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Teftiş ve Hukukî İşler

Belgede [Tiad], 2020, 4 (2): (sayfa 21-26)

Ainda em 1968, a DSI solicitou à reitoria da UFMG informações a respeito do reitor e dos diretores das faculdades, escolas e institutos.37 A DSI também enviou informações a

respeito de organizações de esquerda subversivas. Após o AI-5, os grupos de esquerda, especialmente os que defendiam ações armadas, se multiplicaram. Na UFMG, grupos dissidentes de outras organizações surgiram e se tornaram uma das principais preocupações da ditadura. Além dos já atuantes POLOP e AP, destacaram-se na universidade mineira e na capital o grupo Corrente e o grupo Comando de Libertação Nacional (COLINA), que desencadearam ações armadas em Belo Horizonte e em outras cidades de Minas Gerais. Vários relatórios e investigações seriam realizados ao longo de 1969, buscando prender os principais líderes dessas organizações, que eram, em grande parte, estudantes universitários.38

O ano de 1969 foi marcado por um recrudescimento da repressão sobre a UFMG, assim como em todo o país. Dezenas de estudantes foram presos e somaram-se aos que já se encontravam encarcerados devido às manifestações de 1968.39As pressões para que os

estudantes fossem punidos se tornaram ainda mais intensas com a publicação do decreto nº 477. As atividades “subversivas” dos estudantes eram relatadas a todo o momento, indo desde convites de formatura subversivos, passando por jornais clandestinos, distribuição de panfletos, afixações de cartazes “ilegais” até manifestações no interior e fora das universidades, entre outras ações “subversivas”.40 Todas essas atividades passaram a ser

estritamente ilegais e passíveis de serem punidas pelo decreto nº 477.

No primeiro semestre de 1969, cinco alunos foram punidos pelo 477, sendo quatro deles líderes estudantis da FACE. Bhering buscou aplicar a lei e obedecer às diretrizes do regime, porém isso não adiantou muito como se verá adiante.41 Na Faculdade de Medicina,

estudantes pertencentes ao grupo Colina e Corrente foram expulsos, mas para isso não foi utilizado o decreto 477, e sim o regimento interno da instituição, que previa a expulsão quando se “perturbasse a ordem e ofendesse os bons costumes”.42

37 Arquivo AESI/UFMG: Caixa 7, maços 26 e 27.

38 Arquivo AESI/UFMG: Caixa 7, maço 28; Caixa 10, maço 31; Caixa 11, maços 1 a 10. 39 Arquivo AESI/UFMG: Caixa 7, maço 32.

40 Arquivo AESI/UFMG: Caixa 10, maços 3, 6 a 8, 15, 16, 18, 28, 32, 44, 48 e 50.

41 Arquivo AESI/UFMG: Caixa 10, maço 23; Arquivo do DOPS/MG, Pasta 00326B468, Rolo 20A, imagens 315, 354 e 356.

A DSI demandou informações em diversos momentos sobre a situação de professores na UFMG, muitos dos quais seriam punidos pelo AI-5. Entre os professores que a DSI buscava saber informações estavam Edgar de Godoi da Mata Machado, Sylvio de Vasconcellos e Sami Sirihal.43 Todos possuíam fichas nos órgãos de segurança e estavam

implicados em ações que não agradavam ao regime. Além disso, as chamadas “cassações brancas” continuaram a ocorrer. Em abril de 1969, a DSI enviou ofício ao reitor Boson, solicitando que dois professores fossem retirados da lista sêxtupla de escolha do novo diretor do Instituto de Ciências Biológicas (ICB). As justificativas dadas pela DSI eram devido ao fato de José Noronha Peres ter sido indiciado em IPM na 4ª RM e pelo fato de Waldemar Versiani desenvolver atividades subversivas desde 1949. O reitor, buscando contornar mais essa solicitação repressiva, respondeu a DSI dizendo que a escolha final cabia ao presidente da República e que ele não podia interferir na confecção da lista sêxtupla das faculdades.44

Um maior impacto repressivo contra os docentes, no entanto, ainda estava por vir.

