C. Birime İlişkin Bilgiler
2. Teşkilat Şeması
No final da década de 1970, surgiu no exterior a chamada “Reforma Psiquiátrica” como movimento que tentava dar ao problema da loucura uma outra resposta social, não asilar, a fim de evitar a internação como único destino e reduzi-la a um recurso eventualmente necessário. No Brasil, a referida expressão surgiu associada ao movimento de democratização e cidadania que se consolidou na segunda metade da década de 1980 (TENÓRIO, 2002).
Vale ressaltar, que desde a década de 60 insurreições contra o modelo asilar/manicomial já vinham acontecendo de forma isolada, em algumas cidades brasileiras, como mostram os estudos de Goullart (2010c), em particular, na análise do documentário “Em nome da razão”, de Helvécio Ratton. Segundo a referida autora, o documentário gerou um clima de distensão e uma atitude crítica em relação à situação da assistência psiquiátrica, pública e privada em Minas Gerais.
Em verdade, entre as décadas de 1970 e 1990 começou a surgir no Brasil um projeto reformista mais organizado do ponto de vista formal, cuja organização contou comas investidas do Movimento Brasileiro de Reforma Psiquiátrica, que possuía características socialistas e democráticas. Este movimento precedeu o movimento da Reforma Sanitária, mas ele só conseguiu ser operacionalizado depois dos avanços desta (AMARANTE, 1998a; SAMPAIO; BARROSO et al, 2001a; GOULART, 2008a; SILVA, 2011).
A prática de internação dos sujeitos com transtornos mentais em “instituições totais” (hospícios, asilos, hospitais, manicômios) carrega desde sua origem a marca perversa da exclusão social. Tal prática passou a ser posta em xeque no Brasil, principalmente, a partir da década de 70, quando começou a ser organizado no Brasil o já citado Movimento de Reforma Psiquiátrica, que contou com a participação inicial de profissionais da área da saúde mental, dos pacientes e seus familiares. Este movimento ganhou força com os avanços da Reforma Sanitária que foram reconhecidos pela Constituição de 1988 e reforçados pela Lei n° 8.080, de 1990, do Sistema Único de Saúde (SUS) (MACHADO, 2005).
Em 1976 foi criado na cidade de São Paulo, o “Centro Brasileiro de Estudos de Saúde” (CEBES). Esse Centro objetivava favorecer a democratização da saúde, bem como da sociedade brasileira. Para tanto, foram desenvolvidos novos estudos com o intuito de
reorientar do ponto de vista teórico e prático a assistência em saúde mental e fortalecer o projeto da criação do SUS (TONNI, 2005).
Nesta mesma perspectiva, foi fundado o “Instituto Sedes Sapientiae”, também, em São Paulo, em 1977. Este, por sua vez, visava criar um espaço favorável ao intercâmbio de pensamentos e experiências, com ênfase na defesa dos direitos humanos e da liberdade de expressão (MATIAS, 2006).
O médico Franco Basaglia, precursor e militante da reforma psiquiátrica italiana esteve no Brasil, entre os dias 19 e 22 de outubro de 1978, no Rio de Janeiro, participando do Simpósio Internacional de Psicanálise. Na ocasião, o referido médico apresentou aos brasileiros a possibilidade de transformação das instituições psiquiátricas. Nesse mesmo ano, os empreendimentos do movimento pela Reforma Psiquiátrica impulsionaram a criação do Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental (GOULART, 2008a; AMARANTE, 2006b).
Vale ressaltar que o referido Movimento foi organizado em diversos núcleos regionais, na tentativa de buscar estabelecer um diálogo, uma parceria com a sociedade na avaliação e transformação da real situação das instituições psiquiátricas brasileiras. Para tanto, houve a realização sistemática de eventos regionais e estaduais, buscando discutir o papel que o trabalhador em saúde mental deveria desempenhar para a superação do modelo hospitalocêntrico (DALMOLIN, 2000).
Goulart (2008a) assinala que Basaglia voltou novamente ao Brasil para participar de outros eventos, em 1979. Esta autora destaca a participação dele no “III Congresso Mineiro de Psiquiatria”, realizado no final do aludido ano. Ela informa que durante esse evento, o presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria questionou os apontamentos de Basaglia, alegando que não se podia mudar a sociedade a partir da prática psiquiátrica, e a resposta do militante foi simples como um verso: “Viva a onipotência!”, registra a referida autora.
