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O processo de desregulamentação do setor sucroalcooleiro e o fim do Proálcool, em 1990, foram caracterizados pelo corte de financiamentos governamentais diretos ao PNA e pela liberdade de adoção de preços e estoques pelos produtores.

Esta nova postura do governo foi assumida ante uma tendência mundial de adoção de um modelo neoliberal de minimização do papel do Estado, que passou a ter um papel mais normativo e regulador.

Com a promulgação da Constituição de 1988 o processo de desregulamentação da economia foi intensificado para o setor privado, mas o caráter regulador se manteve para o setor público:

“Art. 174. Como agente normativo e regulador da atividade econômica, o Estado exercerá, na forma da lei, as funções de fiscalização, incentivo e planejamento, sendo este determinante para o setor público e indicativo para o setor privado”.87

84 A. L. Barbosa, Propriedade e Quase-Propriedade, 60, considera que “reunindo todos esses

campos em que se exclui a patenteabilidade, o Brasil é o país que possui maior número de exclusão, mas está sozinho somente em um caso – o químico-farmacêutico”.

85 E. Assumpção, Patente de Química, 6.

86 Barbosa, Propriedade e Quase-Propriedade, 60. 87 Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.

No que se refere à ciência e tecnologia, a Constituição de 1988, em seu capítulo V, art.218 prevê que: “O Estado promoverá e incentivará o desenvolvimento científico, a pesquisa e a capacitação tecnológicas”.

Com esta definição, o Estado participaria do processo – promovendo e incentivando a área - através do Ministério da Ciência e Tecnologia.

Este ato governamental foi saudado pela comunidade científica nacional “como a consagração dos velhos ideais de que a ciência deveria se colocar nos níveis decisórios mais altos do país”88, uma vez que este tinha sido um

compromisso do Presidente Tancredo Neves.

No entanto, da promulgação da Constituição de 1988 até o Governo Itamar Franco, de 1992 a 1995, as “promessas” não foram cumpridas, em função de uma falta de conexão entre a área de ciência e tecnologia e a área econômica, além de um ambiente inflacionário e da escassez de recursos governamentais para pesquisa científica e tecnológica. 89

A experiência de planejamento governamental integrado somente foi retomada com o Governo Fernando Henrique Cardoso, através do projeto “Brasil 2020”, elaborado em 1998, e que contou com a participação de representantes de segmentos organizados da sociedade, acadêmicos, partidos políticos, entre outros.

Definiu-se, então, o Programa Avança Brasil - com o Plano Plurianual - PPA 2000-2003 e a aprovação dos Fundos Setoriais e da própria reestruturação do MCT.

Os fundos setoriais foram uma forma de driblar a crise econômica de 1998, uma vez que ocorreram cortes drásticos na área de ciência e tecnologia, mas, o impacto desses esforços não foi significativo, já que seus recursos financeiros foram contingenciados pelo governo.90

Frente a este contexto histórico da relação planejamento governamental e política científica e tecnológica, cabe voltarmos à questão da desregulamentação propriamente dita do setor sucroalcooleiro e a extinção do Proálcool, ambas ocorridas nos anos 1990.

88 S. Schwartzman, “Ciência e Tecnologia,”4. 89 Ibid.

Com o intuito de realizar reformas quanto ao papel do Estado na economia, o Governo Collor de Mello extinguiu várias entidades da Administração Federal91, entre elas, o IAA.92

A reforma administrativa realizada nos anos 1990 tinha como pressuposto o ajuste de caráter liberal, com corte de gastos públicos, diminuição do Estado, desregulamentação da economia e abertura para o capital estrangeiro, privatizações, entre outros. 93

Particularmente no setor sucroalcooleiro, a desregulamentação fez-se sentir no ambiente institucional, na fixação de preços dos insumos e produtos desta cadeia e nas suas formas de comercialização; nos controles de produção e planejamento de safra definidos pelo governo. E, finalmente, nas políticas de sustentação do álcool combustível e da cana-de-açúcar.94

A liberação de preços do setor sucroalcooleiro se deu em meio a uma série de adiamentos, devido às dificuldades para equilibrar as questões econômicas, ambientais e sociais envolvidas.

