A influência das ideias/modelo da doutrina social-democrata na realidade brasileira, correspondente ao período 1930-34, há de ser analisada com restrições nesta pesquisa, no mínimo, por dois motivos: primeiro, por seu significado histórico e segundo, por suas constantes transformações no campo ideológico.
Em relação ao significado histórico em sua construção, especialmente nos países europeus, não era possível destacar uma correspondência direta das experiências social- democratas com a realidade brasileira. Contudo, não seria plausível afirmar também que, ante esta inexistência, as propostas ideológicas do pensamento social-democrata não pudessem circular como influências para o Brasil, bem como, que não fosse possível adaptá-las ao seu contexto histórico.
O texto de Przeworski (1989), por exemplo, ajuda a entender o porquê os trabalhadores (na experiência européia) acabaram se aproximando da democracia e, ao destacar que a social-democracia (ao surgir da cisão do socialismo revolucionário com o reformista) ―tem sido a forma predominante de organização dos trabalhadores sob o capitalismo democrático‖ (PRZEWORSKI, 1989, p. 13), poderia ajudar a compreender a importância que a política, o direito e a presença do Estado (numa tentativa de criar um paradigma) desenvolveram no contexto brasileiro.
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Nos idos da década de 30, no Brasil, os trabalhadores iniciavam um processo de aparelhamento de interesses diferente dos países europeus que, a rigor, já possuíam uma forma mais sólida de organização. Os trabalhadores, aparentemente, estavam abrindo mão da proposta de Revolução e aderindo à soluções mais práticas e imediatas presentes na fórmula democrática. Ao mesmo tempo em que esta concepção iniciava sua institucionalização nos aparelhos do Estado – representados pelos sindicatos e com seus grupos de pressões dentro da Justiça do Trabalho (ligada diretamente ao Poder Executivo), o Brasil começara a aumentar as dinâmicas do capitalismo num processo de modernização atípico se comparado com a experiência na Primeira República, desde 1889.
Historicamente, Przeworski apontou que a escolha dos movimentos socialistas no redirecionamento da ação revolucionária propriamente dita para a ação política – isto é, a participação nas instituições da liberal-democracia, em especial, com disputas a cargos eletivos via formação de partidos políticos, não foi um processo simples; pelo contrário, resultou em um ponto de inflexão que, necessariamente, envolveria ―o tema recorrente do movimento socialista [...] de ―estender‖ o princípio democrático da esfera política para a social, a qual, na verdade, é principalmente econômica‖ (PRZEWORSKI, 1989, p. 19).
Com o auxílio das reconstruções da social-democracia como fenômeno histórico, realizado por Przeworski (1989, p. 19, 20, 25, 29, 35, 45, 46, 57 e 58) na obra Capitalismo e
social-democracia, foi possível constatar alguns aspectos importantes que denunciaram as
transformações nesta corrente ideológica. Dentre as principais tendências destacavam-se que: a) O socialismo de origem comunista tinha por objetivo instituir uma sociedade de produtores (oficinas e fábricas que cooperassem com os consumidores e administrassem suas próprias atividades) em completa independência com a relação ao mundo burguês;
b) No entanto, a sociedade burguesa, ao passar por transformações estruturais, desenvolveu novas instituições políticas – dentre elas, a burocracia e o exército permanente, oportunidade em que o parlamento seria composto mediante uma disputa eleitoral pela representação;
c) Dada essas transformações, caberia ao movimento socialista escolher entre uma ação ―direta‖ representada pelo confronto entre o mundo dos trabalhadores com o mundo do capital ou uma ação política, representada por uma luta via instituições políticas e, neste sentido, formar um partido político para disputar a representação da população num espaço privilegiado às elites burguesas;
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d) A escolha se encontrava num imbróglio sem precedentes, onde uma questão perturbaria: ―o partido deveria ou não fazer uso das instituições já existentes em sua busca do poder político?‖ Ou ainda, a democracia política deveria ser rejeitada ou empunhada na trajetória da ―emancipação política para a emancipação social‖?
e) A primeira resposta, negativa, ocorreria com o anarquismo, sob a alegação de que ―toda participação dos trabalhadores na política governamental burguesa só poderá produzir resultados no sentido de consolidar o atual estado de coisas, paralisando, assim, a ação socialista revolucionária do proletariado‖.
f) Com a escolha pela democracia como meio e objetivo, o veículo para o socialismo e a forma política da futura sociedade socialista, somente através da organização dos trabalhadores como participantes é que se poderiam proporcionar outras formas de luta, inclusive, com os capitalistas. Nesse sentido, duas questões surgiram: primeiro, porque, como resultado do sufrágio universal, a participação das massas podia produzir efeitos políticos sem estarem organizadas, posto que, quando não organizados como classe, os trabalhadores tendem a votar com base em outras fontes de identificação coletiva como católicos, mulheres, consumidores e etc.; e segundo, pela necessidade de dar ênfase aos interesses característicos do operariado, de sorte a impedir a integração dos operários como indivíduos na sociedade burguesa.