No III Congresso Mineiro de Psiquiatria já mencionado, também, foi possível ser conhecido e denunciado o cotidiano do Hospital Colônia de Barbacena-MG, através do lançamento do documentário “Em nome da razão”, de Helvécio Ratton, que retrata a tragédia vivida pelos milhares de internos do referido Hospital. Este documentário representou um marco da luta e da reforma política de saúde mental no Brasil, pois desencadeou muitas discussões e mobilização da opinião pública relativa à necessidade de urgente transformação, em meados de 1979 (GOULART, 2010c).
Sob o ponto de vista crítico de Goulart (2008a), o modelo da Psiquiatria Democrática apresentado no Brasil por Franco Basaglia gerou um sentimento de esperança para os brasileiros que estavam renascendo das cinzas da ditadura militar, com seus movimentos sociais, sindicais, seus partidos políticos, com a necessidade de livre expressão. Basaglia e tantos outros personagens que também vocalizaram o pensamento crítico nos anos de 1970 no Brasil possibilitaram uma maior articulação interna entre o campo técnico, político e social da saúde mental brasileira.
O ano de 1979 também foi marcado pela realização do I Congresso Nacional de Trabalhadores em Saúde Mental, em São Paulo. Na pauta desse evento foi discutida a falta de uma política nacional mais ampla e quais medidas os profissionais da área da saúde mental deveriam tomar para a transformação do quadro assistencial e das condições de trabalho (DALMOLIN, 2000).
Goulart (2008a) tem registrado que talvez a primeira resposta estatal de promessa pública de desativação de todos os hospitais psiquiátricos e da humanização do tratamento até 1980 tenha sido feita publicamente em novembro de 1979, pelo Secretário de Saúde de Minas Gerais (Eduardo Levindo Coelho, à época). A referida autora afirma ter sido esta uma promessa de mera retórica que resultou apenas na reforma e manutenção dos hospitais públicos, à época.
Segundo Paulo Amarante (1996c), o recorte temporal entre 1978 e 1980 foi marcado por momentos de profundas críticas ao modelo psiquiátrico vigente e ao Regime Militar. Além disso, foi precisamente nesse período que se iniciou a operacionalização mais intensa do movimento pela Reforma Psiquiátrica, que contribuiu com o processo de democratização sanitária ao alargar as discussões sobre as questões técnica, política e social da saúde mental.
Ao tempo em que surgia o movimento preliminar da reforma psiquiátrica no mundo e no Brasil, a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) manifestava-se contrária a essa noção reformista, chegando a fazer reivindicações oficiais pelo aumento do número de leitos psiquiátricos, por uma política pública com recursos mais direcionados para essa proposta de ampliação dos leitos existente, à época.
Em 1986 aconteceu a VIII Conferência Nacional de Saúde, em Brasília. Este evento marcou a história do Movimento da Reforma Sanitária e da Saúde do Brasil, pois o mesmo acabou servindo para reorientar o modelo da atenção à saúde dessa época e contribuir com o processo de aprovação da política do SUS. Todas as conferências anteriores a esta sobre saúde foram caracterizadas como eventos mais fechados, pois
contaram com a participação quase que exclusiva de profissionais e representantes do campo administrativo. Deste modo, podemos ressaltar que a VIII Conferência rompeu com as participações fechadas, sendo esta mais consultiva e aberta à participação social, contando com a representação de diversos segmentos da sociedade civil. No final dos debates foi reiterada a ideia de termos uma “Nova Saúde Pública” para maior consolidação da Reforma Sanitária (BRASIL, 1987b).
No entendimento de Amarante (2003d), a VIII Conferência Nacional de Saúde impulsionou a concepção de saúde, com ênfase nos princípios da universalização do acesso à saúde, da descentralização e da democratização. Diante disso, o Estado passou a incentivar a criação de novas políticas de bem-estar social. Após a referida Conferência foi sendo realizados outros eventos direcionados para temas particulares e emergentes relacionados à temática da saúde do trabalhador, saúde da mulher, saúde da pessoa idosa, saúde da criança, recursos humanos em saúde e saúde dos sujeitos com transtornos mentais. Todavia, no caso específico das Conferências sobre saúde mental surgiu uma série de oposições e resistências, porque os representantes deste setor do Ministério da Saúde resistiam ao processo de democratização sanitária da saúde mental no País, o que dificultou a ocorrência de mudanças imediatas no campo da saúde mental brasileira. Tal fato lembra uma passagem da pesquisa de Borges (2009, p.28) em que ela mostra o quanto a questão dos “[...] ‘anormais, também era um obstáculo para Damião” na luta por justiça.
