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2. GEREÇLER ve YÖNTEM

2.3. NGAL Tayini

essas comunidades se revelem espontaneamente. É preciso um programa de governo para que tais parceiros se constituam. Do contrário, com o paternalismo que hoje nos norteia, acabaremos por oferecer às populações rurais, uma prenda envenenada.

Na prática, é necessário atribuir à vida social da comunidade rural a emancipação através dos programas sociais, desde que os mesmos sejam discutidos com a própria comunidade. Para isso, “deve-se criar as condições necessárias para que os seus usuários satisfaçam as necessidades humanas básicas, sendo capazes de decidir sobre o modo de viver e de conviver socialmente, com autonomia” (PEDRINI, 2007, p. 199).

Esse processo de degenerescência da capacidade de resposta comunitária face ao desenvolvimento local atinge o seu ponto mais alto com a síndrome do paternalismo, complementando o processo de ruptura das comunidades com o seus territórios. O resultado da desestruturação dos saberes populares que não resistem à descontextualização e à ausência da sua prática, cria, então, um espaço para que o grupo mais poderoso seja capaz de construir uma ordem social local, perdendo, as comunidades rurais, a capacidade de se instituírem como interlocutores nas ações de desenvolvimento endógeno.

Enfim, é necessário reconhecer a reciprocidade e a coesão que o sítio impõe como eixo articulador e dinamizador dos motores simbólicos para a ação transformadora radical. Ora, as ambiguidades dos processos de participação constatados na comunidade sugerem debates sobre inovações na construção do consenso. Uma delas é que a complementaridade entre atores sociais administrativos e a comunidade deve ser de cunho fortemente deliberativo e etnográfico e, não meramente, consultivo.

4.10 As Formas de Participação Etnográficas

A pesquisa mostrou que há instituições locais para regular os acontecimentos da comunidade que são manifestados pela consciência costumeira, definindo a maneira de ser do homo situs. Porém, o desconhecimento do território do homo situs e da sua economia de reciprocidade interna, isto é, no âmbito da comunidade, poderá fazer com que as políticas dos agentes externos gerem mais problemas do que soluções para o desenvolvimento local.

Na prática, a organização da comunidade atua em situações isoladas com o objetivo de melhorar certas condições comuns de um determinado grupo. Sua atuação objetiva é realizar

esses melhoramentos pela mobilização e motivação de um segmento da comunidade, segundo seus interesses separados da estrutura, como no caso de xitique.

Os membros dos vários segmentos da comunidade possuem relações econômicas íntimas definidas pelas formas de reciprocidade como mutirão, xitique, no âmbito de comitê de gestão de recursos naturais porque as limitações ecológicas e as condições de existência humana influenciam suas relações sociais. Conforme os depoimentos dos entrevistados, apreendeu-se que a reciprocidade nos sistemas de participação não envolve, apenas, o interesse pelo outro, mas também, o interesse na auto-afirmação, em fazer parte de algo e, em demonstrar a generosidade. Do mesmo modo, a reciprocidade envolve uma dimensão de apresentação de si e de auto-exibição. De qualquer modo, o interesse se encontra duplamente presente e imbricado nesta ostentação: interesse em se exibir e interesse em estabelecer e consolidar vínculo afetivo (ANJOS; LEITÃO, 2009).

Essas formas de reciprocidade correspondem a uma modalidade de relações em que os indivíduos da sociedade tradicional estão vinculados entre si e pela obrigação moral de dar, receber e retribuir.

Não somente existem contatos diários de habitação, frequentemente de natureza cooperativa, como também os membros estão unidos por íntimos laços agnáticos, cognáticos e de afinidade, que podem ser expressados na ação recíproca (EVANS-PRITCHARD, 1999, p. 150).

Tais atividades resultam da ação relacionada ao agroflorestamento da zona tampão. Ressalta-se, ainda, a escassez de alimentos, na comunidade, levando-a à prática de queimadas descontroladas e à caça, visando a busca de alimentos, uma vez que a apropriação dos recursos naturais está proibida pelo próprio projeto relativo aos créditos de carbono.

Por outro lado, os entrevistados declararam pertencer à Associação xitique, sistema de poupança e de crédito rotativo, correspondente à conjugação de esforços da maior parte das mulheres da comunidade, com visão sociológica, permitindo que as moradoras aprendam a interagir com as outras, cooperando e ganhando um senso de identidade no processo de socialização. As atividades e os recursos a elas relacionados são gerenciados, como um processo, sendo os resultados alcançados com mais eficiência.

No entanto, a divisão do trabalho sobre a base do gênero e as responsabilidades relativas ao bem-estar familiar mostram que a mulher da zona rural africana, em geral, suporta

uma carga desproporcional de trabalho, quando se trata de administrar o consumo e a produção alimentar em condições de crescente escassez.