Do ponto de vista econômico, as pressões vieram dos diversos segmentos envolvidos, seja daqueles que apoiaram a liberação econômica – normalmente os produtores mais eficientes, dispostos a enfrentar as regras de livre mercado -, seja daqueles que queriam a manutenção do sistema então vigente.95

Estas pressões, no entanto, partiram daqueles que tinham sido beneficiados durante muito tempo com as políticas governamentais. Talvez seja interessante ter, também, uma visão mais crítica da situação.

91 Decreto n° 99.240, de 7 de maio de 1990.

92 O controle e planejamento da cadeia produtiva ficaram a cargo da Secretaria de

Desenvolvimento Regional da Presidência da República e, em seguida, com o Conselho Interministerial do Álcool (CIMA).

93 De acordo com G. Mantega, em “Modelo Econômico Brasileiro”, 6-9: “Esses princípios

básicos do novo receituário [do ideário liberal] podem ser traduzidos nos “dez mandamentos” liberais para países emergentes, quais seja: 1) disciplina fiscal; 2) ajuste fiscal priorizando o corte de despesas; 3) reforma tributária; 4) liberalização financeira; 5) taxas de câmbio realistas mas admitindo o seu uso como âncora para combater a inflação; 6) abertura comercial; 7) eliminação de restrições ao investimento direto estrangeiro; 8) privatização; 9) desregulamentação; 10) o respeito aos direitos de propriedade intelectual”. No entanto, a despeito das pressões que o FMI e a comunidade financeira internacional faziam sobre o Brasil, havia a clara determinação da tecnoburocracia civil e militar brasileira de manter um Estado forte, com grande capacidade de interferência na esfera econômica e grande controle dos fluxos comerciais e financeiros do país.

94 Moraes, Desregulamentação do Setor Sucroalcooleiro, 85. 95 Ibid., 89.

Podemos apontar estudo realizado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócioeconômicos - DIEESE, que considerou que “mesmo com o caráter liberal do governo eleito em 89, assim como os que o sucederam ao longo da década de 90, várias foram as iniciativas que beneficiavam os usineiros” 96. Seja por manutenção de subsídios do açúcar e do álcool, seja

pela liberação de linhas de crédito para o setor.

Ou uma visão de “dentro” do governo, de um relatório do Ministério da Indústria e Comércio ao Presidente Geisel, em 1975, que revela, pelo menos por parte dos integrantes do aparelho estatal, sugestão de extinguir o monopólio estatal de exportação do açúcar, quando as condições do mercado internacional do produto se tornassem mais favoráveis à adoção dessa medida, bem como uma crítica ao excessivo paternalismo imprimido pelo governo quanto ao setor:

“Numa primeira etapa, transferir-se-ia para os próprios empresários os principais encargos da exportação do produto, inclusive a sua movimentação física até os navios, ficando o Governo, obviamente, com a responsabilidade pela cobertura da respectiva gravosidade, até que os preços internacionais a façam desaparecer.

[...] A continuidade da execução das medidas aprovadas para o programa de Saneamento Econômico-Financeiro dos Produtores de Açúcar e Álcool de Alagoas, Pernambuco e Rio de Janeiro, é também de fundamental importância, pela repercussão que certamente terá no recondicionamento da atitude da maioria dos empresários do setor em relação aos seus próprios problemas, habituados que estão a elevado grau de paternalismo oficial, um dos males que produzem distorções no setor, resultante de um longo período de intervenção estatal, que já está a exigir ação corretiva”.97

Habituados ao tratamento concedido ao setor pelos diversos governos, a desregulamentação do setor sucroalcooleiro criou a necessidade de

96 Dieese, “Estudo de Caso IV – Setor Sucroalcooleiro,” 21

97 CPDOC, Arquivos Pessoais - Ernesto Geisel, Documento “O Ministério da Indústria e do

fortalecimento de órgãos privados, tais como a União da Agroindústria Canavieira de São Paulo - ÚNICA e a Usinas e Destilarias do Oeste Paulista - UDOP, que viabilizassem “a unificação do trabalho institucional, fortalecendo e permitindo esta nova forma de interlocução com o governo e a sociedade”.98