Amarante (2003d) ainda ressalta que apesar da falta de incentivo e apoio ministerial, os movimentos em defesa da reforma psiquiátrica convocaram conferências autônomas a nível regional, estadual e municipal, a fim de levar os representantes ministeriais a escutar os seus anseios de vocalização pública em ação e movimento, à época. Um exemplo dessa iniciativa foi a realização da I Conferência Estadual de Saúde Mental, realizada em março de 1987, no Rio de Janeiro. Na ocasião, foram reunidos trabalhadores em saúde mental, usuários, familiares e representantes da sociedade civil, que juntos discutiram três temas centrais: a) Economia, Sociedade e Estado: impactos sobre a doença mental; b) Reforma Sanitária e reorganização da assistência à saúde mental; e c) Direitos, deveres e legislação do doente mental. Por conta da persistência das Conferências estaduais e municipais várias outras foram sendo organizadas por iniciativa locais, em diversas cidades brasileiras, mas sem nenhuma participação e apoio do Ministério da Saúde.
Tais temas surgiram apoiados no projeto reformista da saúde mental brasileira, que passou a ter entre suas finalidades: a busca pela consolidação de uma atenção psicossocial mais integrada, centrada no sistema extra-hospitalar de cuidados e na
interdisciplinaridade dos serviços e dos programas. De modo a reconhecer a cidadania, a singularidade e os direitos do sujeito com transtorno mental na esfera pública.
Além disso, em 1987 foi realizado o II Encontro dos Trabalhadores em Saúde Mental, em Bauru-SP, que tinha como lema: “Por uma Sociedade Sem Manicômios!”. Este Encontro ficou conhecido também como Congresso de Bauru por ter sido sediado na referida cidade. Nasceu nesse Congresso a ideia de criação do Movimento Nacional da Luta Antimanicomial, que foi oficialmente formalizado e reconhecido, em 1993.
O Movimento Nacional da Luta Antimanicomial surgiu já exigindo mudanças práticas como a substituição dos Hospícios por outras instituições assistenciais, capazes de garantir a dignidade e a liberdade dos Usuários, com base nos direitos de Cidadania. Ao lado dessas exigências práticas caminhavam também as iniciativas políticas de Projetos Legislativos atualizadores da Legislação em vigor, à época, bem como as novas experiências assistenciais, que procuravam criar um novo modelo de atenção à Saúde Mental brasileira (informações encontradas em diferentes textos disponíveis no Instituto Damião Ximenes).
Deste modo, o referido começou a despertar uma nova consciência nos profissionais, que passaram a exigir uma ampliação da luta técnica, até então, realizada por eles dentro das instituições onde desenvolviam suas funções. A intenção era expandir essa luta técnica para os campos políticos, ideológico e cultural, a fim de enfrentar o fortíssimo poderio econômico dos Empresários da Loucura, que constituíam a Federação Brasileira dos Hospitais (FBH), cujos interesses dominavam as instâncias políticas governamentais, responsáveis pela destinação dos recursos públicos disponíveis para o financiamento da Saúde Mental brasileira (informações encontradas em diferentes textos disponíveis no Instituto Damião Ximenes).
As investidas dos movimentos sociais em defesa da Reforma Psiquiátrica ao longo do tem vem gerando intervenções na assistência psiquiátrica oferecida aos sujeitos com transtorno mental no Brasil, cujo principal dispositivo dessa assistência era até pouco tempo o Manicômio. Este, por sua vez, constituía-se como uma instituição problema. Idealizado como solução para o relacionamento da sociedade com o sujeito que enfrenta algum transtorno mental no curso da vida. O manicômio trata-se de uma “instituição total” que desde a sua origem sempre figurou como um espaço de violência (um campo de concentração manicomial) e arbitrariedade sobre a clientela que se diz institucionalmente “tratar” (exclusão inclusiva). Por conta desta assistência psiquiátrica fracassada, a crítica dos movimentos sociais aos efeitos negativos do manicômio tem questionado, em particular, a prática Psiquiatria dos últimos anos. Inclusive, sistematicamente, os setores profissionais,
governamentais e sócio-comunitários, vêm manifestando-se sobre os efeitos nocivos das práticas asilares/manicomiais (informações encontradas em diferentes textos disponíveis no Instituto Damião Ximenes).