g) Assim, os socialistas objetivariam abolir a exploração, destruir a divisão da sociedade em classes, remover todas as desigualdades econômicas e políticas, eliminar o desperdício e a anarquia da produção capitalista, erradicar todas as fontes de injustiça e preconceito.
h) Por outro lado, esses objetivos não poderiam ser atingidos de imediato, por razões econômicas e políticas. Não dispostos a esperar pelo dia em que tais objetivos seriam finalmente concretizados, a social-democracia se enveredava num programa de reformas imediatas que, consideradas ―etapas‖ do socialismo, se acumulariam em direção a uma completa reestruturação da sociedade.
i) Assim, os social-democratas, tendo que defrontar-se continuamente com a escolha entre a pureza de classe e a amplitude do apoio eleitoral, pois quando procuram aumentar seu apoio fora da classe operária, reduziriam sua capacidade de mobilizar o operariado, acabaram por estabelecer um compromisso.
j) Esse compromisso ocorreria na estrutura dos sistemas capitalistas, que para os social- democratas seria da seguinte maneira: (1) o Estado responsabiliza-se pelas atividades que não
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são lucrativas para as empresas privadas, mas que se fazem necessárias para a economia como um todo; (2) o governo regula, especialmente por meio de políticas anticíclicas, o funcionamento do setor privado; (3) o Estado, aplicando medidas pautadas pela teoria do bem-estar, atenua os efeitos distributivos do funcionamento do mercado.
k) A política social da social-democracia consistiria, em grande parte, para abrandar os efeitos distributivos de alocações de recursos baseadas em critérios de eficiência. Tal política não visava à transformação do sistema econômico, mas unicamente à correção dos efeitos de seu funcionamento.
Tendo se comprometido a manter a propriedade privada dos meios de produção, assegurar a eficiência [que não se confunde com equidade] e mitigar os efeitos distributivos, a social-democracia deixou de ser um movimento reformista. Portanto, a eficácia dos social- democratas – ou de qualquer outro partido – em regular a economia e mitigar os efeitos sociais depende da lucratividade do setor privado e da disposição dos capitalistas em cooperar. A própria capacidade dos social-democratas de regular a economia depende dos lucros do capital.
Esses resultados apresentados por Przeworski, em sua análise sobre a social- democracia européia como fenômeno histórico, foram expostos neste trabalho com o objetivo de, ao mesmo tempo em que se demonstra o distanciamento relativo desta corrente em relação à realidade nacional brasileira, seus efeitos podiam se incorporar nas ações específicas da futura ANC a realizar-se em 1933, como de fato, se incorporaram nos debates constituintes. Isto é, a discussão sobre a maneira como determinadas problemáticas foram encaminhadas por outros países através da social-democracia destinava-se a criar uma espécie de efeito de contraste entre a realidade européia e a brasileira, e, desta maneira, acentuar melhor as peculiaridades da realidade nacional, que podiam ser apontadas mesmo quando o país se viu sob influência de ideias e práticas externas.
Preliminarmente, nas décadas que antecederam o período 1930 a 1934 no Brasil, não havia uma organização partidária a nível nacional. Os partidos, além de serem regionalizados, não se organizavam por classes – termo este que merece todo o cuidado já observado desde o primeiro capítulo.
Em segundo lugar, não se podia vislumbrar no Brasil uma organização dos trabalhadores que fosse hábil ao estabelecimento de uma negociação planejada no âmbito da sociedade, tal como ocorrera na Europa, por exemplo. Contudo, embora não havia um
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movimento socialista organizado, desde a década de 1910, havia uma influência do movimento anarquista no Brasil, em especial, pela quantidade de dirigentes-sindicalistas estrangeiros presentes nos grandes centros urbanos e as greves em vários setores desde 1917.
Assim, não seria plausível a afirmação de que, no Brasil, havia uma corrente da social-democracia no Governo Provisório e muito menos que os operários se organizariam com o objetivo de implantar reformas institucionais capazes de promover harmonia social. Por outro lado, o grande problema seria relegado à esfera de institucionalização, de incorporação dentro da estrutura do Estado das novas tendências sociais. Isto significou que vários países procuraram dar respostas diferentes às turbulências requeridas pela questão social e, nesse aspecto, o Brasil também fora pressionado neste sentido; não obstante essas diferenças, desde o período posterior à Primeira Guerra Mundial, o país sentia os reflexos da intensa agitação dos operários nos grandes centros urbanos, tal como os dos países europeus. Havia influências diretas da reorganização mundial sobre as condições dos trabalhadores e a reorientação sobre os problemas sociais decorriam de argumentos políticos, econômicos e humanitários.
Nesse sentido,
[...] o ano de 1919 assinalaria a presença de outro tipo de fato que começa a interferir no andamento da questão social. Com o fim da guerra, uma das questões que passa a ser considerada é exatamente a das condições de vida do operariado. Nesse sentido, a Conferência de Paz e o próprio Tratado de Versalhes, do qual o Brasil é signatário, recomendam a instituição de um novo direito representativo da nova sociedade do pós-guerra (GOMES, 1979, p. 85).