Em abril de 1969, o professor da Faculdade de Direito, Edgar Godói da Mata Machado, foi aposentado. Machado foi o primeiro professor a ser atingido pelo ato. Em janeiro do mesmo ano, seu mandato de deputado federal já havia sido cassado e seus direitos políticos suspensos pelo AI-5. Nessa época, o professor era deputado federal pelo MDB e criticava a ditadura frequentemente. Além disso, seu filho, José Carlos Novaes da Mata Machado, era um conhecido líder estudantil, que fazia parte do grupo de esquerda armada Ação Popular Marxista-Leninista (APML).45 Visando esclarecer a situação dos indivíduos que

perderam os direitos políticos e eram funcionários públicos, o que incluía os docentes, foi decretado o AI-10, que ordenava a aposentadoria ou exoneração de todos os servidores públicos atingidos pelo AI-5.46

Em 15 de setembro, mais uma lista de docentes da UFMG cassados pelo AI-5 foi revelada.47 Os nomes eram: Amílcar Viana Martins, Celson Diniz Pereira, Eder Simões, Fábio

Lucas Gomes, Júlio Barbosa, Lourival Vilela Viana, Osório da Rocha Diniz, Rodolpho de Abreu Bhering, Rui de Souza, Sami Sirihal, Tarcísio Ferreira, Guido Antônio de Almeida e Sylvio Carvalho de Vasconcelos. Um mês depois, mais três nomes seriam publicados no Diário Oficial da União: o reitor Gerson Boson, o ex-reitor Aluísio Pimenta e Pedro Parafita

43 Arquivo AESI/UFMG: Caixa 10, maços 19, 29 e 40. 44 Arquivo AESI/UFMG: Caixa 10, maço 14.

45 SALOMON, Délcio et. al. UFMG: resistência e protesto. Belo Horizonte: Vega, 1979, p. 65-68; Arquivo AESI/UFMG: Caixa 11, maço 1.

46 MOTTA, Rodrigo Patto Sá. As universidades e o regime militar, p. 169. 47 MOTTA, Rodrigo Patto Sá. As universidades e o regime militar, p. 170.

de Bessa. A UFMG foi uma das instituições mais atingidas pelo AI-5, com dezessete docentes exonerados.

A lista dos professores cassados na UFMG revela que não necessariamente era preciso ter um passado comunista ou ligação com grupos de esquerda. Em outros casos, parece que a justificativa para a cassação foi justamente essa ligação. Os considerados incômodos ou inimigos dos regimes eram os que estavam ligados a grupos de esquerda ou tinham passado esquerdista, mas também eram os considerados coniventes com ações que desagradavam os militares. Algumas vezes uma mescla das duas situações foi o motivo da cassação.

O professor Mata Machado, que até 1964 havia sido político da UDN, foi cassado, provavelmente por sua atuação na oposição no Congresso Nacional. Quando ainda era político pela UDN, os órgãos de vigilância já desconfiavam de sua atuação como Secretário do Trabalho do governo de Magalhães Pinto.48 Porém, algumas informações do DOPS

revelam uma confusão dos agentes em classificar as pessoas “incômodas” para o regime. Na visão torpe dos agentes da repressão, o fato de o professor Edgar da Mata Machado possuir contatos com grupos católicos da UFMG foi motivo para que, em documentos do órgão repressivo, ele fosse classificado com uma das lideranças da AP.49

Amílcar Martins, o ex-reitor Aluísio Pimenta, Sami Sirihal, Sylvio Vasconcellos, Celson Diniz, Eder Simões, Guido Antônio de Almeida e Fábio Lucas Gomes eram acusados de pertencerem a grupos ou partidos de esquerda. Amilcar Martins é apresentado como tendo um passado de esquerda, tendo participado de comícios do Partido Comunista e da reunião que implantou o PCB em Minas Gerais, segundo o DOPS.50 Sylvio de Vasconcellos também

aparece como tendo passado comunista, apesar de negar em carta enviada ao comando do DOPS, como já mostrado no segundo capítulo51. Sami Sirihal e Eder Simões foram acusados

de serem ligados à AP.52Para Simões deve ter pesado o fato de ter sido preso no pós-golpe,

sendo indiciado em IPM, de haver sido uma liderança estudantil, tendo sido presidente do D.A da FAFI, e de ter organizado palestras para discutir as reformas de base do governo Jango.53 Guido Antônio de Almeida também aparece nos órgãos de repressão como militante

48 Arquivo do DOPS/MG, Pasta 0285, Rolo 019, imagens 16; Pasta 0113, Rolo 011, imagem 121.

49 Arquivo do DOPS/MG, Pasta 1254, Rolo 028, imagens 156; Entrevista com Edgar Godoi da Mata Machado. 50 Arquivo do DOPS/MG, Pasta 5486, Rolo 096, imagem 104.

