No que concerne ao conselho distrital, ouvida a comunidade, um dos seus membros ressaltou que:
Quando estamos nas reuniões do conselho consultivo, o que fazemos, muitas vezes, é aprovar os projetos do FDD. O presidente da mesa, o administrador, lê projeto por projeto, perguntando-nos se conhecemos os autores dos projetos e respondemos se os autores são sérios ou não. É assim, que nós trabalhamos nas reuniões do conselho consultivo e, além da aprovação de projetos, os conselhos consultivos não têm outras tarefas (FUNGULANY, 56 anos).
Com base nos elementos acima apresentados, pode-se considerar que, em muitos casos, os conselhos e fóruns locais e outras atividades que requerem o envolvimento da população têm um papel marginal na participação plena do homo situs nos processos de tomada de decisões. Inicialmente, um primeiro ponto a ser observado são as questões referentes à composição dos conselhos, passando pela forma como os representantes são escolhidos e, também, pela questão da paridade estabelecida em cada povoado.
Houve unanimidade entre os entrevistados, no decurso da pesquisa realizada, sobre a configuração dos conselhos e fóruns locais, bem como da metodologia participativa instituída pelos órgãos locais do Estado (OLE), que não deram atenção para as reivindicações referentes
às necessidades da população e, inclusive da organização comunitária genuína, as quais seriam formas mais adequadas para a execução das melhorias e aspirações da comunidade. Na maior parte dos casos, os assuntos mais discutidos pelos conselhos locais são aqueles que se referem ao Fundo de Desenvolvimento Distrital (FDD).
A ação coletiva nessas organizações instituídas, não permite um vínculo duradouro necessário à continuidade das relações de reciprocidade baseadas em bens relacionais e recursos morais54, numa dimensão territorial ligada a uma experiência vivida pelo homo situs (Tabela10).
A oportunidade de participar em momentos de definição não se traduz na escolha do homo situs, não permitindo, portanto, a verificação da estrutura das relações sociais que conformam os padrões associativos calcados ao longo do tempo.
Tabela 10 - Grau de Participação nos Conselhos Consultivos e Fóruns Locais Grau de participação do
homo situs
Sexo
Total
F M
Participa “calado na reunião” 40 36,36% 26 23,64% 66 60,00% Participa de reunião e executa 20 19,09% 15 13,64% 36 32,73% Participa e “propõe soluções” 3 2,73% 3 2,73% 6 5,45%
Participa e debate na reunião 1 0,00% 2 1,82% 2 1,82%
Total 64 58,18% 46 41,82% 110 100,00%
Fonte: Pesquisa do Campo, 2010.
Pode-se aferir, então, que os entrevistados (60%), afirmaram que participavam calados nos encontros realizados pelos agentes moderadores externos. Assim, nota-se, de um lado, a ausência de garantias de escolhas como parte de um processo de participação efetiva e, de outro, há, na comunidade, um sentimento difuso de falta de segurança e de desconfiança, no sentido de não serem levadas a sério, as suas aspirações. O tipo de informação repassada aos moradores ajuda a reforçar decisões tomadas em outras esferas e, não necessariamente, contribui para a abordagem participativa.
54 Recursos Morais: são regras de reciprocidade e confiança mútua. O sistema de participação local é baseado na capacidade e na habilidade das instituições atuantes locais.
As intervenções são previamente definidas, seguindo as exigências das hierarquias superiores e/ou dos organismos internacionais de financiamento, restando para as populações as discussões de cunho operacional, com o objetivo de viabilizar as intervenções. Ademais, “os atores sem recursos são na maioria das vezes, coagidos por instituições, mas, em certas circunstâncias, podem utilizar as regras existentes de forma não planejada para criar novas instituições” (FLIGSTEIN, 2007, p. 62).
A participação do homo situs não é compreendida como fenômeno de transformação psicossocial, não possibilitando a absorção dos recursos da estrutura cognitiva e simbólica, gerados por esses parâmetros, supracitados, nas políticas públicas. Isso posto, faz-se mister salientar, como desfavorável, a negligência relativa ao foco nos laços culturais e de competência que estimulariam as crenças para a prática comunitária, resultando na apreensão da organização social secular e num processo relativamente autônomo e, não subordinado, à configuração político-institucional.
Ainda, de acordo com a tabela acima, os entrevistados (32,73%) afirmaram que somente participavam das reuniões, executando as decisões já tomadas, não havendo espaço para suas contribuições. Pelos dados aferidos, constata-se que há uma participação mais significativa das mulheres na execução das atividades definidas, previamente, nas instâncias superiores.
Isso mostra que, a mulher, nas zonas rurais moçambicanas, desempenha o papel de guardiã da moral, representando o símbolo da veneração enquanto mãe, esposa e filha da comunidade. O processo educativo dela é focalizado na solidariedade recíproca no território. Apesar dessa capacidade da estrutura social existente na participação da mulher nas, ações coletivas há dois dilemas a serem observados: de um lado, as mulheres estão habilitadas para a participação em fóruns locais e, de outro, a sua participação nas decisões é indireta perante os homens, pois as mulheres raramente têm contato direto com os agentes externos.