De fato, um dos principais expoentes resultante do Tratado de Versalhes, por exemplo, foi a instituição da Organização Internacional do Trabalho – OIT, entidade que representaria o processo de reflexão das grandes sociedades internacionais sobre a necessidade de se pensar o custo humano decorrente da Revolução Industrial. Nesse mesmo aspecto, destacava-se a realinhamento de setores da Igreja Católica sobre importância de proteger os operários (ex. a encíclica Rerum Novarum sobre as condições dos operários).
No contexto internacional, essa experiência fora relativamente bem sucedida na Alemanha, com a República de Weimar (1919)49, tendo a democracia como uma das alternativas para os problemas sociais, econômicos e políticos do pós-primeira Guerra.
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Não se pode olvidar que a Constituição social Mexicana, de 1917, também lançou tendências socializantes nas Américas e até mesmo a Constituição Soviética de 1917 também lançava originalidade no campo social (porém,
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O debate sobre a Constituição da República de Weimar, considerada como uma Constituição que buscou legitimar a República por meio da democracia e do Estado Social apresentou grandes transformações no constitucionalismo. No entanto, era preciso compreender que a Constituição de Weimar foi mais resultado de uma configuração historicamente construída de que uma matriz teórica do Direito Público. Isto foi assim porque o resultado final desta Constituição surgia como um manifesto progressivo, ou seja, que estava para além de seu tempo. As escolhas concertadas pelos representantes eleitos e neste caso, uma atenção especial para o partido social-democrata alemão, no período em que a Assembleia Constituinte se ―refugiou‖ à cidade de Weimar50 em busca de tranquilidade, possibilitaram que as experiências consagradas pela Constituição se tornassem um modelo a embasar outros países.
Quando as abordagens sobre as escolhas da Constituição de Weimar se firmam, estudiosos, como Cícero Araújo (apud. BERCOVICI, 2004, p. 9), apontou que havia ―duas visões alternativas a respeito [da] Constituição [de Weimar], as quais redundavam, por um lado, num programa reformista para a sociedade alemã e, por outro, numa proposta conservadora, na dimensão social, e rupturista na dimensão institucional‖.
Estas alternativas, por outro lado, não permitiam a classificação peremptória de que o resultado final de Weimar seja a produção de uma Constituição liberal ou socialista, embora nos debates sobre a Constituição ocorresse uma nítida divisão, chegando-se ao ponto a afirmar que na Constituição de Weimar, havia duas (BERCOVICI, 2004). A divisão seria de que, na primeira parte, havia uma referente à organização do Estado e na segunda, uma Constituição que contemplava ―um resquício da burguesia liberal do século XIX, que deveria desaparecer na sociedade alemã vindoura‖, comenta Bercovici (2004, p. 30).
Ao contrário destas afirmações, vislumbravam-se mais uma questão de compromisso ideológico entre o liberalismo e o socialismo do que simples divisões, onde as categorias analíticas, que tiveram por objetivo manter o pacto constitucional no pós-1919, foram se reformulando, ou seja, procurando dar respostas aos dilemas que se impuseram tanto no eixo econômico, quanto político e até mesmo social.
o regime desta carta é socialista, distinguindo-se dos demais). A peculiaridade destes processos são que suas construções decorrem, a princípio, das forças que, historicamente, configuravam cada realidade nacional. 50
O fato da Assembleia Constituinte, para a realização da Constituição da Alemanha de 1919, ter se instalado na cidade de Weimar, onde ficaria isolada do resto da Alemanha, principalmente, dos tumultos de Berlin, se assemelha a um dos requisitos teóricos apresentados por J. Elster (1988) sobre os processos constituintes.
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O reformismo foi oriundo dos juristas, com vinculação à social-democracia (no período, com forte presença na Europa). Para Araújo (apud. BERCOVICI, 2004, p. 10), duas ideias básicas representavam aquele período: A passagem gradual para o socialismo, isto é,
para uma economia controlada pelas instituições públicas e orientada para a distribuição social do excedente econômico; A afirmação do Estado (em contraste com o socialismo de inspiração marxista) não só como instrumento dessa passagem, mas como garantidor permanente da ordem jurídico-política que dela emergisse.
Se a experiência da Constituição de Weimar representou a atuação direta dos partidos social-democratas o mesmo não ocorreria no Brasil em relação aos partidos. O programa reformista que foi instaurado no Brasil não ocorreria entre os trabalhadores e empregadores diretamente, nem via partidos políticos, muito menos via sindicalização.
O programa reformista, primeiramente, foi introduzido pelo Governo Provisório como uma resposta ao processo de modernização tanto política quanto econômica da nação. Nesses termos, uma modernização econômica, dado as modificações na estrutura de regime de acumulação de capital, tornava-se necessário uma transformação também na questão econômica.