i d a p e l a s u a c o l i s ã o c o m o e r r o ” ( M I L L , 1 9 9 7 , p . 2 3 ) .
a negar a responsabilidade moral dos cidadãos, nos termos do afirmado por Ronald Dworkin (2006, p. 319): O E s t a d o o f e n d e s e u s c i d a d ã o s e n e g a a r e s p o n s a b i l i d a d e m o r a l d e l e s q u a n d o d e c r e t a q u e e l e s n ã o t ê m q u a l i d a d e m o r a l s u f i c i e n t e p a r a o u v i r o p i n i õ e s q u e p o s s a m p e r s u a d i - l o s d e c o n v i c ç õ e s p e r i g o s a s o u d e s a g r a d á v e i s . S ó c o n s e r v a m o s n o s s a d i g n i d a d e i n d i v i d u a l q u a n d o i n s i s t i m o s e m q u e n i n g u é m – n e m o g o v e r n a n t e n e m a m a i o r i a d o s c i d a d ã o s – t e m o d i r e i t o d e n o s i m p e d i r d e o u v i r u m a o p i n i ã o p o r m e d o d e q u e n ã o e s t e j a m o s a p t o s a o u v i - l a e p o n d e r á - l a .
Tais considerações não querem dizer que a doutrina liberal não prognostique a responsabilização dos indivíduos sobre seus atos. Como salienta Francisco Fonseca (2010, p. 18), para este pensamento, a natureza humana não tornaria confiável nem aqueles que exercem o poder político e nem aqueles que procuram valer seus interesses perante o meio social. Todavia, o efeito das condutas praticadas por cada membro da sociedade deveria ser prevista em reduzido número de normas positivas, a fim destas não obstarem a autonomia do ser humano. Tudo isso, como se existisse uma
mão invisível autorreguladora do “[...] livre jogo das forças econômicas e
sociais” (CAPELATO; PRADO, 1980, p. 97). Daí a máxima liberal, citada por Bobbio (2000, p. 281): “o Estado deve governar o menos possível, porque a verdadeira liberdade consiste em não ser assoberbado por leis em demasia.”
O discurso publicado pela citada parcela da grande mídia da Venezuela e do Brasil na análise do caso da RCTV tem como pano de fundo essa concepção doutrinária. Assim, de um lado caberia aos detentores da propriedade de tais empresas a liberdade de exporem os fatos de seus interesses para a esfera pública formada por indivíduos legalmente iguais, adultos, responsáveis e capazes de receberem qualquer conteúdo noticioso; de outro lado, restaria ao aparelho estatal abster-se da prática de condutas objetivando a mídia, com base nos limites impostos pela ordem jurídica. A política pública a se realizar consistiria no non facere, o que, independente das justificativas oficiais apresentadas, não teria ocorrido quando o governo venezuelano impediu a emissora de continuar a transmitir sua programação que há décadas era propagada aos lares do país.