51 Arquivo do DOPS/MG, Pasta 0470, Rolo 022, imagem 2 a 16. 52 Arquivo do DOPS/MG, Pasta 0011{2}, Rolo 001, imagem. 185.

53 Arquivo do DOPS/MG, Pasta 0269, Rolo 018, imagens 235, 282 e 437; Pasta 5489, Rolo 097, imagens 265 a 267; Pasta 0148, Rolo 012 e 014, imagens 12, 127, 128 e 141.

da AP e também havia sido preso em 1964.54 Celson Diniz, como também já foi mostrado, foi

preso após o golpe por seu envolvimento com o PCB e indiciado em IPM. Aluísio Pimenta era ligado ao antigo PTB e isso contou como um dos fatores de sua aposentadoria.55 As

informações sobre Fábio Lucas Gomes são escassas no DOPS/MG. O professor da área de literatura, cujo nome também apareceu na famosa caderneta da AP de Marilda Trancoso, era acusado pelo DOPS de ser um dos coordenadores gerais da POLOP na UFMG e de ter ligações com o intelectual marxista Teotônio dos Santos, que se encontrava exilado no Chile.56

Sylvio de Vasconcellos, Amílcar Martins e Aluísio Pimenta também são acusados de manterem diálogo com os estudantes ou de serem coniventes com suas ações. Como apontado, Martins chegou a mediar os diálogos dos estudantes com a polícia, quando aqueles ocuparam a Faculdade de Medicina em 1968. Em relação ao médico da UFMG, outro aspecto também contou para sua cassação. O docente era importante pesquisador da área de parasitologia e sempre esteve em contato com as populações mais pobres e marginalizadas do país. Sua atuação médica e seu senso crítico político pesaram para que ele fosse visto com desconfiança pelo regime. O próprio Amilcar Martins, ao refletir sobre sua cassação, levanta essa hipótese.57

Outro professor da lista, Júlio Barbosa, era considerado esquerdista e foi indiciado em IPM por “atividades comunistas”, apesar de nenhuma acusação de pertencimento a grupos políticos pesar contra ele. Provavelmente, o fato de Barbosa ter sido professor do Iseb em 1959 e ser o coordenador do conceituado Departamento de Ciências Políticas, que fez parte durante um tempo da “subversiva” FACE, foram alguns dos motivadores de sua cassação. A desconfiança com os acadêmicos da FACE sempre foi evidente.58 Rui de Souza foi outro

professor da FACE, transferido, após a reforma, para a Faculdade de Direito, que entrou na lista de cassados. Souza também era considerado esquerdista e havia sido indiciado em IPM em 1964, porém, assim como Barbosa, não era acusado de ter ligações com nenhum grupo ou organização de esquerda.59

54 Arquivo do DOPS/MG, Pasta 0315, Rolo 20B, imagem 126; Pasta 5291, Rolo 085, imagens 10 a 83. 55 Arquivo do DOPS/MG, Pasta 0011 {2}, Rolo 001, imagem 143.

56 Arquivo do DOPS/MG, Pasta 4021, Rolo 050, imagem 282; Pasta 2114, Rolo 036, imagens 2 a 9. 57 SALOMON, Délcio et. al. UFMG, p. 6

58 Arquivo do DOPS/MG, Pasta 0011 {2}, Rolo 001, imagem 223; Pasta 0012 {5}, Rolo 001, imagem 15; MOTTA, Rodrigo Patto Sá. As universidades e o regime militar, p. 387.

Parte da lista também pode ser considerada como um acerto de contas do general Guedes. Além de seu êmulo principal, o ex-reitor Aluísio Pimenta, entraram na lista de aposentados professores que também constavam na lista redigida pelo general em junho de 1964, como mostrado no capítulo 2. Celson Diniz, Edgar Godói da Mata Machado, Júlio Barbosa, Fábio Lucas Gomes e Rui de Souza - todos presentes na lista de Guedes - foram atingidos.