Vale ressaltar que com a criação do Movimento Nacional da Luta Antimanicomial surgiu também a necessidade de termos um dia no calendário brasileiro em que pudéssemos rememorar essa Luta e desenvolver diversas atividades políticas, culturais e científicas. Para tanto, elegeram nos encontros realizados em Bauru-SP, o dia 18 de maio como a data de comemoração do Dia da Luta Antimanicomial no Brasil. A escolha específica desse dia não encontra justificativa, senão a de que este era um dia “livre” no calendário, o qual foi reivindicado para sustentar as bandeiras desse movimento. A inclusão dessa data comemorativa no calendário nacional foi oficialmente reconhecida OMS, que faz parte da ONU com sede em Genebra (informações encontradas em diferentes textos disponíveis no Instituto Damião Ximenes).
Com o II Encontro dos Trabalhadores em Saúde Mental tivemos uma ampliação discussão sobre a mudança de conceitos no campo da saúde mental. Tal fato aponta para a transição de um movimento pela Reforma Psiquiátrica baseado na assistência sanitária para um movimento mais preocupado com a mudança do aparato cultural já discutida desde a década de 60. O que representa os efeitos de uma verdadeira luta pela hegemonia entre visões teórico-técnicas, ideológicas, culturais e éticas ao longo dos tempos, que se expressam já em uma práxis na qual é possível visualizar uma transição paradigmática, do Paradigma Psiquiátrico Hospitalocêntrico Medicalizador (PPHM) para o Paradigma Psicossocial (PPS), onde misturou-se a clínica com a família, a comunicação e interação social, no qual a noção de saúde mental foi sendo associada a noção de cidadania, a ideia de garantia de direitos, pois durante muito tempo o paciente psiquiátrico foi considerado um sujeitos desconstituído de direitos, um não sujeito. Este processo de transição representa uma verdadeira ruptura e radicalização do tratamento psiquiátrico (DEVERA E COSTA-ROSA, 2001).
Nesta perspectiva, foi realizada a I Conferência Nacional de Saúde Mental (CNSM), em 1987, na cidade do Rio de Janeiro. Na ocasião, foi ressaltado o quanto o modelo assistencial psiquiátrico vigente (à época) resistia às inovações, sendo retrógrado para o país. O enfrentamento das questões postas na referida Conferência envolvia a desconstrução da dimensão cultural, técnica, política e ideológica da loucura, para que a reformulação do modelo de assistência em saúde mental e consequente reorganização dos serviços, privilegiando o atendimento extra-hospitalar e as equipes multiprofissionais
levassem em consideração os direitos de cidadania e da legislação relativa ao sujeito com transtorno mental (BRASIL, 1987b).
Na Conferência supracitada também definiu-se a bandeira que inspiraria os vindouros movimentos sociais e projetos legislativos em defesa da Reforma Psiquiátrica, por
[...] um horizonte de ação: não apenas as macrorreformas, mas a preocupação com o ato de saúde, que envolve profissional e cliente, não apenas as instituições psiquiátricas, mas a cultura, o cotidiano, as mentalidades. E incorpora novos aliados, que, seja na relação direta com os cuidadores, seja através de suas organizações, passam a ser verdadeiros agentes do processo (TENÓRIO, 2002, p.11).
Dentro desse novo horizonte herdeiro da década de 60, a liberdade aparece como condição para o tratamento em saúde mental como ressaltava Basaglia nos eventos que chegara a participar no Brasil. Já sabemos que seu modelo de uma “psiquiatria democrática” gerou um sentimento de esperança nos brasileiros, que aos pouco foram percebendo que era possível tratar os sujeitos com transtorno mental sem cair nas armadilhas da exclusão social e do confinamento, o que não afasta de forma definitiva, a possibilidade de temos o surgimento de um novo tipo de banimento social destes sujeitos, não mais por demonização ou exclusão do convívio social, mas por respeito à lei (quando aplicada desaplicando-se) e à evocação pública da “exceção soberana” (AGAMBEN, 2004a).