Com um mercado mais concorrencial no setor agroindustrial canavieiro, a partir dos anos 1990, além de entidades de classe para representação de interesses do setor, diferentes estratégias tiveram de ser adotadas pelas usinas e destilarias, como a geração e transferência de tecnologia para a cana e seus derivados e tecnologias relacionadas à conservação do meio ambiente, principalmente pela exigência do mercado internacional.99

As pesquisas de novas variedades de cana e de novos equipamentos agrícolas ficaram por conta da Cooperativa dos Produtores de Cana de Açúcar e Álcool do Estado de São Paulo - Copersucar e de algumas universidades associadas a usinas, conforme veremos pelas patentes de invenção concedidas no período, em nosso Capítulo 3.100

Entre as tecnologias desenvolvidas a partir dos anos 1990 podem ser citadas: mecanização e corte da cana crua, novas técnicas de irrigação, adoção de inovações nos sistemas logísticos para a transferência da cana-de- açúcar do campo para a usina, automação no controle de processos de produção industrial de açúcar e álcool, e, diversificação produtiva da base tecnológica industrial para o melhor aproveitamento de subprodutos da cana, como o bagaço para co-geração de energia101, cujos detalhes constam de nosso Capítulo 2.

De 1995 a 2000, na denominada Fase de Redefinição do Proálcool, os mercados de álcool combustível – anidro e hidratado – foram liberados em todas as suas fases de produção, distribuição e revenda, e seus preços determinados pelas condições de demanda e oferta. O período foi caracterizado pela normalização do abastecimento de etanol e seu preço ficou estabilizado a um nível baixo, cerca de 50% do preço da gasolina.102

98 C. E. F. Vian & K. Corrente, “Meios de Difusão,” 99.

99 A. D. Santiago et al, “Produtividade e a Produção Agrícola,” 2. 100 A. A. Teixeira, “Reestruturação Produtiva,” 68.

101 Santiago et al, “Produtividade e a Produção Agrícola,” 3. 102 Joseph Jr, “Do Proálcool ao Flex Fuel,” 28.

Com a assinatura do Protocolo de Kyoto, em 1999, passou-se a valorizar os combustíveis renováveis e as vantagens advindas da utilização do etanol, uma vez que o desperdício de energia é considerado “o grande vilão na questão do meio ambiente”.103

Em 2003, iniciou-se uma outra etapa da participação do álcool como carburante, com a introdução dos modelos biocombustível flex-fuel. A aprovação do consumidor a este tipo de veículo deu um novo impulso ao etanol.

Já a questão da propriedade industrial foi motivo de grande celeuma interna e externa. O projeto de lei encaminhado ao Poder Legislativo pelo então Presidente Collor continha tópicos controversos como o reconhecimento das patentes de processos e produtos farmacêuticos104, de química fina e de alimentos processados, além de questões relativas à biotecnologia105. Segundo M. H. Costa-Couto e A. C. Nascimento:

“em 1996, o Governo Federal utiliza sua maioria parlamentar e aprova uma nova Lei de Patentes para o Brasil, sob protesto de parte da comunidade científica e de dirigentes das instituições ligadas à ciência e tecnologia. Esses segmentos exigiam mais tempo para o debate e maior proteção aos interesses nacionais, a exemplo de outros países”.106

103 Instituto Ethos, “José Goldemberg Aposta no Etanol”.

104 Um exemplo fornecido por M. San Juan França em “Ciência em Tempos de Aids: uma

Análise da Resposta Pioneira de São Paulo à Epidemia,” 14-15, refere-se ao “domínio no mercado de medicamentos [que] foi reforçado pela incorporação do Acordo Trips (Trade Related Aspects of Intellectual Property Rights) no ordenamento jurídico dos países membros da OMC, que regulamenta a gestão dos direitos de propriedade intelectual de produtos e processos farmacêuticos como matérias patenteáveis. No caso do Brasil, ao tornar-se signatário do Acordo Trips, em 1994, o país teve de submeter-se a essas regras restritivas [por exemplo, a patente de empresas multinacionais sobre uma combinação de medicamentos capazes de bloquear a multiplicação do vírus, conhecidos pela sigla HAART (highly active anti-retroviral therapy)]. Ainda assim, o Far-Manguinhos, da Fiocruz, conseguiu fabricar sete remédios utilizados contra Aids, antes que fosse proibido pela lei de patentes que entrou em vigor em 1997”.