Nessa vertente, Fasimilya, de 44 anos, assim se manifestou:
A nossa participação é mínima e ineficiente. Percebemos que não somos levadas a sério, como queríamos, pois as decisões muitas vezes já foram tomadas sem a nossa opinião. Dessa maneira, fica difícil um diálogo proveitoso em prol da nossa comunidade.
Percebe-se, então, que há marginalização e subordinação de competências comunicativa e cultural.
As distorções relativas às participações nas reuniões, bem como as referentes às decisões tomadas foram destacadas porque foram institucionalizadas, através de normas inflexíveis, em relação ao território do homo situs.
Sob a ótica da sociedade tradicional, o ato de participação efetiva verifica-se com a personificação dos ancestrais impregnada nas normas e regras que, por sua vez, geram relações sociais no território. É bem nítida essa afirmação quando, mais uma vez, leva-se em conta, a fala de um entrevistado, Saizy, de 43 anos, sobre a atuação deles nas decisões de fóruns locais/associações:
Para mim deve ser levado em conta, primeiramente, as nossas necessidades. A participação deveria ser coletiva e não um acontecimento que vem pronto como uma regra imposta ao qual devemos seguir. Aqui é difícil relacionar os nossos interesses ao do governo.
A partir dos resultados da pesquisa, conclui-se que o local dá uma resposta, que reduz o Estado às suas funções mais clássicas.
Assim,
O local oferece uma resposta que privilegia a diversidade, as diferenças, a multiplicidade das escalas e a força das pequenas unidades. O espaço de pertença resulta do conjunto dos recortes que especificam a posição de um ator social e a inserção de seu grupo de pertença num lugar (BOURDIN, 2001, p.29).
O espaço, então, é a referência que define o sistema de valores sociais e espaciais em que se inserem esses recortes, organizando a relação dos sujeitos. Ainda, averigua-se que a participação do homo situs, no seu território, não o habilita a postular proposições inovadoras, sendo apenas seguidor de procedimentos já estabelecidos por decretos.
De tal contexto, resulta a insatisfação manifestada por madoda Nhangúo, 52 anos:
A nossa situação de pobreza não nos permite emitir opiniões sobre qualquer situação ou acontecimentos que nos dizem respeito, pois isso nos torna alvo de perseguições como protagonistas quando o assunto é política, meu filho! Os procedentes da alta hierarquia não gostam de ser criticados e, quando tal acontece, fazem uso de conhecimentos técnicos e de poder para não aceitarem as nossas propostas.
No decurso dos debates atestou-se que os agentes mediadores externos tomaram atitudes diferenciadas na discussão dos assuntos que necessitam de participação, pois a diferença de condição política, isto é, de serem técnicos burocráticos, os favorecem a conduzir os debates, sobretudo quando se trata de questões burocrático-administrativas.
O discurso do desenvolvimento local não é acompanhado, ainda, da necessária mudança institucional, uma vez que não se dá ênfase à habilidade social dos atores e da aprendizagem social a partir da práxis, entendida como processo em que a interação em um ambiente formado por diferentes atores deverá ter como objetivo, o estímulo ao surgimento de novas competências.
Sapanda Chiringa, 53 anos, assim se expressa:
Para mim, como sapanda, na comunidade, vejo com outros olhos a forma do envolvimento da comunidade. A atuação dos fóruns e conselhos locais, sinceramente, é ruim porque nos convidam para reuniões de discussões de assuntos da comunidade, mas o pior problema nesse processo é que quem decide mesmo, são eles, referindo-se aos representantes das Agências e aos Órgãos Locais do Estado. Nesse sentido, mesmo havendo consenso, aqui, no Posto Administrativo, nada é feito, mesmo depois do registro das necessidades da comunidade. Apenas a nossa garantia está no fundo comunitário de manejo dos 20%, que nos ajuda a superar algumas carências da comunidade, além do agravante de sermos alocados de forma alternada com outras povoações do regulado de Chicare.
A constatação, na prática, dessas contradições coloca em risco a credibilidade referente aos Órgãos Locais do Estado (OLE), quanto à sua capacidade de promover o desenvolvimento endógeno, se bem que faltam, ainda, mecanismos de integração do homo situs ao espaço participativo de forma efetiva.
À medida que o Estado moçambicano, através da instituição de mecanismos de participação popular (conselhos e fóruns locais) pretender inserir outros atores na tomada de decisões sobre as políticas públicas deverá estar disposto, também, a estabelecer relações menos desiguais. Na verdade, a busca por um consenso em torno de soluções nos fóruns e conselhos consultivos acaba gerando constrangimento para as pessoas que não concordam com as soluções verticalizadas, as quais passam a ser vistas como impedimentos para a ação continuada.