É nessa ordem de ideias que o acesso da mulher à terra (no tempo da sementeira, no tempo da colheita e no cotidiano) não tem correspondência em relação aos produtos para comercialização. A sua capacidade reprodutora e o acesso à terra correspondem a um dever contraído com o casamento (WLSA, 2006).

Por outro lado, a pesquisa mostrou que a maior adesão das mulheres casadas era devido à crença de que o xitique funciona como vínculo “agregador de valor” no casamento, uma vez que, a mulher, através da associação consegue trazer benefícios ao lar, sendo assim, considerada uma “guerreira”, além do prestígio de esposa, através da ação altruísta na comunidade.

Na comunidade, as mulheres enfrentam, diariamente, o problema da sobrevivência, daí resultando a necessidade de articularem-se para alimentar o agregado familiar, em média de seis pessoas. Além disso, precisam pensar no risco dos seus filhos abandonarem os estudos, com a finalidade de trabalhar na vila de Gorongosa ou em Beira (Capital). Nessa vertente, assim se expressa Osório (2006, p. 5):

Nos homens há uma consciência do trabalho excessivo das mulheres, mas este fato não se traduz na necessidade de partilha ou consciência da injustiça, porque os homens foram socializados para aceitarem e reproduzirem a situação de desigualdade como natural à diferenciação sexual.

Todavia, convém salientar a opinião em torno do xitique, manifestada por um dos membros da comunidade, Mandoa, de 50 anos:

Para mim, o xitique faz parte da cultura da mulher africana. O dinheiro da contribuição é pretexto. Quando nos reunimos, três a quatro vezes ao mês, rotativa e invariavelmente na casa de cada um dos membros na ação coletiva do xitique, o dinheiro é o de menos. Animamos o convívio social, o estreitamento das relações sociais, a ajuda mútua, a solidariedade, a troca de experiências e muito mais, muito mais. O pouco dinheiro que levamos constitui um símbolo de cortesia, muito típico da nossa sociedade africana e, com ele, ninguém aspira acumular créditos.

No entanto, nas práticas associativas das moradoras da comunidade há um engajamento através dos contatos pessoais extensivos, relações de confiança, interações

pessoais, nas quais o espectro do mercado corruptor não tem expressão e, em contrapartida, há um problema ainda não equacionado, que impede ou bloqueia as capacidades empreendedoras dessas mulheres. Talvez, seriam através dos caminhos apontados pelas considerações precedentes que as políticas públicas mais extensivas poderiam ser propícias ao desenvolvimento endógeno.

Segundo, Ruenita Bitony, 19 anos, ainda no âmbito da perspectiva comunitária:

Sabemos que nos cabe muito a ser feito e, pelo fato de sermos mulheres temos o conhecimento da necessidade do nosso papel diante das associações comunitárias. Porém, nos é dada pouca oportunidade, haja vista que, tradicionalmente, é comum a voz do homem ser mais expressiva do que a nossa. Entretanto, isso está mudando. Estamos aos poucos conquistando o nosso espaço e quando menos esperarmos, seremos detentoras, também, do mesmo poder de liderança dos homens.

O relato da moradora confirma o que foi observado. Assim, nas reuniões, as mulheres sentam-se em esteiras ou em banquinhos, falando pouco e em voz baixa, na presença dos homens. Ainda, na presença deles, as mulheres declaram que não falam português para não se envolverem nas conversas em curso. Todavia, na ausência dos homens, as mulheres expressam-se muito bem, notando-se que várias delas atuam como tradutoras, no transcorrer das reuniões. Portanto, a subordinação feminina construída, em primeiro lugar, na família, aparece, também, no espaço público, seja pela sua exclusão diante dos direitos humanos ou mediante determinados papéis e funções.

Tais contextos que acarretam dificuldades à socialização das mulheres nas funções domésticas, inerentes ao modelo patriarcal que define e controla a desigualdade, impedem o acesso da mulher à participação política nas decisões locais.

Convém ressaltar, outros aspectos identificados na comunidade: existem atividades que se realizam de forma isolada, como o ganho-ganho, o que significa que o indivíduo trabalha nas machambas de outras pessoas, em troca de uma remuneração em dinheiro ou em espécie. A segunda atividade alternativa é o comércio informal, com a venda ou troca de produtos agrícolas como esteiras, cestos e potes de barro e, por último, o recolhimento de lenha ou a produção de carvão para vender na vila, sede do distrito. As receitas resultantes destas fontes alternativas de renda são baixas.

Pode-se pensar que os “agentes moderados externos” deveriam capitalizar a forma de associativismo, em prol da emancipação da cidadania dos integrantes da comunidade, possibilitando, sobretudo, às moradoras, uma gestão sustentável das suas atividades. Para isso, as suas “competências culturais” estariam vinculadas à participação nos projetos, baseando-se no método de Paulo Freire, mediante o qual pudessem aprender a partir das suas próprias realidades territoriais.

Benzer Belgeler