105 Na legislação atual, Lei Federal n° 9.279, de 14 de maio de 1996 em seu Art. 10 - Não se

considera invenção nem modelo de utilidade: [...] IX - o todo ou parte de seres vivos naturais e materiais biológicos encontrados na natureza, ou ainda que dela isolados, inclusive o genoma ou germoplasma de qualquer ser vivo natural e os processos biológicos naturais.

A matéria controversa de reconhecimento de patentes de processo e produtos farmacêuticos já datava de 1987, quando diversos laboratórios refutaram as restrições da legislação patentária brasileira junto ao governo norte-americano. Como as negociações foram consideradas insatisfatórias por aquele governo, “em outubro de 1988, os Estados Unidos aplicaram uma tarifa de cem por cento sobre alguns produtos da pauta de exportação brasileira”.107

Assim, a legislação aprovada e atualmente em vigor - Lei Federal n° 9.279, de 14 de maio de 1996 – está subordinada ao artigo 5°, incisos XXVII e XXIX, da Constituição da República Federativa do Brasil, promulgada em 05 de outubro de 1988, que trata da forma de proteção conferida às criações intelectuais relacionadas ao objeto da criação, podendo esta se inserir no campo da propriedade industrial, científico, literário ou artístico.108

A propriedade intelectual do ponto de vista industrial tem como finalidade principal, a proteção das invenções (patente de invenção e certificado de adição), dos modelos de utilidade (patente de modelo de utilidade), dos desenhos industriais (registro de desenho industrial), das marcas (registro de marca), das indicações geográficas (repressão às falsas indicações geográficas) e a repressão da concorrência desleal.

Considera-se, além disso, que a propriedade industrial é aplicada não só à indústria propriamente dita, mas também às indústrias agrícolas e extrativas e a todos os produtos manufaturados e naturais.109

107 M. A. Scudeler, “A Propriedade Industrial,” 11.

108 No direito de autor são protegidos os direitos sobre as obras literárias e artísticas. De acordo

com a “Convenção de Berna para a proteção das obras literárias e artísticas, de 9 de setembro de 1886, completada em Paris a 4 de maio de 1896, revista em Berlim a 13 de novembro de 1908, completada em Berna a 20 de Março de 1914, revista em Roma a 2 de Junho de 1928, em Bruxelas a 26 de Junho de 1948, em Estocolmo a 14 de Julho de 1967 e em Paris a 24 de Julho de 1971”, artigo 2, “1) Os termos «obras literárias e artísticas» abrangem todas as produções do domínio literário, científico e artístico, qualquer que seja o modo ou a forma de expressão, tais como os livros, brochuras e outros escritos; as conferências, alocuções, sermões e outras obras da mesma natureza; as obras dramáticas ou dramático-musicais; as obras coreográficas e as pantomimas; as composições musicais, com ou sem palavras, as obras cinematográficas e as expressas por processo análogo ou da cinematografia; as obras de desenho, de pintura, de arquitetura, de escultura, de gravura e de litografia; as obras fotográficas e as expressas por um processo análogo ao da fotografia; as obras de arte aplicada; as ilustrações e os mapas geográficos; os projetos, esboços e obras plásticas relativos à geografia, à topografia, à arquitetura ou às ciências”.

109 O termo indústria deve ser compreendido, pois, como incluindo qualquer atividade física de

caráter técnico, isto é, uma atividade que pertença ao campo prático e útil, distinta do campo artístico. Conforme website do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio

Pela lei atual as patentes devem seguir os requisitos de novidade, atividade inventiva e aplicação industrial, e neste sentido, os processos de obtenção de novas variedades vegetais podem ser protegidos por meio de uma patente, desde que atenda a estes requisitos.

Mas, existem processos de melhoramento que não necessariamente atendem estes critérios, e, para estes casos, foi criada a Lei de Cultivares, que trata de mudas e sementes, assunto que será mais explorado em nosso Capítulo 3.

Exterior, “Critérios de Patenteabilidade,” disponível em http://www.inpi.gov.br/menu- esquerdo/patente/pasta_protecao/criterios_html, acessado em 22 de agosto de 2010.

Benzer Belgeler