Os “Conselhos Consultivos” passam a ser vistos com desconfiança em relação à ação comunitária ao influenciarem as escolhas e as definições das pessoas idôneas para atuarem na comunidade. Ainda, a prática mostrou que os conselhos consultivos locais são presididos por
funcionários do poder público, mostrando, claramente, que aos pobres falta-lhes a capacidade de tomada decisões sobre suas próprias condições, bem como influenciar as decisões e políticas consubstanciadas em projetos.
No caso de conflitos, dentro da comunidade, o costume tradicional para equacionar as dificuldades em caso de constrangimento e cabritismo55, deve contar com a participação de todos, num espaço aberto ao ar livre, onde todos os madodas participem e possam ver o que está acontecendo, além do que será decidido.
A tradição tem regras que todos entendem porque são da cultura local e por isso todos podem participar e ajudar na resolução do conflito. Uma das razões é a transparência dos “atos jurídicos”, que a população vê na tradição, existindo mecanismos sociais dentro da comunidade que são usados para a reposição da ordem social, caso esta ordem tenha sido violada.
Porém, não se deve considerar a comunidade como uma unidade harmônica. Pontua- se, aqui, um dilema ético numa das povoações do regulado de Nhambita, conforme o depoimento de Couto56 (2005, 141), “junto de uma dessas comunidades participei de um debate em que os membros da comunidade denunciavam uma série de abusos dos seus chefes, isto é, de apropriação indevida de fundos para aquisição de bens de luxo”.
Existe a ideia de que as comunidades apenas desenvolvem relações harmônicas, mas os estudos recentes mostram que elas não são homogêneas, nem igualitárias. Estão marcadas por conflitos sociais de poder e de gênero, sendo, sobretudo, compostas por segmentos com interesses diversos e, por vezes, conflitantes.
A maior parte das vezes, em lugar das comunidades, o que vemos é um exército de ONGs que se apresentam como Sociedade Civil, falando em nome de camponeses, os quais continuam ausentes e invisíveis (COUTO, 2005, P. 140).
De acordo com os depoimentos dos entrevistados, a leitura da “comunidade participativa” é inventada como uma entidade que não existe de fato. Couto (2005, p. 143)
sugere uma possibilidade, defendendo a ressignificação do ideário:
Se quisermos que as atuais comunidades sejam parceiras efetivas das políticas públicas para o desenvolvimento com mais equidade e eficiência,
55 Cabritismo: prática de corrupção que ficou conhecida nos serviços públicos, em Moçambique. 56 Couto: Mia Couto, escritor e ecologista Moçambicano.
teremos que educar essas mesmas comunidades. Não podemos esperar que essas comunidades se revelem espontaneamente. É preciso um programa de governo para que tais parceiros se constituam. Do contrário, com o paternalismo que hoje nos norteia, acabaremos por oferecer às populações rurais, uma prenda envenenada.
Na prática, é necessário atribuir à vida social da comunidade rural a emancipação através dos programas sociais, desde que os mesmos sejam discutidos com a própria comunidade. Para isso, “deve-se criar as condições necessárias para que os seus usuários satisfaçam as necessidades humanas básicas, sendo capazes de decidir sobre o modo de viver e de conviver socialmente, com autonomia” (PEDRINI, 2007, p. 199).
Esse processo de degenerescência da capacidade de resposta comunitária face ao desenvolvimento local atinge o seu ponto mais alto com a síndrome do paternalismo, complementando o processo de ruptura das comunidades com o seus territórios. O resultado da desestruturação dos saberes populares que não resistem à descontextualização e à ausência da sua prática, cria, então, um espaço para que o grupo mais poderoso seja capaz de construir uma ordem social local, perdendo, as comunidades rurais, a capacidade de se instituírem como interlocutores nas ações de desenvolvimento endógeno.
Enfim, é necessário reconhecer a reciprocidade e a coesão que o sítio impõe como eixo articulador e dinamizador dos motores simbólicos para a ação transformadora radical. Ora, as ambiguidades dos processos de participação constatados na comunidade sugerem debates sobre inovações na construção do consenso. Uma delas é que a complementaridade entre atores sociais administrativos e a comunidade deve ser de cunho fortemente deliberativo e etnográfico e, não meramente, consultivo.
4.10 As Formas de Participação Etnográficas
A pesquisa mostrou que há instituições locais para regular os acontecimentos da comunidade que são manifestados pela consciência costumeira, definindo a maneira de ser do homo situs. Porém, o desconhecimento do território do homo situs e da sua economia de reciprocidade interna, isto é, no âmbito da comunidade, poderá fazer com que as políticas dos agentes externos gerem mais problemas do que soluções para o desenvolvimento local.
Na prática, a organização da comunidade atua em situações isoladas com o objetivo de melhorar certas condições comuns de um determinado grupo. Sua atuação objetiva é realizar