A nova perspectiva reformista somada às denúncias de violação dos direitos humanos em hospitais psiquiátricos paulistas contribuiu para a criação do primeiro Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) do Brasil, em São Paulo, em 1987. A instituição surgiu vinculada à Secretaria de Saúde do Estado e ganhou o nome de CAPS Professor Luiz da Rocha Cerqueira. Trata-se de uma homenagem ao professor Luiz Cerqueira, que foi um dos grandes militantes do Movimento Brasileiro de Reforma Psiquiátrica em seus primeiros anos de ação. A referida instituição também é conhecida como CAPS da Rua Itapeva (BARROS, 2008).
A primeira iniciativa estatal de efetiva desativação dos hospitais psiquiátricos e da humanização ocorreu em Santos, Estado de São Paulo, já nos idos de 1989. Nesse ano foi realizada a implantação do projeto piloto de uma Rede de Atendimento Atimanicomial, com tratamento fora dos hospícios. Tudo começou quando a Secretaria da Saúde do município de Santos fechou a Casa de Saúde Anchieta, em 3 de maio do referido ano.
Em entrevista, Amarante assinala que a Casa de Saúde Anchieta era uma instituição particular conveniada ao antigo Instituto Nacional de Assistência Médica da
Previdência Social (INAMPS), possuía 40 anos de existência e quase 700 internos. O motivo do seu fechamento estava relacionado às diversas denúncias e verificação de óbitos de internos (alguns morriam devido à violência, à desnutrição, às doenças infecto- contagiosa, ao abandono e ao descaso). Nesse campo todos eram pessoas exposta à morte. Depois da intervenção na referida Casa foi impulsionada a criação dos Núcleos de Atenção Psicossocial (NAPSs) e os Centros de Atenção Psicossocial (CAPs), servindo de modelo para o restante do País. Com a estruturação destes novos serviços, a prestação do atendimento assistencial ficou mais humanizada, funcionando 24 horas por dia com apoio para pacientes e seus familiares, em bases territoriais, sem foco na internação (RADIS, 2005).
O município de Santos, Estado de São Paulo foi a primeira cidade a fechar de fato seu hospital psiquiátrico, mostrando para o país inteiro como tratar os loucos e suas famílias sem internação. A experiência possibilitou o avanço da criação dos NAPSs, CAPs e projetos como da Rádio e da TV TamTam, produzidas por ex-internos da Casa de Saúde Anchieta, e a República Manequinho (local para acolhimento de ex-internos sem casa ou família), em homenagem ao seu primeiro morador (RADIS, 2005).
A regulamentar criação dos equipamentos terapêuticos substitutivos do hospital psiquiátrico, tais como: os CAPS, NAPS, lares abrigados, repúblicas, hospitais-dia e tantos outros instrumentos foi oficializada a partir dos anos 90 (Portarias do Ministério da Saúde: n°189/1991, n°224/1992, n°106 e n°1.220/2000), mesmo já existindo projetos pilotos sendo executados desde os anos 80, por exemplo, a criação do primeiro CAPS e NAPS paulista referenciados anteriormente (SANTOS et al, 2000b).
A Legislação Psiquiátrica Brasileira vigente na época da intervenção na Casa de Saúde Anchieta e da criação do primeiro CAPS e NAPS paulista baseava-se no Decreto Lei n° 24.599, de 03 de julho de 1934, que tratava sobre a profilaxia mental, à pessoa e aos bens dos psicopatas, à fiscalização dos serviços psiquiátricos e dá outras providências. Esta, por sua vez, segundo Paulo Delgado,
“era uma legislação defasada e antiquada, pois ela dava direito a qualquer pessoa interditar uma outra acusada de ser doente mental, essa Lei era um instrumento de muito abuso no Brasil. Se internava qualquer pessoa que lhe incomodasse, sendo esta doente mental ou não. [...] havia internações por conta de conflitos familiares, briga de namorados e de marido e mulher, problema de herança etc. (SAÚDE MENTAL E DIGNIDADE HUMANA, 2013).
A partir das ações empreendidas na I Conferência Nacional de Saúde Mental, no II Congresso Nacional dos Trabalhadores de Saúde Mental, na intervenção na Casa de
Saúde Anchieta e nas experiências locais espalhadas por algumas cidades brasileiras, o Movimento Brasileiro de Reforma Psiquiátrica passou a ter uma maior visibilidade, fortalecendo os anseios coletivos pela mudança da Lei n° 24.599, de 03 de julho de 1934, que legitimava abusos (biopoder que politizava a vida nua) em todo país.