No caso de Osório da Rocha Diniz, professor da Faculdade de Engenharia60, o que

pesou em sua acusação, pelo menos no que consta em relação ao DOPS, foi a sua ligação com entidades nacionalistas ligadas ao PTB. Em 1948, Osório Diniz havia sido eleito presidente do “Centro Estadual de Estudos para Defesa do Petróleo e Economia Nacional”. Em 1961 também havia participado de conferência do economista Paulo Singer da USP, que também seria cassado pelo AI-5.61

Alguns professores, no entanto, não possuíam nenhuma ligação com grupos de esquerda e, no máximo, defendiam causas nacionalistas. O diretor da FAFI, Pedro Parafita de Bessa, foi cassado pelo AI-5 por defender a liberdade de expressão dos estudantes, apesar de não possuir nenhum passado ligado à esquerda. Em seus dois depoimentos no DOPS, em junho e outubro de 1968, ele se manteve bastante convicto em relação à importância da liberdade de expressão e defendeu o direito de manifestação dos estudantes. Em seu IPM, os policiais do DOPS o acusaram de ser conivente e permissivo em relação aos estudantes, o que certamente ajudou na decisão de cassá-lo.62 O mesmo ocorreu com o diretor da Faculdade de

Direito, Lourival Vilela63, com o diretor da FACE, Rodolpho de Abreu Bhering, e com o

reitor da UFMG na época, Gerson Boson64. As acusações contra eles foram as mesmas

apresentadas contra Pedro Parafita de Bessa. Por manifestar-se contra o indiciamento de professores, como Bessa e Bhering, e denunciar a violência e a quebra da autonomia universitária, Tarcísio Ferreira, também da FAFI, foi mais um professor cassado e aposentado pelo AI-5.

Com o objetivo de que os professores aposentados pelo AI-5 não conseguissem encontrar emprego no país, a ditadura baixou o Ato Complementar nº 75, em outubro de

60 Cabe lembrar que após a reforma universitária e a busca pela racionalização dos recursos na UFMG, o regime departamental foi instalado e muitos professores foram remanejados para suas específicas escolas e faculdades. 61 Arquivo do DOPS/MG, Pasta 5486, Rolo 096, doc 61, 66, 76, 95 e 97.

62 Arquivo do DOPS/MG, Pasta 0033, Rolo 004, imagens 367 a 369 e 399 a 402. 63 Arquivo do DOPS/MG, Pasta 0034, Rolo 004, imagens 290 a 294.

1969. O AC-75 impedia que instituições públicas ou privadas beneficiadas por subvenções do Estado empregassem “professores atingidos pelos atos institucionais. A intenção era evitar o que ocorreu em 1964, quando docentes demitidos retomaram suas carreiras em outras universidades.”65 Isso fez com que alguns professores da UFMG cassados pelo AI-5 optassem

pelo exílio, como foi o caso de Aluísio Pimenta, Sylvio Vasconcellos e Amílcar Martins, entre outros.

Antes de encerrar a análise das cassações efetuadas, cabe relembrar o relevante papel que teve a Comissão de Investigação Sumária do MEC (CISMEC), citada no capítulo anterior, no processo de cassações dos docentes. A CISMEC foi a principal responsável por reunir dados sobre os professores considerados subversivos. A comissão reuniu informações de variados órgãos de informação e repressão, como o DOPS, o SNI e agências das Forças Armadas, e as enviou para a consideração do presidente-ditador Costa e Silva e, após sua saída, para a Junta Militar. Segundo Motta, professores de diferentes universidades foram poupados e tirados da lista de expurgos. Alguns foram cortados das listas e postos novamente após o afastamento de Costa e Silva, que parecia já estar satisfeito com os expurgos do primeiro semestre de 1969. No caso da UFMG, o reitor Boson e outros professores estavam entre os que seriam poupados e acabaram sendo cassados. As negociações políticas e os contatos pessoais não tiveram efeito para esse grupo de docentes após a saída de Costa e Silva do poder. O pesquisador, no entanto, aponta o caso de Cássio Mendonça Pinto, o professor que havia sido impedido de assumir a direção da Escola de Engenharia em 1964. Segundo consta nas fichas da Cismec, o nome de Pinto estava entre os que seriam cassados, mas que, por algum motivo, foi retirado.66

Após as cassações na UFMG, que ocorreram no segundo semestre de 1969, não ocorreram mais expurgos na universidade, a não ser algumas iniciativas isoladas. Apesar disso, a sensação de insegurança e de perseguição foi instaurada na instituição, para satisfação do regime. Com o AI-5, a ditadura militar brasileira entrava em seu momento mais sombrio e a “longa noite” duraria dez anos.

65 MOTTA, Rodrigo Patto Sá. As universidades e o regime militar, p. 173.

Belgede [Tiad], 2020, 4 (2): (sayfa 21-26)

Benzer Belgeler